Herland aparece como um exemplo da escrita utopista feminina. Inicialmente é mostrada apenas a vida de um só sexo. As mulheres não conhecem a guerra, o homicídio, o mal, o conflito, a competição, o domínio, a doença, a pobreza, a infelicidade e o medo; referindo-se a si próprias como as habitantes de um belo país. (Bogart, 1992: p.86) Como se pode verificar na descrição de Alima:
This was Alima a tall long-limbed lass, well knit and evidently both strong and agile. Here eyes were splendid, wide, fearless as free from suspicion… (Herland, p.18)
E na descrição de Herland:
Everything was beauty, order, perfect cleanness, and the pleasantest sense of home over it all. (Herland, p.21)
They had no weapons, and we had, but we had no wish to shoot. (Herland p.22)
Na descrição das mulheres:
The solidity of these women was something amazing. (Herland, p.25) They were sisters, and as they grew, they grew together – not by competition, but by united action. (Herland, p.64)
Gilman elimina algumas palavras da vida de Herland, uma vez que não são precisas, palavras como wife ou marriage: “What’s a wife exactly? She demanded, a dangerous gleam in her eye.” (Herland, p.126) É de facto evidente que a história de Herland se inicia no território dos homens e com a sua própria linguagem; nesta altura os intervenientes homens estão na posse da história e também já se imaginam na posse daquela terra que virá a ser descoberta. O contacto com as mulheres de Herland inicia- se pois com uma série de deslocações e oposições na linguagem destes dois mundos. Os homens deparam-se com um mundo oposto ao seu, e as mulheres descobrem um mundo novo pelos relatos dos homens. Muitas expectativas se desconstroem por parte dos homens, que vão aprendendo, gradualmente, não só a linguagem das mulheres, bem
como o seu modo de vida. Note-se que a certa altura os homens denominam-se de boys e chamam às mulheres girls, começando assim a esboçar-se uma certa dicotomia. Aliás, a passagem para a denominação de boys demonstra já uma falta de controlo dos homens quer socialmente quer linguisticamente. O conhecimento evolutivo e a sua educação que se iniciará em Herland, com a aprendizagem da Língua e da História das herlandianas, faz com que os homens se apercebam da inversão dos papeis (homem, mulher) naquela sociedade, e do facto do termo boys não ser conhecido por aquelas mulheres: “It isn’t just that we don’t see any men – but we don’t see any signs of them…They don’t seem to notice our being men.” (Herland, p.31) A verdade é que a noção de manhood estava intimamente ligada com a noção que a herlandianas tinham de si próprias. Os três homens experienciaram um aprisionamento linguístico no qual o ser masculino não existia, ou seja, o significado de homem não condizia com a experiência. (Bogart, 1992: p.87)
Segundo Kim Bogart, Gilman sujeita os rapazes a uma intensificação da sua estratégia de exploração da noção de equilíbrio pela lógica e pelo dualismo simples, mas também os confunde, porque para cada termo existe um par com igual valor. Verifique- se a resposta quase humorística ao inquérito de Zava sobre o termo “virgin”, que é desconhecido em Herland, e ao que Jeff responde:
Among mating animals, the term virgin is applied to the female who has not mated. He answered.
Oh I see. And does it apply to the male also? Or is there a different term for him?... Is not each then – virgin before mating? And tell me, have you any forms of life in which there is a birth from a father only?
(Herland, p. 49)
A repetição intensiva desta estratégia finalmente faz com que Van entenda a situação: When we say men, man, manly, manhood… we have in the background of our minds a huge vague crowded Picture of the world and all its activities… of men everywhere, doing everything – the world. And when we say women… the word woman called up all that big background… and the word man meant to them only male – the sex. (Herland, p.144)
Este projecto utópico de Gilman visa uma necessidade integradora e o repensar de certas polaridades em termos linguísticos. Ao reconstruir as bases de significado,
oferece-se também novas perspectivas sobre algumas noções de História. Ao reflector sobre a história de Herland, Van comenta:” There were no adventures because there was nothing to fight” (Herland, p.52), ao que Terry também acrescenta: “Life is a struggle, has to be… if there is no struggle, there is no life…” (Herland, p.106)
A verdade é que a noção de sentido não reside nem num termo nem no seu oposto, mas sim na relação dos dois, isto é, trata-se de uma relação integradora. No mundo não existem só termos relacionados com homens nem termos relacionados só com mulheres, existem, sim, na relação que um termo tem com o outro. Assim, não se trata de quem é o melhor (homem ou mulher) mas sim de quem compreende melhor a sua relação. Como Gilman afirma “Women are not undeveloped men, but the feminine half of humanity in undeveloped humans.”
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Em The Cleft verifica-se que a História começa com um povo vindo dos oceanos, que não se percebe se é um povo feminino ou masculino. É um povo que vive em grutas, de uma forma simples e pura.
We are sea people. The sea made us. Our caves are warm, with sandy floors, and dry, and the fires outside each cave burn sea-brush and dry seaweed and wood from the cliffs, and these fires have never gone out, not since we first had them. (The Cleft, p.8)
Sabemos que as crianças nascem de uma fenda, logo nem sequer precisam de mãe nem de pai: “We are the Cleft, the Cleft is us” (The Cleft, p.10). O certo é que, ao longo do livro, entendemos que se trata de um povo feminino. Cada fenda tem o seu papel nesta sociedade, como relata Maire. E cada família tem o seu dever a cumprir: ”I was born into the family of Cleft Watchers, like my mother and like her mother – these words are new… The Cleft Watchers are the most important family. We have to watch the Cleft” (The Cleft, p.9). E num outro passo o leitor é esclarecido: “Each cave has the
same kind of people in it, a family, the Cleft Watchers, the Fish Catchers, the Net Makers, the Fish Skin Curers, the Seaweed Collectors” (The Cleft, p.11).
Contudo, a perfeição desta sociedade rapidamente se alterou quando, subitamente, começaram a nascer monstros, bebés deformados, homens.
They were just born, that’s all, no one did anything to make them. I think we thought the moon made them, or a big fish, but it is hard to remember what we thought, it was such a dream… you get angry when I say Monsters, but just look at yourself. Look at yourself – and look at me. (The Cleft, p.11)
E, de súbito, as fendas entraram em alvoroço com a deformidade e a diferença daquelas criaturas. Inicialmente tentaram cortar a parte da frente das crianças, pensando em colmatar a diferença. No entanto, as crianças morriam inesperadamente: “ Then one of the Old Shes said that the monsters were really like us, except for the thing in front, and your flat breasts. It was like one of our babies. Cut off the thing in front and see what happens – well, they did cut it off and it died“ (The Cleft, p.18). Pegaram no bebé e nos outros que se seguiram e colocaram-nos na Killing Rock, na esperança de que as águias os comessem. Mas, tal não aconteceu. As águias levaram-nos para uma clareira e uma nova sociedade foi crescendo tendo como apoio as águias e as corsas: “The lad went forward with the baby and laid it on the ground. The doe came and lay down near the babe. The doe licked the baby. He, for his part, did not know what to do” (The Cleft, p.72).
Soon there was a community of young males, we do not know how many. The chronicles did not go in for exactitude. And time was passing, the very first arrivals were now strong young men, and troubled with all kinds of questions about their equipment of tubes and bumps and lumps. Yes, they knew now the tube was for passing urine. (The Cleft, p.40)
Mas o inevitável aconteceu. A curiosidade das fendas e dos monstros era recíproca. Não tardou que se encontrassem e se descobrissem mutuamente, mesmo contra a vontade das Old Shes. A primeira criança a surgir desta união era diferente. Era a primeira a ser considerada humana, com um pai e uma mãe. Quando nasceu, soube-se que iria trazer a mudança: “The first babe born to the clefts with a monster for a father, was, these two girls knew, different in its deepest nature.” (The Cleft, p.67) E assim, segundo esta crença, nasceu a sociedade humana.
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É premente nestas duas sociedades o pensamento utópico, que se expressa numa multiplicidade de formas. Deparamo-nos com duas sociedades com perspectivas, ideias, valores, acima de tudo estranhas ao nosso mundo. Existe uma insatisfação presente nestas sociedades: em Herland os três homens, apesar de seres estranhos, ainda surpreenderam as mulheres com sabedoria e conhecimento, especialmente por parte de Van; e em The Cleft, Astre e Maire aprenderam a aceitar a diferença e a perceber que os homens também faziam falta e eram parte integrante de uma mesma sociedade. Mais tarde, as outras fendas também se juntaram a elas, e a tolerância e o entendimento recíproco vigorou até aos dias de hoje (ou tenta vigorar).
Estas duas utopias criticam a sociedade e a ideia de ser humano, são criativas, pois fazem o leitor entrar em mundos repletos de ficção, acção e estranhamento, e são acima de tudo subversivas, pois nestes dois casos propõem-se questionar os valores e os sistemas pelos quais somos actualmente guiados e governados. Deparamo-nos com duas sociedades transgressoras, quer a nível de estrutura quer a nível de valor. São duas sociedades que nos provocam, que nos estimulam a pensar o mundo de uma outra forma, não de uma forma oposta à dos dias de hoje, mas de uma forma diferente. (Gindin, 1985: 586)
Lessing parece transparecer aqui, na sequência do que Gilman também persistiu em fazer, que a mulher e o homem são necessários um ao outro, que ambos têm o seu papel na sociedade e também têm ao mesmo tempo as suas limitações. Homens e mulheres completam-se, precisam um do outro e têm os mesmos direitos e os mesmos deveres. E, de facto, nestas duas obras as autoras tentam subverter o papel do homem, como “aquele que veio depois”, mas nunca o omitem, nunca o apagam da sociedade. Terá de existir uma relação de complementaridade entre o homem e a mulher e não uma relação superioridade ou de inferioridade. Como Topping demonstra no seguinte passo:
This vision of the One is the androgynous vision o f paradise, of utopia, of the wholeness we hunger after and could achieve but seemingly lack sufficient will to achieve here on earth. Lessing warns us that the choice is androgyny –
wholeness, oneness, unity – or catastrophe, and that we are now heading stupidly and rapidly toward the latter. (Topping, 1980: p.15)