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IV Análise das Campanhas Suicidas e dos seus Resultados

1.3. A ideologia política do Hezbollah e os objectivos a alcançar.

1.4.3. Hezbollah contra Israel.

O mais importante objectivo do Hezbollah, desde a sua formação, foi o de expulsar Israel e as potências ocidentais do território libanês. Objectivo prioritário, mesmo sobre as ambições politicas de conquista do poder (Saad-Ghorayeb, 2002, p. 112). Assim, a mais longa campanha e com maior número de ataques desencadeada pelo Hezbollah foi contra a ocupação israelita. Temia-se que a ocupação israelita tivesse objectivos mais ambiciosos e permanentes do que a mera expulsão da OLP do Líbano. A ocupação israelita era vista com suspeição pelos libaneses, "that if Israel's presence in the south was not resisted, Israel would

have little incentive to even consider withdrawing its forces from the South" (Norton, 1998; Morris, 1999, p. 553) .

Esta campanha desenvolveu-se em duas fases. A primeira, até 1985, altura em que Israel se retirou da maior parte do território libanês, passando a ocupar apenas uma faixa de território ao longo da fronteira denominada faixa ou zona de segurança. Esta retirada para a zona de segurança aconteceu "by the Likud's failure to win a majority in the general elections of July 23, 1984, largely due to the Israeli public's disaffection with the war" (Morris, 1999, p. 557). A retirada da maior parte do Líbano representou uma grande vitória para o

Hezbollah. "Typical headlines, in a pro-Syrian Beirut newspaper, were LEBANESE RESISTANCE TRIUMPHS and ENEMY DECIDES TO RUN AWAY" (Laffin, 1985, p. 195). A segunda fase iniciou-se em 1985, a partir do momento em que Israel retirou para a zona de segurança empurrada pela violência do Hezbollah (Martin Kramer, 2008, p. 219) talvez esperando, infundadamente, que a guerrilha não fosse tão intensa. O que aconteceu foi exactamente o inverso(Morris, 1999, p. 557). O sul do Líbano tornou-se uma imensa frente de resistência "part armed, the rest engaged in civil resistance"(Petran, 1987, p. 322). Resistência civil que envolveu boicotes aos bens israelitas, greves e manifestações de protesto (Petran, 1987, p. 323).

Esta fase terminou em 2000, ano em que Israel retirou completamente do Líbano, à excepção da questão das disputadas quintas de Sheeba. Esta campanha foi na sua natureza uma campanha de guerrilha clássica. Na sua estratégia e nos seus alvos, exclusivamente militares, o Hezbollah seguiu os manuais clássicos da guerra de guerrilha. Numa entrevista, Nabil Qaouk, chefe de operações militares do Hezbollah, afirmou:

"a large part of the resistance's success was due to the fact that the men under his command could melt away into a sympathetic population after operations: 'While the

Israelis were exposed – we were not' . . . it seemed that Hezbollah was applying well-known guerrilla warfare tactics to achieve its military strategy." (Harik, 2004, p. 132)

Para os generais israelitas a campanha do sul era designada como uma "a 'war of attrition'" (Morris, 1999, p. 559). Nesta campanha de ataques suicidas, o Hezbollah atacou exclusivamente o exército israelita ou o exército do sul do líbano, composto de libaneses cristãos mas formado e equipado por e ao serviço de Israel (Cohen, 2010, p. 53).

É em grande parte em virtude desta campanha ter sido conduzida no teatro de operações em termos estritamente militares e de ter visado, exclusivamente, alvos militares que muitos comentadores e mesmo muitos países, recusam rotular a organização de terrorista, "a Hamas suicide bombing against an Israeli bus is terrorism; Hizballah's shooting at Israeli military forces in Lebanon is not terrorism" (Byman, 2011, p. 7).

A única inovação nesta campanha, em relação a uma tradicional guerra de guerrilha, foi o emprego dos ataques suicidas que emprestou maior simbolismo, credibilidade e letalidade ao conflito. Apesar do número total de ataques suicidas não ter sido muito elevado, estes revelaram-se "[t]he most potent weapon in the Shi'ite armory" (Morris, 1999, p. 554). O Hezbollah tinha absoluta consciência do impacto deste método de actuação e, frequentemente, o invoca como factor dissuasor contra Israel. Nasrallah afirmou: "the day Israel will come to make the mistake of initiating a new adventure in Lebanon, it should know that the bodies of our combatants will be transformed into human bombs against its tanks" (Discurso de Nasrallah apud Ranstorp, 1998b).

Ao longo dos anos da ocupação israelita, 1982-2000, o Hezbollah executou centenas de acções contra as tropas judaicas, "not a week passing without one or more Israelis injured or dead" (Morris, 1999, p. 552). Em meados de 1984, os xiitas efectuavam cerca de 100 ataques por mês (Morris, 1999, p. 556).

A ofensiva do Hezbollah era respondida por Israel com todas as medidas previstas no catálogo da contra-insurreição, "curfews, searches, mass arrests, torture of suspects,

vandalism, looting, and occasional on-the-spot executions-all fueling local anger and support for the guerrillas" (Morris, 1999).

Se, por um lado, esta campanha visava os desígnios de libertação nacional, cumpria, também, por outro lado, as preferências de política externa do Irão e da Síria. O Hezbollah beneficiava da protecção da Síria nos campos de treino no vale de Bekaa, do seu apoio logístico e de informações sobre os alvos. O Irão treinava os militantes do Hezbollah, pagava-lhes um salário mensal, cuidava das famílias e fornecia-lhes o armamento (Harik, 2004, p. 39). Muitos jovens desempregados encontraram no Hezbollah um meio de ganhar a vida e o Irão tornou-se no "largest employer in the Bekaa region" (Harik, 2004, p. 40).

O Hezbollah tem uma vasta rede de financiamneto. Para lá, do Irão, o seu maior financiador, "Western diplomats and analysts in Lebanon estimated Hezbollah may now receive closer to $200 million a year from Iran"(Levitt, 2005). Recebe contribuições

importantes das comunidades libanesas xiitas em várias partes do mundo, particularmente em África e América do sul. O Hezbollah está ainda envolvido numa série de actividades criminais "ranging from smuggling to fraud to drug trade to diamond trade in regions across the world, including North America, South America, and the Middle East, to raise money to support Hezbollah activities" (Levitt, 2005). O Hezbollah é, portanto, um movimento de consideráveis recursos financeiros com apoios estatais e muitos apoiantes em todos os continentes. Apesar de maiores afinidades com o Irão do que com a Síria, "as long as it directed its efforts against Israel, Hizbullah could count on Syrian support" (Van Creveld, 1998, p. 304). Pelo seu lado, a Síria utiliza o Hezbollah na a sua estratégia de domínio do Líbano (Morris, 1999, p. 559).

Não é assim de estranhar, que as necessidades da política externa da Síria e do Irão condicionassem as acções do Hezbollah e que, ao longo dos anos do conflito, se tivesse verificado "a close correlation between an escalation of Hizballah guerrilla activity against Israel . . . in response to breakdowns in Syrian-Israeli negotiations" (Ranstorp, 1998b).

O fim da guerra civil no Líbano, 1975-1990, criou uma nova realidade que obrigou o Hezbollah a adaptar-se ao novo contexto. Ao fim de vários anos de discurso radical e actividades revolucionárias e em ordem à sua integração no quadro legal da cena política doméstica e a continuar a resistência contra Israel sancionada pelo próprio estado, o

Hezbollah estabeleceu um acordo, tutelado pela Síria, com o governo libanês. Suavizava a retórica ideologicamente radical e suspendia as aspirações a uma républica islãmica,

"it would henceforth be a member of the loyal opposition. In return, the Party of God's jihad activities against the Israelis would receive official authorization to continue by virtue of the government's recognition of the armed struggle as a national resistance." (Harik, 2004, p. 47)

Decisão considerada como mais uma fase para conseguir "the movement's long-term goal of ruling Lebanon" (Azani, 2009, pp. 75, 76). O Hezbollah juntou-se, assim, ao

processo politico legal no Líbano. Ao mesmo tempo, o fim dos combates entre facções libertou o Hezbollah de lutas internas para se concentrar na luta contra Israel (Kindt, 2009, pp. 135, 136).

A destruição causada pela invasão de 1982 e a percepção de que não parecia existir alternativa às armas para expulsar Israel do terrirório libanês foram suscitando cada vez maiores apoios populares ao Hezbollah e à sua resistência contra Israel (Harik, 2004, p. 49). Ajudou também à legitimação do Hezbollah a aprovação e o aplauso de parte do clero, nomeadamente de Fadlallah. Foram, durante os anos de resistência, proferidas várias fatwa

"calling for 'defensive Jihad' against Israel as long as it stayed on Lebanese soil. This fatwa was a command to the faithful believers to join Jihad activity" (Azani, 2009, p. 67).

O sucesso do Hezbollah era uma realidade que os dirigentes tentavam apoveitar para fortalecer o movimento. Numa entrevista em 1987, al-Musawi declarou que o Hezbollah usava o sucesso adquirido como um instrumento para o recrutamento "impressive progress had been made in the achievement of the goals of the resistance in those years . . . the popular support basis of the resistance had expanded (Azani, 2009, pp. 67, 68).

A campanha militar do Hezbollah foi coadjuvada por campanhas noutras frentes, particularmente nos media. O canal televisivo do Hezbollah, criado em 1991, e pago pelo Irão, al-Manar, mantinha uma página na internet dedicada à expulsão das tropas israelitas com notícias em árabe, Inglês, francês e hebraico. Posteriormente começou a disponibilizar videos de embuscadas ao exército israelita, amplificando o impacto psicológico das suas tácticas. Uma grande importância foi dedicada à comunicação e à guerra psicológica (Ranstorp, 1998b). O Hezbollah habilmente criou um ambiente de enaltação da sua luta. Uma parte importante nessa composição foi a iconização dos seus mártires, através de posters, homenagens exaltando a sua coragem e devoção e grande exposição no canal televisivo al-Manar. Envolvimento vital para reforçar a moral dos seus adeptos e garantir elevados fluxos de novos recrutas (Harik, 2004, p. 134; Wehrey, 2002).

A guerra psicológica foi utilizada de forma sistemática e percebe-se como foi bem percebida pelos seus dirigentes quando Nairn Qassem, a segunda figura do Hezbollah, explicou que não era o uso militar dos bombistas suicidas que levou Israel a retirar em 1985 "but its deterrent effect on Israeli public opinion (Ranstorp, 1998b). De acordo com a lógica do Hezbollah

'the more body bags that are sent to Israel' the greater the heated debate that will be ignited within Israeli society. In turn, the growing domestic opposition to the continuation of Israel's occupation will pressure the Israeli government to unilaterally withdraw from Lebanon." (Saad-Ghorayeb, 2002, p. 118)

De facto, o número crescente de baixas fez, em Israel, intensificar o debate sobre os benefícios da ocupação do sul do Líbano. E com o decorrer do tempo, a opinião pública começou a opor-se à manutenção de custos tão elevados na ocupação do sul do Líbano. O Hezbollah que, como se viu, percebia bem a dialética entre a opinião pública e as decisões governamentais em democracia

"increased its activities against the IDF in Lebanon and its efforts to influence the Israeli public opinion by conducting an intensive propaganda campaign. The more the situation in Lebanon escalated, the more the Israeli media dealt with the Lebanese issue, and, in accordance, the more pressure was applied upon the decision makers to withdraw from Lebanon."(Azani, 2009, p. 198)

Na campanha para as eleições de 1999, os conselheiros de Barak, candidato da oposição, conduziram uma série de estudos de opinião que indicavam um crescente apoio para a saída do Líbano (Harel & Isacharoff, 2008, p. 17). Esta campanha marca o ponto culminante deste debate e terminou com a vitória de Ehud Barak "largely based on his campaign promise to withdraw all Israeli forces from Lebanon" (Alexander & Hoenig, 2008, p. 66). Na figura seguinte pode ver-se a evolução da opinião dos israelitas ao longo de 4 anos.

Figura 15. Atitudes dos israelitas sobre uma retirada unilateral do Líbano, 1997-2000.

Fonte: (Asher Arian, 2000, p. 25).

Se as divisões em Israel eram vincadas, o Hezbollah tendo oferecido aos xiitas uma clara alternativa ao Amal, alternativa feita de resistência, tendo oferecido, ainda, uma vasta rede de assistência social (paga pelo Irão) congregava a admiração e os aplausos na hora em que o exército israelita partia (Harik, 2004, p. 51). O Hezbollah foi o principal responsável pela retirada das tropas israelitas do Líbano (Morris, 1999, p. 552) e essa retirada representou, mais uma vez, uma grande vitória para o Hezbollah que lhe granjeou o respeito generalizado dos libaneses (Mokhtari, 2007, p. 56). Se bem que beneficiando de fortes apoios externos a resistência era extremamente popular entre os xiitas (Norton, 1998).

A invasão israelita criou o Hezbollah e a sua política de ocupação fortaleceu o movimento. O próprio primeiro ministro do Líbano na altura, assassinado em 2005 alegadamente por se opor ao domínio sírio do Líbano, acusava israel porque " its activities did not weaken Hezbollah, but did the contrary" (Azani, 2009, p. 195). O Hezbollah com uma retórica nacionalista e religiosa conseguiu mobilizar grande parte da população xiita e mesmo população de outras facções religiosas, para o seu lado. Assumiu-se como o mais proeminente actor na expulsão de Israel, o que lhe valeu uma grande número de adeptos entre

0 5 10 15 20 25 30 35 40

Definitely agree Agree Disagree Definitely disagree

1997 1998 1999 2000

os xiitas, disputando a liderança desse bloco com o tradicional partido xiita, o Amal" (Hamzeh, 1993; Petran, 1987, p. 374) .

A campanha contra Israel pode ser avaliada como se mostra no quadro 21. Quadro 22. Campanha contra Israel

Objectivos Tipo de Objectivo Sucesso

Expulsar as tropas de Israel Estratégico limitado Completo sucesso Ultrapassar rivais Estratégico conjuntural Completo sucesso Propaganda, legitimação, recrutamento,

financiamento

Instrumental Completo sucesso

Quais os factores determinantes para esta vitória do Hezbollah?

Mais uma vez parece ser fundamental a coerência e unidade da liderança do grupo suportada pelo apoio da comunidade. Mesmo entre os xiitas não apoiantes do Hezbollah e membros de outras comunidades, a resistência era vista como uma luta justa e necessária. A hábil exploração dos meios de comunicação e do apoio do clero, veio solidificar esta unidade e a predisposição para a resistência. Em Israel, ao contrário, existiam divisões na população sobre os méritos da ocupação que mais tarde se estendeu aos políticos.

Havia o entendimento generalizado entre os libaneses de que a zona de segurança imposta por Israel poderia ser um pretexto para objectivos mais ambiciosos e não declarados. A resistência entendia que jogava a sobrevivência do estado libanês no conflito com Israel. Daí que todos os sacrifícios fossem válidos, justos e até abençoados. No lado Israelita, onde a segurança do país é da mais alta e vital importãncia, não se percebia que a ocupação alterasse significativamente os dados estratégicos da questão de segurança. A baixa

tolerãncia ao número crescente de baixas em combate é sintoma da importância que se atribui à guerra em que se está envolvido.

Factor muito importante foi o apoio material, financeiro, político e militar que o Hezbollah beneficiou. Não se trata de um grupo de algumas pessoas sem meios, mas de um movimento altamente apoiado.

Quadro 23. Interesses e atitudes comparadas, Israel x Hezbollah.

Factores Israel Hezbollah

Liderança Divisão União

Comunidade Divisão União

Importãncia Média Vital

Predisposiçáo para o conflito Média Ilimitada

Capacidade Alta Alta*

* A atribuição de alta tem em consideração de que se trata de um grupo subnacional

O historiador judeu, Benny Morris, coloca a questão de que talvez Israel pudesse ter derrotado o Hezbollah com uma política mais implacável de execuções em massa e

destruição de aldeias inteiras. Mas, acrescenta "given Israel's behavioral and democratic norms, this was never an option" (Morris, 1999, p. 553). Este é sem dúvida um outro factor a ter em conta. As democracias têm que considerar as opiniões dos cidadãos e são

condicionadas pelas normas do estado de direito.

De novo se pode concluir que um movimento unido, com amplo apoio financeiro e militar e apoiado pela sua população consegue objectivos limitados e instrumentais quando confrontado com uma democracia insegura das suas opções, com interesses relativamente menores e com uma opinião pública dividida.