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A utilidade dos ataques suicidas : condições e limites

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UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

A UTILIDADE DOS ATAQUES SUICIDAS. CONDIÇÕES E LIMITES.

Tese apresentada à Universidade Católica Portuguesa

para obtenção do grau de doutor em Ciência Política e Relações Internacionais

por

João Serra Pereira

Instituto de Estudos Políticos Julho, 2014

(2)

UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

A UTILIDADE DOS ATAQUES SUICIDAS. CONDIÇÕES E LIMITES.

Tese apresentada à Universidade Católica Portuguesa

para obtenção do grau de doutor em Ciência Política e Relações Internacionais

Por João Serra Pereira

Sob orientação do Professor Doutor Francisco Proença Garcia

Instituto de Estudos Políticos Julho, 2014

(3)

Agradecimentos

Esta dissertação encerra um ciclo rico de aprendizagem.

Nesta altura, uma palavra de agradecimento é devida ao Institudo de Estudos Políticos, na pessoa do seu director, professor doutor João Carlos Espada. Pelo acolhimento, por estimulantes professores, por inestimáveis debates de ideias, pela abertura de inesgotáveis horizontes do saber.

Ao professor doutor Francisco Proença Garcia, enquanto professor, primeiro, e orientador desta dissertação, depois, fica a gratidão pelo seu incentivo, disponibilidade e oportunos e imprescindíveis conselhos.

(4)

Índice

Agradecimentos iii

Índice iv

Índice de Quadros ix

Índice de Figuras xiv

Resumo 1

Introdução 3

I Hipóteses de Investigação e Metodologia 6

1. Hipóteses de Investigação 6

1.1. Primeira hipótese principal. 6

1.1.1. Primeira hipotese secundária. 6

1.1.2. Segunda hipótese secundária 7

1.2. Segunda hipótese principal. 7

2. Metodologia 8

2.1. Delimitação da abordagem 8

2.2. Roteiro da investigação 8

2.2.1. Campanhas globais e específicas. 8

2.2.2. Classificação de objectivos e avaliação das campanhas. 9

II Revisão da Literatura 11

1. Os Primórdios do Estudo sobre Terrorismo e Posterior Desenvolvimento 11

1.1. Munique, o princípio. 11

1.2. 11 de setembro. 22

1.3. Os temas. 33

2. A Utilidade do Terrorismo 36

(5)

2.2. A utilização de novos utensílios metodológicos. 40 2.3. Estudos sobre a utilidade do terrorismo. 42

2.3.1. Pape (2003, 2005). 42

2.3.2. Abrahms, (2006). 48

2.3.3. Jones & Libicki (2008). 52

2.3.4. Cronin (2009). 55

2.3.5. Lutz (2009). 57

2.3.6. Fortna (2010). 59

2.3.7. Abrahms (2012). 62

2.3.8. Gould, E. D., & Klor, E. F. (2010). 64

2.3.9. Kydd& Walter (2002). 64

3. Terrorismo Suicida 66

III Quadro Conceptual 83

1. Terrorismo 84

2. Terrorismo Suicida, Ataques Suicidas, Missões Suicidas 94

3. Campanha 97

4. Insurgência, Guerrilha e Terrorismo 99

5. Objectivos, Escala de Objectivos 102

IV Análise das Campanhas Suicidas e dos seus Resultados 109

1. Hezbollah 109

1.1. Enquadramento histórico, político, cultural e sócioeconómico. 109

1.2. Origens e evolução do Hezbollah. 115

1.3. A ideologia política do Hezbollah e os objectivos a alcançar. 118

1.3.1. A carta aberta. 119

1.3.2. Programas eleitorais de 1992 a 2009. 122

1.3.3. O Novo manifesto. 125

1.4. As campanhas. 128

(6)

1.4.2. Hezbollah contra apoiantes do Iraque. 142

1.4.3. Hezbollah contra Israel. 146

1.4.4. Hezbollah, campanha de retaliação. 155

1.4.5. Avaliação geral das campanhas do Hezbollah. 160

2. Fatah 165

2.1. Enquadramento histórico, político, cultural e sócioeconómico. 165

2.2. Origem e evolução. 178

2.3. Ideologia política e objectivos a alcançar. 185

2.4. Campanhas. 193

2.4.1. Campanha contra Israel (segunda intifada). 196

2.4.2. 2ª Campanha contra Israel 208

2.4.3. Avaliação geral. 210

3. Hamas 212

3.1. Enquadramento histórico, político, cultural e socioeconómico. 212

3.2. Origem e evolução. 212

3.3. Ideologia política e objectivos a alcançar. 225

3.3.1. Carta, 1988. 225

3.3.2. Programa eleitoral, 2005. 234

3.3.3. Outros documentos e declarações de dirigentes. 236

3.4. Campanhas. 242

3.4.1. Retaliação pelo Massacre de Hebron. 244

3.4.2. Disrupção do processo paz (Oslo 2). 251

3.4.3. Retaliação pela morte de Ayyash. 255

3.4.4. Disrupção do processo paz (Wye). 261

3.4.5. Contra a ocupação (2ª Intifada) 266

3.4.6. Avaliação geral 268

4. Jihad Islâmica Palestiniana 271

4.1. Enquadramento histórico, político, cultural e socioeconómico. 271 4.2. A organização e os seus objectivos. 271 4.3. Ideologia política e objectivos a alcançar. 277

(7)

4.3.1. Campanhas. 281

4.3.2. Campanha de 1994/95. 283

4.3.3. Campanha de 2000/8 (segunda intifada). 285

4.3.4. Avaliação Geral. 287

5. Al-Qaeda 290

5.1. Enquadramento histórico, político, cultural e socioeconómico. 290

5.2. Origem e evolução 298

5.3. A organização e os seus objectivos 308

5.3.1. Declaração de guerra contra os americanos ocupantes do país das duas

mesquitas sagradas, 1996. 308

5.3.2. Frente islâmica mundial pela guerra contra os judeus e os cruzados, 1998 314

5.3.3. Outras declarações 316

5.4. Campanhas 320

5.4.1. Campanha contra Estados Unidos. 321

5.4.2. Campanha contra os aliados dos Estados Unidos. 330

5.4.3. Campanha contra regimes apóstatas. 332

5.4.4. Avaliação geral. 336

6. Al-Qaeda no Iraque/Estado Islâmico do Iraque 342 6.1. Enquadramento histórico, político, cultural e socioeconómico. 342

6.1.1. Iraque antes da independência. 343

6.1.2. O Iraque Independente 347

6.2. A organização e os seus objectivos. 354 6.3. Ideologia política e objectivos a alcançar. 362

6.3.1. Carta de Zarqawi para bin Laden, 2004. 362

6.3.2. Proclamação do Estado Islâmico do Iraque, 2006. 364

6.4. Campanhas 366

6.4.1. Campanha #1 367

6.4.2. Campanha #2 369

6.4.3. Campanha #3 375

(8)

7. Al-Qaeda na Península Arábica 379 7.1. Enquadramento histórico, político, cultural e socioeconómico. 379 7.2. A organização e os seus objectivos. 384 7.3. A organização e os seus objectivos. 387

7.3.1. From here we begin . . . And at al-Aqsa we meet 387

7.3.2. Entrevista com Abu Basir, 2010 390

7.4. Campanhas 392

7.4.1. Campanha contra EUA e Ocidente 393

7.4.2. Campanha contra governos apóstatas da Península Arábica 395

7.4.3. Campanha contra xiitas 399

7.4.4. Avaliação geral 401

V Da Validade das Hipóteses de Investigação 403

1. Primeira Hipótese Principal 403

1.1. Primeira hipótese secundária. 407

1.2. Segunda hipótese secundária. 412

2. Segunda Hipótese Principal 413

VI Conclusões e Pistas Para Novas Investigações 418

Apêndices 420

Apêndice A- Lista dos ataques suicidas do Hezbollah por campanha 421 Apêndice B. Comunicado nº1 da al-Assifah, 6 de Janeiro de 1965 422

(9)

Índice de Quadros

Quadro 1. Padrões e tendências na publicação (anos 90s). ... 17

Quadro 2. Distribuição dos temas na investigação, 1971-2003. ... 34

Quadro 3. Pape (2003). Campanhas de Terrorismo Suicida, 1980–2001... 45

Quadro 4. Campanhas de Terrorismo Suicida, 1980–2001 (Pape, 2005)... 46

Quadro 5. Estrutura da investigação em Abrahms (2006). ... 50

Quadro 6. Abrahms (2006) Resultados por objectivos e tipo de alvo. ... 51

Quadro 7. Resultados da investigação de Cronin(2009)... 57

Quadro 8. Resultados de conflitos, 1989-2009, Fortna, (2010). ... 61

Quadro 9. Graus de sucesso para terrorismo e guerrilha, Abrahms (2012) ... 63

Quadro 10. Interferência do terrorismo em processos de paz, Kidd & Walter (2002)... 65

Quadro 11. Características de terrorismo e guerrilha (Merari, 1993). ... 101

Quadro 12. Objectivos atribuídos aos grupos terroristas. ... 107

Quadro 13. Classificação dos objectivos dos grupos terroristas. ... 108

Quadro 14. Hezbollah, objectivos programáticos por ano... 128

Quadro 15. Objectivos globais do Hezbollaz por tipo de objectivo. ... 128

Quadro 16. Campanhas do Hezbollah. ... 129

Quadro 17. Campanha contra os países da FMN... 137

Quadro 18. Campanha contra a FMN. Objectivos e resultados... 139

Quadro 19. Importãncia e atitudes face à FMN. EUA x Hezbollah. ... 142

Quadro 20. Contra apoiantes do Iraque. ... 142

Quadro 21. Campanha contra apoiantes do Iraque. Objectivos e resultados. ... 145

Quadro 22. Campanha contra Israel ... 154

(10)

Quadro 24. Campanha de retaliação. ... 155

Quadro 25. Campanhas retaliatórias fora do Líbano. ... 160

Quadro 26. Níveis de apoio ao Hezbollah em diversos temas... 161

Quadro 27. Deve o Hezbollah ser desarmado? ... 162

Quadro 28. Quadro síntese das campanhas do Hezbollah. ... 163

Quadro 29. Objectivos globais, grau de realização. ... 163

Quadro 30. População da Palestina a Ocidente do Rio Jordão (milhares). ... 166

Quadro 31. Objectivos políticos da Fatah. ... 193

Quadro 32. Campanha da Fatah contra Israel. ... 196

Quadro 33. Campanha contra Israel, objectivos. ... 202

Quadro 34. 1ª Campanha contra Israel, avaliação. ... 206

Quadro 35. Fatah, 2ª campanha contra Israel. ... 208

Quadro 36. Fatah, 2ª campanha contra Israel, avaliação. ... 210

Quadro 37 Quadro síntese das campanhas da Fatah e avaliação do sucesso conseguido. ... 211

Quadro 38. Objectivos do Hamas segundo a Carta de 1988. ... 233

Quadro 39. Programa eleitoral, 2005. ... 236

Quadro 40. Objectivos do Hamas. Documentos, 2005-2011. ... 242

Quadro 41. Quadro síntese dos objectivos do Hamas. ... 242

Quadro 42. Ataques do Hamas por campanhas. ... 243

Quadro 43. Retaliação pelo ataque de Hebron. ... 244

Quadro 44. Retaliação pelo ataque de Hebron, objectivos. ... 248

Quadro 45. Retaliação pelo ataque de Hebron, avaliação. ... 251

Quadro 46. Tentativa de disrupção do processo de paz. ... 252

(11)

Quadro 48. Tentativa de disrupção do processo de paz, avaliação. ... 253

Quadro 49. Campanha de retaliação pela morte de Ayyash. ... 256

Quadro 50. Campanha de retaliação pela morte de Ayyash, objectivos... 256

Quadro 51. Campanha de retaliação pela morte de Ayyash, avaliação. ... 259

Quadro 52. Disrupção do processo paz (Wye) ... 261

Quadro 53. Campanha conpra o processo de paz, objectivos. ... 262

Quadro 54. Campanha contra o processo de paz, avaliação. ... 264

Quadro 55. Camapanha contra Israel (segunda intifada). ... 266

Quadro 56. Campanha contra Israel (segunda intifada), objectivos. ... 267

Quadro 57. Campanha contra Israel (segunda intifada) avaliação. ... 268

Quadro 58. Quadro síntese das campanhas do Hamas e avaliação. ... 269

Quadro 59. Campanhas específicas do Hamas, avaliação por tipo de objectivo. ... 270

Quadro 60. JIP, objectivos globais. ... 281

Quadro 61. Campanha 1994/95. ... 283

Quadro 62. Campanha 1994/95, objectivos por tipo. ... 284

Quadro 63. Campanha 1994/95, avaliação. ... 285

Quadro 64. Campanha 2000/2008 (segunda intifada), objectivos. ... 286

Quadro 65. Campanha 2000/2008 (segunda intifada), avaliação. ... 287

Quadro 66. Quadro síntese das campanhas da JIP e avaliação de resultados. .. 288

Quadro 67. Campanhas específicas, taxa de sucesso... 288

Quadro 68. Objectivos da al-Qaeda. ... 320

Quadro 69. Campanha contra os Estados Unidos. ... 322

Quadro 70. Qual o maior obstáculo para a paz e a segurança no Médio-oriente? ... 325

(12)

Quadro 71. Campanha contra os Estados Unidos, objectivos. ... 325

Quadro 72. Campanha contra EUA. Avaliação. ... 330

Quadro 73. Campanha contra aliados dos EUA. ... 331

Quadro 74. Campanha contra aliados dos EUA. objectivos ... 331

Quadro 75. Campanha contra os aliados dos EUA, avaliação... 332

Quadro 76. Campanha contra governos apóstatas ... 333

Quadro 77. Campanha contra governos apóstatas. Objectivos. ... 334

Quadro 78. Campanha contra governos apóstatas. Avaliação. ... 336

Quadro 79. Quadro síntese das campanhas da al-Qaeda e avaliação de resultados. ... 341

Quadro 80. Principais nomes utilizados pelo grupo. ... 354

Quadro 81. Campanha global, objectivos. ... 365

Quadro 82. Campanha #1, objectivos. ... 367

Quadro 83. Campanha #1, avaliação. ... 368

Quadro 84. Campanha #2, Objectivos. ... 370

Quadro 85. Campanha #2, avaliação. ... 374

Quadro 86. Campanha #3, objectivos. ... 375

Quadro 87. Campanha #3, Avaliação. ... 376

Quadro 88. avaliação das campanhas global e específicas ... 377

Quadro 89. AQAP, objectivos globais por tipo. ... 392

Quadro 90. Campanha contra EUA e Ocidente. ... 393

Quadro 91. Campanha contra EUA e Ocidente, objectivos. ... 394

Quadro 92. Campanha contra EUA e Ocidente, avaliação. ... 395

Quadro 93. Campanha contra governos apóstatas, ataques. ... 395

(13)

Quadro 95. Campanha contra governos apóstatas, avaliação. ... 398

Quadro 96. Campanha contra xiitas, ataques. ... 399

Quadro 97. Campanha contra xiitas, objectivos. ... 400

Quadro 98. Campanha contra xiitas, avaliação... 401

Quadro 99. Campanhas da AQPA. ... 401

Quadro 100. Campanhas globais, objectivos por tipo e resultado obtido... 404

Quadro 101. Campanhas específicas, objectivos por tipo e resultados obtidos. ... 406

Quadro 102. Campanhas globais, objectivos limitados. ... 408

Quadro 103. Campanhas globais, objectivos conjunturais e resultados. ... 409

Quadro 104. Campanhas específicas, objectivos limitados e interesse do governo. ... 410

Quadro 105. Relação entre sucesso dos grupos e interesse do governo. ... 410

Quadro 106. Campanhas específicas, objectivos conjunturais e interesse do governo. ... 411

Quadro 107. União x desunião. Cenários possíveis... 414 Quadro 108. Classificação das campanhas por cenários de união x desunião . 415

(14)

Índice de Figuras

Figura 1. O crescimento das publicações sobre terrorismo. ... 22

Figura 2. Livros publicados com a palavra terrorism no título, 1995–2007. ... 23

Figura 3. Distribuição por ano das publicações sobre terrorismo (% do total). . 24

Figura 4. Metodologia na Investigação sobre terrorismo. ... 26

Figura 5. Análise comparativa do uso de estatísticas em ciências sociais, 1995-1999. ... 29

Figura 6. Evolução do uso de análises estatísticas na investigação sobre terrorismo, 1995–2000... 29

Figura 7. Percentagem de artigos usando análises estatísticas. ... 30

Figura 8. Como acabam os grupos terroristas, (Jones & Libicki, 2008. ... 53

Figura 9. Relação entre objectivos e possibilidade de acordos Jones & Libicki (2008)... 54

Figura 10. Possíveis resultados num conflito, Fortna (2010). ... 61

Figura 11. Crescimento dos ataques suicidas, Pape (2010). ... 72

Figura 12. Percentagem de artigos sobre terrorismo suicida. ... 73

Figura 13. Distribuição da população pelas principais confissões religiosas (1932)... 111

Figura 14. Distribuição da população pelas principais confissões religiosas em 2005. ... 112

Figura 15. Atitudes dos israelitas sobre uma retirada unilateral do Líbano, 1997-2000. ... 153

Figura 16. Colonos nos territórios palestinianos ocupados, 1972-2010. ... 170

(15)

Figura 18. Apoio/oposição dos entre os palestinianos face a ataques armados

contra Israel, 1995-2000. ... 197

Figura 19. Peferências dos palestinianos, Fatah vs Grupos islâmicos, 2000-2001. ... 198

Figura 20. Sequência dos processos na 2ª Intifada, segundo Ricolfi. ... 199

Figura 21. Apoio dos palestinianos aos ataques suicidas. ... 200

Figura 22. Foi a evacuação dos colonatos de Gaza uma vitória da luta armada dos palestinianos? ... 203

Figura 23. Entre os seguintes partidos qual tem o maior crédito na retirada de Israel?... 204

Figura 24. Apoio popular, Fatah vs. Grupos islâmicos, 2000-2004. ... 205

Figura 25. Atitudes dos israelitas face à retirada de Gaza (2004-2009). ... 207

Figura 26. Concepçao islâmica clássica das relações internacionais. ... 228

Figura 27. Hamas, ataques suicidas/ano. ... 243

Figura 28. Inquérito de opinião aos palestinianos (Julho 94). ... 246

Figura 29. Atitudes dos simpatizantes do Hamas, Fatah e JIP aos acordos do Cairo (maio, 1994). ... 250

Figura 30. Preferências dos palestinianos (Fev/Abril 1994)... 251

Figura 31. Posição dos palestinianos sobre os Acordos de Oslo II (Outubro 1995). ... 254

Figura 32. Apoio dos palestiniano ao Hamas e Fatah (Fev 94-Set 95). ... 255

Figura 33. Atitudes dos palestinianos face aos acordos de Oslo II (abril 1996). ... 259

(16)

Figura 35. Palestinianos face às cláusulas de segurança de Wye (12-14

November 1998). ... 263

Figura 36. Hamas vs Fatah, preferências dos palestinianos (agosto 1998 a janeiro 1999). ... 263

Figura 37. Os palestinianos perante os acordos de Wye (12-14 November 1998). ... 264

Figura 38. Atitude dos israelitas aos acordos de Wye (January 15-21, 1999). 265 Figura 39. Atitudes dos israelitas sobre a continuidade das negociações. ... 265

Figura 40. Hamas vs Fatah, preferências dos palestinianos (agosto 1998 a janeiro 2006). ... 267

Figura 41. Campanhas do Hamas. Taxa de Sucesso por tipo de objectivo. .... 270

Figura 42. JIP, ataques suicidas por ano. ... 282

Figura 43. Fatah, Hamas e JIP, ataques por ano. ... 282

Figura 44. Preferências dos palestinianos (agosto 1998 a janeiro 2006). ... 285

Figura 45. Gráfico de todos os ataques da al-Qaeda... 321

Figura 46. Qual a característica da al-Qaeda que aprecia mais? ... 324

Figura 47. Qual o país mais ameaçador? ... 324

Figura 48. Tropas americanas no Golfo Pérsico, 2001 a 2004. ... 326

Figura 49. Confiança em bin Laden (%)... 335

Figura 50. A favor da retirada das tropas americanas... 337

Figura 51. Atitudes dos muçulmanos, são os ataques suicidas justificáveis?... 338

Figura 52. Aprovação dos ataques suicidas no Iraque contra os EUA. ... 339

Figura 53. Impacto da morte de bin Laden nas atitudes perante os EUA... 341

Figura 54. Ataques suicidas no Iraque. ... 352

(17)

Figura 56. AQI/EII, ataques suicidas. ... 366

Figura 57. Atitudes dos americanos sobre a permanências das tropas no Iraque. ... 369

Figura 58. Relações entre xiitas e sunitas, boas ou excelentes. ... 371

Figura 59. Segurança na comunidade. ... 372

Figura 60. Melhor sistema político para o Iraque. ... 373

Figura 61. confiança no governo nacional entre sunitas. ... 373

Figura 62. AQPA, distribuição dos ataques por ano... 393

Figura 63. Campanhas globais, relação entre grandeza/tipo de objectivos e sucesso. ... 405

Figura 64. Campanhas específicas, relação entre grandeza/tipo de objectivos e sucesso. ... 407

Figura 65. Taxa de fracasso por tipo de objectivo. ... 407

Figura 66. Objectivos limitados em campanhas específicas, relação entre sucesso dos grupos e interesse do governo. ... 411

Figura 67. Relação entre interesse de governos e taxa de sucesso. ... 412

Figura 68. Objectivos instrumentais, taxas de sucesso. ... 413

Figura 69. Taxas de sucesso dos grupos em dois cenários. ... 416

Figura 70. Objectivos limitados. Taxas de sucesso dos grupos em dois cenários. ... 416

Figura 71. Objectivos conjunturais. Taxas de sucesso dos grupos em dois cenários. ... 417

(18)

Resumo

Esta investigação procura apurar os resultados políticos obtidos por campanhas de ataques suicidas perpetradas por grupos terroristas. Foram escolhidos todos os grupos terroristas que operando no Médio Oriente, realizaram mais de vinte ataques durante a sua existência.

Todas as campanhas foram classificadas em função dos objectivos políticos perseguidos, determinados através da análise de fontes primárias. Os resultados obtidos foram confrontados com os objectivos procurados e classificados em três categorias: sucesso, fracasso e neutro. Numa avaliação geral, são propostas condições,

regularidades e limites que ajudam a explicar o desfecho das várias campanhas realizadas.

(19)

What did we get from September 11?

Omar bin Laden (Filho de Osama bin Laden)

(20)

Introdução

Uma discoteca em Bali explode no auge da noite. Dois imensos arranha-céus desaparecem do horizonte de Nova Iorque. Em Londres e Madrid, bombas impedem transportes públicos de cumprir os percursos programados. Nenhuma protecção

diplomática impede a detonação de embaixadas em Nairobi, Beirute ou Dar es Salaam. Em Bagdade e Cabul ou em Telavive e Sana, o quotidiano de pessoas vulgares,

frequentemente, termina perante inesperadas detonações. Do quotidiano de todos, em todas as cidades do mundo, faz parte o convívio mediático com este fenómeno em expansão nas últimas décadas: os ataques suicidas. Indiscriminada destruição tem-se propagado a todas as latitudes, provocando irreparáveis danos, desregulação de rotinas e incontáveis prejuízos financeiros, em nome de uma ideologia ou de uma fé, chaves de sociedades mais perfeitas. Mas, pergunta-se, quais os resultados obtidos por toda esta devastação? Torres desaparecidas, comboios descarrilados, embaixadas aniquiladas e vidas desperdiçadas serviram exactamente para quê? O que conseguiram, afinal, os grupos terroristas perpetradores de tantos atentados? O califado, por tantos, desejado? Ou, talvez, a destruição do estado de Israel, ambicionada por outros? Apenas a

ampliação de uma mensagem? Nada? Este é o tema desta investigação. Apurar o que os grupos terroristas, no fim de contas feitas, conseguiram, de facto, obter através de ataques suicidas. Aferir da utilidade de um método cada vez mais popular, encontrar as condições que lhe oferecem o êxito, se o houver, averiguar as condições que o

conduzem ao fracasso que seguramente existe. Tentar encontrar regularidades, causalidades e limites que permitam compreender o mecanismo subjacente na relação entre ataques suicidas e resultados políticos alcançados.

Os temas do terrorismo e do terrorismo suicida têm, nas últimas décadas,

(21)

etiológicos e análises teleológicas; examinam-se as tácticas empregues e segurança a adoptar. Sem erro, pode-se afirmar que, enquanto objecto de estudo, o fenómeno do terrorismo suicida tem sido decomposto em infinitas partes e minuciosamente

interpretado à luz de distintas lentes e ângulos, configurando um verdadeiro esforço de confluência multidisciplinar. Ainda sem erro se pode afirmar que todo o esforço de investigação realizado, elevou, significativamente, o conhecimento deste fenómeno complexo, de contornos multiformes e tantas vezes difuso, para mais altos níveis de compreensão.

Não obstante o número e a amplitude de tantas investigações, o estudo sobre a temática dos resultados do terrorismo e do terrorismo suicida tem estado notavelmente ausente das preocupações da academia, ou, ao menos, do olhar sistemático e rigoroso que só uma abordagem científica pode oferecer. De facto e surpreendentemente, só nos últimos anos se começaram a dar os primeiros passos para preencher esta evidente lacuna. Surpresa que resulta das evidentes vantagens que o apuramento da utilidade do terrorismo suicida aportaria a investigadores e académicos, a políticos e polícias. Saber da utilidade do terrorismo suicida, das condições dos seus êxitos e desditas, das

virtualidades e limites de que é tecido, representa um imprescindível passo na edificação do conhecimento sobre a temática do terrorismo. Avanço conceptual que permitiria prever, mesmo que de forma algo inexacta ou incipiente, afinal estamos no domínio das ciências sociais, as virtuais consequências de uma nova campanha de ataques suicidas. Avanço conceptual que permitiria, ainda que imprecisamente, prognosticar tendências, construir expectativas e probabilidades sobre eventuais cenários futuros de uma campanha de terrorismo suicida.

Este é o sentido orientador desta investigação. Participar, ainda que com um diminuta contribuição, no enorme desafio de descoberta que se coloca à academia.

(22)

Através do exame de um conjunto de bem conhecidas organizações terroristas, tentou-se pesar os resultados que conseguiram obter e extrair regularidades passíveis de serem consubstanciadas em úteis padrões de análise no estudo desta realidade.

Esta investigação inicia-se pela apresentação das hipóteses de trabalho e da metodologia utilizada para as testar, capítulo I. Segue-se a revisão da literatura relevante para esta temática, capítulo II e o quadro conceptual adoptado, capítulo III. As análises do enquadramento político e social, da ideologia e das campanhas de todos os grupos incluídos nesta investigação são feitas no capítulo IV. No capítulo V, são testadas as hipóteses de investigação. Este trabalho finaliza com conclusões gerais e indicações para posteriores investigações, capítulo VI.

(23)

I Hipóteses de Investigação e Metodologia

1. Hipóteses de Investigação

No sentido de responder às perguntas apresentadas, formularam-se várias hipóteses a testar.

1.1. Primeira hipótese principal.

A primeira hipótese principal (HP1) desta investigação tem a seguinte

enunciação:

HP1 – A taxa de sucesso dos ataques suicidas é inversamente proporcional à

grandeza dos objectivos procurados.

Ao serem classificados os objectivos pretendidos pelos grupos insurgentes em objectivos menos e mais ambiciosos, a HP1 postula que as taxas de sucesso verificadas

sejam menores quando os objectivos pretendidos são grandiloquentes como um califado ou o derrube de um regime e maiores quando os objectivos são mais modestos como a libertação de um prisioneiro ou a mediatização de uma causa.

A racionalidade desta hipótese assenta em que para se realizarem grandes objectivos são necessárias mais capacidades das organizações, por isso, de mais difícil realização. Acresce que num jogo de soma zero, os ganhos dos grupos insurgentes são perdas para os governos, donde, os grandes ganhos procurados implicam grandes perdas. Os governos resistirão fortemente a quaisquer cedências nestes casos.

1.1.1. Primeira hipotese secundária.

Se um dos factores que concorrem para a provável ocorrência da HP1 é o

interesse dos governos em relação aos objectivos dos insurgentes, é de presumir que este factor prevaleça, não apenas para objectivos de grandeza diferente mas, mesmo, em objectivos estratégicos do mesmo tipo. Os objectivos maximalistas são excluídos por

(24)

não se poder testar a hipótese. O interesse dos estados é sempre muito elevado. Assim, a enunciação da primeira hipotese secundária (HS1), é a seguinte:

HS1 – A taxa de sucesso dos ataques suicidas para cada objectivo estratégico, à

excepção dos objectivos maximalistas, é inversamente proporcional ao interesse do estado coagido.

Postula-se que o nível de interesse dos estados vítimas dos atentados influencia o resultado do conflito. Assim, mesmo para objectivos do mesmo tipo, o interesse dos governos face às pretensões do grupo varia. Postula-se que quando o interesse dos governos é maior, as taxas de sucesso diminuirão. Ao contrário, as taxas de sucesso subirão quando os ganhos que se pretendam obter sejam de importância marginal para o estado coagido.

1.1.2. Segunda hipótese secundária

A verificarem-se as hipóteses anteriores, decorre que o tipo de objectivos com a mais elevada taxa de sucesso será o dos objectivos instrumentais. Para além de

objectivos de menor grandeza e de afectar os estados em menor grau, os objectivos instrumentais, muitas vezes, fogem à lógica coerciva e não precisam de cedências da parte contrária para ter sucesso. Postula-se, por isso, que os objectivos instrumentais serão cumpridos na maior parte dos casos. A formulação da HS2 é a seguinte:

(HS2) – Os ataques suicidas são eficazes na obtenção de objectivos

instrumentais.

Entendendo-se aqui por eficácia, uma maioria de casos de sucesso.

1.2. Segunda hipótese principal.

Apresenta-se, ainda, uma segunda hipótese principal (HP2). Esta hipótese tem

(25)

uma comunidade. Nesta HP2, relaciona-se o grau desta união com os resultados dos

conflitos e formula-se da seguinte maneira:

HP2 – Nos objectivos estratégicos, à excepção de objectivos maximalistas, a taxa

de sucesso de um grupo está positivamente relacionada com a razão entre a união clausewitziana da própria comunidade e da comunidade adversária.

Os objectivos maximalistas são excluídos porque presumivelmente dependem de outras variáveis.

Ou seja, a taxa de sucesso subirá, na medida em que o resultado da divisão

seja crescentemente positivo. É claro que esta

é uma divisão impossível de fazer. O que aqui importa é o conceito. Postula-se que a relação entre os diferentes graus de união das duas comunidades influencia o resultado.

2. Metodologia

2.1. Delimitação da abordagem

O âmbito do estudo está compreendido ao período moderno dos ataques suicidas, iniciado em 1981, até ao fim de 2012. Foram analisados todos os grupos terroristas do Médio Oriente que recorreram ao método dos ataques suicidas com mais de 20 ataques realizados.

A lista de ataques efectuados pelos diferentes grupos foi determinada a partir da base de dados da Universidade de Maryland, The Global Terrorism Database (GTD). Em casos muito excepcionais, quando de acordo com várias fontes se entendeu existir alguma lacuna na GTD, foram adicionados outros eventos à lista de ataques em análise.

2.2. Roteiro da investigação

2.2.1. Campanhas globais e específicas.

Para todos os grupos analisados, foram determinados os objectivos políticos últimos que se pretendiam obter, através da pesquisa de fontes primárias como

(26)

estatutos, manifestos, declarações de dirigentes, entrevistas, materiais audio-visuais e publicações de diversos tipos difundidos pelas próprias organizações.

Para além dos objectivos últimos que cada organização persegue na sua campanha principal, aqui chamada de global, existem, na vida de qualquer grupo, objectivos pontuais, mais restritos, mais específicos, fruto de temporárias conjunturas que se vão sucedendo e renovando. Para a realização destes fins específicos, os grupos efectuam conjuntos de ataques, aqui denominados campanhas específicas. Procedeu-se à identificação destas campanhas específicas em cada grupo analisado, determinando os objectivos específicos procurados em cada caso, assim como os ataques que as

integraram, recorrendo às fontes primárias atrás referidas.

Consideraram-se, em suma, tanto para a campanha global como para as

campanhas específicas, os ataques que as integraram e os objectivos que se pretendiam alcançar.

2.2.2. Classificação de objectivos e avaliação das campanhas. Depois de identificadas as campanhas globais e específicas para cada organização, assim como os objectivos procurados em cada uma das campanhas, procedeu-se à classificação dos objectivos em dois tipos: estratégicos e instrumentais. Os objectivos estratégicos foram ainda subdivididos em maximalistas, limitados e conjunturais (ver capítulo III.5.). Devido ao grande número de objectivos

instrumentais, apenas se consideraram os mais relevantes em cada campanha. Assim, foram classificados por tipo, os objectivos das campanhas globais e específicas de cada grupo.

O passo seguinte foi o da avaliação de todas as campanhas, contrapondo objectivos procurados a resultados obtidos. Em cada caso, foi a análise de factores culturais, religiosos, políticos, económicos e sociais que permitiram a avaliação dos

(27)

resultados de cada campanha. Esta análise, predominantemente qualitativa, baseou-se em fontes primárias e secundárias. Documentos oficiais, notícias publicadas na altura dos factos em análise e estudos académicos foram considerados na interpretação dos factos realizada.

A avaliação do resultado de cada campanha foi estabelecida de forma qualitativa em três diferentes categorias: sucesso, fracasso ou resultado neutro. A título indicativo, dividiu-se em muitos casos, o sucesso em dois tipos: completo e parcial. Para as avaliações agregadas, sucesso parcial ou completo contaram como sucesso.

Depois de apurados os resultados de cada campanha procurou-se encontrar as variáveis mais importantes na determinação do seu sucesso ou insucesso, na tentativa de encontrar regularidades, explicações gerais para os resultados obtidos, eventuais

correlações entre campanhas e circunstâncias políticas. Por fim, procedeu-se a uma análise agregada dos resultados obtidos por todos os grupos. Aqui, foram utilizadas abordagens quantitativas e qualitativas, de forma complementar, para testar as hipóteses de investigação propostas.

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II Revisão da Literatura

1. Os Primórdios do Estudo sobre Terrorismo e Posterior Desenvolvimento

Although terrorism has a long history, its systematic analysis has a short past

Dipak Gupta, Tyranny of data, 2006

1.1. Munique, o princípio

.

"It was a day like no other . . . The change in our universe was total" (Schiller & Young, 2010, p. 187). Foi assim, que setembro foi recordado por um director da ABC anos mais tarde. Setembro de 1972. Munique. Se discutível a amplitude da mudança, já a modificação operada no interesse dos estudos sobre terrorismo escusa qualquer argumentação. Aos acontecimentos de Munique sobreveio um notável impulso no sentido da compreensão da natureza do terrorismo e da melhor forma de o combater. Não tendo sido um atentado solitário – nesses anos os actos terroristas, particularmente no contexto do conflito israelo-árabe, tinham entrado no noticiário quotidiano –

Munique representa, ainda assim, um marco na história da literatura sobre o tema. "Although there had been a number of hijackings and other serious incidents of political violence from 1968 to 1972, it was the massacre at the 1972 Munich Olympics that took on central symbolic significance in the history of terrorism" (Stampnitzky, 2013, p. 22). A mesma autora, baseando-se em Hoffman (1984)1, afirma "[o]ther experts . . . also cited the impact of Munich when asked about the origins of terrorism expertise" (Stampnitzky, 2013, pp. 21, 22).

1

Hoffman, Robert Paul. 1984. “Terrorism: a universal definition" MA thesis, Claremont Graduate School, CA.

(29)

Um repetido e renovado impulso representou, décadas depois, o dia 11, novamente do mês de setembro. A estreita e directa relação entre acontecimentos do mundo político real e as variações na intensidade e amplitude da investigação nos campos científicos relacionados é muito evidente. "The history of security studies reveals several features about the evolution of social science. First, it illustrates how external events influence the scholarly agenda" (Walt, 1991). Alex Schmid sublinha esse paralelismo no caso específico do terrorismo, "[m]uch of the scholarship in the field of Terrorism Studies has in recent decades followed cycles of (non-state) terrorism in world Affairs" (Schmid, 2011, p. 458). Paralelismo facilmente constatável se aos períodos de maior e menor produção literária, se faz justapor a actividade terrorista ocorrida em simultâneo. Pode ser que, por vezes, a um crescimento do número absoluto de atentados não se siga de imediato um acréscimo de publicações, mas, e de forma geral, existe uma forte correlação entre o número de atentados e de publicações (cf. A. Gordon, 2004). Confirmando a norma, e ao contrário da década unipolar dos anos 90, época de acalmia e descompressão pós-guerra fria, onde o número de publicações decresceu, assistiu-se a uma extraordinária multiplicação de publicações depois de cada um dos dois grandes acontecimentos de setembro. Reid testemunha o primeiro grande surto de publicações

"In the late 1960s and 1970s, the media reported an increase in terrorism incidents. . . . As a result, more authors were recruited to analyze the problem,

collaborate on research, generate publications, and create visible presences at

institutions in the form of terrorism study groups and interdisciplinary research projects. During the "take-off" stage, the number of researchers doubled." (Reid, 1997)

Foi, pois, a partir de 1972 que os estudos sobre terrorismo verdadeiramente começaram. "The 1970s formed the 'take off ' years in terrorism scholarship" (A.

(30)

Gordon, 2004). Durante a década de sessenta, se bem que algumas importantes obras tivessem sido escritas2, os estudos sobre terrorismo foram escassos e subsumidos aos estudos mais abrangentes sobre a violência política (Reid, 1997). Depois de Munique, "a wake-up call to the international community" (Schmid, 2011, p. 50), o interesse sobre o estudo do terrorismo despertou. Os Estados Unidos foram em grande parte

responsáveis pelo florescimento destes estudos. Promoveram centros de reflexão, subsidiaram investigadores, grupos de reflexão, universidades e criaram oficialmente os seus próprios gabinetes de estudo e combate ao terrorismo. "The Olympic attack spurred the US government to take action in ways that earlier hijackings and hostage-takings had not" (Stampnitzky, 2013, p. 27). Como seria de esperar em investigações promovidas pelo governo, uma das primeiras preocupações foi a de encontrar formas de lidar e vencer a crescente ameaça. Um gabinete de combate ao terrorismo foi formado nos Estados Unidos, "[n]ot long after the events at Munich, President Nixon established the first official US government body charged with focusing on the terrorism problem" (Stampnitzky, 2013, p. 27). Seguindo o exemplo dos Estados Unidos, as Nações Unidas iniciaram também o debate sobre terrorismo, em 1972, e a Assembleia Geral mandatou uma comissão ad hoc para estudar e propor uma convenção abrangente sobre terrorismo e a sua definição (Duffy, 2005, p. 19). Foi durante os anos 70 que a palavra terrorismo entrou definitivamente no léxico da academia, dos políticos, dos media e das forças de segurança. Antes, mesmo os jornais de maior expansão não concediam destaque ao fenómeno do terrorismo, enquanto terrorismo. "A survey of major

2

De acordo com Shmid, 2011 os livros marcantes foram: Thomas P. Thornton, 'Terror as a Weapon of Political Agitation'. In Harry Eckstein (ed.), Internal

War. New York: Free Press, 1964, pp. 71–99; Eugene V. Walter, Terror and

Resistance: A Study of Political Violence with Case Studies of Some Primitive African Communities. Oxford: Oxford University Press, 1969.

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newspaper and periodical indexes found that neither the New York Times index nor the London Times index included 'terrorism' as a significant category before 1972"

(Stampnitzky, 2013, p. 23). Gradualmente, um conjunto de actos, passou a ser

designado como terrorismo quando, antes, eram classificados de muitas outras formas. "As recently as the 1960s and the early 1970s, the perpetrators of

destructive attacks . . . were only called terrorists' by a few. It was just as common for people to label the extremists of the era as 'revolutionaries,' 'insurrectionists,' 'militants,' 'new left radicals,' 'Bolsheviks,' 'Communists, 'anarchists,' 'mad bombers' . . . By the early 1970s, the term terrorism began to be applied to acts of extreme political violence. The perpetrators came to be called terrorists." (Dyson, 2008, pp. 19, 20)

Com a generalização do uso do vocábulo terrorismo, foi-se construindo simultaneamente, uma ideia, um conceito, uma imagem do, aparentemente, novo fenómeno. À medida que as primeiras conferências foram tendo lugar, as primeiras publicações periódicas nascendo e as primeiras bases de dados lentamente construídas, o conceito de terrorismo, ou, um conceito de terrorismo, foi-se consolidando. Munidos deste conceito recém-formado, os, também recentes, teóricos começaram a utilizá-lo retrospectivamente, quer dizer, passaram a rebaptizar eventos passados à luz das inovações conceptuais emergentes. "(O)nce the new coinage had solidified, experts began to apply the term retrospectively to past events, which were thus opened to the possibility of reconceptualization through the framework of 'terrorism'" (Stampnitzky, 2013, p. 25).

Nesta primeira vaga de interesse sobre o estudo do terrorismo apareceram naturalmente os primeiros especialistas. Lamentado posteriormente (Crenshaw, 1992; Schmid, 2011), estes primeiros teorizadores trataram de individualizar os estudos sobre terrorismo num novo território científico e lançaram as primeiras fundações da nova

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disciplina, mais como um campo de conhecimento autónomo do que como um ramo do domínio mais vasto da violência política. "Rather than treating aspects of terrorism merely as sub-categories of political violence, armed conflict, guerrilla warfare or insurgency, they began to conceptualize it as something sui generis" (Schmid, 2011, pp. 458, 459). Circunstãncia também confirmada por Stampnitzky "[t]errorism studies did not develop as an outgrowth of a pre-existing discipline" (Stampnitzky, 2013, p. 44). Esta particularização marcou, segundo Martha Crenshaw, negativamente a posterior evolução da investigação:

"political terrorism . . . is typically isolated from the broader field. There are advantages to be gained from integrating research on terrorism into the analysis of political violence. . . . Situating the study of terrorism in the broader field could point analysts towards problems of significance to a larger community of scholars."

(Crenshaw, 1992)

Os anos 70 assistiram, não apenas ao nascimento dos estudos sobre terrorismo mas, também, ao reconhecimento dos primeiros estudiosos sobre terrorismo

(Stampnitzky, 2013, p. 7). Mas quem eram e donde vinham esses primeiros especialistas?

Os grandes momentos dramáticos que o terrorismo coreografou no princípio de década de 70, plenamente justificaram a célebre expressão de Jenkins "Terrorism is theater" (Jenkins, 1974). Funcionaram, ao mesmo tempo, como um intenso campo magnético para académicos de áreas relacionadas com a violência política e, ainda, para académicos pertencentes a áreas científicas muito mais longínquas, como se de uma demonstração da lei Sengupta se tratasse. "Sengupta's Law of Bibliometrics states that: during phases of rapid and vigorous growth of knowledge in a scientific discipline, articles of interest to that discipline appear in increasing number in periodicals distant

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from the field" (A. Gordon, 2004, p. 105). Não existindo uma formação específica prévia, os primeiros peritos confluíram para o estudo do terrorismo oriundos de diversos domínios (Stampnitzky, 2013, p. 44). Relativamente pequena, comparada com os dias de hoje, a primeira comunidade científica era "academically diverse. It attracted a handful of political scientists, sociologists and military strategic experts" (Ranstorp, 2007, pp. 3, 4). A primeira conferência sobre terrorismo, organizada pelo departamento de estado americano, incluiu entre os seus participantes, rotulados de especialistas, figuras vindas de áreas tão distintas como intelligence, ciência política, ciências militares, sociologia, psicologia ou comportamento colectivo (Stampnitzky, 2013, p. 40). Um dos autores pertencente ao núcleo inicial, Bowyer Bell, recorda que no início não havia nenhum especialista

"only those with special academic skills (a knowledge of the Palestinian Fedayeen, or a career focused on deviant behavior) that could be related to the problem. Those threatened by the terrorists, however, needed advice, recommendations, aid, and comfort; if the recommendations worked, no matter how bizarre, so much the better." (apud Stampnitzky, 2013, p. 30)

Ao mesmo tempo que a reflexão sobre terrorismo seduzia um conjunto muito alargado e disperso de pessoas, gerava poucas fidelidades nesta comunidade tão diversa quanto volátil. Uma das características das publicações deste período, e de uma

constância que se expande para além desses anos, é a de que a grande maioria dos autores eram autores de um único artigo. De facto, a temática seduzia um importante número de estudiosos mas efemeramente. "There are few social scientists who specialize in this study area. Most contributions in this field are ephemeral."(Ariel Merari apud Schmid & Jongman, 1988, p. 177).

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Assinantes de artigos por uma vez só, não foi apenas uma circunstãncia dos primórdios dos estudos sobre terrorismo. Tem-se revelado uma característica endémica desta área de estudo e prolongado década após década. Andrew Silke fez um

levantamento dos artigos publicados na década de 1990, nos dois mais importantes jornais da disciplina, Terrorism and Political Violence e Studies in Conflict and

Terrorism, e o Quadro 1 retrata de forma expressiva as conclusões a que chegou.

Quadro 1. Padrões e tendências na publicação (anos 90s). Periódico Autores de um único

artigo

Autores de dois ou mais artigos

Artigos Autores de um único artigo (%)

TPV 232 50 295 78%

SICAT 187 18 195 90%

Combinados 403 69 490 83%

Adaptado de (Silke, 2004b, p. 190).

Apesar do altíssimo número de contribuições de um único artigo, surgiu um pequeno número de investigadores que foram, contrariando a moda, persistindo nas suas investigações. Passando pelos filtros da consistência e perseverança, viriam a ser reconhecidos como o núcleo central dos estudos sobre terrorismo. "There were only a handful of academic researchers who took 'terrorism' seriously at that time" (Schmid, 2007). Como Laqueur recordou mais tarde, "in the beginning, there were maybe half a dozen people" (Laqueur apud Stampnitzky, 2013, p. 30). A situação não se alterou muito até 2001. "Only a handful of academics toiled away individually to provide some social scientific meaning. (Ranstorp, 2009, p. 13).

Os conceitos básicos, os primeiros estudos exploratórios e as primeiras tipologias foram sendo elaboradas por esse pequeno núcleo central que se ia

constituindo e afirmando mas, também, por aqueles investigadores de únicas incursões intelectuais que por vezes deixavam marca. Os estudos sobre terrorismo eram um enorme campo de investigação aberto e à disposição de quem quisesse adicionar contributos. A disciplina foi, e em certo sentido ainda o é, marcada por fronteiras

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indistintas, sem numerus clausus, fasquias ou pré-condições para quem manifestasse o desejo de entrar. Particularmente aberta "to challenges from self-proclaimed experts from the media and political fields" (Ranstorp, 2009, p. 15). Ideia reforçada por Lisa Stampnitzky na sua dissertação de doutoramento: "[a] high proportion of those writing on the topic have no significant background in the topic. Enblematically, experts have themselves complained that the field is filled with 'self-proclaimed experts'

(Stampnitzky, 2008, p. 141). Vários autores ratificam o julgamento da situação (A. Gordon, 2001), e Ranstorp acrescenta "any retrained Soviet specialist or international relations generalist can in theory and practice become a specialized terrorism 'expert' overnight (Ranstorp, 2009, p. 14).

A falta de regras e estruturas que disciplinassem o novo campo de investigação, a ausência de um corpo académico capaz de aferir o grau de especialista em estudos de terrorismo (Stampnitzky, 2008), era patente nos anos 70, e, segundo Ranstorp, patente ainda hoje. "Hence, even journalists, like Peter Bergen, without PhD or social scientific training in methodology or theory but with privileged access from the terror frontlines, have become the new form of 'pseudo-academic' terrorism expert" (Ranstorp, 2009, p. 15). A percepção geral é a de que os estudos sobre terrorismo estão prestes a "to

become a specialty" (A. Gordon, 1999). Mas, entre outros problemas a solucionar, falta a "institutionalization of terrorism research as an academic teaching field in social sciences. Academic departments within a university play a central role in the establishment of a disciplinary authority structure" (A. Gordon, 1999).

A percepção sobre terrorismo, a sua natureza, causas e objectivos foi sendo construída por uma alargado universo de contribuições que, de certa forma, perdura até aos nossos dias. A abertura desta área, combinada com a sua mediatização e

(36)

discurso sobre terrorismo não se limitem à academia, mas "in the boundary spaces between the fields of academia, journalism, and the political, military, and bureaucratic arms of the state" (Stampnitzky, 2008, p. 137). Situação um pouco excepcional, "few, if any social science disciplines exhibit a comparable symbiosis between the government, academia and the media" (Schulze, 2004). Este aspecto. se bem que contenha algumas virtualidades, introduz alguma perturbação. Merari sintetiza as vantagens e

desvantagens da porosidade que tem caracterizado este campo científico.

"the majority of the academic contributions in this area have been done by people whose main research interests lie elsewhere, who felt that they had something to say on this juicy and timely subject . . . The result has been, sometimes an unexpected fresh look at the issue, which carried a promise of generating a new line of research, but more often it has a superficial treatment of a singular aspect of the problem, ignorant of the complex and heterogeneous nature of terrorism, at times suffering from factual errors." (Merari, 1991)

Foi, como referido acima, a década de 70 que viu nascer e identificou um

pequeno grupo de estudiosos como o núcleo central dos estudos em terrorismo. "By the late 1970s a core group of terrorism scholars, sometimes informally referring to

themselves a `terrorism mafia`, had emerged" (Stampnitzky, 2013, p. 42). Nomes como David Rapoport, Brian Crozier, Martha Crenshaw, Brian Jenkins, Paul Wilkinson, Walter Laqueur, Yonah Alexander, Alex Schmid, Ariel Merari, J. Bowyer Bell e Yonah Alexander entre outros dedicaram-se ao estudo do terrorismo e publicaram as obras fundadoras nesta área (Stampnitzky, 2013, p. 41). Como contraponto à vaga surgida no pós 11 de setembro, Robert Pape chama a esse conjunto de nomes, a primeira vaga:

"It is useful to think of progress in the study of terrorism as divided into two waves. The first wave was published mostly in the 1970s, 1980s, and 1990s by

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such scholars as David Rapoport, Walter Laqueur, Brian Jenkins, Jerrold Post, Ariel Merari, Martin Kramer, Bruce Hoffman, and Martha Crenshaw, some of whom are continuing to make contributions in the present day." (Pape, 2009)

Estes primeiros autores vinham, como referido, de áreas bem distintas,

justificando Sinai, "[t]errorism studies are by nature interdisciplinary" (Sinai, 2007, p. 32). Interdisciplinaridade resultante das possibilidades que o fenómeno em-si encerra, potenciando e desafiando o uso de diferentes lentes para a sua descodificação. "The study of terrorism can indeed be approached from different disciplines such as criminology, political science, war and peace studies, communication studies or

religious studies; as a consequence, one can interpret terrorism in different frameworks" (Schmid, 2011, pp. 1, 2)

A diversidade já referida, é facilmente verificável olhando para os autores da primeira vaga. Brian Crozier, depois de ter estudado piano e composição em Londres, trabalhou nos serviços de informações antes de se fixar nos estudos sobre terrorismo; David Rapoport veio da área da ciência política e professor na Universidade da Califórnia; Walter Laqueur era historiador; Brian Jenkins com uma formação de base em pintura, obteve um doutoramento em História e assumiu a direcção da investigação em terrorism na RAND; Jerrold Post era professor de psiquiatria e psicologia política; Ariel Merari era professor de psicologia; Martin Kramer, professor, com um

doutoramento em estudos do médio oriente pela Universidade de Princeton; Martha Crenshaw, doutorada em ciência politica com uma dissertação sobre a guerra da Argélia; Alex Schmid doutorado em História e Yonah Alexander doutorado pela universidade de Columbia. Estes foram os principais nomes que foram sendo identificados, e hoje reconhecidos, como os primeiros especialistas. Como Ranstorp

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sintetizou "largely the confines of a rather varied collegiate of scholars hailing from diverse disciplinary backgrounds" (Ranstorp, 2009, p. 19).

Esta dúzia de académicos revelou-se muito produtiva e a década de 70 foi explosiva na multiplicação de artigos e livros dedicados ao terrorismo. Um dos elementos do núcleo original, Yonah Alexander, organizou entre 1976 e 1979 várias conferências. Fundou (1978) o primeiro jornal especializado em terrorismo –

Terrorism, an International Journal que mais tarde (1992) se fundiu com um outro

jornal entretanto criado, Studies in conflict, para nascer Studies in conflict and terrorism ainda hoje em actividade (Schmid, 2011, p. 460; cf. Stampnitzky, 2013, p. 43). Nos anos imediatamente a seguir a Munique, "terrorism was transformed from a problem with almost nothing written on it to a topic around which entire institutes, journals, and conferences were organized" (Stampnitzky, 2013, p. 30).

Este crescimento bem vincado (figura 1), mereceu de Schmid as seguintes palavras "authors have spilled almost as much ink as the actors of terrorism have spilled blood" (Schmid & Jongman, 1988, p. xiii). Pode-se ainda observar que, embora o crescimento tivesse continuado sólido nas décadas seguintes, houve um abrandamento na sua curva de crescimento, modelo que segue "the 'S-Shape' Growth Curve Theory, which states that as soon as the literature growth becomes very rapid, an opposite trend starts, causing the death of the growth process (a kind of fall after saturation)" (A. Gordon, 2004, pp. 110, 111).

(39)

Figura 1. O crescimento das publicações sobre terrorismo.

Fonte: (A. Gordon, 2004, p. 111).

Os anos 70 foram, em suma, os anos de lançamento dos estudos sobre

terrorismo. No fim da década, já o terrorismo era "a hot topic of discourse within both political and academic realms" (Stampnitzky, 2013, p. 24).

1.2. 11 de setembro.

Quando surgiu o 11 de setembro, e apesar de algumas novas e importantes aquisições, o núcleo essencial dos estudos sobre terrorismo era, na sua maioria,

composto pelos cientistas vindos dos anos 70. Tanto os atentados de 2001 em-si, com a sua grandiosidade inigualável, classificada pelo compositor Karlein Stockhausen "the greatest work of art that is possible in the whole cosmos" (apud Holsinger, 2010, p. 94), como a longa reverberação gerada, produziram um inevitável impacto nos estudos sobre terrorismo, repercutindo, de forma potenciada, Munique. Confirmando a relação entre factos sociais e investigação científica, à dimensão dos atentados correspondeu uma explosão no número de publicações. Fenómeno já verificado no rescaldo de Munique, mas agora catapultado para níveis, antes, inimagináveis. A magnitude e o impacto dos atentados de 2001 projectaram o terrorismo para o primeiro plano da agenda

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internacional e da "relative periphery into the absolute vortex of academic interest and policy concern worldwide" (Ranstorp, 2007, p. 4; cf. Ranstorp, 2009, p. 19).

O crescimento de trabalhos académicos foi avassalador. De 300%, na opinião de Richard Jackson (apud Shepherd, 2007). O crescimento na publicação de livros foi exponencial (figura 2). Referindo-se apenas ao universo anglo-saxónico, Andrew Silke estimou que, durante os anos seguintes ao 11 de setembro, um novo livro sobre

terrorismo foi publicado em cada seis horas (apud Shepherd, 2007). O resultado final de todo este ímpeto académico foi o de confirmar a disciplina como "one of the fastest-growing areas of social scientific research in the English-speaking world . . . There are literally thousands of academic books, articles, reports and PhD dissertations published every year on terrorism" (Jackson, 2009b).

Figura 2. Livros publicados com a palavra terrorism no título, 1995–2007.

Fonte: (Silke, 2009, p. 35).

Também os artigos académicos sofreram um forte acréscimo. Se em 2000 tinham sido publicados 133 artigos, o número cresceu para 502 artigos em 2007 (Silke, 2009, p. 35). Os periódicos especializados aumentaram o número de edições por ano. A revista Studies in Conflict and Terrorism publicava quarto números por ano e passou a publicar mensalmente (Silke, 2009, p. 35). Novas publicações apareceram como

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Vários estudos atestam o acréscimo de publicações depois de 2001 (Lum, Kennedy, & Sherley, 2005; Silke, 2009). Num estudo efectuado em 2003, publicado em 2005, foram pesquisadas várias bases de dados de artigos científicos, incluindo de temas tão diversos como economia, educação, geografia, medicina, justiça criminal, sociologia, direito e ciência política. Foram identificados no total 14.006 artigos sobre terrorismo, dos quais 6.041, artigos revistos por pares. Cerca de 54% do universo total foram publicados nos anos de 2001 e 2002, mostrando, com clareza, o impacto dos atentados de setembro sobre o crescimento da literatura, como se pode ver na figura 3. Figura 3. Distribuição por ano das publicações sobre terrorismo (% do total).

Fonte: (Lum et al., 2005).

Os estudos sobre terrorismo tornaram-se virais em função da onda de atenção provocada pelos atentados. Uma outra razão, deve-se ao crescimento dos apoios financeiros para a investigação, "terrorism studies is now a stand-alone subject entering a golden age of research . . . now receives unprecedented levels of academic interest and funds" (Shepherd, 2007).

Com os debates sobre o terrorismo no palco mundial, os velhos autores ganharam novo protagonismo. Relidos e de novo discutidos. Descobertos nalguns

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casos. Estes momentos de convulsão e arrebatamento intelectual geraram, à imagem de Munique, um renovado surto de novos autores, repetindo-se o ambiente pós-Munique,

"after the shock of 9/11, as federal money poured in, scholars from various fields took the bait: psychologists, sociologists, anthropologists, political scientists, historians, economists, engineers, and computer scientists immediately developed an interest in the topic." (Sageman, 2013)

Renovação que não deixou de trazer uma nova vitalidade e novos talentos "offering fresh analytical angles and contextual and cultural depth (Ranstorp, 2009, p. 22). Se durante os anos 90, alguns novos e importantes nomes tinham já emergido, aquilo a que Pape chama a segunda vaga de autores, surgiu em força depois de 2001 (Pape, 2009).

Se bem que haja um grande número de similiaridades e alguma continuidade entre a primeira e a segunda vaga de autores, há diferenças assinaláveis.

Os autores da primeira vaga procuraram compreender os aspectos mais

essenciais do terrorismo: o que era? Quais as suas origens? Quais as suas causas? Quais os seus objectivos? Como se organizavam, funcionavam e sobreviviam as organizações terroristas? Como se podia e devia combater esse tipo de violência? Questão

particularmente aguda e vital para os governos que, como principal fonte de subsídios da investigação, indicavam, de alguma forma, o sentido da procura numa perspectiva estatal (Ranstorp, 2009, p. 13).

Uma avaliação das três décadas de investigação até ao 11 de setembro não pode deixar de constatar a substancial aquisição de conhecimentos conseguida. Não pode, também, deixar de sublinhar as lacunas que se registaram. Em primeiro lugar, o

problema da definição. Os académicos revelaram-se incapazes, com repercussões muito negativas para a evolução da disciplina, de produzir uma definição consensual. Este

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problema será retomado e analisada no capítulo IV. Em segundo lugar, o problema da metodologia, "the research on terrorism has been bereft of empirical research, a problem which has been endemic in terrorism research" (Lum et al., 2005).

A esmagadora maioria dos autores durante a primeira vaga não seguiam metodologias rigorosas (Michael Stohl, 2006, p. 25).

O estudo de Lum atrás referido, mostra que o padrão das investigações não mudou de imediato a seguir a 2001, "when only examining the research conducted in 2001 and 2002, the proportion of empirical or case studies was similar (Lum et al., 2005).

Figura 4. Metodologia na Investigação sobre terrorismo.

Fonte: (Lum et al., 2005).

É aqui, que as diferenças entre as duas vagas deixam de ser apenas cronológicas e se revelam substanciais com diferênças epistemológicas acentuadas.

Na perspectiva dos autores da segunda vaga muitas das conclusões obtidas pelos primeiros autores

"better fit the category of what Popper (1934) might caustically designate as 'wisdom' rather than 'science'. Thus, the assembled wisdom might be correct but the demarcation between wisdom and science that would allow proposing the necessary

Obras de opinião; 96% Estudos de caso; 1% Investigação empírica; 3%

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conjectures, collecting the appropriate data and subjecting those conjectures and data to tests which might arguably demonstrate their falsifiability has not yet met the standards of social science epistemology." (Michael Stohl, 2006, p. 28)

"Terrorists like a lot of people watching… rather than a lot of people dead" (Jenkins, 1975, p. 15). Esta é uma das mais célebres e citadas frases sobre terrorismo. Simbolizando e condensando o conhecimento tradicional dos estudos académicos, foi sendo constantemente repetida e glosada ao longo das últimas décadas. Sem dúvida apelativa e impressiva, é vista por Ranstorp como mais uma das "relatively meaningless generalisations and statements" (Ranstorp, 2007, p. 7). Esta declaração ilustra o modo distinto de entendimento sobre os caminhos percorridos e a percorrer pela investigação. Foi esta busca de cientificidade que os novos autores procuraram inocular nos estudos do século XXI. E a falta dela que impediu os novos investigadores de declararem com Newton "standing on the shoulders of Giants." Para os autores da segunda vaga e não obstante a crescente relevância do tema do terrorismo, "if one had to characterize the current state of the discipline it would resemble a process of ossification" (Schulze, 2004).

Vários elementos da primeira geração tinham porém, note-se, plena consciência desta lacuna. Estava identificada e, até, de forma muito precisa.

"It is our approach to knowledge about terrorism that is the underlying cause of the continuing inability to accumulate and test knowledge claims . . . that knowledge claims need to be subjected to testing and that the key to testing is the principle of falsifiability greater consistency in definition, operationalization, data collection, hypothesis formulation and testing needs to be applied to the study of terrorism." (Michael Stohl, 2006, p. 29)

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Também uma das decanas dos estudos sobre terrorismo, Martha Crenshaw é, da mesma maneira, muito lúcida na sua apreciação:

"Even the most persuasive of statements about terrorism are not cast in the form of testable propositions . . . In general, propositions about terrorism lack

logical comparability, specification of the relationships of variables to each other, a rank ordering of variables in terms of explanatory power." (Crenshaw, 1981)

Alex Schmid, na sua grandiosa obra sobre terrorismo, Political terrorism, não deixa de sublinhar o mesmo problema. "Much of the writing is . . . impressionistic, superficial" (Schmid & Jongman, 1988, p. 177). Schmid e Jongman salientaram que havia poucas áreas na literatura das ciências sociais onde "[p]erhaps as much as 80 percent of the literature is not research-based in any rigorous sense" (Schmid & Jongman, 1988, p. 179). Também para Merari, o conhecimento académico que tem sido adquirido "[s]ometimes resembles hearsay rather than twentieth century science. I am not trying to belittle the role of speculation, but to emphasize the importance of empirical research and the need to differentiate between speculation and research" (Merari, 1991).

Os autores da segunda vaga e a nova investigação mostraram-se muito conscientes da ausência de fontes primárias em investigações anteriores e trouxeram uma ampla gama de novos métodos nos tratamento dos dados recolhidos, sem negar, no entanto, outra formas de conhecer, "thought pieces certainly have their own value in furthering the understanding of any topic (Lum et al., 2005).

Um estudo de 2001, ilustra bem a diferença de utilização de métodos estatísticos entre três áreas científicas diferentes e a evolução do emprego de métodos estatísticos nos estudos sobre terrorismo.

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Figura 5. Análise comparativa do uso de estatísticas em ciências sociais, 1995-1999.

Fonte: (Silke, 2001).

Figura 6. Evolução do uso de análises estatísticas na investigação sobre terrorismo, 1995–2000.

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Anos mais tarde, Silke voltou a analisar o problema. Observa-se que nos estudos imediatamente a seguir ao 11 de setembro, o uso de métodos estatísticos subiu de 19% para quase 26%. Esse acréscimo traduziu-se ainda numa maior utilização da estatística inferencial (figura 7).

Figura 7. Percentagem de artigos usando análises estatísticas.

Fonte: (Silke, 2009, p. 41).

Partilhando esta abordagem epistemológica, os nomes mais relevantes da segunda vaga basearam as suas investigações em bases de dados, agora de mais fácil acesso e utilizaram metodologias científicas. "All newcomers to the terrorism studies field . . . have constructed their own detailed . . . from which they have drawn analysis and trends" (Ranstorp, 2009, p. 22)

O que se começou a fazer nos estudos sobre terrorismo foi, no fundo, replicar métodos de outras ciências e seguir trajectos já percorridos, até por campos afins, como o dos estudos sobre segurança.

"Competing views were increasingly based on systematic social scientific research rather than on unverified assertions . . . as many critics have noted, the early works in security studies offered little empirical support for their conclusions and prescriptions." (Walt, 1991) 0,0% 2,0% 4,0% 6,0% 8,0% 10,0% 12,0% 14,0% 16,0% 18,0% 20,0% Pré 9/11 2002-2004 2005-2007 Estatística Descritiva Estatística Inferencial

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O que Walt refere ter acontecido nos estudos de segurança funciona como um roteiro para os estudos sobre terrorismo.

"Security studies seeks cumulative knowledge about the role of military force. To obtain it, the field must follow the standard canons of scientific research: careful and consistent use of terms, unbiased measurement of critical concepts, and public documentation of theoretical and empirical claims . . . they are the principles that make cumulative research possible." (Walt, 1991)

Sem se poder afirmar que assistimos a uma mudança radical na primeira década do século XXI, tem-se verificado um acréscimo de trabalhos conformados a uma estrita metodologia científica. Não tendo sido, no entanto, suficiente para estabelecer o

equilíbrio na literatura, começam a notar-se mudanças no padrão da investigação (Silke, 2009, p. 47).

A revolução tecnológica ajudou também a este redireccionamento na

investigação, particularmente pela crescente "availability of data on terrorist events" (Sandler, 2011), com a construção de grandes bases de dados como a Global Terrorism Database (GTD) da universidade de Maryland ou a base de dados da Rand Corporation.

A falta de estudos utilizando métodos quantitativos era evidente. Ao mesmo tempo, o ímpeto que se começou a imprimir em novas investigações, no sentido da inclusão de métodos quantitativos, tem provocado algum temor de que se venha a cair no pólo oposto. "[S]scholarship has gone too far in the direction of quantitative methods. A prejudice in favor of elegant models and statistics, sometimes based on poor-quality data . . . It reflects a fashion in social science more broadly" (Horgan & Stern, 2013).

Os cuidados a ter com as novas abordagens e os perigos que delas podem derivar são objecto de atenção. Alerta-se para os casos em que é a metodologia a guiar a

Imagem

Figura 1. O crescimento das publicações sobre terrorismo.
Figura 2. Livros publicados com a palavra terrorism no título, 1995–2007.
Figura 3. Distribuição por ano das publicações sobre terrorismo (% do total).
Figura 4. Metodologia na Investigação sobre terrorismo.
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