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Objectivos, Escala de Objectivos

III Quadro Conceptual

5. Objectivos, Escala de Objectivos

Terrorist ideology, no matter how unrealistic, must be taken seriously as a guide to intentions

Rapoport O terrorismo é um método de acção que visa fins políticos. Todos os grupos procuram alcançar algum tipo de objectivo político. Grandiosos ou limitados, utópicos ou realistas. Em nome de uma ideologia ou em nome de Deus, os propósitos políticos são inescapáveis. Em todas os conflitos, e o terrorismo é uma forma assimétrica de conflito (Buley, 2007, p. 15; Garcia, 2009), os bons princípios estratégicos, impõem planificação, encadeamento de acções e campanhas com diferentes propósitos, concorrentes para o fim pretendido. O próprio conceito de estratégia, "the use of engagements for the object of the war" (Clausewitz, 2007, p. 74), implica a existência de etapas para a obtenção do objectivo último. Pode-se até dizer, ressalvadas as devidas diferenças, que os movimentos terroristas mais elaborados utilizam também aquilo que

se tem chamado a grande estratégia. Se bem que o conceito seja usualmente guardado para os estados, a comparação impõe-se. A grande estratégia é visível nalgumas organizações, que incluem todos os recursos disponíveis "in pursuit of a continuing political influence" (Dolman, 2005, p. 26). Utilizam de forma integrada as técnicas de comunicação, as influências de que dispõem, a estratégia militar, a psicologia de massas e os recursos financeiros. Um plano estratégico global não é apenas composto de um objectivo particular mas de uma multiplicidade de objectivos, maiores ou menores, que se entrelaçam e complementam. Muitas vezes escalonados e organizados por

precedências, em que a realização do objectivo último depende de prévios sucessos. O decurso da existência destes movimentos é feito de múltiplos momentos e múltiplas etapas, em que o foco da luta se fixa muitas vezes em objectivos mais imediatos, numa tentativa de acumulação de pequenos êxitos que conduzam aos fins políticos

procurados. Se, por exemplo, uma organização pretender a secessão de um determinado território, esse é o objectivo último que, provavelmente, durará vários anos. No decurso desse processo, amplo e demorado, inúmeras escaramuças se sucederão pela obtenção de ganhos: financiamento, a mudança de uma determinada política, a comunicação de uma determinada mensagem ou a intimidação coerciva de um fragmento da população. Estratégia global que se pretende realizar, muitas vezes, através de pequenos passos. "Some organizations hold multiple goals and may view one as facilitating another" (Kydd & Walter, 2006). Cada grupo tem os seus objectivos finais e tem, também, muitos outros objectivos específicos no decorrer da sua actividade. O modo como se ordenam e a sequência lógica dos objectivos a atingir, fazem parte do plano estratégico da organização que "often have hierarchies of objectives, where broader goals lead to more proximate objectives" (Kydd & Walter, 2006).

Quais são então esses objectivos, maiores ou menores, que os grupos perseguem e qual a razão de os determinar?

Um estudo sobre a utilidade do terrorismo implica uma valoração global da actividade do grupo e, também, uma valoração sobre os resultados obtidos nas

campanhas parciais realizadas. Quer-se avaliar do sucesso obtido, susceptível de variar entre o sucesso absoluto e o falhanço total. A paleta não é dicromática. Nesse sentido, é necessário perceber os fins últimos das diversas organizações.

Nesta investigação consideram-se um vasto leque de objectivos, não apenas os objectivos últimos de cada organização mas, também, os objectivos de cada campanha específica, divididos de acordo com a teoria presente na literatura e seguindo a

recomendação de Krause "for an accurate picture of terrorist coercion to be presented and understood, scholars must consider the full range of nonstate groups' coercive objectives" (Krause, 2009).

De forma geral, tem sido feita na literatura a divisão entre dois tipos de

objectivos, "terrorism has two purposes – to gain supporters and to coerce opponents" (Pape, 2003). Esta diferenciação essencial tem merecido diferentes nomenclaturas em distintos autores, como: "process goals/outcome goals" (Abrahms, 2012),

"minimal/optimal" (Martin, 2006, pp. 347, 348), "proximate or short-run objectives/long-run goals" (Crenshaw, 1981), "secondary and primary goals" (Richardson, 2007, pp. 98-100). Apesar de nomenclaturas diferentes, os diferentes autores falam, de forma geral, do mesmo. O primeiro tipo de objectivos, chamem-se processuais, mínimos, ou de curto prazo, são comuns a todas, ou praticamente todas, organizações. Incluem-se neste tipo, segundo Thomas Thornton (apud Schmid & Jongman, 1988, p. 50), o fortalecimente/enaltecimento da moral dos militantes e da população que lhes é afecta, a publicitação da causa perante uma audiência mais vasta

do que a dos simpatizantes, agitação social, eliminação de forças oponentes, instilação de medo nos opositores que se perguntarão se serão os próximos e a tentativa de

provocar uma violenta repressão pela parte do estado. Marighella já tinha teorizado este último ponto, mantendo que para responder aos ataques, o governo tinha que

intensificar a repressão.

"A rede da polícia, as buscas em casas, a prisão de pessoas inocentes e de suspeitos, ou fechar as ruas, e fazer a cidade insuportável. Os assassinatos políticos e o terror policial se fazem rotina….As pessoas se recusam a colaborar com as autoridades, e o sentimento geral é o de que o governo é injusto." (Marighella, 1969, p. 57)

Tema, aliás, muito tratado na literatura. "One of the goals of terrorism is to incite an overreaction on the part of government forces" (Bloom, 2005a, p. 107). Repressão governamental que é assumida como uma vitória dos terroristas. "Typically, terrorists win when their outrages . . . induce the state-victim to overreact . . . which fatally imperils its own political legitimacy" (Gray, 2002).

Estes objectivos processuais são muito importantes nas campanhas terroristas. Da propanga obtida pelo detonar de uma bomba, espera-se o recrutamento de novos elementos, mais apoio do público potencialmente simpatizante da causa, consequente suporte financeiro, a deslegitimação do governo e a destabilização da sociedade em geral. No fundo, a ideia nuclear do terrorismo russo dos finais do século XIX, a célèbre propanganda pelos actos, "a tool for spreading the word of the insurrection, expanding its popular base, and thus serving as a lever for and prelude to a more advanced form of insurrection" (Chaliand & Blin, 2007, p. 40).

Gus Martin reitera Thorntorn quanto aos objectivos processuais: a publicitação da causa, a criação de um ambiente psicológico de medo, a ruptura da normalidade social (Martin, 2006, p. 348). A vingança e a retaliação (Schweitzer, 2000), "[v]iolence

is often retaliatory" (Bloom, 2005a, p. 20), podem ser também objectivos de curto prazo, não obstante a dimensão estratégica dissuasora que a retaliação pode atingir.

Há demasiados possíveis objectivos nesta categoria, de tal forma que "[a] comprehensive listing of short-term tactics would be ludicrous" (Cronin, 2009, p. 80). Todos estes objectivos serão aqui classificados como objectivos instrumentais e existe um razoável entendimento sobre a sua natureza (Abrahms, 2012; Crenshaw, 1981; Fromkin, 1975; Martin, 2006, pp. 347, 348; Purpura, 2007, p. 62). Há na literatura o entendimento de que, de forma geral, o terrorismo consegue estes objectivos

instrumentais (Abrahms, 2012; Cronin, 2009, p. 77). Isto está longe de ser claro. Ataques de extrema violência podem, por exemplo, afastar possíveis simpatizantes , como referido por alguns autores (Gray, 2002; S. Jones & Libicki, 2008, p. 25).

Contrariamente a outros modelos prévios, a avaliação do sucesso destes

objectivos instrumentais impõe-se e deve ser feita em cada caso através de uma análise qualitativa.

O segundo tipo de objectivos consideram-se estratégicos. Aqueles que correspondem aos propósitos programáticos e políticos da organização, "their stated political ends, such as the realization of a Kurdish homeland, the removal of foreign bases from Greece, or the establishment of Islamism in India" (Abrahms, 2012).

Dentro dos objectivos estratégicos, alguns têm permanecido constantes nos programas das organizações através do tempo: mudança de regime, tentativas

sessionistas, mudança de políticas, manutenção do status quo, ou controlo social entre outros (Kydd & Walter, 2006).

Temos assim uma primeira distinção entre objectivos que são procedimentais e comuns a todas as organizações e objectivos estratégicos de carácter político.

Quadro 12. Objectivos atribuídos aos grupos terroristas.

Objectivos Comuns/procedimentais Objectivos Políticos Propaganda

Ambiente psicológico de medo Desestabilização social/deligitimação do governo

Legitimação Recrutamento

Provocar a sobrereacção do governo Enaltecimento da moral

Vingança

Aniquilação de um estado Mudança de Regime

Mudança territorial/Auto-determinação Mudança de uma política concreta Ultrapassar os rivais

Manutenção do Status Quo/impedir acordos Controlo social

Dissuasão

Expulsar forças ocupantes/peacekeepers Alterar relações entre estados

Danos económicos e psicológicos Eliminação de forças opositores

Os objectivos estratégicos não têm todos o mesmo grau de dificuldade. É diferente construir um novo califado ou impedir a implementação de uma determinada política. Classificar a obtenção de um destes objectivos como um sucesso "without consideration of the scale of the objective would be to miss the key part of the entire coercive story" (Krause, 2009). Assim, exige-se uma nova divisão entre os objectivos estratégicos em função da sua magnitude. Considerando uma escala de dificuldade, adoptamos os conceitos de objectivos limitados e maximalistas provenientes da literatura da coerção e adoptados por Abrahms. "In the international mediation

literature, limited objectives typically refer to demands over . . . maximalist objectives, on the other hand, refer to demands over beliefs, values, and ideology" (Abrahms, 2006b). Objectivos estratégicos maximalistas são, por exemplo, a aniquilação de um estado, como Israel, ou o derrube e substituição de um regime por outro. Objectivos estratégicos limitados são, por exemplo, conseguir a autonomia ou a independência de um terrirório e a expulsão de forças militares estrangeiras.

Existem ainda outro tipo de objectivos estratégicos a que Abrahms chama de idiossincráticos "campaigns aiming to eliminate other militant groups . . . or sever relations between states" (Abrahms, 2006b). Outros se podem acrescentar como retaliação ou dissuasão. "Suicide attacks also served the organization as a weapon of

retaliation and deterrence against Israel (Schweitzer, 2000). São objectivos muitas vezes conjunturais como impedir um acordo de paz, ultrapassar em influência um grupo rival, manutenção do status quo/impedir acordos, controlo social, alterar relações entre estados. Estes objectivos são aqui classificados como conjunturais.

Temos assim um amplo espectro de objectivos utilizados pelas organizações terroristas.

Quadro 13. Classificação dos objectivos dos grupos terroristas.

Instrumentais Estratégicos

Conjunturais Limitados Maximalistas Propaganda Ambiente psicológico de medo Desestabilização social, desligitimação do governo Legitimação Recrutamento Provocar a reacção do governo Enaltecimento da moral Vingança Mudança de uma política concreta Ultrapassar os rivais Manutenção do Status Quo Controlo social Alterar das relações entre estados Eliminação de forças opositores Libertação de prisioneiros Mudança territorial Auto-determinação Expulsar forças ocupantes Aniquilação de um estado Mudança de Regime Construção de um califado

Esta divisão é absolutamente imprescindível. Se pretendemos avaliar dos ataques suicidas em todas as suas dimensões é imperioso classificar os objectivos em diferentes tipos. Não se pode considerar equivalentes a mudança de um regime ou a libertação de um prisioneiro.

Como antes se viu, alguns dos problemas observados em estudos anteriores passam pela ausência de diferentes categorias de objectivos. Abrahms estreita o leque dos objectivos apenas a objectivos estratégicos últimos e Pape não considera uma divisão dos objectivos em diferentes categorias.

Pretende-se que os objectivos sejam tratados diferentemente em função da sua natureza, estratégica ou instrumental.