CAPÍTULO I PRODUÇÃO PARTILHADA DO CONHECIMENTO E A HISTÓRIA DE VIDA DE MESTRE ALCIDES
1.2 OS ENCONTROS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
1.2.3 História Oral e o processo de partilha-registro
A História Oral caminhou com o que fomos reconhecendo de potencialidades da produção e transmissão de conhecimento da antropologia visual. Primeiro, pelo fato daquela representar “um recurso moderno usado para a elaboração de registros, documentos, arquivamento e estudos referentes à experiência social de pessoas e de grupos”, mas, também,
trazer “uma história do tempo presente e também reconhecida como história viva” (MEIHY; HOLANDA, 2014, p. 17).
Os saberes orais oriundos das culturas tradicionais brasileiras podem conectar-se intimamente com novas possibilidades de produção de conhecimento no âmbito da academia, uma vez que muitos ainda são pouco reconhecidos e legitimidados. Nessa perspectiva, esta pesquisa traz reflexões sobre a narrativa da história de vida de Mestre Alcides, a forma que partilhou, por meio de vivências, práticas culturais, os saberes da oralidade com crianças, jovens, professores, pesquisadores, e quais foram os aprendizados deste reconhecimento mútuo, resultado do trabalho de mais de trinta anos.
O encontro dos relatos orais do Mestre Alcides junto aos aportes teóricos de diversos pensadores acerca das temáticas de tradição oral, memória, escravidão, história de vida, cultura, religiosidade, busca revelar, neste estudo, como determinada forma de ver e atuar no mundo, que valoriza a oralidade, pode transformar o modo de aprender e produzir conhecimento. A própria história de vida do Mestre permite que encontremos trocas culturais que se realizam em espaços preparados para esse fim, tendo como lugares de sua realização o jogo, as narrativas, os cânticos e o reconhecimento das resistências que foram sendo tecidas ao longo da história de sujeitos.
Da História Oral buscamos a classificação de seus três gêneros: tradição oral, a História Oral de vida, História Oral temática (MEIHY; HOLANDA, 2014 p. 33), que foi de grande valia para esta discussão, pois acredita-se que a tradição oral, enquanto ação partilhada e múltipla de sentidos e registros, pode enfatizar um processo de produção de conhecimento como inaugural de um lugar de partilha. A partir dela, passamos para a História Oral de vida, que foi o fio condutor para a pesquisa, representada pela transcrição da história de vida completa de Mestre Alcides. Já a História Oral temática foi a forma de dialogar com as pessoas do CEACA, fazendo com que estas pessoas falassem com e sobre o Mestre por meio da proposta da pesquisa. As entrevistas compuseram, neste caso, a abordagem mais direcionada da relação específica de cada uma(um) do grupo com Alcides.
Ao todo, foram mais de 20 entrevistas registradas, tanto com o Mestre como com pessoas do CEACA. Abaixo, a organização de como elas aconteceram, sendo que das 16 agendadas, somente 13 se concretizaram. Já com Alcides, houve mais de 6 entrevistas registradas, além da minha participação em reuniões diversas, rodas de conversa, vivências, rodas de capoeiras de grupos parceiros, cursos de formação, batizados, reuniões do grupo de estudos. Na seguinte tabela organizamos alguns dados sobre as(os) colaboradores(as):
Tabela 1 - Entrevistas16 realizadas entre os anos de 2015 e 2017 para o mestrado (em negrito as que não foram realizadas por motivos diversos (agenda e prazos).
Nome Referência Público
Adelvan de Lima Nunes (Esquilo) CEACA professor, aluno
Amanda Aparecida Silva CEACA e Amorim Lima pesquisadora, mãe de aluno e aluna
Almir Almas CEACA professor universitário, ex-
aluno
Ana Elisa Pereira Flauqer de Siqueira Amorim Lima diretora, Amorim Lima Ana Carolina Francischette da Costa CEACA aluna, professora e pesquisadora
Cleide Maria Oliveira Amorim Lima professora, Amorim Lima
Dorival dos Santos CEACA e Amorim Lima Mestre de capoeira
Emerson Marinheiro Valentim (Lagarto) CEACA contra-Mestre, aluno
Fábio Rocha (Soneca) CEACA professor, aluno
Katiane Mattge (Kati) Amorim Lima professora, aluna e grupo de estudos
Luciana Caparro Costa Amorim Lima professora, Amorim Lima
Marcela Gonçalves Santana CEACA e Amorim Lima aluna
Paulo Henrique (Barauma) CEACA contra-Mestre, aluno
Rosa Magalhães Ribeiro CEACA e Amorim Lima alunas
Rodrigo Martins Garcia (Pança) CEACA professor, aluno
Valter José Souza (Valter Luz) CEACA professor, aluno
Fonte: Roberta Navas Battistella (2017).
Um dos principais empecilhos foi o processo solitário de registro audiovisual, ou seja, reconhecemos que o apoio de mais pesquisadoras(es) ou um profissional do audiovisual poderia ter garantido uma melhor qualidade do material, além de uma interatividade menos técnica com os sujeitos, pois há constantemente certas preocupações como, por exemplo, se de fato a gravação está acontecendo da maneira adequada e útil para o uso futuro. O processo dialógico também é interrompido, no entanto, nada impediu de que os registros acontecessem. Como as redes com as quais Mestre Alcides convive fazem parte de seu dia a dia, o contato foi facilitado por esta mediação que ele estabeleceu entre mim e o grupo. Além disso, por ter participado ativamente das atividades cotidianas do CEACA, tais como aulas de capoeira, encontros do grupo de estudos, batizados, festas de cultura, a referência à pesquisa de mestrado é muito direta e natural.
Os rituais e vivências dos quais pude participar, entre os anos de 2014 e 2016, foram registrados tanto por mim como por um voluntário do CEACA. Reitero que um dos aspectos
16 Em todas as entrevistas realizadas houve o registro feito com uma câmera fotográfica canon PowerShot G16 ,
um dos investimentos feitos com a bolsa Capes. Além da própria câmera, foram adquiridos um HD externo e dois cartões de memória para que não fosse necessário gravar pequenos vídeos e já baixá-los do cartão para utilizá-lo novamente.
mais desafiadores é esta sistematização individual que, em uma posterior edição e montagem, se encontrará com os demais olhares de quem também realizou o registro.
Após as entrevistas, buscamos analisar a narrativa desse griô, os principais aprendizados advindos da tradição oral e a forma como compartilhou determinados saberes em espaços de educação. Em um segundo momento, qualificar o intenso e profícuo processo de escuta, participação, partilha e produção de conhecimento, compreendendo as transformações originadas nesse diálogo, discorrendo sobre o encontro com o Mestre e o dele nas múltiplas redes das quais faz parte, compartilha e recebe saberes.
Os processos que colaboraram para a transformação das entrevistas em documentos e referências para dialogar com os aportes teóricos foram três: transcrição, textualização e transcriação (MEIHY; HOLANDA, 2014, p. 139). No primeiro movimento, após a realização de todas as entrevistas, acontece a transcrição literal, trazendo toda a linguagem oral e suas características; a textualização “carrega, para um metafísico modelo do dito, uma carga bem grande de não-dito, não-pretendido, não-vivido, nãopensado, não-sentido, mas ouvido ou pretendido ser ouvido, escrito, mas não devia ser escrito” (CALDAS, 1999, p. 5). E para finalizar, a transcriação.
A transcriação apresenta-se diante “da necessidade de se reformular a transcrição literal para torná-la compreensível à leitura” (GATTAZ, 1996, p. 35-40), mas, além desta função mais técnica, compreende uma possibilidade de mediação dialógica e criativa da oralidade com a escrita. Representa essa conversão da(o) leitora(r) no participante da operação criadora e os textos (entrevistas) se abrem às diversas interpretações, muitas vezes nas quais não se visualizaria sozinha(o).
Essa transformação gera um resultado dialógico por meio não só do encontro, mas também das trocas textuais, desta ida e vinda, para que não somente possamos trazer o melhor resultado da entrevista, como também a melhor interlocução com a proposta do trabalho (CALDAS, 1999, p. 5).
A respeito das entrevistas temáticas com as demais pessoas que colaboram no cotidiano do CEACA e contribuíram com a sua reflexão para a pesquisa, todas constam transcriadas na íntegra na seção de Anexos. Reitero que o critério para ordem de inserção respeitou os valores das culturas de tradição oral, do mais velho para o mais novo, e de quem conhece Mestre Alcides há mais tempo. Optamos por inseri-las ao fim do texto completo uma vez que ao longo dos capítulos constam inúmeros trechos organizados de acordo com as temáticas de cada seção.
Ao longo da organização do texto, escolhemos apresentar inicialmente a narrativa completa da história de vida de Mestre Alcides. Este movimento responde ao processo de legitimação, que aqui buscamos defender, dos saberes orais e da história de vida para uma postura de transformação na pesquisa acadêmica que busca investigações de natureza interdisciplinar; bem como nas análises, pois passamos a reconhecer Mestre Alcides não somente como colaborador central para a discussão científica, mas como principal orientador para a estrutura do trabalho e dos diálogos teóricos. A seguir, sua história de vida na íntegra.