CAPÍTULO II – CONGADO E CAPOEIRA NA EXPRESSÃO DO SER NEGRO BRASILEIRO: DIÁLOGO COM A HISTÓRIA DE VIDA DE MESTRE ALCIDES
3.3 CEACA – CENTRO DE ESTUDOS E APLICAÇÃO DA CAPOEIRA
3.3.8 Vidas no CEACA
É preciso, sobretudo, e aí já vai um destes saberes indispensáveis, que o formando, desde o princípio mesmo de sua experiência formadora, assumindo-se como sujeito também da produção do saber, se convença
34 Texto disponível em: < http://www.unesp.br/portal#!/debate-academico/descolonizando-nossas-almas/>.
definitivamente de que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção (FREIRE, 1996, p. 13)
Quando pensamos a formação destas meninas e meninos, agora mulheres e homens e sujeitos de suas vidas, não podemos deixar de reconhecer o valor deste encontro com Mestre Alcides. Ser referência para as pessoas implica em uma responsabilidade, antes de tudo, ética. Adelvan direcionou sua vida escolar pelo apoio que recebeu dos Mestres.
Quando entrei na capoeira, cabulava aula, não gostava de estudar, ficava empinando pipa, ia pra USP pra cuidar de carro, e aí os Mestres Alcides e Dorival sempre incentivavam falando que tinha que estudar, correr atrás. Até então não tinha perspectiva de estudar, de fazer faculdade, ou de futuro mesmo, queria viver o momento. Mas fui tomando consciência que o que ele estava falando era verdade e tomei aquilo como um incentivo: eu posso fazer mais, posso buscar mais! Aí a capoeira, ao longo da minha jornada de vida, foi me norteando a isso! Cheguei num ambiente escolar por meio da capoeira, lá no Amorim Lima, onde começamos a dar aulas e aprendemos a ser professor, com o Mestre. Ele nos chamou pra ajudá-lo a dar aulas e fomos aprendendo como era isso. A partir de lá fomos para outros espaços, comecei a dar aula do Liceu Pasteur, na Vila Mariana, comecei a dar aula em Taboão da Serra com o Paulinho e com o Mestre também!
Já Emerson Marinheiro, Lagarto, que trabalhava em uma fundação dentro da USP, com horário regrado e com um destino que já parecia definido, em uma outra parte de seu relato reitera a importância da capoeira para sua formação pessoal e profissional.
Desde o dia 03 de março de 1994 faço capoeira, muitas vezes em altos e baixos, mas sempre fiz desde então! Trabalhei 17 anos na USP nesta mesma fundação e segui a trilha... Jamais imaginei que me tornaria hoje um professor de capoeira, um professor de crianças pra dar aula de capoeira, um professor de pessoas com necessidades especiais pra fazer capoeira. Jamais imaginei também que ia viajar tanto quanto viajei pra vários países com a capoeira. E tudo isso por meio de Mestre Alcides e pela capoira. Muitas vezes fico fazendo a reflexão do tanto que devo pra capoeira, não que a capoeira nos dá, mas o tanto que eu devo. E sempre tento correr atrás deste objetivo de doar pra capoeira cada vez mais, doar para as pessoas envolvidas com a capoeira, Mestre antigos ou pessoas que trabalham em prol da cultura popular e da capoeira.
Rodrigo faz uma análise voltada à própria proposta do projeto do grupo, que muito se assemelha a uma forma de experenciar valores de vida e cidadania por meio da cultura e da educação, incluindo também o trabalho.
Desde então eu estou com Mestre Alcides, estou no CEACA e abracei o projeto, não só na capoeira, mas um projeto de vida! Sempre digo que o CEACA ele fez escola e faz escola de vida, não só de capoeira: foi o que me formou! Minha primeira formação é a capoeira, trabalho com capoeira, respiro capoeira praticamente, mas ela me levou pras outros caminhos também. Atualmente trabalho com capoeira, mas trabalho com musicalização infantil em colégio particulares, inclusive onde eu mais trabalho, levando capoeira, musicalização e cultura popular!
Demorei um pouco pra entender assim, me valorizar nessa minha questão com o CEACA, mas hoje eu coloco 50, 50, 50% de esforço meu, de vontade própria, e 50% do Mestre, de estar lá pra nos receber, pra me receber, pra estar disposto de compartilhar o conhecimento e de levar essa vivência dele e de formar pessoas. Ele sempre esteve lá, ele nunca foi me pegar em casa, e acho isso muito bom também, porque senão fica um assistencialismo... Você vai lá pegar e, não, a pessoa tem que ter um esforço próprio, tem que trilhar o caminho! Acho que trilhei meu caminho porque tinha alguém que se importava com isso, que dava uma atenção, e que acolheu assim.
Um fato interessante diz respeito à constatação de que as iniciativas e a própria postura dos Mestres partem da compreensãoo de que a cultura, como elemento de conexão com nossa ancestralidade, é uma forma de expressarmos nossas subjetividades e a partir delas nos fortalecermos como sujeitos. No caso específico do Mestre Alcides, por seu aprendizado com o congado e capoeira, ele criou uma forma de resistir cotidianamente à suposta morte desta memória e desta ligação tão preponderante para quem é hoje. Disseminou essa resistência formando pessoas para que compreendessem suas próprias histórias e, por meio da consciência de quem são, pudessem materializar novas realidades até então inimagináveis.
(…) não só como tudo aquilo que distingue o homem do seu ancestral selvagem, mas também compreendemos cultura como descoberta do nosso ancestral selvagem quando revela e incorpora novas categorias de movimento e gestos ao caminhar, dançar e lutar; quando amplia e diversifica a expressão do instinto animal, conecta-se olhos nos olhos e reflete-se no outro, descobrindo a subjetividade, a inter-subjetividade, as emoções e os sentimentos; quando se agrega e se separa em rituais e fazeres para enfrentar os grandes desafios e medos da humanidade fazendo história, sonho e loucura do seu dia a dia; quando resiste e reexiste criando símbolos, mitos, significados, linguagens, ciência e consciência de si, do outro e de seu lugar no mundo (PACHECO, 2014, p. 29).
Mestre Alcides vive a capoeira dentro do ambiente universitário e com ela recomeça sua jornada pela cultura oral. Influenciou outras pessoas por sua luta diante da disseminação destes saberes orais baseados em valores que somente encontram espaço em uma proposta de educação partilhada: e é sobre ela que dissertaremos a seguir.
CAPÍTULO IV - EDUCAÇÃO, CULTURA E POLÍTICAS PÚBLICAS: AMORIM