4. O LUGAR DA NARRATIVA NO JORNALISMO E NA HISTÓRIA
4.6 A história sob novas perspectivas a partir da Escola dos Annales
Como já ressaltamos, a história recebe enquadramento temático no livro 1889 (2013).
Para Van Dijk (1990), o tema é uma macroposição deduzida subjetivamente pelo leitor, baseado no seu interesse pelo texto e no seu conhecimento de mundo, que vai além da sequência proposta pelo enunciado. O tema, assim, ajuda a definir, de forma geral, qual é a substância do enunciado, ou seja, o que o leitor encontra na obra, não como a encontra. Sob esta visão, a temática da história se sobrepõe a narrativa jornalística. Investigando esta interconexão, vejamos como ela vem sendo tratada pelos historiadores.
Entendida como a ciência que estuda a ação do homem no tempo e no espaço por meio da análise de processos e eventos ocorridos no passado, a história passou por inúmeras reconfigurações ao longo do século XX e início do XXI. Um dos pontos discutidos pelos teóricos refere-se à importância da narrativa para a pesquisa e disseminação do conhecimento historiográfico. Tal discussão permeou as reflexões dos historiadores ao longo do século XX, em especial aos filiados ao movimento conhecido como Escola dos Annales. A seguir, revisaremos o desenvolvimento das reflexões dos Annales e abordaremos especificamente a obra História Nova (1990), de Jacques Le Goff, que ampliou a discussão a respeito da interdisciplinaridade na pesquisa historiográfica e abriu possibilidades para a volta da narrativa neste ramo da ciência.
A reflexão sobre se a história deve se basear em estruturas (isto é, a sistematização de movimentos sociais, políticos e econômicos) ou nas narrativas dos homens sobre os acontecimentos remonta à época do Iluminismo europeu. Porém, estes questionamentos ganharam relevância ao longo do século XX, quando a produção do texto e o conhecimento propiciado pela história foram postos em discussão por teóricos da área, em específico num movimento francês que ecoa ainda nos dias atuais.
Em contraposição aos movimentos vigentes até então (o positivismo11e o materialismo histórico12), dois renomados historiadores franceses, Marc Bloch e Lucien Febvre fundaram a revista Annales d'Histoire Économique et Sociale, em 1929. A partir dela, surgiu o movimento conhecido como Escola dos Annales, cujo objetivo era pensar a história sob uma perspectiva problematizante por meio dos métodos das Ciências Sociais, privilegiando a abordagem pluridisciplinar na pesquisa.
Até aquele momento, a historiografia tradicional entendia o tempo como linear e caberia à história contar a sucessão dos acontecimentos cronologicamente, de acordo com a visão dos grandes personagens. A história, sob a perspectiva dos Annales, deveria ir além da mera documentação de acontecimentos de forma cronológica e abordar as estruturas históricas de longa duração em uma sociedade (transformações políticas, cultura, eventos sociais, etc.) para expor e explicar a conjuntura de uma época, por meio do saber de outras áreas, como a sociologia, a filosofia, a arqueologia, a psicologia, a economia e a geografia. Desta forma, seria possível, situar, em médio e longo prazos, o desenvolvimento da civilização, a sua
“mentalidade”, como afirma o historiador britânico Peter Burke (1991) em sua pesquisa sobre os Annales.
Nada mais legítimo, nada mais constantemente salutar do que centrar o estudo de uma sociedade em um de seus aspectos particulares, ou, melhor ainda, em um dos problemas precisos que levantam este ou aquele desses aspectos: crença, economia, estrutura das classes ou dos grupos, crises políticas (BLOCH, 2001, p. 30).
O estudo ao modo clássico da primeira e da segunda geração dos Annales remete a uma divisão entre estrutura (econômica e social) e conjuntura (tendências gerais), com pouca importância ao transcorrer dos acontecimentos. Para Lucien Febvre e Fernand Braudel (outro renomado historiador da segunda geração) a narrativa nada mais era do que uma superfície dos acontecimentos, acessível ao historiador comum, cujo conteúdo serviria de base para uma
11 O positivismo é uma corrente filosófica surgida na França no começo do século XIX, Seus principais idealizadores foram Augusto Comte e John Stuart Mill. Segundo esta concepção, o conhecimento científico seria a única forma de conhecimento verdadeiro, capaz de levar a ordem e o progresso à humanidade. O método, nesta concepção, deveria ter sua eficácia comprovada cientificamente, conforme Ribeiro Junior (1983).
12 O materialismo histórico é uma teoria de cunho marxista que vê a possibilidade e explicar a história por meio da produção material que cada indivíduo traz à sociedade. Seu método consiste em analisar as ligações entre os homens por meio de sua força de produção, isto é, quanto cada um poderia produzir, seja por seu poder aquisitivo, seja por suas habilidades técnicas. Desta forma, a sociedade seria capaz de alterar sua produção de bens materiais e, consequentemente, suas relações sociais, conforme Rodrigues (2016).
análise de suas estruturas mais profundas, como ressalta Burke (2011). Sob este viés, a narrativa deixa em segundo plano questões importantes do passado que ela é incapaz de conciliar, como a estrutura econômica e social, até a experiência e os modos de pensamento da população.
Em 1978, Jacques Le Goff, da terceira geração dos Annales, publica A História Nova (1990), na qual defende que a historiografia passava de uma mudança de uma “história do todo”, que buscava articular todas as instâncias do social, para uma “história total”, que faz uso de fontes que descrevem pequenos recortes de espaço ou de estreitas fatias de análise da vida social e humana. Assim, o todo poderia ser projetado na parte, ou ser acessado por meio da parte que ilumina e permite ver a totalidade, por meio da narrativa.
Hayden White (2001), afirma que os historiadores negligenciam as reflexões literárias de sua própria época (os acontecimentos no mundo exterior e a sua representação). Ao pensar o texto histórico enquanto artefato literário, ele defende que o significado de uma obra de história é resultado de uma construção linguística aplicada pelo narrador. Sob essa perspectiva, o autor retira da história ‘o fardo da verdade’ e a põe sobre o mesmo patamar da literatura, como apenas construção ficcional. “As narrativas históricas são ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quando descobertas” (WHITE, 2001, p. 98). Com esta reflexão, White (2001) põe a construção narrativa para além das questões de verdade e mentira, pois a literatura e a história são constituídas como formas de interpretar o mundo e narrá-lo, construindo uma significação sobre a realidade. Para o autor, o “historiador contemporâneo precisa estabelecer o valor do estudo do passado, não como um fim em si, mas como um meio de fornecer perspectivas sobre o presente que contribuam para a solução dos problemas peculiares ao nosso tempo” (WHITE, 2001, p. 53)
Paul Ricoeur (1994) amplia esta percepção para além da cultura, chegando à construção textual cientifica. Para ele, toda história que tem a pretensão de revelar estruturas latentes na sociedade, mesmo a mais quantitativa, recorre a alguma forma narrativa. “Minha tese repousa na asserção de um laço indireto de derivação pelo qual o saber histórico procede na compreensão narrativa sem nada perder de sua ambição científica” (RICOEUR, 1994, p. 134).
Ao levantar estas reflexões, não pretendemos tomar um partido quanto à construção textual da literatura ou da ciência; pretendemos apenas trazer contribuições que nos ajudem a compreender a importância da construção textual para além de uma ou outra disciplina teórica.
Voltando à discussão específica no campo da história, percebemos que as ideias de Jacques Le Goff (1990) tiveram eco no pensamento do historiador britânico Lawrence Stone
(1980), apud Hobsbawn (1998). Ele acredita no ressurgimento da “história narrativa”, pois, houve um declínio da história generalizante que questionava os grandes porquês. Isso ocorre, segundo o autor, por conta da desilusão causada pelos modelos de explicação econômicos-deterministas, que se destacaram após a Segunda Guerra Mundial, interessados exclusivamente em apresentar resultados mensuráveis sobre os acontecimentos humanos. Ele entende que a história narrativa cronológica, composta por um relato coerente, com subenredos e uma concentração no homem e não nas circunstâncias, ganha relevância no contexto historiográfico como meio para esclarecer questões amplas, que ultrapassam o relato particular e seus personagens.
Desta forma, surge entre os historiadores o interesse em recorrer à história factual ou mesmo a história biográfica, apresentada por intermédio da literatura e dos recursos audiovisuais. O que resulta no alargamento do campo de pesquisa e reflexão da história, pois ela passa a observar as mais diversas representações de vida, desde a do mendigo até a do imperador. “Para quase todas elas, o evento, o indivíduo e até a retomada de algum estilo ou modo de pensar o passado, não são fins em si mesmos, mas meios de esclarecer alguma questão mais ampla, que ultrapassa em muito o relato particular e seus personagens” (HOBSBAWN, 1998, p. 202).
Sob esse prisma, acreditamos ser importante destacar que romances relevantes mundialmente são temporalmente situados em momentos de rupturas estruturais nas sociedades em que a narrativa se desenvolve e, deste modo, revelam o impacto de tais acontecimentos na vida dos indivíduos. Exemplos são as obras Guerra e Paz, de Leon Tolstói, História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, entre outras.
Hobsbawn (1998) reitera que a história dos homens e suas mentalidades, ideias e eventos pode ser vista como complementar à análise das estruturas e tendências econômicas e sociais dos Annales das primeiras gerações.