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4. O LUGAR DA NARRATIVA NO JORNALISMO E NA HISTÓRIA

4.2 O encontro do jornalismo com a literatura

A relação entre literatura e jornalismo remonta ao tempo em que escritores de ficção trabalhavam em redações de jornal, mais especificamente no século XIX, quando os jornais, impulsionados pela Revolução Industrial, passaram a ter condições de imprimir mais exemplares e podiam expandir seu público. Héris Arndt (2001) afirma que a partir desta constatação, os escritores, dotados de moldes literários e estéticos, trabalharam nos jornais para torná-los mais atraentes, angariando mais pessoas a os lerem, favorecendo a expansão destes periódicos enquanto empresas jornalísticas.

Segundo Bulhões (2007), a reportagem apareceu como gênero do jornalismo na Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), quando correspondentes foram mobilizados para o campo de batalha a fim de realizar entrevistas, presenciar e reportar os conflitos. No Brasil, o relato de Euclides da Cunha no cenário da Guerra dos Canudos, em 1897, para o jornal O Estado de São Paulo, que deu origem ao livro Os Sertões, pode ser considerado um marco similar, conforme o autor.

Entretanto, a mesma Revolução Industrial fez com que o tempo se acelerasse e a concorrência dos jornais aumentasse e logo o paradigma da objetividade foi adotado pelos meios de comunicação. Aqui vale pontuar este conceito que norteia o jornalismo até os dias atuais. Liriam Sponholz (2009) entende objetividade como “[...] a adequação de uma representação à realidade” (SPONHOLZ, 2009, p. 18). Isto denota que um fato é verdadeiro por sua natureza e cabe ao jornalismo captá-la em um discurso.

Nos Estados Unidos, dois formatos jornalísticos, o do ideal literário e o do ideal da informação, na nomenclatura de Michael Schudson (2010), existiram paralelamente até a década de 1890. O literário tinha como objetivo propiciar uma experiência estética no texto além de informar, enquanto o da informação seguia a cartilha rígida da objetividade em que qualquer traço de subjetividade do repórter é excluído.

Incentivado pelo The New York Times, de tom conservador e voltado à área comercial, o modelo do ideal da informação, caracterizado pela “imposição de um método projetado para um mundo no qual nem os fatos poderiam ser confiáveis” (SCHUDSON, 2010, p.144) suplantou o literário e se consolidou entre a classe alta econômica. Ao mesmo tempo, o formato literário se firmou entre as camadas populares, que viam nos jornais um meio de entretenimento.

As reportagens literárias, entretanto, voltaram a ganhar relevância na década de 1960, quando um movimento crítico à objetividade surgiu entre a comunidade de profissionais do jornalismo nos Estados Unidos. Conforme Schudson (2010), o advento da cultura crítica (ou contracultura) está diretamente ligado ao maior número de jovens que ingressaram no ensino superior e ficaram em dúvida quanto aos ideais defendidos pelo estilo de vida norte-americano.

Eventos como a Guerra do Vietnã, os conflitos raciais e os assassinatos de cunho político de John Kennedy e Martin Luther King Jr, geraram uma desconfiança no governo, nas instituições e, inclusive, na objetividade de um relato pretensamente objetivo.

Os jovens jornalistas de então passaram a entender que a notícia mais parcial era aquela que se apresentava sob formato objetivo, pois ela apenas reproduzia a versão dos fatos pelos detentores do poder e não abria possibilidades de interpretações ou questionamentos. Eles então se propuseram a trabalhar em longas reportagens interpretativas, o que, segundo Schudson (2010) foi bem aceito pelos donos de jornais que viram na ideia a possibilidade de ampliar os rendimentos de suas empresas, na época em franca concorrência com a televisão. Tais reportagens passaram a ser utilizadas como conteúdo de jornais e revistas, e com o passar do tempo, foram adaptadas para livros-reportagem e biografias. A este movimento, que tem como principais obras Hiroshima, de John Hersey, O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, Fama e Anonimato, de Gay Talese e A Sangue Frio, de Trumam Capote, passou-se a chamar de New Journalism, ou Jornalismo Literário.

No Brasil, com a ampliação da capacidade tecnológica de impressão industrial e a concorrência da televisão na década de 1950, os jornais e revistas precisaram aperfeiçoar sua forma de se comunicar. Os jornais adotaram o ideal da objetividade norte-americano, implementando o padrão de escrita baseado no lide e puderam ser diagramados de novas formas. Na década de 1960, a volta da publicação de textos literários fez com que toda manifestação de vida se tornasse mais envolvida nos jornais e, principalmente nas revistas, como ressalta Cremilda Medina (1988):

O relato noticioso, a reportagem, a entrevista, o editorial e outros comentários opinativos, a pesquisa de reconstituição histórica (biográfica) dos focos do dia, a crônica, a crítica de espetáculos e arte. A mistura de tudo isso é um resultado colorido – não mais páginas uniformemente compostas, mas um festival de títulos, seções, editoriais, recursos gráficos. (MEDINA, 1988, p. 66)

A apropriação dos recursos literários pelos jornalistas trouxe maior poder de interpretação, tanto ao jornalista, como ao público leitor que passou a apreciar o texto jornalístico também por conta de seus efeitos estéticos. Isto levou determinados profissionais a ampliar o uso das plataformas de publicação, expondo suas reportagens não só em jornais e revistas, mas também em livros. No país, este movimento recebeu contribuições expressivas de profissionais reconhecidos no jornalismo em grandes reportagens, biografias e, mais recentemente, em reportagens de cunho histórico, como as de Eduardo Bueno e Laurentino Gomes, citadas na introdução.

Para Tom Wolfe (2005), o movimento que teve início com os jornalistas que escreviam reportagens com descrições detalhadas de cenários, personagens e diálogos, mediante estratégias narrativas de romancistas, ambicionam produzir um texto jornalístico para ser lido como se fosse um romance literário. Sob essa perspectiva, entendemos que os autores de tais obras recorrem a expedientes narrativos subjetivos para aguçar o imaginário do seu interlocutor e as palavras alcançaram maior relevância, conforme o seu arranjo, sua articulação e a sua movimentação no texto para recriar a realidade, em conformidade com Bulhões (2007). Logo, a verdade objetiva do ideal da informação de Schudson (2010), ficou em segundo plano e a veracidade simbólica da literatura ganhou relevância, pois “a sua ‘verdade’ reside na capacidade de atingir uma dimensão universal e essencial da subjetividade humana, a da atividade imaginativa.” (BULHÕES, 2007, p. 19).

Desta forma, nota-se que, diante de uma obra do Jornalismo Literário, duas verdades são apresentadas ao leitor: a verdade que provém da credibilidade do jornalista que se presta a utilizar os procedimentos operacionais capazes de alcançar a verdade dos fatos e a relatá-los, o que remonta ao código deontológico profissional. E a verdade da literatura, que mediante uma narrativa que situa o leitor num instante do tempo por meio de recursos estéticos simuladores de uma determinada realidade “cria” uma verdade imaginativa.

Tal conjunção entre a verdade do jornalismo e a fruição estética propiciada por um texto literário nos parece presente também na classificação proposta por José Marques de Melo sobre os livros-reportagem provenientes do New Journalism. Veremos a seguir como é classificada este tipo de produção jornalística.