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2 PERGUNTAS SOBRE A NARRATIVA

2.6 Onde se encontram os elementos para analisar a narrativa?

As estratégias de comunicação remetem diretamente à disposição e organização dos elementos narrativos. Abrem-se novas perguntas. De que é feita a narrativa em si? Quais são os elementos que formam uma narrativa? Tais questionamentos nos levam a demarcar as partes constitutivas de significado e a elencá-las, pois a narrativa só pode ser compreendida em sua totalidade se os elementos que a compõe forem avaliados em sua natureza dialógica. Vejamo-los a seguir.

Quem vive os acontecimentos são os personagens, num determinado tempo e espaço, ambientado de uma forma, e para estruturar esse enunciado é necessário um narrador. Gancho (2006) apresenta os cinco elementos para a constituição da narrativa: enredo, personagem, tempo, espaço e ambiente. Vejamos eles separadamente.

Enredo: o conjunto dos acontecimentos de uma história recebe esta nomenclatura. Dois conceitos são importantes para compreender o enredo: diegese e discurso. Duas questões são fundamentais para a análise do enredo: sua natureza ficcional e sua estrutura. A verossimilhança, concebida por Aristóteles (2004), como a lógica interna do enredo, que o torna verdadeiro para o leitor. Isto significa que os fatos de uma história não precisam ter ocorrido no universo heterodiegético, mas devem ser verossímeis, pois o leitor deve acreditar no que lê.

Na narrativa isto é percebido na relação causal do enredo, ou seja, os fatos tem uma causa e uma consequência.

Para compreender estas partes que compõem o enredo (sua estrutura) é preciso remontar

o elemento estruturador do começo e do fim: o conflito. Seu objetivo no enredo é criar expectativa do público frente aos fatos. “Conflito é qualquer componente da história (personagens, fatos, ambientes, ideias, emoções) que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos da história e prende a atenção do leitor.” (GANCHO, 2006, p. 13). Portanto, o conflito se dá pela tensão entre a intenção do protagonista e uma força opositora (um personagem, o ambiente ou até o seu universo psicológico).

Personagem: é quem executa o enredo. Mesmo que tenha como base uma pessoa real, é sempre invenção, pois pertence à história narrada e só existe no enredo. Sua presença é percebida na história pelo que faz ou pelo julgamento que fazem dele outros personagens.

Quanto ao papel desempenhado no enredo, pode ser protagonista herói ou anti-herói, ou, em oposição, antagonista, além dos personagens secundários.

Tempo: refere-se ao componente da narrativa que estrutura as relações passado-presente-futuro e os aspectos incoativo-durativo-terminativo. “Enquanto as artes plásticas são espaciais, a ficção literária é uma arte predominantemente temporal: toda diegese pressupõe um começo, um meio e um fim” (D’ONOFRIO, 2006, p. 99). Mais detalhes serão abordados no capítulo sobre o tempo na narrativa.

Espaço: de forma simplista, é onde se passa a narrativa. Situa onde ocorrem as ações do personagem ao mesmo tempo em que interage com este influenciando pensamentos, ações e emoções.

Ambiente: “lugar” psicológico, social, econômico em que vive o personagem. É a soma de tempo e espaço, acrescida de um clima moral, religioso, socioeconômico, psicológico, entre outros. De acordo com Gancho (2006), o ambiente situa os personagens nas condições em que vivem, projeta os conflitos vividos por cada um ou até entra em conflito com eles.

Narrador: guia da história, assume uma perspectiva frente aos fatos. Em primeira pessoa participa do enredo como qualquer personagem, tem seu campo de visão limitado, mas pode ser narrador testemunha dos fatos, assim como protagonista do enredo. Em terceira pessoa se posiciona fora dos fatos e tende a ser mais imparcial, podendo ter onisciência e onipresença.

Como o narrador da obra é um jornalista, vamos nos ater a conceituação proposta por de D’Onofrio (2006), que resume os tipos de narrador em terceira pessoa. Vejamos a seguir:

a) Narrador onisciente neutro: é aquele que sabe o que acontece no passado e no presente, principalmente no íntimo de cada personagem.

b) Narrador onisciente intruso: similar ao neutro, este tem poder de parar a narrativa para emitir o seu juízo de valor sobre os acontecimentos.

c) Narrador onisciente seletivo: o narrador, sujeito do discurso, simultaneamente apresenta os pontos de vista dos personagens por meio de sua própria interpretação.

d) Narrador-câmera: é aquele que narra uma obra descritiva, como um observador imparcial, pois não tem como penetrar na consciência de cada personagem e não é onipresente.

Acreditamos ser válido salientar estas relações entre os interlocutores e os elementos que compõe a narrativa, pois entendemos que existe uma vinculação direta entre eles na obra em análise. Isto porque o autor adota uma estratégia textual do gênero de grande reportagem sobre a história, visando um público heterogêneo (sem um conhecimento prévio dos assuntos abordados).

No discorrer do texto, entretanto, a estratégia narrativa traz elementos do romance, o que nos remete à confluência do jornalismo com a literatura. Esta estratégia narrativa é executada pelo narrador onisciente neutro, capaz de narrar os acontecimentos do século XIX e contextualizá-los aos do século XXI, com vistas a alcançar este público heterogêneo. Deste modo, acreditamos estar diante de uma narrativa híbrida, mescla de jornalismo, literatura e história (como veremos no próximo capítulo).

Entendemos, por fim, que a evolução do pensamento sobre a narrativa desde os filósofos clássicos até os teóricos contemporâneos nos traz lastro para compreender a aplicação do raciocínio narrativo para instituir sentido sobre a realidade. Além do mais, nos traz embasamento à percepção dos interlocutores presentes no enunciado, além dos elementos que constituem sentido à totalidade. A partir desta visão geral sobre a narrativa, poderemos ver como se dá o diálogo entre tais elementos na construção do livro 1889 (2013), no qual, acreditamos ocorrer a convergência entre as três áreas: o jornalismo, a literatura e a história.

Neste caminho seguiremos no próximo capítulo.