IV - A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR
4.1 Histórico da Base Nacional Comum Curricular
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento normativo que orienta os sistemas de ensino público e privado na elaboração dos seus currículos na Educação Básica.
Seu objetivo é promover a equidade por meio da formação integral do cidadão, garantindo que todos os alunos possam ter acesso a uma aprendizagem integral por meio de competências e habilidades que nortearão o trabalho dos professores e das escolas em todos os anos e componentes curriculares.
Prevista apenas para o ensino fundamental na Constituição Federal de 1988 (CF/88), a BNCC foi ampliada com a Lei nº 9.394/96 de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) para toda a Educação Básica. Também no Plano Nacional de Educação (PNE) está contemplada a BNCC como um instrumento de organização de toda a Educação Básica. Em seu artigo 210, em apenas dois parágrafos, a Constituição Federal fixa conteúdos mínimos que visam assegurar uma formação básica aos alunos, garantindo respeito aos valores culturais e artísticos, sejam eles nacionais ou regionais. Assegura também que o ensino será ministrado em língua portuguesa, garantindo às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem.
Com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), nº 9.394/96, seu artigo 26 propõe uma base nacional ampliada, ou seja, abrangendo também o
ensino médio. A base comum seria complementada por uma parte fixa e comum a todos e outra parte diversificada, de acordo com as características regionais e locais da sociedade brasileira.
Para desenvolver a proposta de um currículo comum, a partir de 1997 foi estabelecido um trabalho por meio de temas transversais que aliava a parte comum com a parte diversificada.
Para dar conta dessa empreitada, o Ministério da Educação elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que “constituem um referencial de qualidade para a educação no Ensino Fundamental em todo o país” (BRASIL, 1997, p.13).
Segundo o documento oficial, os PCNs têm como função
orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional, socializando discussões, pesquisas e recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, principalmente daqueles que se encontram mais isolados, com menor contato com a produção pedagógica atual. (BRASIL, 1997, p.13)
A ideia de se trabalhar com temas transversais visa contemplar a diversidade de realidades presentes nas regiões geográficas do país, constituindo-se como uma proposição flexível à disposição do professor e das aprendizagens, subsidiando os gestores educacionais na transformação do currículo e das práticas pedagógicas locais e se constituindo como um
“referencial de qualidade para a educação”.
Em 2008, novas discussões foram feitas tendo em vista a ideia de “melhoria da qualidade da Educação Básica”. Nesse período foi implementado o Programa Currículo em Movimento, num esforço para responder às demandas sociais e legislativas suscitadas no período. Em uma discussão feita em 2010, foi reiterada a necessidade de se implementar uma Base Nacional Comum Curricular em todo o território nacional como resposta à necessidade de um “Sistema Nacional Articulado de Educação”, definindo estratégias, “diretrizes, metas e ações para a política nacional de educação, na perspectiva da inclusão, igualdade e diversidade, o que se constitui como marco histórico para a educação brasileira na contemporaneidade” (BRASIL, 2010, p.7).
Desse intenso debate com a sociedade, o presidente do CEB/CNE institui a Resolução nº 04/2010, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica (BRASIL, 2013, p.63), e a Resolução nº 02/2012, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (BRASIL, 2013, p. 194), auxiliando os sistemas de Educação a reorganizarem os seus currículos, tanto que em seu artigo 7º a Resolução nº 2/12 assim se expressa:
A organização curricular do Ensino Médio tem uma base nacional comum e uma parte diversificada que não devem constituir blocos distintos, mas um todo integrado, de modo a garantir tanto conhecimentos e saberes comuns, necessários a todos os estudantes, quanto uma formação que considere a diversidade e as características locais e especificidades regionais. (BRASIL, 2013, p.195)
Novamente a ideia é perseguir um ensino integrado que possa garantir a todos os estudantes os conhecimentos comuns necessários à sua formação escolar por meio de uma Base nacional comum, respeitando a diversidade e as características regionais.
Também em 2012 foi instituído o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) por meio da Portaria nº 867/12 e, no ano seguinte, o Pacto Nacional pelo fortalecimento do Ensino Médio, por meio da Portaria nº 1.140/13, cujo objetivo foi formular e implementar políticas públicas de melhoria da qualidade da educação ofertada nesta etapa da formação dos jovens, seja redefinindo o formato curricular seja implementando outras modalidades de ensino.
Em 2014, uma grande mudança começa a se projetar para a educação brasileira com a formulação de um Plano Nacional de Educação (PNE) através da Lei nº 13.005/14 e estabelecendo vinte metas estratégicas. Nessas metas estão inclusos o acesso, a universalização, a ampliação da escolaridade desde a Educação Infantil até a Educação Superior, com especial atenção para o aspecto inclusivo. O plano estabelece as diretrizes, as metas e as estratégias que devem ser adotadas para a melhoria da “qualidade” da educação por um período de dez anos, ou seja, de 2014 até 2024.
Em 2015 começam as discussões e audiências públicas para a elaboração de uma Base Nacional Curricular, sendo realizado o 1º Seminário Internacional sobre este tema e, posteriormente, o MEC institui, por meio da Portaria nº 592/15, a Comissão de Especialistas para a elaboração da proposta da BNCC. A Comissão elaborou uma primeira proposta e a disponibilizou para toda a comunidade escolar do Brasil para uma discussão ampla sobre o documento. As contribuições de professores, especialistas e demais interessados na educação enviadas à Comissão foram sistematizadas e organizadas em uma nova versão da proposta, apresentada em 2016. Novamente novas consultas públicas foram feitas e uma terceira versão foi apresentada em agosto de 2016.
Em 2017, o MEC apresenta a versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a ser implementada em todo o território nacional, que será analisada pelo Conselho Nacional
de Educação (CNE). Com parecer favorável do CNE, o MEC homologa a BNCC em dezembro de 2017.
A proposta da BNCC traz dez competências gerais: a competência 1 está associada ao conhecimento; a 2 ao pensamento científico, crítico e criativo; a 3 ao repertório cultural; a 4 à comunicação; a 5 compreende a argumentação; a 6 faz menção à cultural digital; a 7 vincula-se à autogestão; a 8 refere-vincula-se ao autoconhecimento e autocuidado; a 9 compreende a empatia e a cooperação e, por fim, a 10 centra-se na autonomia e responsabilidade.
Além disso, o conhecimento agora não está mais dividido por disciplinas compartimentadas, mas sim por áreas do conhecimento, englobando um ensino interdisciplinar ao envolver as disciplinas entre si. Desse modo, as áreas de conhecimento foram estruturadas em Linguagens e suas Tecnologias (LC&T), Matemática e suas Tecnologias (M&T), Ciências da Natureza e suas Tecnologias (CN&T) e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHSA).
Cada área do conhecimento passa a fazer uso de competências específicas que estão relacionadas a um conjunto de habilidades correspondentes às aprendizagens consideradas essenciais para os estudantes, a serem desenvolvidas nas escolas em todo o país. As habilidades e competências estão descritas nos ANEXOS 1 e 2 ao final deste trabalho.
E, uma vez que esta pesquisa versa sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), com a proposta de implementação da BNCC as avaliações futuras deverão ser adaptadas e alinhadas às competências e habilidades propostas na Base. No entanto, provavelmente deverá se respeitar o tempo de implementação e os processos de adaptação das redes de ensino. Será, portanto, necessário rever a matriz de referência do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), respeitando uma ampla divulgação com os setores envolvidos no processo de ensino e aprendizagem - redes de ensino municipais e estaduais, instituições de ensino e pesquisa e as instituições de Educação Superior públicas e privadas, além da sociedade civil.
Assim, faz-se necessário um olhar mais atento às habilidades e competências propostas pela BNCC, de modo a já se promover um entendimento prévio a respeito das possíveis mudanças que poderão ocorrer nas provas e nas questões do ENEM, o que se fará a seguir.
4.2 As Competências e Habilidades da área de Ciências Humanas
A BNCC não se propõe a ser reconhecida como o currículo da escola, portanto as orientações constantes no documento serão norteadoras da reorganização curricular dos
sistemas de ensino brasileiro, nas escolas públicas e privadas. São, como dizem seus idealizadores, orientações que visam oferecer os conhecimentos essenciais que todo estudante deve desenvolver nesta etapa de sua formação. Também pretende-se desenvolver as competências e as aprendizagens em crianças e jovens em cada etapa da Educação Básica.
Com isso, a Base será uma referência comum obrigatória para todas as escolas de Educação Básica do país, cuja finalidade será transformar a realidade da educação por meio da elevação dos índices de “qualidade”, respeitando a autonomia aos entes federados e às escolas, garantida pela Constituição Federal. Na etapa final da Educação Básica, especialmente no Ensino Médio, a ideia é atender aos anseios e necessidades dos jovens, que buscam uma escola de qualidade e um ensino mais significativo.
A Base, portanto, nesta etapa da Educação Básica auxiliará os jovens no aprendizado e na preparação para o mercado de trabalho, promovendo a cidadania e preparando-os para os desafios do Século 21. Esta preparação se dará por meio de novas formas de se ensinar e aprender, com alterações nos currículos e projetos pedagógicos mais flexíveis e interdisciplinares, respeitando a autonomia escolar e a diversidade de realidades locais.
Desse modo, a Base pretende estimular o ensino por meio de competências e habilidades, cuja discussão já está presente na contemporaneidade. É desta forma que os currículos serão orientados com a implementação da BNCC. O documento final assim se expressa ao adotar esse enfoque:
A BNCC indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências, por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer”
(considerando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho). (BRASIL, 2018, p.11)
Ao organizar os currículos por meio de competências e habilidades, a BNCC quer introduzir um olhar inovador sobre as questões centrais do processo educativo – o que aprender, para que aprender, como ensinar, a aprendizagem colaborativa e como avaliar o aprendizado – , tornando-o mais significativo aos jovens. Assim, na BNCC, competência é definida como
mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. (BRASIL, 2018, p.6)
As dez competências gerais irão acompanhar os estudantes desde a educação infantil até o ensino médio e visam o desenvolvimento de habilidades específicas que irão garantir uma aprendizagem mais significativa. Foram planejadas para compor um olhar multidimensional e visam desenvolver o conhecimento (Competência 1), o pensamento científico, crítico e criativo (Competência 2), o repertório cultural do estudante (Competência 3), a comunicação efetiva (Competência 4), a cultura digital (Competência 5), o mundo do trabalho e o projeto de vida do estudante (Competência 6), a argumentação clara, concisa e eficaz (Competência 7), o autoconhecimento e o autocuidado (Competência 8), a empatia e a cooperação entre sujeitos (Competência 9), e a responsabilidade e cidadania (Competência 10).
Por outro lado, as habilidades expressam as aprendizagens essenciais que devem ser asseguradas aos estudantes nos diferentes contextos escolares em que estão inseridos. Portanto,
“as habilidades não descrevem ações ou condutas esperadas do professor, nem induzem à opção por abordagens ou metodologias” (BRASIL, 2018, p.28), as quais devem ser feitas no momento da escolha do melhor projeto pedagógico ou currículo a ser desenvolvido.
Em outras palavras, enquanto as competências indicam como serão as aprendizagens em cada etapa de formação da Educação Básica, as habilidades indicam as aprendizagens essenciais em cada área do conhecimento, ou seja, as aptidões que serão desenvolvidas durante o processo de formação e que contribuem para o desenvolvimento das competências gerais e específicas. Por exemplo, na educação infantil, a Base propõe cinco campos de experiência necessários ao seu pleno desenvolvimento, tais como o eu, o outro e nós, o corpo, gestos e movimentos, os sons, traços, cores e formas, a fala, o pensamento, a imaginação, os espaços, tempos, relações e transformações. São os direitos previstos para as crianças em conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se.
No Ensino Fundamental, há uma ampliação das estruturas cognitivas dos alunos, de modo que suas experiências continuam e aprofundam-se. Nesta etapa, há a formulação de conhecimentos por áreas e componentes curriculares. A complexidade do mundo começa a fazer parte desta etapa de formação e aos alunos são apresentadas as cinco grandes áreas do conhecimento humano: linguagens e códigos, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, além do Ensino Religioso. Desse modo, os estudantes podem desenvolver um conjunto de habilidades de forma integrada, por meio de unidades temáticas.
Segundo a Base, é no Ensino Médio que os estudantes tornam os conhecimentos mais significativos e abstratos, dando sentido a tudo que vêm aprendendo desde a educação infantil.
Nesta etapa, os alunos completam o seu desenvolvimento dentro das dez competências gerais
indicadas na Base. Aqui também os estudantes aprofundam os seus conhecimentos sobre o mundo por meio das áreas de conhecimento: linguagens e códigos, matemática, ciências humanas e ciências da natureza.
A Base propõe alguns componentes obrigatórios nesta etapa formativa e outros componentes chamados de diversificados, dando a oportunidade ao aluno de escolher em qual área do conhecimento se aprofundar. São componentes obrigatórios para os três anos do Ensino Médio: Língua Portuguesa e Matemática. Para as demais disciplinas, que a partir de agora serão chamadas de itinerários formativos, serão flexíveis, valorizando o protagonismo juvenil e estimulando a interdisciplinaridade do ensino. Desse modo, os eixos formativos foram organizados de modo a contemplar a investigação científica, a criatividade, a mediação, a intervenção sociocultural e o empreendedorismo. Tanto os componentes obrigatórios quanto os eixos formativos estarão organizados dentro de uma carga horária distribuída nos três anos de formação.
Desse modo, a reforma proposta para o Ensino Médio pretende modificar as relações de ensino e aprendizagem dos alunos, combater a evasão escolar, a falta de interesse e as dificuldades de acesso às escolas, além de proporcionar novos parâmetros e melhorar os indicadores de aprendizagem desta etapa da Educação Básica. Essa ideia está inserida no documento final afirmando que o Ensino Médio, a partir das expectativas da legislação, visa preencher as expectativas dos jovens, fortalecendo seu protagonismo e possibilitando a escolha de um itinerário formativo no qual os estudantes possam aprofundar seus conhecimentos, gerando maior compromisso e interesse por parte dos estudantes por sua formação intelectual.
A Base Nacional Comum Curricular quer estimular a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para a vida cotidiana, o exercício da cidadania e a inserção no mundo do trabalho, necessários ao pleno desenvolvimento do ser humano do século XXI. As disciplinas deixam de existir para dar lugar aos itinerários formativos que possibilitarão ao estudante compreender que seu estudo e conhecimento de mundo não está compartimentado em “gavetas” específicas do conhecimento, mas sim de forma inter e transdisciplinar, exigindo dele uma nova forma de aprender, conhecer e interagir com o mundo.
Para verificação das aprendizagens, será necessária a composição de instrumentos de avaliação e acompanhamento. Dessa forma, busca-se uma averiguação do que está sendo proposto pela Base com o que está sendo ensinado em sala de aula. A coleta de dados e informações por meio da aplicação de avaliações em larga escala poderá ajudar a planejar
melhor as atividades e os itinerários de aprendizagens bem como verificar se os objetivos estão sendo atingidos.
E o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) poderá ser um instrumento bastante útil para esta aferição, visto que atinge uma considerável parcela dos estudantes brasileiros em suas edições anuais. Desse modo, será possível detectar lacunas e preparar medidas de acompanhamento e correção de rumos, caso sejam necessárias. Afinal, uma das funções da avaliação é fornecer subsídios para reorganizar os objetivos, aprimorar o que já existe ou mesmo sugerir novas ações de políticas públicas.
Por ora, pode-se questionar: qual o destino do Exame Nacional do Ensino Médio com as mudanças introduzidas pela BNCC? A resposta não parece simples, mas, levando-se em consideração as mudanças propostas e aquelas que efetivamente se concretizarão no cotidiano dos estudantes, é provável que o exame também passe por algumas alterações, semelhantes àquelas efetivadas no ano de 2009, quando o número de questões aumentou devido ao novo alcance proporcionado pelo exame, como o acesso a cursos de graduação em Universidades públicas e privadas, a possibilidade de financiamento via programa federal ou mesmo como instrumento de acompanhamento das aprendizagens por meio de uma autoavaliação do aluno participante. O que se sabe é que as provas continuarão em dois dias de aplicação, tomando como base o primeiro dia com as competências gerais das quatro áreas do conhecimento e, no segundo dia, as provas específicas, de acordo com os itinerários formativos escolhidos pelos alunos.