Capítulo 5 O “jogador” e a Teoria da Escolha Racional
5.8 Hobbes e os instrumentos da racionalidade
Em sua obra Leviatã, Hobbes tinha como projeto justificar a obediência por parte dos súditos a um soberano absoluto, Tendo como interesse básico a sua autopreservação. Se a obediência dos súditos pode se justificar, a obediência de quem possui poder também se justifica. Em segundo lugar, se os súditos que na perspectiva da Teoria dos Jogos podem ser pensados como jogadores que têm como único interesse a autopreservação, pode ser pressuposto que eles têm o dever de obediência, então esses jogadores com automotivações menores também terão de reconhecer esse direito.
Ferejohn e Pasquino, ao comentarem as idéias de Hobbes, dizem que a obediência era um dever para as pessoas interessadas na autopreservação e, segundo que o principal interesse de todos é a autopreservação. Hobbes também mostrou que as pessoas realmente tinham interesses ou preferências fixadas, e se pudessem descobri-los iriam agir a partir deles de maneira racional. Segundo Ferejohn e Pasquino, Hobbes defendia
que a vida em estado de natureza era horrível, pois era uma situação de todos contra todos, para a Teoria dos Jogos seria um jogo de N pessoas de soma zero. Assim, ainda no ponto de vista da Teoria dos Jogos, a obediência a um jogador soberano ou a uma assembléia de jogadores soberanos seria um dever.
Alguns analistas, por exemplo, sugerem que os jogadores hobbesianos no estado de natureza, racionalmente fariam e sustentariam acordos de vantagens mútuas, com o propósito de produção e defesa, e conseqüentemente o estado de anarquia seria mais parecido com o estado de natureza de Locke (relativamente benigno) do que a situação caótica descrita por Hobbes. Caso esta visão seja válida, as conclusões de Hobbes a respeito da possibilidade de os indivíduos no estado de natureza concordarem com a criação de uma autoridade política e, se concordassem, sobre o tipo de Estado a ser criado, teria possibilidades bastante fracas.
Para Ferejohn e Pasquino, os pensadores Hamptom e Kavka defendem a idéia que no estado de natureza haveria luta real. Hobbes afirma que a vida seria pior e mais insegura que isso e tenta mostrar que no estado de natureza a guerra “ativa” de todos contra todos prevaleceria, retomando a teoria dos jogos teríamos o já citado jogo de n- pessoas de soma zero. A autora Hamptom baseia a sua explicação sobre o conflito no estado de natureza em sua forma de irracionalidade, para ela os jogadores hobbesianos adotariam um conjunto irracional de crenças, produzindo uma visão de curto prazo, que levaria a uma recusa em cooperar com outros jogadores no estado de natureza. Talvez seja esta a explicação para a falta de cooperação em sociedades reais. Neste caso Kavka adota a seguinte solução: para o autor existem alguns jogadores na população (isto se relacionarmos as idéias de Kavka com a Teoria dos Jogos), a quem ele chama de
dominadores, que valorizam controlar os outros jogadores. Os dominadores se demonstram na maioria das vezes racionais _ eles valorizam segurança e escolhem meios eficientes para alcançar os seus fins. Este tipo de jogador atribui um valor mais alto para controlar outros. Caso existam dominadores no estado de natureza, assim como ele chama os outros de moderados, estes seriam motivados a fazerem ataques preventivos.
Na perspectiva da Teoria dos Jogos, se coloca a questão de que seriam possíveis os jogadores fazerem acordos defensivos no estado de natureza.
Kavka sustenta a idéia de dominadores perigosos e intratáveis, mas não têm fundamento para uma teoria política convincente.(Kavka, 1986 apud Ferejohn e Pasquino, 2001, p. 11). Ao pensarmos na psicologia humana que sempre há pessoas com preferências diferentes e que há pessoas suficientes para minar a construção de cooperação bilateral. Para Hobbes, segundo Ferejohn e Pasquino, há circunstâncias no estado de natureza que torna acordos cooperativos, difíceis de se cumprir, pois para o pensador a característica principal da vida no estado de natureza é de que os jogadores não podem de fato racionalmemente entrar e executar o que ele chama de convenções. Os jogadores tornam-se incapazes de fazer contratos devido ao fato de um não confiar no outro. Com isto não há agregação, a partir do momento que é conhecido de todos que os jogadores vão quebrar as regras.
A questão é: será que todos os jogadores hobbesianos consideram que qualquer jogador racional quebraria o contrato estabelecido e conseqüentemente todos os contratos estabelecidos no estado de natureza serão provavelmente quebrados, ou será que parte dos jogadores quebrarão os contratos e outros não o farão. Para Hobbes no estado de natureza, como não há poderes coercitivos para os jogadores não poderiam ter como
confiar um no outro. Do contrário quando há um poder soberano que pode forçar o cumprimento dos acordos, assim o medo que o Estado exerce é o suficiente para garantir que os jogadores executarão o acordo. Porém, no estado de natureza, diz Hobbes, a segunda parte ao agir será motivada a renegar os acordos e, sabendo disso, a primeira parte não executará suas obrigações. Podemos concluir que o jogador não contrataria no estado de natureza racionalmente, porque eles saberiam que os contratos não seriam executados. Assim os contratos que surgissem se baseariam em formas de irracionalidade e, conseqüentemente, não teriam força de compromisso. Para a Teoria dos Jogos, se as condições de construção de reputação são encontrados no estado de natureza, equilíbrios cooperativos existirão.
Para Hobbes, quem está na posição de segunda parte no cumprimento dos acordos, deveria racionalmente executar o contrato, assim a primeira parte estaria segura, que a segunda parte o fará. Desta forma a primeira a primeira parte estaria motivada a executar a sua parte no contrato, assim ambas as partes estariam motivadas a cumprirem o contrato.
Na realidade, se os contratos são possíveis de realizar por meio de jogos repetidos, talvez não haveria a necessidade de uma autoridade suprema. Assim os jogadores racionais só delegariam ao soberano uma autoridade limitada. Por outro lado caso os jogadores no estado de natureza considerassem que equilíbrios cooperativos em tal situação, seria difícil de se sustentar. Em tais condições fica complicado haver o jogo repetido fazendo com que os jogadores não se sintam estimulados a cumprir o acordo.
O principal interesse de Hobbes está em produzir uma justificativa para a existência da autoridade política em um mundo em que essa autoridade existe. Para
Hobbes nem todos os jogadores sociais são confiáveis, por isto seria fundamental a criação de um soberano com poder de arbitragem.
5.9 A relação dos desejos dos jogadores racionais com o pensamento de