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130 Horacio, Odes, I, 11

No documento Ricardo Reis (páginas 197-200)

131 Adris Almeida (in Op. Cit.) relaciona também esta ode com o poema de Omar Khayyam que se inicia com “Busca a

Eís que Reis reforça o que dissemos anteriormente: “Por que t~o longe ir pôr o que est| pero (...)?”. Ou seja, para quê desejar o que est| distante, o futuro ou o passado, quando nós somos apenas o presente e apenas o presente pode ser dado como seguro.

Deixar de desejar (o que não se tem – o futuro; ou o que se deixou de ter – o passado) é infrutífero. Nada disso nos d| “segurança”, como bem refere Reis. A nossa “segurança” é presente, é o “momento”. Porquê? Porque apenas o momento existe, apenas o momento pode ser fruido sem sofrimento. Tanto o futuro como o passado não trazem paz ao homem.

Neste espírito Reis conclui o seu pensamento:

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto Em que vivemos, morreremos. Colhe O dia, porque és ele.

A “intermin|vel hora” – o tempo – flui sem parar, como um rio. Nesse mesmo rio nós somos presenças que desaparecem como ondas que batem contra o fundo rochoso, que desaparecem em espuma momentânea, sem deixar presença.

Reis, por hipérbole, diz que “no mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos” – ou seja, que na mesma acção que nos leva a vida, nos leva a morte, como se a vida durasse apenas um segundo. A brevidade da vida, e a mortalidade humana, são assim acentuadas poeticamente.

Por ser breve a vida, recomenda então Reis que colhamos o dia. Cada dia torna-se precioso, numa vida que é breve e sem recompensas futuras.

112. “Súbdito inútil de astros dominantes…”

Súbdito inútil de astros dominantes, Passageiros como eu, vivo uma vida Que não quero nem amo,

Minha porque sou ela,

No ergástulo de ser quem sou, contudo, De em mim pensar me livro, olhando no alto Os astros que dominam

Submissos de os ver brilhar. Vastidão vã que finge de infinito (Como se o infinito se pudesse ver!) — Dá-me ela a liberdade?

Como, se ela a não tem? 19/11/1933

Ricardo Reis sente aqui a impotência com o modo como a sua própria vida decorre. Sente-se um “súbdito inútil de astros dominantes”, ou seja, alguém que n~o consegue dirigir a sua vida, que se sente controlado por outros poderes maiores do que ele.

Os “astros dominantes” sempre regeram, pelo menos a partir de alguma parte da sua vida, Fernando Pessoa (e por extensão todos os seus heterónimos, que são facetas do seu criador). A certa altura Pessoa declara mesmo expressamente que a sua vida está sujeita a essa missão superior, regida pelas m~os desconhecidas de mestres ignotos…132

O desespero de Reis cristaliza-se em sentimento de estar subjugado a poderes superiores. A vida que vive “n~o quer nem ama”. É só a vida dele no sentido estrito de ele pertencer a ela – como um passageiro alheio ao veículo que habita.

Este sentimento de estranheza perante as coisas faz com que Reis se sinta então prisioneiro da sua vida. A pris~o (o “erg|stulo de ser quem sou”) permite-lhe pouco, mas que ao mesmo tempo é muito: livrar-se de si e olhar “no alto / Os astros que dominam”. Esta atitude de Reis permite-lhe em certa medida uma liberdade encarcerada. Vejamos que ele diz: “olhando no alto / Os astros que dominam / Submissos de os ver brilhar”. O olhar de Reis torna os astros, outrora dominantes, submissos.

É extremamente importante parar um segundo para analisar as implicações desta afirmação de Reis:

Vemos que ao longo dos poemas de Ricardo Reis o homem aparece como uma figura de certa forma diminuída perante os deuses, que o dominam e humilham. Humilham-no com a sua natureza divina, porque os homens são apenas humanos e mortais enquanto os deuses são divinos e imortais. Ao homem, preso na sua prisão de carne, nada é permitido na vida – tudo é uma espécie de ilusão elaborada, pois os homens enganam-se na realidade de pensarem que atingem os seus objectivos. Na realidade nada conseguem porque morrem – a morte nada permite e faz com que todos os objectivos se anulem de imediato no seu significado. Mas o homem, preso assim a uma vida que nada lhe dá, pode almejar libertar-se – pela consciência. É a consciência do seu estado que em última instância liberta o homem, pois o homem liberto deixa de desejar, e deixa sobretudo de se iludir. Deixando as ilusões de parte, o homem liberta-se de certa forma do destino, e dos subsquentemente dos deuses, que desenham esse mesmo destino de maneira tão diligente. E a consciência enquanto solução única do homem sozinho com o seu mesmo destino é a lança atirada para o futuro, é o vislumbrar de uma solução para a solidão existencialista – claro que regresso ao interior, mas regresso sobretudo ao interior essencial. É a fuga do labirinto do homem preso, mas sem que exija ao homem que conheça a saída do labirinto. Basta olhar para o infinito – porque em qualquer há infinito, quer numa prisão, ou numa rua suja da baixa de Lisboa em dia de chuva. O acesso a esta verdade é verdadeiramente universal, porque é uma verdade que qualquer homem pode compreender. Nesta dimensão, a solução de Reis é original e revolucionária.

132 “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais a

obediência a Mestres que n~o permitem nem perdoam”. (carta do rompimento da 1.ª fase do namoro com Ophélia, datada

O facto é que a liberdade, antes ilusória, agora aparece como coisa concretizável, embora na sua dimensão particular, dentro do novo paganismo.

Essa liberdade que parece fugir a cada instante, perante a consciência das coisas como elas são. Essa mesma liberdade que afinal nada possui verdadeiramente, como Reis nos diz:

Vastidão vã que finge de infinito (Como se o infinito se pudesse ver!) — Dá-me ela a liberdade?

Como, se ela a não tem?

O seu grito anterior, de busca de liberdade no infinito, é ainda fraco. Reis duvida se a sua força é suficiente para buscar em algo a liberdade que pensa não existir em nada. Aquilo que falávamos, da fuga do homem do labirinto da vida, não está ainda bem definida em Reis, porque em verdade Reis não pensa a vida fora das regras estritas que se define a si mesmo.

Será mais tarde Bernardo Soares a pegar neste princípio de Reis e a desenvolvê-lo numa verdadeira filosofia existencialista, acrescentando-lhe pequenos métodos que provarão ser de enorme importância. A seu devido tempo analisaremos como esta fuga da vida se concretiza finalmente em Soares, embora comece aqui em Reis.

Suficiente por agora é saber que Reis antevê esta possibilidade, mesmo que duvida poder atingi- la ainda. Duvida porque naturalmente Reis duvida de toda a realidade, e sobretudo da realidade que traz alguma promessa de felicidade. Reis é para si mesmo o seu garante de segurança, pretendendo manter dentro de si todas as perspectivas de futuro – a forma dos seus versos, como da sua vida, é o regaço seguro em que deita a sua cabeça cansada.

No documento Ricardo Reis (páginas 197-200)