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humanos e considerando a diversidade sociocultural

M árcio Const ant ino M art ino Angela Correa Krajew ski Valdir Quint ana Gomes Júnior Fort unat o Past ore

Ent re os diversos signif icados da noção de compet ência, esco- lhemos o de Philippe Perrenoud:

Uma capacidade de agir ef icazment e em um det erminado t ipo de sit uação, apoiada em conheciment os, mas sem limit ar- se a eles. Para enf rent ar uma sit uação da melhor maneira possível, deve- se, via de regra, pôr em ação e em sinergia vários recursos cognit ivos complement ares, ent re os quais est ão os conheciment os.

No sent ido comum da expressão, est es são represent ações da realidade, que const ruímos e armazenamos ao sabor de nossa experiência e de nossa f ormação. Quase t oda ação mobiliza alguns conheciment os, algumas vezes element ares e esparsos, out ras vezes complexos e organizados em rede.

O “objet o” da Compet ência V é a realidade, e t rat a do desenvolviment o da capacidade de agir sobre e nessa realidade (“para que”), de maneira solidária (“como”). Conhecemos a realidade por meio de suas diversas manif est ações: dados (est at íst icos, geomét ricos, et c.), ex- pressões art íst icas e indicadores.

As habilidades propost as no Document o Básico do Enem remet em à Compet ência V na medida em que os dados, conceit os, argument os e inst rument os ut ilizados, preparam o cida- dão para uma int ervenção solidária, at it ude que leva em consideração valores ét icos de cida- dania; esses devem ser const ruídos a part ir do conheciment o e da compreensão da realidade nas suas dimensões ét ica, social, hist órico- geográf ica, polít ica, econômica, cient íf ica, e port an- t o, humanas.

É import ant e ressalt ar que a Compet ência V não se resume apenas à expressão de habi- lidades, isoladament e. Os conheciment os e ações associados a essas habilidades devem ser mobilizados, ut ilizados e int egrados. Deve- se dest acar, t ambém, que essa compet ência requer o domínio das demais, que est ão volt adas para a f ormação int rínseca do ser, inst rument alizando- o para o exercício da cidadania, que só at ingirá sua plenit ude com o domínio da Compet ência V. É a part ir dela que o cidadão int ervém solidariament e na realidade. Por conseguint e, a f ormação escolar não deve se resumir a uma simples int erpolação de conheciment os, mas deve possibilit ar ao jovem ent ender e at uar criat iva e et icament e na t ransf ormação do mundo em que vivemos.

A idéia que f undament a a Compet ência V remet e- nos novament e a Perrenoud:

A própria essência de uma cult ura geral não será preparar os jovens para ent ender e t ransf ormar o mundo em que vivem? Porque a cult ura iria t ornar- se menos geral, se a f ormação não passasse apenas pela f amiliarização com as obras clássicas ou pela assimilação de conheciment os cient íf icos básicos, mas t ambém pela const rução de compet ências que permit em enf rent ar com dignidade, com senso crít ico, com int eligência, com aut onomia e com respeit o pelos out ros as diversas sit uações da vida? Por que a cult ura geral não prepararia para enf rent ar os problemas da exist ência?

O cidadão, nesse cont ext o, é o nosso aluno que, egresso do ensino médio, não pode pres- cindir de seu “poder de part icipação”, devendo envolver- se ativamente em todas as questões da sociedade e t omar part e das decisões que int erf erem em sua vida pessoal e comunit ária.

Esse “ser cidadão” implica numa noção de cidadania at iva onde não se deve apenas quest ionar, exigir e pressionar, mas t ambém propor cont inuament e, de f orma crít ica, criat iva e at uant e, visando à implement ação de medidas concret as de int ervenção. Ter essa compet ência é revelar- se um cidadão não apenas cont est ador, mas um colaborador at ivo e responsável. Ou seja, as propost as de int ervenção devem ser compart ilhadas, t endo como princípio o sent ido social. Tais propost as devem manif est ar relações de responsabilidade, apreço e colaboração.

Como já def inido pelo Document o Básico, as compet ências são expressas por meio das habilidades. A Compet ência V, especif icament e, exige que t odas as demais est ejam incorpora- das à est rut ura cognit iva do est udant e. Assim, considera- se que t odas as habilidades const it u- em- se em f errament as para o domínio dessa compet ência que permit irá “elaborar propost as”. Das 21 habilidades que compõem a Mat riz do Enem, dez est ão diret ament e vinculadas a Com- pet ência V, de acordo com o próprio Modelo de Análise de Desempenho. Essas dez habilidades são apresent adas abaixo:

Habilidade 3 Dada uma dist ribuição est at íst ica de variável social, econômica, f ísi- ca, química ou biológica, t raduzir e int erpret ar as inf ormações dispo- níveis, ou reorganizá- las, objet ivando int erpolações ou ext rapolações.

A vinculação dest a habilidade com a Compet ência V f ica evidenciada na at ividade de ext rapolar os dados apresent ados. Ocorre no moment o de reorganizar as inf ormações apresent adas em um novo cont ext o, além da sit uação inicialment e apresent ada.

Habilidade 5 A part ir da leit ura de t ext os lit erários consagrados e de inf ormações sobre concepções art íst icas, est abelecer relações ent re eles e seu con- t ext o hist órico, social, polít ico ou cult ural, inf erindo as escolhas dos t emas, gêneros discursivos e recursos expressivos dos aut ores.

As ações da Compet ência V podem ser acrescidas qualit at ivament e pelo aluno que demonst rar domínio da Habilidade 5 no t ocant e à capacida- de criat iva e a compreensão da diversidade sociocult ural, uma vez que os valores humanist as são bast ant e evidenciados na produção art íst ica e lit erária.

Habilidade 7 Ident if icar e caract erizar a conservação e as t ransf ormações de ener- gia em dif erent es processos de sua geração e uso social, e comparar dif erent es recursos e opções energét icas.

A ident if icação e a comparação ent re vários recursos e opções f ormam a et apa geradora e essencial de qualquer processo de criação de propost as.

Habilidade 8 Analisar crit icament e, de f orma qualit at iva ou quant it at iva, as impli- cações ambient ais, sociais e econômicas, dos processos de ut ilização dos recursos nat urais, mat eriais ou energét icos.

Complement o necessário ao processo engendrado na Habilidade 7, na medida em que a análise crít ica permit e reconhecer f alhas e rejeit ar ações execut adas, levando à percepção de novos event os e da elabora- ção de propost as que superem os problemas já revelados.

Habilidade 9 Compreender o signif icado e a import ância da água e de seu ciclo p a r a a m a n u t en çã o d a v i d a , em su a r el a çã o co m co n d i çõ es soci oam bi en t ai s, saben do qu an t i f i car var i ações de t em per at u r a e mudanças de f ase em processos nat urais e de int ervenção humana.

Est a habilidade remet e à Compet ência V na medida em que é comple- ment ar à Habilidade 8 pela import ância que a ut ilização da água, como recurso nat ural cada vez mais crít ico, vem assumindo nos dias at uais. A própria descrição da habilidade realça a import ância, no est udo do ci- clo da água, das f ormas de int ervenção humana e suas conseqüências.

Habilidade 10 Ut ilizar e int erpret ar dif erent es escalas de t empo para sit uar e descre- ver t ransf ormações na at mosf era, biosf era, hidrosf era e lit osf era, ori- gem e evolução da vida, variações populacionais e modif icações do espaço geográf ico.

A compreensão dos f enômenos f ísicos, químicos, biológicos e sociais numa perspect iva hist órica e geológica é import ant e pela percepção de seu carát er cíclico, const it uindo- se em valiosa f ont e de inf ormação para auxiliar a f ormulação de propost as de int ervenção na realidade.

Habilidade 11 Diant e da diversidade da vida, analisar, do pont o de vist a biológico, f ísico ou químico, padrões comuns nas est rut uras e nos processos que garant em cont inuidade e a evolução dos seres vivos.

Da mesma f orma como a Habilidade 10 cont ribui com a Compet ência V por apresent ar, em perspect iva hist órica, f enômenos e processos e seu carát er cíclico, o domínio da Habilidade 11 nos permit e reconhecer pa- drões comuns que permeiam as dif erent es est rut uras e processos que garant em a cont inuidade e evolução da vida, permit indo, à semelhança da Habilidade 3, ext rapolações e a percepção desses padrões em est ru- t uras e processos superiores, f acilit ando a f ormulação de propost as mais abrangent es de int ervenção na realidade.

Habilidade 12 Analisar f at ores socioeconômicos e ambient ais associados ao desen- volviment o, às condições de vida e saúde das populações humanas, por meio da int erpret ação de dif erent es indicadores.

A import ância da Habilidade 12 em relação à Compet ência V, ref ere- se aos processos já descrit os para as Habilidades 7 e 8, mas que se revela

f undament al pela abrangência do seu cont eúdo, ligado às grandes con- dições de melhoria da qualidade de vida como um t odo.

Habilidade 13 Compreender o carát er sist êmico do planet a e reconhecer a import ân- cia da biodiversidade para preservação da vida, relacionando condi- ções do meio e int ervenção humana.

As mais variadas f ormas de vida, manif est adas em t odos os níveis no sist ema global, e a f orma harmoniosa e int erat iva pela qual essa diver- sidade est rut ura- se como uma unidade int erdependent e devem ser va- lorizadas. A consciência de que esse t odo compõe um sist ema perf eit o, mas com ligações delicadas, sensíveis a mudanças graves, ref orçam a percepção da necessidade de uma escolha crit eriosa das f ormas de in- t ervenção humana na realidade.

Habilidade 14 Diant e da diversidade de f ormas geomét ricas, planas e espaciais, pre- sent es na nat ureza ou imaginadas, caract erizá- las por meio de pro- priedades, relacionar seus element os, calcular compriment os, áreas ou volumes, e ut ilizar o conheciment o geomét rico para leit ura, compre- ensão e ação sobre a realidade.

As ações prát icas do cot idiano podem at é dispensar o conheciment o geomét rico, mas cert ament e a maioria dessas ações seriam simplif icadas se est e conheciment o f osse adot ado e aplicado, principalment e se essa habilidade est iver a serviço da Compet ência V.

Habilidade 16 Analisar, de f orma qualit at iva ou quant it at iva, sit uações- problema ref erent es a pert urbações ambient ais, ident if icando f ont es, t ranspor- t e e dest ino dos poluent es, reconhecendo suas t ransf ormações; prever ef eit os nos ecossist emas e no sist ema produt ivo e propor f ormas de int ervenção para reduzir e cont rolar os ef eit os da poluição ambient al.

Est a, muit o provavelment e, seja a habilidade- sínt ese do ideal alocado na Compet ência V, ou seja, elaborar propost as de int ervenção na reali- dade para resolver problemas, no caso ref erent es à poluição.

Habilidade 17 Na obt enção e produção de mat eriais e de insumos energét icos, iden- t if icar et apas, calcular rendiment os, t axas e índices, e analisar impli- cações sociais, econômicas e ambient ais.

A Habilidade 17 pode ser considerada no mesmo cont ext o explicat ivo e t emát ico das Habilidades 7, 8 e 16. Cert ament e é mais complexa que as duas primeiras e, ainda, mais densa que a últ ima por abordar assunt os de maior amplit ude.

Habilidade 18 Valorizar a diversidade dos pat rimônios et nocult urais e art íst icos, iden- t if icando- a nas suas manif est ações e represent ações em dif erent es sociedades, épocas e lugares.

Também podemos inserir est a habilidade na mesma lógica da Habilida- de 5, mas é percept ível que ela permit e uma maior consciência das ques- t ões sociocult urais e art íst icas na medida em que ela é uma ampliação das t emát icas da quint a habilidade.

Habilidade 19 Conf ront ar int erpret ações diversas de sit uações ou f at os de nat ureza hist órico- geográf ica, t écnico- cient íf ica, art íst ico- cult ural ou do cot i- diano, comparando dif erent es pont os de vist a, ident if icando os pres- supost os de cada int erpret ação, e analisando a validade dos argu- ment os ut ilizados.

A conf ront ação e a análise de int erpret ações ou ações realizadas apre- sent am- se como o melhor exercício preparat ório para a elaboração de

propost as de int ervenção na realidade, por permit ir que se aprenda, com a experiência alheia, ou at é com os erros próprios e de out rem. Também poderíamos alocar essa habilidade como sínt ese da Compet ên- cia V, com a vant agem de possuir uma abrangência t emát ica superior à unicidade da Habilidade 16 – poluição.

Habilidade 20 Comparar processos de f ormação socioeconômica, relacionando- os com seu cont ext o hist órico e geográf ico.

Ao realizar a comparação e a relação descrit as nessa habilidade pode- se compreender as causas e conseqüências de event os e processos ocorri- dos em épocas e lugares dist int os e analisar o result ado de escolhas e int ervenções ent ão realizadas, aprimorando, dessa f orma, a capacidade de decidir por melhores propost as de int ervenção na realidade.

Referências bibliográficas

MEIRIEU, P. Aprender... Sim, mas como? Tradução de Vanise Pereira Dresch. Port o Alegre: Art med, 1998.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS. ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio): Document o Básico.Brasília: M EC/Inep, 1998.

PERRENOUD, P. Const ruir as compet ências desde a escola. Tradução de Bruno Charles Magne. Port o Alegre: Art med, 1999.

. Avaliação ent re duas lógicas: da excelência à regulação das aprendizagens. Tradu- ção de Pat rícia Chit t oni Ramos. Port o Alegre: Art med, 1999.

4 EIXOS

M ETODOLÓGICOS