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Humor e Memória Abordagem Cognitiva Experimental 17

A psicologia cognitiva experimental já há muito que se vem debruçando sobre a relação entre emoção e memória. Actualmente, o estudo desta temática tem vindo a progredir em diversas áreas, nomeadamente nos campos de investigação que relacionam os níveis de activação/excitação com a memória ou nos estudos de quadros psicopatológicos e memória (Albuquerque e Santos, 2000).

Em termos da relação específica entre humor e memória, do ponto de vista da abordagem cognitiva experimental, existem dois fenómenos fundamentais que devem ser considerados: a memória congruente com o humor (MCH), e a memória dependente do humor (MDH). Estes fenómenos são estudados através da manipulação e indução dos estados afectivos.

2.3.1. Memória Congruente com o Humor

O fenómeno da MCH define-se como a tendência de codificar ou recordar materiais com valência efectiva consistente com o estado afectivo em que o indivíduo se encontra. Este processo de MCH pode ser dividido em dois sub-processos: a codificação congruente com o humor e a recuperação congruente com o humor. Assim no primeiro sub-processo de codificação congruente, a informação que se mostra consistente com o estado de humor do indivíduo no acto da aprendizagem é de facto aprendida de forma mais eficaz devido a sua valência afectiva equivalente (Perghe et al, 2006; Albuquerque e Santos, 2000; Eysenck & Keane, 2000a).

De acordo com Pergher et al (2006), as experiências de Bower e colaboradores (1981) e Mayer e Salovey (1988) são exemplos de estudos onde se verificou a existência da MCH. Após indução de um determinado estado de humor através de métodos como a hipnose ou da audição de músicas com teor emocional, era pedido aos participantes a memorização de uma lista de palavras tristes ou alegres. Posteriormente, quando os indivíduos já se encontravam

num estado de humor eutímico, foram testadas as suas memórias para os materiais aprendidos. O que se verificou foi que, em ambos os experimentos, houve um aumento significativo nos índices de recordação em condições de codificação congruente com o humor (por exemplo, palavras tristes quando o humor induzido era de tristeza), por comparação às condições de incongruência com o humor (por exemplo, palavras alegres quando o humor induzido era de tristeza). Para Forgas (1995, 1997 cit in. Pergher, et al. 2006) estes resultados explicam-se pelo facto dos indivíduos perante um determinado estado de humor produzirem mais associações com as informações que vão ao encontro desse humor, codificando-as mais eficazmente. Este autor verificou que os participantes que se apresentam mais alegres ou tristes parecem dedicar-se mais a materiais que são congruentes com seus humores.

O segundo sub-processo, o da recuperação congruente com o humor, caracteriza-se por um aumento da recordação de materiais com a mesma valência afectiva do que o estado de humor actual da pessoa (Blaney, 1986, cit. in Pergher, et. al. 2006). Este processo parece no entanto ser menos frequente, os estudos na área são menos conclusivos e verifica-se uma tendência para resultados enviesados dado que a valência afectiva da informação estar quase sempre associada ao estado de humor do indivíduo no momento do evento (Ellis & Moore, 1999 cit in. Pergher, et al., 2006).

Kwiatkowski e Parkinson (1994, cit in Eysenck & Keanne, 2000a) compararam a performance da memória em participantes que estavam deprimidos e em participantes em que lhes foi induzido humor depressivo, resultando que a recuperação congruente com o humor só ocorreu nos sujeitos “naturalmente” deprimidos.

Johnson et al (1983, cit in. Pergher, et al., 2006) também procurou verificar a MCH, tendo dividido os participantes em dois grupos, deprimidos e normais. Após ter proposto um conjunto de tarefas, pediu aos participantes que recordassem o conteúdo das tarefas em que tinham obtido sucesso ou fracasso. Como esperado, as tarefas em que houve fracasso foram mais lembradas pelos participantes deprimidos, e as tarefas onde houve sucesso foram mais lembradas pelos indivíduos de controlo. Este estudo vem reforçar assim a relação entre o estado de humor actual do indivíduo e a valência afectiva do material utilizado.

Correntemente, as principais conclusões sobre este processo de memória congruente com o humor, é que este parece ocorrer sob a influência da maior parte dos estados de humor, mas

ser potenciada em casos de depressão clínica e na depressão induzida ou em casos onde a valência ou tom emocional da informação seja elevado, ou seja, onde a informação se encontre intensamente carregada de emoção (Blaney, 1986; Matt et al, 1992, Rink et al, 1992, cit. in Pergher, et al., 2006).

2.3.2. Memória Dependente do Humor

A MDH é um processo que se caracteriza por um aumento da probabilidade do indivíduo recordar informações adquiridas durante um estado particular de humor (Ellis & Moore, 1999, cit. in Pergher, et al., 2006). Diferencia-se assim da MCH dado que, ao contrário desta onde o aspecto relevante é a relação entre humor no momento da codificação e/ou recordação e o conteúdo afectivo das informações a serem aprendidas ou recuperadas, na MDH o aspecto central é a consistência do estado de humor na codificação e recordação.

Exemplificando com um exemplo clássico, o processo de MDH fará com que uma pessoa que oiça uma determinada história enquanto se encontra com humor triste ou depressivo (por exemplo um funeral) venha a ter maior probabilidade de se recordar dessa história quando estiver afectada pelo mesmo estado de humor, independentemente da carga emotiva dessa história.

Neste contexto, pode-se referenciar o estudo clássico de Bower, Monteiro & Gilligan (1978, cit in. in Pergher, et al., 2006) onde foi pedido aos participantes que estudassem duas listas de palavras emocionalmente neutras, uma enquanto estavam felizes e outra enquanto estavam tristes. Mais tarde, os participantes foram incentivados a recordar o maior número de palavras que conseguissem, em qualquer um dos dois estados de humor, podendo assim o estado de humor da recordação ser consistente ou inconsistente com o estado de humor durante a codificação do material (memorização das listas de palavras). Os autores verificaram que, a coincidência entre o estado de humor na codificação e na recordação levava a uma recuperação de mais palavras em comparação com situações em que os estados de humor não eram coincidentes.

Existem dois grupos de factores que parecem explicar o processo da MDH: O primeiro, relaciona-se com a especificidade dos estados de humor, abrangendo quer os processos inerentes à sua indução, quer a intensidade destes. O segundo, diz respeito à natureza ou tipo do material utilizado pela memória.

Em relação à especificidade dos estados de humor, parece que a MDH não é afectada de forma significativa pelo tipo de procedimento utilizado, sendo mais provável de se verificar quando são induzidos estados muito contrastantes como por exemplo tristeza versus felicidade em comparação a estados de humor neutro (Haaga, 1989 e Ucros, 1989, cit in. in Pergher, et al., 2006). Verifica-se ainda que, à semelhança da MCH, este processo é potenciado quando estados de humor são mais intensos, o que faz com que o estado de humor ao ser novamente reproduzido nos actos de codificação e recuperação sirva de pista para a recuperação de material armazenado na memória.

Contudo, como Albuquerque e Santos (2000) observaram, os estudos da MDH em ambientes artificiais revelam dificuldades devido a impossibilidades metodológicas, como por exemplo, o tipo de material a ser memorizado tem por vezes menos significado do que eventos reais de vida.