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Husserl e Heidegger; dois tipos de fenomenologia

No documento Richard Palmer Hermeneutica (páginas 127-130)

Tal como Dilthey considerou a hermenêutica no horizonte do seu projecto de procurar uma teoria do método para as Geistes­

wissenschaften historicamente orientada, também Heidegger usou

a palavra «hermenêutica» no contexto da sua busca, mais ampla, de uma ontologia «fundamental». Poderia dizer-se que Heidegger defendeu as pretensões de Leben contra Geist 11a tradição desses dois grandes filósofos da vida, Nietzsche c Dilthey, mas dc um modo diferente e a um nível diferente. Tal como Dilthey, Heidegger queria um método que revelasse a vida nos seus próprios termos, e em Ser e Tem po (1927) citou apavoradoram ente o objectivo de Dilthey de querer compreender a vida a partir da própria vida ('). Desde o começo que Heidegger procurou um método de ultrapassar as concepções de Ser defendidas no Ocidente, um método que per­ mitisse ir às raízes dessas concepções, um a «hermenêutica» que lhe permitisse to m ar manifestos os pressupostos sobre os quais se têm baseado. Tal como Nietzsche, desejava pôr em causa toda a tradição metafísica ocidental.

Na fenomenologia de Edmund Husserl encontrou Heidegger as ferram entas intelectuais inacessíveis a Dilthey ou a Nietzsche, e um método que explicava os processos do ser na existência hum ana de tal modo que o ser, e não simplesmente a ideologia de cada um, pudesse tornar-se patente. Porque a fenomenologia tinha aberto o campo de uma apreensão pré-conceptual dos fenômenos. Este novo «campo» tinha contudo um significado totalmente novo em Heidegger, diferente daquele que tivera em Husserl. Enquanto Husserl o utilizara com a ideia de tornar visível o funcionamento

da consciência como subjectividade transcendental, Heidegger viu ne!e o meio vital do ser-no-mundo histórico do homem. Na sua historicidade e temporalidade viu pistas indicativas da natureza do ser; o ser, tal como se revela na experiência vivida, escapa às categorias conceptualizaníes, especializantes e intemporais de um pensamento centrado em ideias. O ser era o prisioneiro escondido, quase esquecido, das categorias estáticas do Ocidente, que Heidegger esperava libertar. Conseguiriam o método fenomenológico e a teoria fenomenológica fornecer-nos meios para essa libertação?

Em parte conseguiram; mas era grande a dívida de Heidegger para com Dilthey e Nietzsche; o tipo de busca que efectuava cri­ ticando a metafísica ocidental, particularm ente a ontologia, torna­ va-o pouco seguro quanto ao desejo de Husserl de fazer rem ontar todos os fenômenos à consciência humana, isto é, à subjectividade transcendental. Heidegger defendia a facticidade do ser como sendo um problema ainda mais essencial do que a consciência e o conhe­ cimento humanos, enquanto que Husserl tendia a encarar a própria facticidade do ser como um dado da consciência (2). Um ponto de vista deste gênero, fundado na subjectividade, não fornecia o con­ texto em que o tipo de crítica que Heidegger tinha em mente pudesse ser levado a cabo com êxito. Era suficiente para uma revisão epistemológica de longo alcance, cujas ramificações ainda se fazem hoje sentir em muitos campos (3), mas não era em si mesmo o que Heidegger podia usar para questionar de novo o problema do ser.

É significativo, para uma definição de hermenêutica, que o tipo de fenomenologia que Heidegger desenvolveu em Ser e Tempo seja por vezes designado como hermenêutica fenomenológica (*). Esta designação é mais do que uma subdivisão da área que Husserl tinha em mente: pelo contrário, antes indica dois tipos de fenomenologia muito diferentes. É grande a dívida de Heidegger para com Husserl e são inúmeros os conceitos primitivos de Heidegger que podem ser referidos a Husserl; colocam-se no entanto num novo contexto e ao serviço de um objectivo diferente. Assim, seria um erro con­ siderarmos o «método fenomenológico» como uma doutrina for­ mulada por Husserl e usada por Heidegger para outros fins. Pelo contrário, Heidegger repensou o próprio conceito de fenomenologia de modo a que a fenomenologia e o método fenomenológico adqui­ rissem um carácter radicalmente diferente.

Esta diferença concentra-se na própria palavra hermenêutica. Husserl nunca a usou relativamente à sua obra, enquanto que

(J) WM 241.

(3) Ver Hcrbcrt Spiegclbcrg, The Phenomenological Movement. (4) Como em ibid., I, 318-26, 339-49.

Heidegger afirm ou em Ser e Tempo que a autêntica dimensfio de um método fenomenológico o torna hermenêutico; o seu projecto em Ser e Tempo era o de uma «hermenêutica do Dasein». A esco­ lha feita por Heidegger do termo hermenêutica — uma palavra carregada de associações, desde as suas raízes gregas até ao seu uso moderno em filologia e teologia — sugere um desvio anticicntí- fico fortem ente contrastante com Husserl. A mesma orientação é transposta para a «hermenêutica filosófica» de Hans-Georg Gada­ mer, m arcando a própria palavra com laivos de anticientismo.

As atitudes contrastantes relativamente à ciência podem ser tomadas como a chave das diferenças existentes entre Husserl e Heidegger. Surgem como a seqüência lógica da prática do primeiro nas matemáticas e do segundo em teologia. Para Husserl, a filo­ sofia tem que tornar-se uma «ciência rigorosa» (5) um «empirismo mais alto»; para Heidegger, todo o rigor do mundo nunca poderá fazer com que o conhecimento científico se torne uma m eta final. As inclinações científicas de Husserl reflectem-se na sua busca de um saber apodítico, nas reduções que faz, na tendência em pro­ curar o visualizável e o concebível através da redução eidética; os escritos de Heidegger não mencionam virtualmente um saber apodítico, nem reduções transcendentais nem a estrutura do ego. Depois de Ser e Tem po Heidegger volta-se cada vez mais para a reinterpretação dos filósofos anteriores — Kant, Nietzsche, Hegel — e para a poesia de Rilké, Trakl, ou Hõlderlin. O seu pensamento torna-se mais hermenêutico, no sentido tradicional de centração na interpretação de textos. A filosofia em Husserl mantém-se essencialmente científica, e isso reflecte-se no significado que hoje tem para as ciências; em Heidegger, a filosofia torna-se histórica, é uma reconstrução criativa do passado, uma forma de interpre­ tação (6). Mesmo que Heidegger nunca tivesse designado por «her­ menêutica» a sua análise do Dasein, mesmo assim podia ser conside­ rado como um filósofo hermenêutico por excelência, pelo impacte que teve a última fase da sua obra.

A fronteira entre os dois tipos de fenomenologia é claramente traçada noutro problema: a historicidade (Geschichlichkeit). Husserl tinha observado a temporalidade da consciência e fornecera uma descrição fenomenológica do tempo interior da consciência; no entanto, a sua ânsia em encontrar um conhecimento apodítico levou-o a traduzir essa temporalidade nos termos estáticos e repre­ sentativos da ciência — essencialmente para renegar a temporalidade

(’) Ver uma das primeiras obras de Husserl Philosophie ais slrenge Wis-

srnschaft.

(°) Os dois tipos antitéticos de interpretação que Ricoeur descreve — ré-

nilleclion du sens (desmitologização) e exercice du soupçon (dcsmitifica-

do próprio ser e estabelecer um campo de ideias que ultrapassassem o devir.

Assim, em 1962, Heidegger proclama que a fenomenologia de Husserl elaborou «um padrão estabelecido por Descartes, K ant e Fichte. A historicidade do pensamento mantém-se totalm ente alheia a esta posição» O- Ao mesmo tempo Heidegger sentiu que a sua análise em Ser e Tem po «era, como ainda hoje penso (1962), uma subordinação ao princípio da fenomenologia, m aterialm ente jus­ tificada» ('). A fenomenologia não precisa de ser construída como sendo necessariamente um a revelação da consciência; pode também ser um -meio de revelar o ser, em toda a sua facticidade e histo­ ricidade. Para compreendermos o que isto significa, voltemo-nos para a discussão que Heidegger faz da fenomenologia do § 7 de

Ser e Tempo.

No documento Richard Palmer Hermeneutica (páginas 127-130)

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