5 RESULTADOS DO “DIÁRIO DE CAMPO: (COM)VIVENDO COM AS CRIANÇAS
5.2 I ENCONTRO: O TEMPO DE RODODENDRO 23/05/2018
Rododendro: 15 anos Narciso: 10 anos
Cheguei às 14 h, na ACACCI. Identifiquei-me na recepção informando para a recepcionista meu nome, meu telefone e o setor em que eu iria. Em seguida, ela telefonou para um dos setores e uma jovem veio ao meu encontro. FOGO, estagiária de serviço social, me recepcionou carinhosamente:
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- Boa tarde Ana. Seja bem-vinda! Vou levar você até a brinquedoteca. Pode me seguir, por favor.
Em sua companhia, fiz o trajeto em silêncio até a porta da brinquedoteca. Ao virar à direita, no corredor, avistei uma placa com a palavra Brinquedoteca. Aproximamo- nos e FOGO com um sorriso doce, se dirigiu a minha frente e me falou:
- Chegamos. Seja bem-vinda ao seu destino!
Essa frase traz um sentido lúdico e, naquele momento, selava um instante de sentido de minha existência enquanto ser no mundo. As duas portas brancas de correr foram abertas por ela, movimentando-as para suas laterais, permitindo o entrar por inteiro. Nesse momento, percebo-me como se eu fizesse parte dali, com meu ser corporal adentrando aquele espaço, naquele tempo, por completo, como parte dele. Quando uma porta é aberta, o nosso corpo entra a partir de seu movimento, nosso corpo segue a estrutura da porta como se ela nos apresentasse. Mas, nesse caso, a porta foi aberta e meu próprio ser, meu corpo, naquele momento se apresentou por completo.
Fui apresentada a AR, a assistente social 35responsável pela brinquedoteca. Ela me acolheu com um abraço e, em seguida, me mostrou a brinquedoteca. Conversamos na sala de entrada e decidimos juntas que a proposta para hoje seria eu conhecer e sentir o espaço, a rotina e as crianças no intuito de eu me integrar ao local. Uma sexta feira tranquila, em uma sala linda, colorida, limpa, organizada e cheia de vida num movimento de um garoto que brincava com seu pai. Observei que o olhar do pai muito se assemelhava ao do filho, um olhar sério e, juntos, brincavam de carrinhos, sentados no chão. Narciso, 10 anos, vestia uma bermuda jeans e uma camisa social de manga curta, parecia um homenzinho.
AR se dividiu entre as atividades com Narciso e eu. Pedia para eu acompanhá-la e ia me explicando os procedimentos de segurança como tirar os sapatos, higienizar as mãos com álcool em gel assim que entrar etc. Além de me contar sobre a sala de recreação, mostrando que era um espaço destinado a crianças maiores de 10 anos, destacando os procedimentos para o uso da mesma. A sala possuía uma mesa de sinuca e uma mesa de totó cujas bolas para o jogo ficavam guardadas em um
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armário, assim quando alguém desejasse brincar deveria solicitá-las a ela e, depois, devolvidas para serem novamente guardadas. De imediato percebi AR interessada em colaborar comigo, com minha pesquisa. Ela estava, eu senti, acolhendo-me pelo cuidado. Pacientemente, ela me explicava sua rotina diária:
- Ana, hoje farei um bingo. Nas sextas feiras, o movimento aqui na brinquedoteca é bem menor. Muitas crianças voltam para suas casas ou passam o final de semana na casa de algum amigo ou de um parente na Grande Vitória. Aproveito para fazer uma atividade da qual os responsáveis ou os pais possam participar. Acolher quem acolhe, é o que fazemos também.
AR já tinha planejado essa atividade, os presentes/brindes estavam separados e embalados em sacos transparentes. Ela convidou Narciso e o responsável dele, eles aceitaram participar da brincadeira. Cada um escolheu um lugar para marcar sua cartela e eu fui a responsável em cantar o bingo. Era uma estratégia de AR para meu primeiro contato com eles. Após começarmos o bingo, um adolescente, com a perna amputada na altura do joelho, chegou à brinquedoteca e, calmamente, encostou suas duas muletas na lateral do palco. Veio em minha direção e sorriu, novamente sorriu. Sentou-se no tablado ao meu lado e pediu para eu ajudá-lo no bingo. Rododendro, 15 anos, com câncer do tipo osteossarcoma36 frequenta a
ACACCI há bastante tempo. Sua mãe sentou-se em uma das cadeiras da mesa para crianças e pediu para AR uma cartela e uma caneta vermelha para que ela também participasse da brincadeira. A pedido de Rododendro, eu o acompanhei durante a marcação de sua cartela, pois ele sentia dificuldades em localizar os números.
- Sou muito lerdo. Demoro muito em ler o que está escrito. É um custo de entender.
Ele repetiu essa frase duas vezes. Pareceu-me que ali ele podia ser ele mesmo, falar de suas dificuldades. Ele estava à vontade, seu corpo estava em uma posição confortável. Sentado sobre o palco, ele esticou sua perna, neste momento, ele usou as mãos como apoio. Isso facilitava quando precisava movimentar-se. A mão dava
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Osteossarcoma: Conhecido também como Sarcoma Osteogênico é o tumor ósseo maligno primário mais comum em crianças e adolescentes, com pico de incidência entre a segunda e terceira décadas de vida. Os locais mais frequentes em que esse tipo de câncer afeta são o fêmur distal, área do joelho (tíbia proximal) e o ombro (úmero proximal). Fonte:
equilíbrio ao seu corpo. Enquanto cantava as pedras do bingo, eu respondi
Rododendro:
- Te ajudo. Pode deixar que vou cantar as pedras bem devagar.
Sorriu e, calmamente, arrastou o corpo dele pelo chão, encostando seu ombro no meu. Com um tom de voz baixo, falou-me:
- Não vou sair do seu lado.
Fixou-me seu olhar por alguns segundos e eu percebi o desejo dele em participar por inteiro. O interesse dele em se envolver com a brincadeira era muito grande. A caneta azul estava sempre apontada para a cartela do bingo. Definitivamente, ele não desejava perder nenhum lance, estava se divertindo muito:
- Passei. Essa não tenho, não vale!
Balançava a cabeça em sinal de desagrado. As portas de correr foram abertas novamente, era FOGO. Entrou e foi em nossa direção avisando que estava na hora de Rododendro ir embora. A instituição possui um ônibus e um automóvel para transportar as crianças que fazem tratamento oncológico, sejam moradoras temporárias da ACACCI ou moradoras da Grande Vitoria. O ônibus chegou e
Rododendro precisou partir, mas antes de ir anunciou:
- Se eu ganhar, guarde para mim, por favor, Ana. Quando eu voltar aqui de novo eu pego. Isso se eu ganhar.
Apoiando o corpo sobre a mão, ergueu o seu tronco e levantou-se, deixando sobre o palco a caneta e a cartela do bingo. Sua mãe levantou-se e entregou o material e a cartela para AR. Mãe e filho despediram-se e desejaram sorte aos que continuaram na brincadeira. Eu continuei a cantar o bingo e a marcar a cartela de Rododendro, pois sentia sua presença mesmo na distância.
Eis que uma cartela preenche os requisitos do jogo. O primeiro prêmio do bingo foi um quebra-cabeça e saiu para a cartela dele. Entreguei para AR a prenda e continuamos o bingo até que todos ganhassem algum prêmio. Narciso também ganhou um brinde, um gibi37. Ao receber o prêmio, Narciso correu em direção ao pai,
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Gibi: foi o título de uma revista em quadrinhos brasileira, cujo lançamento ocorreu em 1939 publicada pelo Grupo O Globo. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gibi_(revista_em_quadrinhos)
dando-lhe um forte abraço. Ele e seu pai combinaram de ler o gibi juntos no final de semana.
Às 17 horas, as atividades foram encerradas e, antes de eu ir embora, AR, timidamente, me perguntou:
- Ana, você gostou?
Respondi dando-lhe um forte abraço:
- Sim, claro. Muito obrigada por tudo e desculpe qualquer coisa. Já me sinto envolvida, motivada.
Fui embora com a cabeça fervilhando, o desejo em começar a escrever pulsava em meu ser pesquisadora.
17h. Hora de partir.
Em casa, dias depois38, recorri a minhas memórias e me perguntei:
- Como uma criança com necessidades educacionais especiais na brinquedoteca hospitalar se identifica estando ele diante do brinquedo e do brincar em um processo de subjetividades recorrendo ao conceito merleau- pontyano de corporeidade, experiência e percepção? Porém não reponderei aqui e mais a frente vocês entenderão o porquê. São apenas perguntas sopradas metaforicamente ao vento que cuidadosamente irei compreender.