5 RESULTADOS DO “DIÁRIO DE CAMPO: (COM)VIVENDO COM AS CRIANÇAS
5.11 X ENCONTRO: AZALÉA SENTE SAUDADE DE CASA 15/06/2018
Azaléa:12 anos Oleandro:11 anos
Recebi um convite feito por Luciene, para participar de uma reunião com os voluntários que aconteceria hoje na ACACCI. Após a reunião, eu e AR retornamos para a brinquedoteca.
Ao abrir a porta o que vi me fez sorrir por inteiro. Duas crianças estavam sentadas na mesa de atividades, Azaléa, doze anos, fazia atividades manuais. Essa foi a primeira vez que vi uma criança usando máscara dentro da brinquedoteca da ACACCI. Às vezes essas crianças estão tão fragilizadas que não tem força física para levantar-se da cama. Ambas estavam com a professora da classe hospitalar, que substituiu AR durante a reunião. Como brinquedista, eu defendo a ideia que o brincar é para todos e a criança mesmo impossibilitada de ir até a brinquedoteca, tem o direito a ter acesso ao brincar. Tanto que, em muitos hospitais existem brinquedotecas móveis que circulam pelas UTIs e pelas áreas de prevenção de contato. Rapidamente fiz os procedimentos de segurança e entrei. Eu estava curiosa e feliz. Falei com um sorriso que não cabia em meu rosto:
Azaléa usava um vestido e sobre ele um casaco curto feito de linha rosa Pink. Estava sentada no fundo da sala em uma das cadeiras da mesa de crianças. Sobre a mesa muitos lápis de cor, tintas a base de água e algumas atividades de colorir. Azaléa estava segurando com uma das mãos um lápis de cor azul e coloria um desenho de uma boneca com estampas em patchwork. Ao perceber que eu estava ao seu lado, parou de colorir. Olhou para mim e pude ver através da máscara que cobria seu rosto que ela sorria. Respondeu-me:
- Boa tarde. Sabe de uma coisa? Eu vou para casa hoje. Vou ver minha sobrinha, não vejo a hora de estar em casa. Gosto muito de vir aqui, sabe. Aqui nessa brinquedoteca. Mas estou muitos dias longe de casa, estava no hospital. Vim de lá e vou para casa. Quero muito ir para casa e ver minha sobrinha que tem poucos meses de vida.
Oleandro, 11 anos, também estava lá. Eu ainda não conhecia. Ele estava lendo um livro sobre dinossauros. Quando entramos ele olhou para ÁGUA, fechou o livro e parou a leitura, dando a entender que agora que AR estava de volta, ele não precisava mais estudar e convidou Azaléa para jogar totó. Ela respondeu timidamente continuando a colorir deu desenho:
- Eu iria, mas não sei. Iria mesmo viu?
Vendo a situação, AR perguntou a Oleandro se ela poderia substituir a colega e ele disse que sim. Saíram em direção à mesa de totó e foram jogar e eu fiquei ali, sentada ao lado de Azaléa que logo puxou assunto:
-Oi. Você gosta de bebês? Você tem filhos?
Respondi que sim, que eu tinha um filho de quase 10 anos. Azaléa interrompeu minha fala, disse:
-Sabe Ana. Posso falar só o Ana, né? Eu gosto muito de bebês, mas amo muito minha sobrinha e toda vez que eu fico longe de casa sinto saudade dela. Fico torcendo para voltar logo para casa. Ela tem 11 meses e eu fiquei até hoje muito pouco com ela, pois fico muito aqui em Vitória. Você entende né? Por isso que estou tão feliz hoje. Mas eu também fico feliz quando venho aqui na brinquedoteca.
Azaléa demonstrava essa felicidade não apenas na sua fala. Ela estava fazendo uma atividade de colorir, e seu desenho tinha muitas cores alegres, além de flores, nuvens, traços que davam a entender que eram pássaros voando próximo aos raios do sol em cor amarelo ouro. Observei no desenho dela, bem no final da página, o desenho de dois corações, feitos com canetinha hidrocor vermelha e tudo isso a partir de sua criatividade, como expressão do seu ser. Um ser que demonstra amar e sentir a falta do lar, dos amigos, da sobrinha e estar junto novamente era algo que renovava suas forças.
Eu perguntei:
-Azaléa você vai levar esse desenho para casa?
Ela com um brilho no olhar, respondeu-me:
-Vou levar para a minha sobrinha. Esse coração aqui sou eu, e esse aqui é ela. E o sol é porque tem muita luz no dia de hoje, estou feliz. Sinto falta da minha casa, da minha família, dos meus amigos, mas muito da minha sobrinha. Entendeu? Agora preciso terminar, senão não vai dar tempo. Aqui já vai fechar.
A sexta-feira é um dia calmo, com pouca movimentação na brinquedoteca e hoje não foi diferente. AR comentou comigo que Acácia e Lisianto antes de irem para a classe hospitalar passaram por lá e deram um “oi tia” e perguntaram por mim. Tem dias que eles não querem estudar e enrolam até chegar ao destino final, que é a sala da classe. Assim como em sua rotina fora do tratamento, também tem dias que não desejam ir para a escola e não é porque estão em tratamento que deixam de serem crianças. São muito espertos! A vida é um ciclo, constituídos a partir de movimentos, de desejos de estar, de ser, de mudar, de ficar, de seguir!
“O papel do corpo é assegurar essa metamorfose. [...] Se o corpo pode simbolizar a existência, é porque a realiza e porque é sua atualidade” (p. 227). O que dizer de Azaléa? Corporeidade, percepção e experiências sentidas em um corpo que deseja ser. Ser no mundo e ser com o mundo e com o outro!