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3. CULTURA, GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE

3.3 SOBRE IDENTIDADE

3.3.1 Identidade e globalização

identidades surgem em contextos marcados por relações de poder e define três formas de origem de construção de identidade: identidade legitimadora, aquela que nasce em instituições dominantes da sociedade; identidade de resistência, criada por atores que se encontram em situações desvalorizadas; identidade de projeto, aquela que é construída quando os atores sociais utilizam material cultural para construir uma nova identidade para se reposicionar na sociedade (CASTELLS, 2006). Na atualidade, seria a segunda forma de construção de identidade a mais importante. A união dessas identidades formam as comunidades:

Ele dá origem a formas de resistência coletiva diante uma opressão que, do contrário, não seria suportável, em geral com base em identidades que, aparentemente, foram definidas com clareza pela história, geografia ou biologia, facilitando assim a “essencialização” dos limites da resistência (CASTELLS, 2006, p. 25).

Considerando que as identidades formam as comunidades, Zygmunt Baumann (2005), fala de dois tipos delas: comunidades de vida e comunidades de destino. A primeira seria aquela imposta, que não possibilita escolha ao sujeito, como a nacionalidade. Já a segunda, diz respeito ao pertencimento, ou seja, pertencer a alguma coisa ou lugar e ter a sua identidade vinculada a essa comunidade de destino. Seria então a identidade marcada pelo pertencimento.

Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento”

quanto para a “identidade” (BAUMANN, 2005, p. 17).

O sentimento de pertencer a algum lugar ou alguma coisa é o ponto chave para se definir uma identidade. As identidades são construídas dentro e não fora do discurso (HALL, 1999, p. 110).

3.3.1 Identidade e globalização

A globalização provoca alguns efeitos em termos de identidade. Para Hall (1999), que prefere utilizar o termo modernidade tardia, ela provoca a desintegração das identidades nacionais gerando o crescimento da homogeneização cultural, fortalece as identidades

nacionais e locais por meio da resistência à globalização e faz com que as novas identidades tomem o lugar das identidades nacionais que estão em decadência.

As mudanças ocorridas em todo o mundo, seja no âmbito econômico, político ou cultural, produziram também outras demandas, entre elas, a do mercado de trabalho. A busca por melhor qualidade de vida em outros lugares, ou seja, a migração dos povos é uma das características. Essa ação traz impactos tanto para o país de origem, quando para o país de destino. “Essa dispersão das pessoas ao redor do globo produz identidades que são moldadas e localizadas em diferentes lugares e por diferentes lugares” (WOORDWARD, 2000, p.22).

Para Hall, a ideia de que as identidades estão se tornando homogeneizadas é

“simplista, exagerado e unilateral”. Kevin Robins (1991, apud HALL, 1999) defende que ao lado da tendência a homogeneização local, há também uma “fascinação com a diferença e um interesse pelo local.” Outra qualificação acerca do tema homogeneização global está no que Doreen Massey (1991 apud HALL, 1999) chama de geometria do poder. Para ele a globalização é desigual. Além disso, cabe destacar que a existência ou força da globalização é maior no ocidente: “A proliferação das escolhas de identidade é mais ampla no centro do sistema global que nas suas periferias” (HALL, 1999, p. 47).

A globalização seria então a “culpada” por destruir as bases da identidade ou das culturas nacionais e pelo fortalecimento das culturas locais. Nesse ponto se encontram as outras duas consequências da globalização, o fortalecimento das identidades locais e a produção de novas identidades. “O fortalecimento de identidades locais pode ser visto na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que sentem ameaçados pela presença de outras culturas” (HALL, 1999, p. 50).

Hall exemplifica:

Algumas vezes isso encontra correspondência num recuo, entre as próprias comunidades minoritárias, a identidades mais defensivas, em resposta a experiência de racismo cultural e de exclusão. Tais estratégias incluem a reidentificação com as culturas de origem (no Caribe, na Índia, em Banglsdesh, no Paquistão); a construção de fortes contraetnias – como na identificação simbólica da segunda geração da juventudade afro-caribenha, através dos temas e motivos do rastafarianismo, com sua origem e herança africana; ou o revival do tradicionalismo cultural, da ortodoxia religiosa e do separatismo político, por exemplo, entre alguns setores da comunidade islâmica (HALL, 1999, p. 50).

Entende-se por grupos étnicos a população que se caracteriza semelhante pela biologia, compartilha valores culturais, se comunica e interage e por fim, cujos membros se identificam e são identificados por outros. Esses grupos não são mais vistos como grupos

isolados que mantém sua cultura sem deixar ultrapassar as fronteiras ou se deixar invadir. As fronteiras étnicas continuam a existir independente do fluxo de pessoas que a atravessam, bem como os grupos étnicos continuam a existir mesmo que estejam separados em mais de um grupo (BARTH, 1998).

Para Fredrik Barth (1998), a manutenção das fronteiras étnicas tem que ser debatida como algo problemático, já que segundo o autor, isto se relaciona às diferenças culturais e raciais, separação social, barreiras linguísticas, inimizades. “Essa história” de explicar a diversidade cultural associando o fato de que cada grupo étnico desenvolve sua cultura isoladamente respeitando fatores ecológicos locais resultou em “um mundo de povos separados” (BARTH, 1998).

A manutenção de fronteiras étnicas implica também a existência de situações de contato social entre pessoas de diferentes culturas: os grupos étnicos só se mantêm como unidades significativas se acarretam diferenças marcantes no comportamento, ou seja, diferenças culturais persistentes (BARTH, 1998, p.

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Dessa forma, as fronteiras étnicas se fixam muito mais na cultura do que no território.

Um exemplo disso é o fato de que um grupo étnico x pode se inserir em um grupo étnico y, atribuindo à identidade do primeiro características culturais do segundo. Entretanto, o contrário não precisa necessariamente acontecer, ou seja, o grupo y continua tendo sua identidade sem agregar as características do grupo x.

Há ainda outro conceito que merece atenção pelo fato de ser resultado da globalização.

Como já citado acima, a migração dos povos faz parte desse processo e os termos “tradição” e

“tradução” ganham espaço em um quadro global. Embora as consequências trazidas até aqui façam pensar que as identidades podem ser construídas de forma homogeneizada, ou retornando as raízes ou ainda se fixando “num lugar ou noutro”, há outra possibilidade para a sua formação, a da tradução.

Esse conceito descreve aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre de sua terra natal. Essas pessoas retêm fortes vínculos com seus lugares de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado. […] As pessoas pertencentes a essas culturas híbridas têm sido obrigadas a renunciar ao sonho ou à ambição de redescobrir qualquer tipo de pureza cultural “perdida” ou de absolutismo étnico. Elas são irrevogavelmente traduzidas (HALL, 1999, p. 52).

A crise de identidade se configura na mudança pela qual as identidades do sujeito pós-moderno estão passando. A identidade fragmentada, móvel e construída toma o lugar dos sujeitos cujas identidades nasciam consigo e seguiam fixas ao longo da vida.

Faz parte dos objetivos específicos dessa pesquisa entender como se dá a construção das identidades, seja individual ou de uma comunidade, no âmbito local. Para tanto é preciso tencionar o conceito de identidade nacional, já que é por meio da resistência que as identidades locais são fortalecidas.