3. CULTURA, GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE
3.3 SOBRE IDENTIDADE
3.3.2 Identidade e representação
A identidade nacional nos é imposta ao longo dos anos, não nascemos com ela. “As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre a nação, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades.” (HALL, 1999, p. 31). Nessa perspectiva trazemos o conceito de “comunidades imaginadas” formulado por Benedict Anderson e citada por Woordward (2000) e Hall (1999):
[o autor] utiliza essa expressão para desenvolver o argumento de que a identidade nacional é inteiramente dependente da ideia que fazemos dela.
Uma vez que não seria possível conhecer todas aquelas pessoas que partilham de nossa identidade nacional, devemos ter uma ideia partilhada sobre aquilo que a constitui. A diferença entre as diversas identidades nacionais reside, portanto, nas diferentes formas pelas quais elas são imaginadas (WOORDWARD, 2000, p. 24).
Essas “comunidades imaginadas” se constituem, segundo Hall, a partir de elementos que ditam como a identidade nacional é contada. Em primeiro lugar, “há uma narrativa da nação”, ou seja, é por meio das histórias contadas através da literatura, mídia e cultura popular que se fornecem uma série de artefatos (histórias, imagens, eventos, símbolos e rituais), que representam as experiências partilhadas “que dão sentido a nação”.
Pode-se listar, ainda, a valorização das origens e da tradição, bem como a “invenção da tradição”, que tem como base a ideia de que as vezes tradições que parecem antigas não passam de ações repetidas diversas vezes que tem como objetivo implantar na cultura nacional algum comportamento. O autor fala também do mito fundacional:
uma história que localiza a origem da nação, do povo e de seu caráter nacional num passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo “real”, mas de um tempo “mítico”. Tradições inventadas
tornam as confusões e os desastres da história inteligíveis, transformando a desordem em “comunidade” (HALL, 1999, p. 33).
Por vezes a identidade nacional se baseia na ideia simbólica de um povo com uma cultura pura ou original. Entretanto, a realidade mostra que com o desenvolvimento nacional essas características se perdem. Portanto, é preciso registrar que as identidades nacionais se constroem entre o passado e o futuro, se equilibrando entre “as glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção a modernidade” (HALL, 1999, p. 33).
É a partir da posição que o sujeito assume perante tais conceitos que a representação acontece. “É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos” (WOODWARD, 2000, p. 18). A autora traz como exemplo para a questão da representação os anúncios publicitários que tem o “poder” de construir identidades através de seus significados. A mídia, referindo-se também aos telejornais como elemento midiático produtor de significados culturais, só tem sucesso em seu produto quando este cria condições para que o sujeito consumidor se identifique com tal.
A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar (WOODWARD, 2000, p. 18).
Em um texto de 1988, sobre a mudança na política cultural negra na Inglaterra, Hall utilizou pela primeira vez o conceito de Cenário de Representação (CR). Lima (2004) traz o surgimento do conceito para explicar que os Cenários de Representação são o espaço ou lugar onde acontece uma ação, na qual a hegemonia, ou seja, o sistema vivido de significados e valores é construído. São nos cenários de representação que são construídas publicamente as hegemonias relativas à política, gêneros, raças, gerações.
O conceito surgiu, segundo o autor, com a necessidade de se compreender as representações da realidade. As contribuições acerca do tema surgiram com os Estudos Culturais com a devida importância dada a essas representações impostas principalmente pela mídia. Lima (2004) traz o conceito de hegemonia para fundamentar a articulação teórica feita pelo mesmo. Ele retoma o que Raymond Williams (1979, apud LIMA, 2004) afirmou: “um conjunto de práticas e expectativas”, “um sistema vivido de significados e valores”, “um complexo realizado de experiências, relações e atividades, com pressões e limites específicos
e mutáveis” (LIMA, 2004, p. 12). Dessa forma, os cenários de representação têm como característica o fato de não apenas representar a realidade, mas também constituí-la.
Nas democracias representativas contemporâneas, os Cenários de Representação são, portanto, o espaço específico das diferentes representações da realidade, constituído e constituidor, lugar e objeto da articulação hegemônica total, construído em processos de longo prazo, na mídia e pela mídia (sobretudo na e pela televisão). Como a hegemonia, os CR não pode nunca ser singulares. Temos, portanto, de acrescentar ao conceito de CR o conceito de contra-CR ou de CR alternativo (LIMA, 2004, p. 14).
Lima (2004) defende que o conceito de hegemonia dispõe de vantagens teóricas na referência do conceito de CR. O primeiro deles se refere ao fato de que é necessário entender que em uma sociedade há desigualdades entre as classes e, portanto, a hegemonia não pode ser reconhecida por completa. Portanto é preciso usar o termo contra-hegemonia ou hegemonia alternativa para diferenciar a hegemonia dominante, bem como as alternativas ou subordinadas.
O segundo ponto de discussão diz respeito à identificação que a hegemonia recebe no processo de “constituído pela” e “constituidor da” realidade social. Lima (2004) lembra que a hegemonia é um espaço de representações simbólicas, portanto, o símbolo é a unidade básica.
Entretanto, citando Willians, o autor explica que a função constituidora e constituída da hegemonia supera a dicotomia entre as duas e estabelece um novo argumento de que a
“linguagem e significação” não se dissolvem e estão envolvidos na produção e reprodução da realidade (LIMA, 2004, p. 16).
O que é válido para o conceito de “hegemonia” necessariamente será também válido para o conceito de CR. Considerando que um aspecto (não o único) que diferencia o CR da hegemonia é a ênfase no papel central da mídia, na construção do hegemônico [...] logo se manifesta uma das implicações de seu caráter “constituidor da” e “constituído pela” realidade:
as “representações” que a mídia faz da “realidade” (media representations) passam a constituir a própria realidade (LIMA, 2004, p. 16).
A hipótese de que a mídia tem papel central na constituição do hegemônico nos cenários de representação faz parte dos avanços teóricos na pesquisa de comunicação. O modelo semiótico textual é um deles. Tal avanço trata a mensagem como um “conjunto de práticas textuais”, as quais confirmam “o poder determinante da mídia na construção do hegemônico”. Outro avanço é a questão do enquadramento (framing), ou seja, a seleção ou escolha do que será notícia (LIMA, 2004, p. 17).
Retornando a questão da identidade, é preciso destacar que em um primeiro olhar, a identidade pode ser entendida como sendo aquilo que o sujeito é, sendo então uma positividade. Entretanto é na diferença que ela se constitui. Na mesma linha de pensamento de que identidade é aquilo que se é, a diferença é aquilo que não se é, ou aquilo que o outro é.
Dessa forma, a construção da identidade na perspectiva da diferença se dá por meio da exclusão (ex.: identidade racial) e do poder (ex.: classes sociais). Para Silva os dois termos são atos de criação, “tem que ser ativamente produzidas”:
Em geral, consideramos a diferença como um produto derivado da identidade. Nesta perspectiva, a identidade é a referência, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. Isto reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos (SILVA, 2000, p. 75).
A identidade e a diferença estão inteiramente ligadas e juntas estão associadas aos sistemas de significação que por sua vez vinculam-se aos sistemas de representação. Esse conceito tem sua história vinculada a múltiplos significados. Na filosofia ocidental o conceito se refere a ideia de materializar o real, seja por meio de sistemas de signos como a pintura ou na representação interna ou mental. No pós-estruturalismo, o conceito clássico de representação é questionado. Nessa concepção a representação acontece única e exclusivamente no exterior, no visível e nunca há representação mental. Silva (2000) explica que nesse contexto, o conceito de representação é concebido como um sistema de significação: “a representação é, como qualquer sistema de significação, uma forma de atribuição de sentido” (SILVA, 2000, p. 91).
É aqui que a representação se liga à identidade e à diferença. A identidade e a diferença são estreitamente dependentes da representação. É por meio da representação, assim compreendida, que a identidade e a diferença adquirem sentido. É por meio da representação que, por assim dizer, a identidade e a diferença passam a existir. Representar significa, neste caso, dizer: “essa é a identidade”, “a identidade é isso” (SILVA, 2000, p. 91).
Entender a relação entre identidade e diferença é compreender também que é necessário ter um olhar para o outro, para o que é estranho ou diferente aos seus olhos. A representação das identidades por vezes faz parte de um conjunto de características que determinam como os grupos indenitários serão concebidos, são os estereótipos.