3. CULTURA, GLOBALIZAÇÃO E IDENTIDADE
3.3 SOBRE IDENTIDADE
3.3.3 Identidades estereotipadas
A centralidade da televisão como meio dominante (LIMA, 2004), bem como a influência dos meios de comunicação de forma geral são um dos responsáveis pela disseminação de representações de identidades nacionais, culturais, locais. Essas representações “inadequadas de estrangeiros, classes sociais e outras comunidades” são tidas como um dos problemas do processo democrático. Tais representações são o que podemos chamar de estereótipos (FILHO, 2004, p. 47).
Como exposto no item anterior, as identidades fazem parte dos sistemas de representação. Tal representação da identidade vem acompanhada de uma série de características que formam os estereótipos. Segundo Filho (2004),
os estereótipos, a exemplo de outras categorias, atuam como uma forma de impor um sentido de organização ao mundo social; a diferença básica, contudo, é que os estereótipos ambicionam impedir qualquer flexibilidade de pensamento na apreensão, avaliação ou comunicação de uma realidade ou alteridade, em prol da manutenção e da reprodução das relações de poder, desigualdade e exploração; da justificação e da racionalização de comportamentos hostis e, in extremis, letais (FILHO, 2004, p. 47).
O estereótipo é a principal estratégia discursiva do discurso do colonialismo. Para Bhabha (2014), a característica do discurso colonial é a dependência de conceitos fixos na construção da alteridade, ou seja, na concepção do outro. Essa fixidez, signo da diferença cultural/histórica/racial pode conotar ordem e desordem. A ambivalência existente nesse processo de estereotipagem é a força que garante sua validade.
[o estereótipo] é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre “no lugar”, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido… como se a duplicidade essencial do asiático ou a bestial liberdade sexual do africano, que não precisam de prova, não pudessem na verdade ser provados jamais no discurso (BHABHA, 2014, p.
117).
O uso do estereótipo está presente na mídia, seja em conteúdo jornalístico ou publicitário. Em uma análise sobre o uso da preguiça como traço cultural baiano na divulgação do Estado da Bahia como destino turístico, Oliveira (2006) acredita que o estereótipo do baiano como preguiçoso faça parte de um discurso colonial. Para o autor esse
estereótipo faz parte de uma série de características que formam a “baianidade”, que serve como “chamariz turístico”.
A preguiça baiana seria, portanto, um perfil construído historicamente e reforçado pela mídia, que reproduz os interesses da elite. Desde o século XVI, a elite local depreciava os negros escravos, descritos como desorganizados e sujos, depois como analfabetos e sem conhecimento, e, finalmente, como preguiçosos (OLIVEIRA, 2006, p. 58).
Dessa forma, os estereótipos representam não só categorias pessoais, mas também representam a diferença cultural, servindo muitas vezes como expressões em conflitos sociais.
Filho (2004, p. 47) exemplifica as características estereotipadas em identidades nacionais:
“português boçal, o irlandês rude, o oriental dissimulado, o argentino esnobe, o imigrante arruaceiro, o roqueiro drogado, o rebelde sem causa, o homossexual erotomaníaco, o intelectual afeminado, o índio preguiçoso”.
Como visto, o processo de estereotipagem está relacionado à construção do outro, ou seja, o modo de representação da alteridade. Esse movimento pode ser vinculado a questões de pertencimento do mundo moderno, ou seja, ao sentimento de nação e as tradições culturais de nação, ao progresso da civilização como a hierarquização racial, bem como a questões de poder e autoridade no contexto da construção nacional, do colonialismo e imperialismo (FILHO, 2004).
No que diz respeito ao colonialismo, é importante destacar o estereótipo visto como fetiche. Isso acontece por que o “mito” da origem histórica do sujeito colonizado em relação ao estereótipo colonial tem como objetivo estabelecer normas para constituir o discurso colonial, que neste caso é o discurso da recusa da diferença ou do reconhecimento (BHABHA, 2014).
O estereótipo, então, como ponto primário de subjetificação no discurso colonial, tanto para o colonizador como para o colonizado, é a cena de uma fantasia e defesa semelhantes – o desejo de uma originalidade que é de novo ameaçada pelas diferenças de raça, cor e cultura. [...] O estereótipo não é uma simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade.
É uma simplificação porque é uma forma presa, fixa, de representação que, ao negar o jogo da diferença (que a negação através do Outro permite), constitui um problema para a representação do sujeito em significações de relações psíquicas e sociais (BHABHA, 2014, p. 130).
Bhabha (2014) usa Fanon para explicar a maneira como o sujeito se posiciona no discurso estereotipado do colonialismo. Segundo o autor, as lendas e histórias auxiliam o
sujeito a fazer a negação, dando acesso dessa forma ao reconhecimento da diferença. Um exemplo seria o momento em que uma criança se defronta com estereótipos raciais e culturais nas histórias infantis - os brancos são os heróis e os negros os demônios.
Cenas como essa são comuns em sociedades coloniais, como a brasileira, por exemplo. Bhabha relaciona os estereótipos com o “problema da discriminação”. Como forma de exemplificação, usa-se a sociedade brasileira e o discurso colonial racial. Em uma pesquisa recente sobre estereótipo do negro em uma telenovela, Almeida (2015) afirma que o estereótipo racial produzido pelo discurso colonial é resultado da busca pela imagem fetichista, pois ele possui valor de recusa e de saber.
O discurso discriminatório, precisa lembrar sempre pela repetição as suas representações para que a diferença seja atual na forma do estereótipo tornando eficaz seu modelo de poder. A discriminação racial é sustentada na presença da diferença, porque ela é o seu objeto e para tanto, precisa ser lembrada e apontada, através do estereótipo. A afirmação da diferença, se apoia na “evidência do visível” como um tipo de conhecimento primário, espontâneo, empírico, produzido pelo estereótipo racial. Desse modo, a cor da pele negra ou a textura do cabelo crespo entre outros traços físicos ou culturais são fixados como signos raciais suficientes para a discriminação marcando ideológica e politicamente a diferença negativa que irá produzir tanto, uma identidade deteriorada como determinar um lugar social subalterno (ALMEIDA, 2015, p. 244).
Para Bhabha (2014), a ação de estereotipar não está vinculada a ideia de uma imagem falsa que se torna uma prática discriminatória. Para o autor, esse ato é muito mais ambivalente
“de projeção e introjeção, estratégias metafóricas e metonímicas, deslocamento, sobredeterminação, culpa, agressividade, o mascaramento e cisão de saberes oficiais e fantasmáticos” (BHABHA, 2014, p. 140).
As identidades, sejam elas estereotipadas ou não, e todo o processo ao qual estão inseridas, como foi exposto nesse capítulo darão suporte para a análise empírica desta pesquisa. Dessa forma, para compreender como o telejornalismo local, como subgênero televisivo representa e/ou colabora na construção de novas identidades é necessário olhá-lo a partir de sua relação com o público. Portanto, a metodologia utilizada são os modos de endereçamento, apresentados no capítulo que segue.
4. CAMINHOS DA PESQUISA: MODOS DE ENDEREÇAMENTO E ASPECTOS