Discours d'ontologie
8. Identidade e igualdade
Hector-Neri Castañeda
“Identity and Sameness”, Philosophia, v5, n1-2 (1975): 121-150.
No entity without identity (W. Quine) ... na medida em que nós lidamos apenas com os assim chamados contextos extensionais, nós podemos ter a ilusão de que nós estamos intelectualmente manipulando propriedades neutras (e particulares). Contudo, tão logo nós nos movemos para o nível do discurso sobre relações cognitivas e linguísticas, nós precisamos encarar o fato de que nos encontramos em predicações parcialmente egocêntricas de propriedades (e particulares). (“Indicadores e quase-indicadores”).
Como todos sabem, identidade e igualdade são dois dos mais pervasivos e mais fundamentais aspectos dos objetos do mundo e mesmo fora do mundo. Sem os conceitos de identidade e igualdade, uma criatura não pode pensar e não tem, por conseguinte, nenhum mundo para confrontar. Não espanta, então, que reflexão na identidade e na igualdade termina, seguida e rapidamente, em confusão e enigma.
A maioria dos problemas e enigmas que cercam a identidade e a igualdade foram ultimamente discutidos abundantemente nos jornais profissionais e em livros. Meu propósito aqui é tentar resolver estes problemas e enigmas por
meio de uma virada copernicana em nossa concepção de indivíduos e de identidade e igualdade. A abordagem padrão, ptolomaica, trata a identidade do ponto de vista de uma consciência senhorial que inspecciona o mundo em sua espantosa totalidade. Eu proponho, ao contrário, tomar-se tanto a nossa dependência do mundo como a nossa finitude muito seriamente. Nós somos criaturas imersas no mundo, em um pequeno canto do mundo; nós podemos perceber apenas uma pequena seção transversal desse canto; nós podemos ver apenas aspectos parciais dos objetos do mundo, e nós podemos vê-los apenas pouco a pouco, circulando ao redor dos objetos no mundo. (O mundo é o cerne daquilo que Sellars chama a Imagem Manifesta. Ele é o fundamento do universo que é o tema de pesquisa da ciência.)
O principal resultado da investigação é a separação da identidade em relação a outras três relações de igualdade que são usualmente predicadas de indivíduos pela locução “é o mesmo que” e “é idêntico a”. Uma vez que não há identidade ou igualdade sem as correspondentes entidades, a destilação dos membros da família da identidade nos leva a algumas distinções e teses ontológicas básicas. Estas são discutidas em detalhe em “Thinking and the Structure of the World”.1 Assim, o presente
artigo é uma introdução a este ensaio.2
I. Identidade
Identidade é a relação reflexiva par excellence, e esta é a fonte do primeiro enigma que ela cria.3 A identidade exaure-se na
sua reflexividade. Identidade não é realmente senão auto- identidade.4 Isto é espantoso. Pois, enquanto a fala acerca da
identidade, sem qualificações, soa instingante, a fala acerca de
1 H.-N. Castañeda, “Thinking and the Structure of the World”, Philosophia, 4, 1974, 3-40. 2 Outra introdução ao “Thinking and the Structure of the World”, do entreponto do problema da
individuação, é “Individuation and Non-Identity: A new look”, American Philosophical
Quarterly (forhtcoming). Haverá outras introduções. “Existence” será apresentado no
encontro do Grupo de Discussão de Ontologia, em 24 de abril de 1975. 3 Cf. para isso a primeira página do “Sobre o sentido e a referência” de Frege. 4 Para modificar uma frase de meu amigo Donald Nute.
auto-identidade é inevitavelmente enfadonha e banal. Porém, eu não vou adentrar-me nesse enigma. Ele receberá sua clarificação no devido tempo. Aqui nós devemos começar com a importante e crucial verdade acerca da identidade. Esta é a assim chamada Lei de Leibniz da indiscernibilidade dos idênticos, a saber:
(LL) Se x é idêntico a y, então, tudo o que é verdadeiro de x é verdadeiro de y e tudo o que é verdadeiro de y é verdadeiro de x.
A maioria das dificuldades ou enigmas acerca da identidade tem a ver com (LL). Acontece que pode haver casos em que um objeto ordinário x seja naturalmente tido como idêntico a um objeto ordinário y e ainda assim parece que algo verdadeiro de x não é verdadeiro de y. Tais casos são referidos seguidamente como situações descritas em contextos intensionais. É importante, contudo, manter em mente que a Lei de Leibniz acima, isto é, (LL) acima, não é um princípio de substituição de expressões por outras expressões em contextos sentenciais ou frasais: ela é uma lei sobre entidade e suas propriedades, e se o-que-é-verdadeiro de uma entidade não necessita ser uma propriedade, (LL) é também sobre estruturas de características de entidades não-linguísticas e não-propriedade.
Desde que os fenômenos mentais são filosoficamente mais intrigantes, o mais importante tipo de contexto intensional é aquele ilustrado por proposições mentais (ou sentenças, se você quiser). Estas são as proposições (ou sentenças) cruciais que melhor revelam a necessidade de nossa virada copernicana. Então, para focalizar nossa atenção, considere um caso simples de crença, tal como apresentado por Sófocles em sua Édipo Rei:
(1) Antes da peste Édipo acreditava que o Rei de Tebas estava morto.
(2) O rei de Tebas e o pai de Édipo eram o mesmo. Então,
(3) Antes da peste Édipo acreditava que o pai de Édipo1
estava morto. Além disso,
(4) Não é o caso que antes da peste Édipo acreditava que o pai de Édipo5 estava morto.
Como se sabe, certamente desde Frege, se a igualdade de (2) é a identidade estrita, então, por (LL), tudo o que é verdadeiro do rei de Tebas é também verdadeiro do pai de Édipo. Por (1), parece ser verdadeiro do rei de Tebas que antes da peste Édipo
acreditava que ele estava morto; logo, isto deveria ser verdadeiro
do pai de Édipo; isto parece ser o que (3) diz. Mas, (3) conflita com a verdade crucial de (4) em Édipo Rei. Este conflito é parte da opacidade referencial, como Quine a chama, dos contextos de crença.
Há três tipos de solução formal para este enigma: (a) tomar os contextos referencialmente opacos como criando exceções à Lei de Leibniz; (b) assumir que sentenças incompletas como “Édipo acreditava que ____ estava morto” não expressam propriedades, ou algo verdadeiro, de entidades referidas por meio de expressões que ocupam a posição “___”; (c) adotar o ponto de vista de que (2) é falsa, de tal modo que o rei de Tebas não seja realmente idêntico ao pai de Édipo. Em qualquer caso nós devemos desenvolver uma abordagem ou teoria geral.
A solução (a) não é realmente uma solução para o problema representado por (1)-(4), a menos que as condições para a limitação de (LL) sejam completamente especificadas. E esta é para mim a verdadeira dificuldade desta abordagem. A identidade é caracterizada pela Lei de Leibniz. Então, adotar o curso (a) equivale a dizer que as locuções “é idêntico com” e “é igual a”,
pai de Édipo estava morto' e 'Édipo acreditava que seu (próprio) pai estava morto' expressam em seu sentido normal diferentes proposições. Razões para esta contenção veja-se “On the Phenomeno-logic of the I”, Proceedings of the XIVth International Congress of Philosophy,
(1968), vol. III: 260-266; “On the Attributions of Self-Knowledge to Others”, The Journal of
Philosophy, 65 (1968): 439-456; “Indicators and Quasi-Indicators”, American Philosophical Quarterly, 4 (1967): 85-100; e “He': A study in the Logic of self-consciousness”, Ratio,
bem como qualquer outra que pareceria expressar identidade, realmente não expressam identidade. Assim, a alternativa (a) colapsa em uma versão da alternativa (c), com a decisão terminológica de continuar a usar as palavras “identidade” e “é idêntico com” -- mas referindo-se agora a alguma relação diferente da identidade. Claramente uma teoria de uma tal relação
deve ser desenvolvida. Mas, há a ameaça de um sério problema.
Há a ameaça de ao alijar a Lei de Leibniz se alije junto a identidade. Uma vez que não há entidade sem a sua identidade, alijar a identidade implica em alijar o mundo com todos os seus objetos. Então, me parece, qualquer teoria relevante que desenvolva a alternativa (a) terá que reinstituir a identidade e com a ela a Lei de Leibniz. Qualquer de tais teorias relevantes, então, seria uma teoria que iria acabar por ser uma teoria que desenvolve a alternativa (c).
A alternativa (b) parece mais promissora. Ela cria o sério problema de explanar o que uma propriedade é e como sentenças incompletas as expressam. Mas, estes problemas aparecem para toda concepção em todo caso. O que necessita uma abordagem cuidadosa é a situação específica. Édipo tem um estado de crença cujo “conteúdo” é uma proposição, ou um estado de coisas, que envolve seu pai, mas sob (b) este pai não pode ser parte ou parcela daquela proposição ou estado de coisas, nem pode ser ele envolvido na crença de Édipo acerca dele! Isto sugere que o estado de crença não conecta com entidades acerca de que são as crenças – ao menos não em um modo direto e originalmente natural. Esta não é certamente uma objeção a alternativa (b), a menos que nós queiramos logo de início algum “contato” direto entre crer e seus objetos, ou algum envolvimento do último com o primeiro. Mas, isto é uma barreira séria.
A alternativa (c) considera o rei de Tebas anterior a Édipo como uma entidade diferente de o pai de Édipo. Claramente, então, estas duas entidades não podem ser objeto ordinário dotado com muitas e infinitas propriedades, especialmente relações, que
nós seguidamente referimos, ou aludimos, ou assim pensamos, quando nós usamos locuções “O rei de Tebas anterior a Édipo” e “O pai de Édipo”. Nós podemos dizer que o rei de Tebas anterior
a Édipo, que é diferente de o pai de Édipo, e este, também, são
diferentes perfis (guises)¥ do objeto ordinário que nós
normalmente temos em mente. Eles são diferentes possíveis “aparências” de um e o mesmo particular – onde “aparência” não significa aparência visual, mas apresentação à mente, seja à sensibilidade seja ao intelecto. Esta é uma solução ao enigma de Frege sobre (1) – (4). Os dois perfis o pai de Édipo e o rei de
Tebas anterior a Édipo são diferentes, e seja lá o que for que
Édipo faça, ele não pode sair de seu embaraço: sempre que ele pensa no objeto ordinário que nós estamos discutindo, ele apenas o pode fazer em tendo diante de sua mente uma “aparência”, um perfil daquele objeto. Desse modo, quando nós consideramos o estado mental de alguém, que envolve o pensamento, nós estamos
ipso facto considerando um sistema de perfis. Os estados mentais
cognitivos são, pois, prismas metafísicos que refractam objetos ordinários em espectros de perfis ontológicos.
A abordagem precedente que desenvolve a alternativa (c) é essencialmente de Frege. Algo como o que eu denominei perfis (ontológicos) ele chamou sentidos. Mas, ele não esclareceu a conexão entre um objeto ordinário e um correspondente conjunto de sentidos. Eu proponho desenvolver mais a alternativa (c).
Uma mente, então, uma mente finita não pode encontrar, em conexão com cada objeto ordinário, a não ser um sistema de perfis. Agora nós temos uma escolha teorética. Nós podemos postular os perfis como intermediários entre uma mente e os objetos ordinários. Ou nós podemos, ansiosos por não separar a conexão direta entre a mente e seu mundo, construir objetos ordinários como sistemas de perfis com os quais nós em cada caso temos de lidar. Frege, parece, adotou a visão intermediária;
¥ N. T. A palavra inglesa “guise” pode ser traduzida literalmente pela palavra “guisa” do vernáculo. Todavia, optei pela palavra “perfil” tendo em vista o conceito que Castañeda está instaurando e também o fato de “guisa” estar em franco desuso.
eu proponho desenvolver e explorar a não-intermediária, a visão realista. Esta é uma espécie de tipo generalizado de fenomenalismo não-só-dados-dos-sentidos.
A visão intermediária tem um dualismo que eu acho embaraçoso em razão de sua arrogância ptolomaica. Nessa visão uma expressão referencial singular como “o pai de Édipo” refere quando eu a utilizo in oratio recta a um objeto ordinário infinitamente dotado de muitas propriedades; mas, quando eu a uso in oratio obliqua ela refere a um sentido, o qual alguém mais tem, ou pode ter, em mente ou diante de sua mente. Para ilustrar, considere meu proferimento de
(5) O pai de Édipo morreu, mas Jocasta pensa que o pai de Édipo está vivo.
A primeira ocorrência de “O pai de Édipo” expressa, na
visão intermediária, o meu pensamento de um certo objeto ordinário real, enquanto a segunda expressa o sentido que Jocasta tem diante de sua mente. Mas, seguramente eu não sou melhor do que Jocasta é em questões de visão. Minha atribuição de pensamento a ela torna transparente que ela lida com sentidos, ou perfis, eu deveria dizer (desde que eu agora estou me movendo em direção da visão realista). Mas eu também lido com perfis – Eu “revolvo” em torno de perfis. A visão fregeana dá à parte da
oratio recta uma posição olímpica ou ptolomaica. Entretanto, o
fato é que eu sou um self finito e empírico em meio a um vasto mundo, e eu tenho que tatear nele o meu caminho do mesmo modo que os demais que eu encontro nesse mundo. Parece que uma compreensão correta da estrutura ontológica do mundo em que nós mesmos nos encontramos é alcançada ao envolvermo-nos na humildade copernicana de tratar nossas referências em oratio
recta como referências, também, a perfis (guise), desse modo
restaurando a unidade de oratio obliqua e oratio recta.
A minha virada copernicana na concepção de indivíduos, envolve, então, dois passos: Primeiro, eu reconheço com Frege que a atribuição de atos de pensamento ou estados de crença a
outros (i.é., mentes finitas) envolve situar tais outros no sério emaranhado de perfis; isto é, os seus atos proposicionais e atitudes lidam diretamente e primariamente com perfis, os quais são assumidos como conjuntamente pertencentes a algum indivíduo complexo inalcançável in toto. Segundo, eu reconheço que eu mesmo sou parte da comunidade de mentes finitas e estou, por conseguinte, inescapavelmente no centro do mesmo emaranhado de perfis. Nós lidamos com perfis ontológicos diretamente e assumimos que eles pertencem juntos a um indivíduo complexo que nós assumimos ser um tipo de limite assintótico de nossos esforços epistêmicos. Nossos enunciados em oratio recta são o que eles parecem ser: enunciados sobre perfis, mas, subjazendo a eles está a nossa tácita suposição de que eles são elementos em estruturas assintóticas. Então, estas estruturas são referidas secundariamente quando nós referimos primariamente a perfis que nós tomamos como existentes. Porém, isto é também verdadeiro dos outros, e nós lhes atribuímos também esta referência secundária. Nossos enunciados em oratio
recta estão, por assim dizer, para levar a idéia de Frege um pouco
adiante, apenas aparentemente fora do escopo de um prefixo psicológico. Eles estão implicitamente embutidos no escopo da
oratio obliqua de um Eu penso (como Kant já notara antes, em
1781). Nossas referências em oratio recta são, então, realmente referência em oratio obliqua e, portanto, mesmo em uma concepção como a de Frege, elas referem a sentidos e não àqueles indivíduos infinitamente multidotados de propriedades que são em sua concepção as referências denotadas em oratio recta. Ontologicamente falando, não há oratio recta genuína. Então, meus perfis estão, grosseiramente, como os sentidos primários de Frege, sob um escopo de subordinação implícita à representação
Eu penso de Kant. Este Eu é um eu empírico finito, não um
infinito e transcendente intellectus agens cujo eu penso é redundante, isto é, para quem há referência em oratio recta genuína. Ele é transcendental, tendo em vista que a despeito de
quantos Eu penso alguém é consciente na corrente da auto- consciência, a última ou mais abrangente consciência tem a unidade de um Eu penso que permanece fora da corrente em questão.
Em suma, a abordagem do tipo (c) proposta aqui como uma solução para o enigma de Frege, ilustrado em (1)-(4) acima, contém as seguintes teses:
1. Os indivíduos com infinitas propriedades que nós assumimos como sendo membros, elementos ou componentes diretos do mundo, a partir de agora denominados objetos do mundo, são compostos de infinitamente muitos indivíduos finitos, denominados aqui
perfis ontológicos.
2. Perfis são as unidades de individuação utilizáveis por mentes (finitas): eles são os objetos primários de referência e, portanto, de percepção e crença.
3. Perfis são exatamente o que as expressões referenciais da forma “O F” referem, ou seja, “O homem próximo a porta (no momento)”, “A Rainha da Inglaterra em 1973”. 4. Os objetos do mundo são objetos secundários de referência; quando alguém pensa em tal-e-tal tomando-o como existente, primariamente ele refere ao tal-e-tal (perfil) e secundariamente à postulada estrutura infinita de perfis que supostamente inclui (contém ou envolve) o tal- e-tal. (Isto é uma inversão de Frege, e tem a consequência de extirpar a sua hierarquia infinita de sentidos; então, aqui está uma razão, entre outras, de porque os seus sentidos não são a mesma coisa que meus perfis ontológicos. Veja-se também a parte IV abaixo.
5. Expressões referenciais da forma “O F” têm a mesma referência tanto em oratio recta como em oratia obliqua. 6. Construções em oratio recta são construções implicitamente subordinadas a um “Eu penso aqui e agora”.
7. Nós referimos explicitamente a objetos do mundo por meio de quantificadores.
8. Os termos referenciais singulares da forma “O F” não são analisáveis, como proposto por Bertrand Russell, como sentenças incompletas “Há apenas um F e ele (é ...)”. As razões principais são: (i) o termo refere primariamente a um perfil, enquanto que a sentença não refere a ele absolutamente; (ii) o termo tem referência secundária, implícita, a um objeto do mundo, enquanto que a sentença tem uma referência explícita a um tal objeto.
9. Nosso conhecimento empírico é conhecimento das conexões entre perfis ontológicos, e ele é guiado pela postulação de objetos do mundo como assintotas.
10. A identidade, naturalmente, é como sempre exaustivamente e totalmente reflexiva e consiste na assim chamada Lei de Leibniz.
II Um argumento de Quine
Perfis ontológicos são entidades intensionais. Eles são as unidades de individualidade envolvidas no lidar consciente de uma mente finita com particulares. Eles são as unidades tanto da identidade de indivíduos atuais como de identidades de crenças. Eles mantêm intacta a força da Lei de Leibniz. Algo muito
semelhante aos perfis ontológicos foi discutido por Quine, com o propósito de descredenciá-lo. Ele formulou um argumento premente para mostrar que a introdução de entidades intensionais não resolve o problema da substitutividade de identidade, ou o
problema da quantificação, em contextos modais ou de crença.1
Incumbe a nós, então, parar e considerar a relação desse argumento com nossos perfis ontológicos.
Vamos aplicar o argumento de Quine no nosso exemplo. Do
Édipo Rei de Sófocles nós temos:
(1) Antes da peste Édipo acreditava que o rei anterior de Tebas estava morto.
(4) Não é o caso que antes da peste Édipo acreditava que o pai de Édipo estava morto.
Nós tomamos (1) e (4) para estabelecer que:
(2') (Perfil) o anterior rei de Tebas ≠ (Perfil) o pai de Édipo.
Agora, aplicando o seu argumento geral, Quine iria interpelar-nos para considerar algum termo tal como:
(T) O único perfil individual x tal que x é idêntico ao pai de Édipo e que é o caso que a axiomatização do cálculo proposicional de Whitehead-Russell é completo.
Claramente, Édipo não sabia nada sobre provas de completude. Logo, Édipo não poderia acreditar, nem acreditou que o perfil (T) refere ao (perfil) pai de Édipo. E este perfil é aquilo, obviamente de acordo com Quine, que (T) refere. Logo, Quine concluiria, a identidade entre (os perfis) o pai de Édipo e (o perfil) (T) não era uma crença de Édipo, e nós voltamos outra vez ao ponto inicial, a saber, com uma identidade que não permite a substituição de idênticos.
Este é um argumento poderoso. Considere-se a expressão que (T) representa. Realmente parece que ela apenas pode referir-
1 Veja-se, e.g., W. V. O. Quine, From a Logical Point of View (New York: Harper and Row Publishers, 1963), pp. 152s.
se ao pai de Édipo, uma vez que a axiomatização do cálculo proposicional de Whitehead-Russell é de fato completa. O cálculo básico de quantificação com descrições definidas tem como um teorema a fórmula “p → x = ιy (y = x & p)”, que é em geral lida como “Se p, então, x = a única coisa que é idêntica com x e é o caso que p.” Quine está simplesmente aplicando este teorema para perfis e outras entidades intensionais. Agora, o intensionalista rejeita este teorema, se “=” significa identidade genuína: embora o teorema possa ainda valer para uma relação de congruência mais fraca.6a O intensionalista alega que aquele
teorema entra em conflito com a Lei de Leibniz quando se trata de proposições psicológicas. Logo, o uso de Quine desse teorema não o impressiona: trata-se de novo da mesma posição objetada. O intensionalista inteiramente consistente apenas irá repetir o seu movimento original acerca do pai de Édipo e o rei anterior de Tebas. Claro, como Quine diria:
(4) Não é o caso que Édipo acreditava que (T) era seu pai.
Mas, certamente,
(a) Édipo acreditava que o pai de Édipo era seu pai. O intensionalista tem que, por consistência, repetir este movimento quando confrontado com o argumento de Quine. Então, o argumento de Quine não mostra que o intensionalista está envolvido em uma contradição, ou em um projeto auto- solapador. A força do argumento de Quine não está no que ele diz, mas na exposição da necessidade de uma elucidação profunda da noção de perfil ontológico. Pois, a iteração do intensionalista de seu movimento não pode ser a solução do problema. Ele tem que providenciar uma abordagem dos perfis e