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O argumento de Quine contra as entidade intensionais

No documento Antologia de Ontologia (textos selecionados) (páginas 97-102)

Discours d'ontologie

1. Dados ontológicos e problemas

1.2 O argumento de Quine contra as entidade intensionais

Mais tarde Quine foi capaz de fazer um ataque mais forte, tanto contra a lógica modal como contra a quantificação em contextos de crença, do que sua acusação de repúdio a objetos materiais. Ele descobriu um argumento persuasivo para mostrar que a introdução de entidades intensionais como valores das variáveis de quantificação não resolvia as perplexidades originais. Este argumento Quine reiterou várias vezes. Uma das primeiras versões aparece em From a Logical Point of View1:

[if] A é qualquer objeto intensional, seja um atributo, e 'p' esteja por uma sentença arbitrariamente verdadeira, claramente

(35) A = (ix) [p . (x = A)].

Ora, se a sentença verdadeira representada por 'p' não é analítica, então, nem (35) é, e os seus lados não são mais intersubstituíveis em contextos modais do que 'A estrela da manhã' e 'A estrela da tarde', ou '9' e 'o número de planetas'. (p. 153)

Quine está falando sobre contextos modais como (4) – (5), mas o seu ponto é aplicável à tríade de Frege. Seja A a estrela da

manhã, e 'p' esteja por qualquer proposição sobre a qual Tom não tem absolutamente nenhuma ideia. A identidade (35) deve requerer que Tom acredite que (x) [p . (x = A)] é idêntica à estrela da manhã, mas uma vez que Tom não tem nenhuma ideia do que 'p' representa, não é o caso que ele acredita nesta identidade.

Obviamente, o argumento de Quine deve ser lido como negando que (35) seja verdadeira se '=' expressa identidade genuína. Mas, para defender isto deve-se explicar porque isto é assim, e isto requer uma teoria tanto sobre o que um indivíduo é exatamente como sobre o que é para um indivíduo ter propriedades. Em suma, a solução ingênua para o enigma de Frege tem que ser sofisticada: Não há realmente nenhuma solução ingênua sem uma teoria da predicação e da individualidade: Mas, antes de embarcar na formação de uma tal teoria, vamos considerar outros enigmas que parecem requerer uma solução muito semelhante à solução ingênua sugerida para a perplexidade de Frege. Uma solução comum a todos seria definitivamente superior, ao ser sistemática e não ad hoc.

1.3 O enigma de Geach

Em “Intentional Identity”1, Geach levantou um lindo

problema. Ele o apresentou por meio de um exemplo sobre bruxas, que por não existirem tornam o enigma de certo modo mais dramático, mas também confundiu alguns críticos por sugerir a eles que o enigma pertencia às entidades fictícias. Uma ilustração pedestre é esta:

(7) John acredita que há um homem na porta, e Paul acredita que ele (aquele homem) é um ladrão.

(8) Mas, não há nenhum homem na porta.

O problema é precisamente o quantificador existencial 'há

um homem', que em (7) aparece no escopo de “John acredita' e ainda liga a ocorrência da variável de quantificação 'ele [aquele homem]' que aparece no escopo de 'Paul acredita'.

Claramente, o quantificador 'há um homem' não pode ser colocado no começo de (7) e lhe ser dado (7) inteira como seu escopo, se aquele quantificador é suposto variar sobre pessoas existentes. Fazer isto iria conflitar com (8). Então, nós temos o problema de Geach de identificar a entidade que é o objeto das crenças de John e Paul. Este problema permanece mesmo se o problema sobre o escopo do quantificador desaparecesse.

Uma solução ingênua é esta: Tomar o quantificador 'há um homem' como variando não apenas sobre objetos existentes, mas também sobre objetos não-existentes possíveis. Esta solução é como aquela discutida na seção 1 no sentido de que ela introduz objetos não-materiais em nosso inventário ontológico. Se, no caso da tríade de Frege, nós tomamos a estrela da manhã como um objeto existente (material), que é o mesmo quer ele exista ou não, nós podemos tomar os objetos possíveis requeridos para a solução do problema de Geach para constituir o mesmo domínio de objetos requerido para a solução da perplexidade de Frege.

1.4 Objetos impossíveis

Nós falamos de objetos possíveis. Mas, nós devemos contar também com objetos impossíveis. O problema de Geach não precisa ser apenas o criado por dois homens pensando em um homem possível. Ele pode surgir quando dois homens pensam sobre objetos impossíveis.

(9) John acredita que há um quadrado redondo azul e Paul pensa que

ele é oco.

Seguramente, todos os tipos de solução suportadas por suas teorias correspondentes da predicação e da individuação podem ser construídas. O ponto aqui é que uma vez que se adota o caminho das entidades intensionais para os enigmas de Frege e

Geach, se deve naturalmente ir além nesse caminho e considerar os objetos impossíveis meinongianos.

1.5 Referências de atitudes cruzadas

O problema levantado por Geach envolve dois pensadores. Mas, o problema é mais geral. Ele aparece também no caso de uma pessoa que tem várias atitudes diferentes em relação a uma entidade e suas atitudes formam parte de uma mente ou consciência unitária. Considere, por exemplo,

(10) Benjamin acredita que há uma fonte da vida e ele espera beber dela.

O quantificador 'há (uma fonte da vida)' tem que ser o operador dominante de tal modo que ele possa ligar as referências à mesma entidade tanto no interior do escopo de 'acredita' como no escopo de 'espera'. Assim, parece que nós nos comprometemos com a introdução de objetos inexistentes outra vez como valores de variáveis de quantificação. Claramente, tais objetos inexistentes podem muito bem ser impossíveis, objetos auto- contraditórios.

1.6 Realidade e pensamento

O pensamento é orientado para o mundo, e seguidamente é bem sucedido em atingir uma coisa real. Um problema central é a natureza e a estrutura desse sucesso. Em particular, nós devemos explicar como a mesma entidade que existe no mundo é

exatamente aquilo sobre o que é um episódio de pensamento.

1.7 Existência

O pensamento é orientado para o mundo, para os existentes no mundo: pensar em um objeto e pensá-lo como existente parecem ser a mesma coisa. Todavia, de algum modo, o pensamento é impérvio à existência. O pensamento está muito

confortável tanto na contemplação do existente quanto na contemplação do não-existente. Assim, a existência parece ser

tanto uma característica diferenciadora que alguns, mas não

todos, objetos de pensamento possuem, como uma não- característica de todo incapaz de diferenciar um objeto de outro. Em termos tradicionais, a existência não é um predicado real; com efeito, ela não é um predicado lógico ou formal, pois existência, isto é, a existência de coisas materiais, mentais e eventos, é precisamente o cerne mais recôndito da contingência.

1.8 O problema fundamental

A natureza da existência é um problema mais sério. Mas, subjacente a ele há o problema da constituição de um objeto. A unidade de uma coisa e sua posse de propriedades é o problema primário da filosofia. Consiste a unidade de uma coisa em um substrato subjacente? Ou alguma outra coisa? Como as propriedades compõem uma coisa? Estas questões incluem como um caso especial o modo como a existência entra nos objetos ou como a existência advém aos objetos. O problema fundamental é, portanto, o problema da mais elementar (e trivial) conexão estrutural entre as categorias básicas do mundo: Coisa, Propriedade, Predicação, Existência, Identidade, e Pensamento. Trata-se do problema da conexão entre o Pensamento e a Estrutura Fundamental do Mundo que aparece para a consciência ou que o pensamento mesmo cria. Qual desses disjuntos é o caso pertence a um discours de métaphysique, e vai além de nossa presente consideração ontológica (isto é, ontológico- fenomenológica). (A ontologia fenomenológica é anterior epistemo-logicamente à ontologia metafísica.)

No documento Antologia de Ontologia (textos selecionados) (páginas 97-102)

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