Para que a identidade seja incluída numa perspectiva sociológica é necessário compreende-la num processo comum em que a relação identidade para si/identidade para o outro constitui o processo de socialização. Dubar (2005, p. 133), propõe uma teoria sociológica da identidade se subsidiando em concepções que articulam identidade individual e identidade coletiva compreendendo como identidade social. Para este autor,
identidade para si e identidade para o outro são inseparáveis e correlatas porque o Eu só sabe de si pelo outro. Essa correlação apresenta um problema, pois o outro não vive a experiência do eu, é através das formas de comunicação que o outro informa sobre a identidade que ele atribui ao Eu, permitindo nos conhecer sob o olhar do outro.
No entanto, essa identidade que o outro atribui ao Eu é marcada por incertezas, pois, tentar se colocar no lugar do outro não é o mesmo que ser o outro, estar na pele do outro, posso imaginar, mas nunca ter certeza se minha identidade é para o outro o mesmo que é para mim. A identidade, portanto, não é dada ela é construída e reconstruída em meio às incertezas, sendo transmitida através da comunicação. Posso imaginar, posso tentar me colocar no lugar do outro, mas não posso sentir como o outro. Vista nessa perspectiva, a identidade numa dimensão subjetiva é “o resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente constroem os indivíduos e definem as instituições”. (Dubar, 2005, p. 136). Ao ser considerada subjetiva, sendo compreendida como expressão do mundo vivido pelo indivíduo, a identidade permite ser apreendida empiricamente.
Cada indivíduo pode ser identificado pelo outro, podendo não concordar com essa identificação e se atribuir outras identidades. Essas identidades são categorias que se encontram socialmente disponíveis. Ato de atribuição é o que o outro define para o Eu e ato de pertencimento é o que o Eu se auto atribui. A identidade atribuída pelo outro e a identidade assumida para si, podem não ter correspondência, nem mesmo com a própria história de vida. Atribuição e incorporação são processos heterogêneos. A atribuição de identidades feita por agentes sociais e por instituições, só pode ser analisada olhando por dentro do sistema de ação em que o indivíduo está implicado e que revela uma correlação de forças pela contingência das categorias referenciadas. Pode ocorrer uma formalização das identidades atribuídas como uma forma de rotular identidades
virtuais.
A incorporação e a interiorização da identidade pelos indivíduos só têm sentido, quando analisada por dentro das trajetórias sociais construídas por eles próprios, ou seja, ao analisar o que eles falam de si. Segundo Dubar, (2005, p. 139), são suas identidades sociais “reais”. Estes indivíduos também categorizam suas identidades, que são legitimadas por eles e por seus grupos de referência, que não necessariamente são os grupos que ele pertence objetivamente, podem ser grupos subjetivos. Portanto identidade legítima é subjetiva, pois é a identidade de si para si.
Podemos então perceber que são dois processos, identidade social “virtual” – conferida ao outro e identidade social “real” – atribuída a si próprio. (DUBAR, 2005, p. 140). Diante desse fato surgem estratégias identitárias que buscam promover uma aproximação entre esses dois processos por meio de transações “externas” ou “objetivas” e “internas”. A primeira visa acomodar a identidade para si à identidade para o outro. A segunda visa preservar identidades herdadas e ao mesmo tempo construir novas identidades, tentando assimilar a identidade para o outro à identidade para si. Desta forma
o processo de socialização é compreendido como produtor de identidades sociais.
Essa abordagem sociológica contribui para compreender que, a articulação entre identidade atribuída e identidade incorporada, é o cerne do processo de construção das identidades sociais. A relação entre essas identidades depende da forma como são reconhecidos, pelas instituições e pelos atores sociais, que se encontram diretamente envolvidos. “A construção das identidades se realiza, pois, na articulação entre os sistemas de ação, que propõem identidades virtuais e as “trajetórias vividas” no interior das quais se forjam as identidades “reais”, às quais os indivíduos aderem”. (DUBAR, 2005, p. 140 - 141).
Essas categorias identitárias tanto atribuídas como incorporadas devem ser concebidas num processo de negociação, pois a identidade de um indivíduo não pode ser forjada à revelia dele próprio e nem tão pouco pode simplesmente ser uma atribuição do outro a identidade própria do Eu. Reconhecendo que são heterogêneos, tanto o processo biográfico – identidade para si, como o processo relacional – identidade para o outro, não deixam de se pautar num mesmo esquema de tipificação identitária, baseado em modelos identitários socialmente construídos. São categorias que variam de acordo com o espaço social, temporalidades biográficas e históricas.
Essa categorização influencia o processo de construção identitária, mas não a determina. Os indivíduos em cada geração têm a tarefa de reconstruir suas identidades reais, partindo de: identidades herdadas (cultura de origem); identidade adquirida (socialização primária - escola); identidades possíveis (socialização profissional ou secundária). Tornando fundamental para a sociologia, a apreensão dos movimentos que configuram os modelos identitários, sendo captados a partir da identificação dos próprios indivíduos. (DUBAR, 2005, p. 145).
A partir da década de 80, houve uma evolução das políticas de geração de emprego. Deste modo, a formação se torna cada vez mais valorizada, tanto em relação à possibilidade de aquisição de emprego, como também para assegurar sua manutenção.
Sendo assim, emprego e formação passam a ter uma ligação estreita. Não significando necessariamente que identidade está reduzida ao nível de formação. Os indivíduos têm uma trajetória histórica de construção de identidades. Na infância herdam uma identidade sexual, étnica e de classe social, tendo como referência seus progenitores ou seus responsáveis. Efetivamente a primeira identidade o indivíduo, ainda criança, vivencia em relação à mãe ou outrem que desempenhe esse papel socializador.
No entanto, é no processo de categorização do outro, que o indivíduo recebe sua primeira identidade social, que não é por si escolhida, mas lhe é atribuída na escola pelos professores e colegas, tomando por base seus grupos de pertencimento social, religioso, étnico, cultura dos pais e em seu desempenho escolar. Desta forma o indivíduo ainda criança absorve identidades que lhes são atribuídas, e assim “aprendemos a ser o que nos dizem que somos”. (DUBAR, 2005, p. 147). É nesse meio entre identidade atribuída pelo outro e conferida a si, entre identidade herdada, identidade construída e identidade escolar visada, emerge o campo do possível, que acompanhará o indivíduo por toda sua vida, marcado por continuidades e rupturas.
A saída do sistema escolar e o enfrentamento do mercado de trabalho se configuram em um momento importante da vida dos indivíduos para a construção de uma identidade autônoma. As orientações escolares forçadas ou assumidas pelos atores sociais podem antecipar o status social futuro. “A entrada em uma “especialidade” disciplinar ou técnica constitui um ato significativo de identidade virtual” (DUBAR, 2005, p. 148). No entanto, atualmente é na confrontação com o mercado de trabalho (prática), que se revela a implicação identitária mais importante para os indivíduos.
A confrontação produzida neste momento da trajetória social dos indivíduos tem formas e significados diferentes, conforme o lugar em que estes se encontram e evolve sua escolaridade e suas origens sociais. Porém é do resultado produzido pelo
próprio indivíduo que dependerá a identificação pelos outros de suas competências, seu
status, sua carreira possível, bem como a construção por si do seu projeto social. É desse resultado que depende a construção de uma identidade profissional básica que se constitui numa identidade no trabalho e numa projeção de si no futuro, devendo levar em consideração as condições históricas e sociais, as condições de desemprego, os níveis de escolaridade, a origem social, a modernização tecnológica, a reestruturação das empresas e do setor de serviços, assim como o acesso ao emprego. Esse processo de construção identitária para si, em confronto com o mercado de trabalho, exige uma produção pessoal estratégica de si, para ser apresentada, “vendida”. Trata-se não apenas de uma escolha
profissional, mas da construção de uma estratégia identitária que destaque a imagem de
si, que ponha em evidência suas capacidades permitindo aproximar seus objetivos. (DUBAR, 2005, p. 149-150).
Essa primeira identidade profissional construída para si, pode ser reconhecida pelo outro, no entanto, ao engajar-se no mercado de trabalho ela pode não ser mantida. As transformações sociais e tecnológicas produzem constantes confrontações identitárias que exigem constantes ajustes e estarão ameaçadas as identidades que se revelarem mais limitadas. “Para realizar a construção biográfica de uma identidade profissional e, portanto, social, os indivíduos devem entrar em relações de trabalho, participar de alguma forma das atividades coletivas em organizações, intervir de uma maneira ou de outra em representações”. (DUBAR, 2005, p. 151).
A identidade construída no trabalho, se mantém sobre diferentes representações coletivas, sendo um importante momento para experimentar relações sociais de poder, que fazem das relações estabelecidas no espaço do trabalho (prática) o lugar onde os indivíduos têm a oportunidade de experimentar o desejo de ser reconhecido em meio a um contexto complexo e desigual de poder. Segundo Dubar, (2005, p. 151), “a identidade é menos um processo biográfico de construção de si que um processo relacional de investimento de si”. Esse momento oportuniza compreender o sentido da expressão “ator de si”, como investimento pessoal em busca de relações que sustentem um reconhecimento social duradouro. Trata-se de transações objetivas, em busca de construção de identidades virtuais em meio ao processo relacional, é o reconhecimento de si pelo outro. Essas transações podem ser conflituosas e direcionam o indivíduo em busca de espaços de identificação e locais onde sua identidade é reconhecida. Esse é um
campo de possibilidades que oportunizam sustentar os investimentos identitários,
envolvendo adequação a normas e valores.