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Identidade, narratividade, presentificação

3. IDENTIDADE E AGONÍSTICA

3.5 Identidade, narratividade, presentificação

Segundo Foucault (2009), “ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfazer (sic) a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê- lo” (FOUCAULT, 1996, p. 37). Ou: quem não tem a senha não adentra o território identitá r io. Na abordagem narrativa, a identidade apresenta, de modo relativamente ordenado, seus princípios e significação cultural, pois, afirma Barthes (1976, p. 19), “[...] trans-histór ica, transcultural, a narrativa está aí, como a vida”. A aproximação entre identidade e narrativa foi preconizada por Aristóteles (2006), ao propor que o ethos86 é um

componente discursivo, ao lado do phatos e do logos. Admitindo que os relatos recolhidos nas entrevistas contêm os três elementos, vamos, contudo, focalizar o ethos como o elemento que rege os demais e fornece pistas para algum perfil identitário, pois é o ethos que faz a mediação das relações muitas vezes agônicas entre as paixões ou emoções (phatos) e o raciocínio lógico (logos), costurando características identitárias. Então, pode- se dizer que um ethos é tão mais agônico quanto mais contrastivas são as posições do logos e do phatos nos relatos e narrativas, ou seja, quanto maior for o grau de contradição presente em cada fala.

Barthes distingue a abordagem narrativa da representacional, mimética ou diegética, dizendo que

em toda narrativa, a imitação permanece contingente; a função da narrativa não é de “representar”, é de constituir um espetáculo que permanece ainda para nós muito enigmático, mas que não saberia ser de ordem mimética; a “realidade” de uma sequência não está na continuação “natural” das ações que a compõem, mas na lógica que aí se expõe, que aí se arrisca e que aí satisfaz [...] (BARTHES, 1976, p. 59-60).

Então, o que Barthes destaca é a narratividade; para ele, a narração é a performance do narrador, seu espetáculo, no qual impõe as marcas de sua subjetividade. Já o narrador é “aquele que poderia, por meio da narrativa, dar conselhos, ensiname ntos morais ou uma sugestão prática. Este narrador retiraria da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros” (BENJAMIN, 1994, p. 201).

De acordo com Ricoeur, “o tempo torna-se tempo humano na medida em que está articulado de modo narrativo” (RICOEUR, 1994, p. 15), em efeitos de narratividade, mesmo que em formas narrativas pouco estruturadas, descontínuas ou fragmentárias. A

86 Em grego, a palavra ethos tem duas grafias: com vogal longa “eta”, traduzindo cos tumes, normas, hábitos, valores socialmente instituídos; e com vogal breve “épsilon”, significando caráter, características individuais, temperamento, índole, disposições (CHAUÍ, 2006, p. 310).

noção de que a identidade pode estar apresentada em relatos permite estudá-la como texto da cultura do grupo pesquisado. Neste espírito, relacionamos

[...] menos a identidade com essências e muito mais com trajetórias e relatos. Para isso, a polissemia do verbo “contar” se torna amplamente significativa. ‘Contar’ significa tanto narrar histórias como ser considerado pelos outros. O que implica que, para sermos reconhecidos, precisamos contar nosso relato, pois não existe identidade sem narrativa, já que esta não é apenas expressiva, mas também constitutiva do que somos. (MARTÍN-BARBERO, 2009, p.156)

Para Laclau & Mouffe (1987), o campo da discursividade é uma arena importante na disputa de sentidos pelas identidades, como articulação que regula e organiza as relações sociais através da sutura dos sentidos, ainda que precários e contingentes. Articulação é “qualquer prática que estabeleça uma relação entre elementos tal que suas identidades sejam modificadas como um resultado da prática” (1987, p. 119)87. Então,

como prática ou ação social, a articulação habita na relação entre agentes e resulta em estruturas discursivas que, retrativamente, organizam práticas sociais. Às posições diferenciais do discurso, Laclau & Mouffe (1987, p. 119) chamam de momentos; e, “por contraste, chamaremos elemento qualquer diferença que não está discursivame nte articulada”88.

Segundo Laclau (1990), a diferença é a marca de uma modernidade tardia, atravessada por antagonismos sociais que são suturados em articulações que conservam a coesão, resultando em identidades permanentemente abertas. Já o antagonismo, vai sempre caminhar na direção do estabelecimento de uma situação de hegemonia, que “não será a exibição imponente de uma identidade, mas a resposta a uma crise” (LACLAU, 1987, p. 8)89, ou seja, como resposta ao conflito.

Laclau & Mouffe associam a produção identitária ao que chamam produção de “efeitos de fronteira”, campo interseccional de práticas articulatórias e recompositivas, tornando as fronteiras algo ambíguo e instável, sumetido a deslocamentos contantes. Inscritos na ordem da cultura e do campo das práticas sociais, discursos e relatos

87 Tradução minha. No original: “llamaremos articulación a toda práctica que establece una relación tal entre elementos, que la identidad de éstos resulta modificada como resultado de esa práctica”.

88 Tradução minha. No original: “Llamaremos momentos a las posiciones diferenciales, en tanto aparecen articuladas en el interior de un discurso. Llamaremos, por el contrario, elemento a toda diferencia que no se articula discursivamente”.

89 Tradução minha. No original: “no será el despliegue majestuoso de una identidad, sino la respuesta a una crisis”.

apresentam identidades, práticas políticas, construtos sociais (MOITA LOPES, 2003, p. 20). Temos, então, que é nas fronteiras narrativas que as dinâmicas identitárias se apresentam e travam relações que podem ser harmônicas ou antagônicas, sendo que este último caso ocorre quando a articulação se verifica em processos de enfrentamento, na condição de instabilidade das fronteiras.

Para Richard Bauman (1986), a narrativa é uma performance da identidade. Por performance, Richard Bauman (1986, p. 03) entende “um modo de comunicação [...] cuja essência consiste na assunção de responsabilidade para com os interlocutores [...]”. Nesta perspectiva, os relatos e falas coletados nas entrevistas configuram narrativas de si para outrem (a pesquisadora, o grupo socioprofissional, a sociedade), numa espécie de “forma de identidade «biográfica para outrem» [...] aquela que provém da inscrição dos indivíduos numa linhagem de gerações” (DUBAR, 2006, p. 51). Pensando deste modo, propomos olhar para a identidade como uma narrativa (storytelling) presentificada em um roteiro de sentidos agregados no qual “o projeto e a memória associam-se e articulam- se ao dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade” (VELHO, 1994, p. 101). Ou seja, através dos colaboradores da pesquisa empírica, tentamos compreender a identidade como uma articulação entre ideal e prática, e entre passado, presente e futuro.

4. DO CAMPO