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CAPÍTULO 4 LIVRO DIDÁTICO E REPRESENTAÇÃO DE IDENTIDADE

4.5 IDENTIDADE SOCIAL DE RAÇA, CLASSE E GÊNERO

Moita Lopes (2003) problematiza o conceito de identidade social e o diferencia de identidade pessoal, define identidade social como um construto de natureza social, construída em práticas discursivas específicas, e que não se relaciona com a visão de identidade como parte da natureza da pessoa, ou sua identidade pessoal, menos ainda com sua essência. As identidades sociais são vistas, por Moita Lopes, como construções sociais, logo discursivas, ao passo que aprendemos a ser quem somos nos encontros interacionais diários, essa concepção de identidade social se remete a uma perspectiva socioconstrucionista do discurso.

Assumo uma visão socioconstrutivista (MOITA LOPES, 2003; HALL, 1996) ao falar de identidade social, a qual não considera que as identidades culturais tenham uma base fixa, congelada e imutável ao longo da história, muito ao contrário, nessa visão as identidades sociais são passíveis de transformação e mudança constante, são fragmentadas, contraditóras.

Ao compreender as identidades sociais desde a ótica socioconstrucionista rechaço uma perspectiva essencialista, isto é, não se acredita na existência de uma “essência do que, por exemplo, possa definir uma pessoa...” (MOITA LOPES, p. 27, 2003). Ainda, segundo Moita Lopes, na visão anti-essencialista não se leva em consideração que uma categoria social possa ser imutável, comum a todos os seus membros, pois isso seria reducionista demais. Logo, não existe uma essência que defina uma pessoa conforme sua identidade social e se aplique sempre para todos que compartilham dessa identidade social, como por exemplo, homossexual, heterossexual, negro, branco, etc.

Logo, as representações de identidades sociais presentes nos livros didáticos, essencialistas ou não, afetam o modo que os alunos que usam esses livros se veem e veem as outras pessoas. Ferreira (2011), ao mencionar a pesquisa de Silva (2003) sobre as representações sociais de negros em livros didáticos, reitera que a visão estereotipada, negativa do sujeito no livro didático acaba dificultando sua auto identificação, seu papel exercido socialmente.

É nesse sentido que pensar as identidades sociais nas salas de aulas se faz necessário e urgente, pois como espaço dessas interações diárias situa-se a aula de língua estrangeira, que também é espaço de construção de identidade social de raça/etnia (FERREIRA, 2012). Diante disso, as identidades sociais de classe e gênero também se entrecruzam com as identidades de raça, são relações que estão imbricadas, por isso é necessário esclarecer o sentido desses termos nessa pesquisa. Observando que, não é o foco analisar nas coleções de livros didáticos de maneira pormenorizada essas categorias, mas também não é possível analisar a categoria raça sem considerar classe e gênero.

Quando me refiro a identidades sociais de classe, adoto a perspectiva teórica da sociologia, a partir de Guimarães (2002). A partir dessas considerações, o termo ‘estudo de classe’, na atualidade, tem a ver com um universo mais amplo de estudos que utiliza o conceito de “classe”, como pontua o autor (2002, p.35), “às vezes de um modo mais descritivo, mas sempre com um sentido nativo”. Quanto a sentido nativo, isso quer dizer que classe pode ser referida no sentido de carisma ou estigma, no que se refere a prestígio social relacionado a uma pertença grupal, conforme o autor.

Segundo Guimarães (2002), a teoria das classes surgiu a partir de Marx, como teoria das lutas de classe e mudança histórica. Logo, o êxito de tal teoria foi devido à articulação que ela propunha entre esferas sociais (economia, sociedade, política e cultura).

Ainda, o autor traz algumas considerações de classe social enquanto grupo hierárquico, de distinção e de honras sociais, que só se diferencia de ordens do Antigo Regime18 por ter uma maior abertura e por sua ideologia. Guimarães bem enfatiza que esse gosto por hierarquia social e pelo monopólio de poder é algo que

18

Antigo Regime se refere a um sistema social e político, surgido na França, no qual o poder era centralizado na figura do rei.

ainda faz parte da atualidade. Nas palavras de Castel (1999: 591), citado por Guimarães (2002), as classes continuam a existir na atualidade, pois

Esse espaço social é cortado pelo conflito e pela busca da diferenciação. Um princípio de distribuição opõe e reúne os grupos sociais. Opõe e reúne, pois a distinção funciona sobre a dialética sutil do mesmo e do outro, da proximidade e da distinção, da fascinação e da rejeição. Ela supõe uma dimensão transversal aos diferentes agrupamentos que reúne os que se opõe, permitindo os comparar e classificar.

Decorrente dessa proposição, Guimarães enfatiza que esse gosto pela hierarquia social e pelos pequenos saberes é ainda atual. Ressalta que no Brasil, onde as discriminações raciais são amplamente consideradas como discriminações de classe, o sentido pré-sociológico do termo nunca deixou de ter vigência. Sendo assim, falar em classe aqui tem a ver com a noção de desigualdades de direitos, distribuição da honra e prestígios sociais, “[...] em sociedades capitalistas e modernas, onde prevaleceu intacta uma ordem hierárquica de privilégios, e onde as classes médias não foram capazes de desfazer os privilégios sociais, e de estabelecer os idearias da igualdade e da cidadania.” (GUIMARÃES, 2002, p. 43). Nesse sentido, procuramos observar em um momento das análises ditas hierarquias sociais e raciais, através das profissões e atividades de pessoas brancas e negras.

Quanto à reflexão sobre identidade social de gênero no livro didático, ainda que essa não seja a principal categoria de análise, considero relevante porque esse material de ensino pode acabar perpetuando identidades hegemônicas ou ser um espaço para o surgimento de novos projetos identitários, segundo Tílio (2012) recordando Castells (1999).

Logo, é imprescindível refletir, ao analisar livros didáticos, sobre o que Ferreira (2011, p. 121) chama de supremacia masculina naturalizada, e o fato de se ter como absoluta e inquestionável o binômio masculino/ feminino, o que a autora chama de discriminação naturalizada.

Conforme Louro (1999), os significados construídos em tordo do conceito de gênero surgem durante a “primeira onda do feminismo”, que era um movimento que surgiu com as manifestações contra a discriminação feminina no que se referia ao direito de votar, no final do século XIX. A autora enfatiza que no final dos anos 1960 a “segunda onda do feminismo” teve início. Foi a partir desse período que, com a

expansão do movimento, as construções teóricas passaram a ser objetos de preocupação.

Diante disso, nessa perspectiva teórica que, entendemos gênero como um construto sócio-cultural do que significa ser homem e ser mulher.

CAPÍTULO 5 - ANÁLISE DAS COLEÇÕES DE LIVROS DIDÁTICOS DE