CONCEITOS FUNDANTES
3.1 Identidades e representações
A identidade importa, tanto em termos de preocupações sociais e políticas no mundo contemporâneo, quanto nos discursos acadêmicos em que a identidade tem sido vista como importante conceitualmente ao oferecer explicações para as mudanças sociais e culturais (WOODWARD, 1997, p. 1).64
As mudanças com a globalização levaram a um maior interesse nas questões identitárias. Contestar nossos papéis no mundo social e em nossa vida contemporânea tem levado a diversas indagações sobre as identidades (em termos de cultura, de gênero, classes sociais, sexualidade, etnia, nacionalidade), os direitos de grupos minoritarizados e os papéis sociais dos indivíduos. A influência da mídia e das novas tecnologias colocou a discussão sobre identidades numa posição central para a compreensão dessas mudanças e para o desenvolvimento da humanidade nas ultimas décadas, assim como afirmou Woodward (1997) na citação de abertura desta subseção.
Na modernidade, a identidade refletia uma visão do sujeito como uma unidade cartesiana essencializada; uma entidade integrada que podia ser definida a
64 No original: “Identity matters, both in terms of social and political concerns within the contemporary world and
within academic discourses where identity has been seen as conceptually important in offering explanations of social and cultural changes”.
partir de características isoladas, que nem sempre variavam ao longo do tempo e cuja subjetividade estava racionalizada na mente. Nesse sentido, a identidade pode ser considerada “aquela parte do autoconceito do indivíduo que deriva do conhecimento de sua pertença a um grupo social (ou grupos) juntamente com o valor e o significado emocional associado àquela afiliação” (TAJFEL, 1981, p. 290).
De acordo com Burr (2002), essa perspectiva remonta à valorização do individual sobre o coletivo entre o período renascentista e o século XVII, e teve seu auge no Iluminismo, com o sujeito racional cartesiano. Essa visão, de acordo com a pesquisadora, até hoje embasa as teorias psicossociais centradas na previsão de comportamento de indivíduos a partir de suas características essenciais, a saber, comportamentalismo e cognitivismo.
Diante das complexas e velozes transformações das últimas décadas, o conceito de identidade associado ao indivíduo integrado e estável, com um núcleo essencial que o distingue dos demais, é posto em xeque na sociedade pós- moderna. A pós-modernidade trouxe consigo um abalo das estruturas rígidas, das “verdades” fixas e aparentemente imutáveis que guiaram o período anterior, no qual as certezas e o essencialismo que embasavam a compreensão do mundo social como homogêneo se tornaram obsoletas e não-representativas da realidade heterogênea, contingente e fluída, constituinte da “modernidade líquida” (BAUMAN, 2005, p. 15).
Para Silva (2000, p. 31), ao mesmo tempo em que essa crise epistemológica das subjetividades ressalta o caráter negativo e limitante da relação fixa e estável entre o objeto e sua significação, ela problematiza o fato de as práticas de uso da língua serem entrecortadas pelas relações de poder construídas na interação com o outro, de forma situada. Assim, a noção de identidade como algo fixo e uniformizado, como algo estável e coerente do período iluminista dá abertura, então, para um debate sobre a construção identitária a partir das interações sociais, focado na concepção do sujeito pós-moderno e que contempla a pluralidade dos indivíduos e das interações, principalmente a partir da segunda metade do século XX. Nesse sentido, essa “crise de identidade”, provocada por mudanças sociais, políticas e econômicas em níveis mais amplos, revela “a” identidade como sendo “as” [variadas] identidades, situadas no momento sócio-histórico, construídas sociodiscursivamente nas interações e dependentes dos interlocutores e das situações – ou seja, do contexto.
A referida perspectiva, baseada na premissa de que as realidades sociais são construídas no interior das trocas sociais (CUCHE, 2002, p. 183) e não simplesmente dadas, posiciona o sujeito deste período como uma verdadeira “celebração móvel” (HALL, 2006, p. 13) e reflete o acesso que os indivíduos têm a uma miríade de escolhas sociais em meio a processos permanentes de identificação “no mundo sociolinguístico em que vivemos, e esse mundo – infelizmente – é confuso, complexo e um tanto quanto imprevisível” (BLOMMAERT, 2010, p. 27). Essa imprevisibilidade, tão característica deste momento da história da humanidade, é apenas uma consequência do que Bauman identificou como a passagem da fase sólida para a fase líquida da modernidade, decorrente da “acelerada „liquefação‟ das estruturas e instituições sociais” (BAUMAN, 2005, p. 57).
E é justamente na tentativa de compreender essas mudanças, assim como sugere Woodward (1997) na citação de abertura deste subitem, que os estudos sobre identidades se tornam relevantes. De acordo com a pesquisadora,
as mudanças e transformações globais nas estruturas políticas e econômicas no mundo contemporâneo colocam em relevo as questões de identidade e as lutas pela afirmação e manutenção das identidades nacionais e étnicas. [...] As identidades em conflito estão localizadas no interior das mudanças sociais, políticas e econômicas, mudanças para as quais elas contribuem (WOODWARD, 2000, p. 24-25).
Sabendo-se que a linguagem é o meio pelo qual as identidades, como práticas sociais, adquirem sentido e são representadas (WOODWARD, 2000, p. 8), pode-se afirmar que os processos de identificação têm por base múltiplos sistemas simbólicos de significação construídos por meio da linguagem, que é o local onde os indivíduos projetam suas identidades – diferentemente da lógica positivista e binária da representação dos sentidos, que tem uma falsa natureza de estabilidade e instiga a exclusão. Segundo Hall (2006, p. 41),
o significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas ele é constantemente perturbado (pela diferença). Ele está constantemente escapulindo de nós. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.
Os processos de identificação, permeados por negociações, trazem à tona os discursos imaginários construídos a partir das interações na realidade social
passado-presente. Essas interações envolvem processos situados e, claro, complexos, pois posicionam o sujeito em diversas “categorias” sociais e culturais ou sistemas classificatórios (WOODWARD, 2000, p. 14), tais como gênero, idade, nacionalidades, etnias, entre outros, que demonstram a organização social e política do mundo, estimulando, assim, a polarização entre “nós” e “eles” ao se estabelecer a comparação “eu sou o que o outro não é”. Ao serem construídos e contestados, alicerçados numa construção discursiva relacional e fluída, os processos de identificação, repletos de questionamentos, são marcados simbolicamente, portanto, em relação às outras identidades, às diferenças entre o “eu” e a Alteridade (HALL, 2000, p. 106). Afinal, se algo é a norma, conforme o que é determinado pela visão dominante, tudo que está fora dela é anormal, atípico, o que acaba por provocar desigualdades e estereotipificações, naturais das relações assimétricas dos jogos de poder.
É devido a esse vínculo estreito com a diferença ––, a identidade
depende da diferença – que identidade e diferença podem, segundo Woodward
(2000) e Silva (2000), ser consideradas inseparáveis e interdependentes e sujeitas a alterações. Ademais, conforme esses mesmos autores, as questões de identidade, porque são construídas a partir das relações com o Outro, têm vínculo estreito com as relações de poder. É justamente nesse contexto de jogos de poder que contestar a identidade e a diferença significa “questionar os sistemas de representação que lhe dão suporte e sustentação” (SILVA, 2006, p. 91). Dessa maneira, como já mencionado, o processo de construção das identidades tem como característica fundamental a contestação dos sistemas simbólicos de representação, e interrogá-la denota, assim, uma abertura para o questionamento dos sistemas de representação que sustentam seu processo de construção dentro do discurso de forma não- essencialista e negociada.
Também para Hall (2000) as práticas discursivas:
emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente constituída, de uma “identidade” em seu significado tradicional – isto é, uma mesmidade que tudo inclui, uma identidade sem costuras, inteiriça, sem diferenciação (HALL, 2000, p. 109).
Ao se alicerçar o conceito de identidade na conjuntura de crise epistemológica mencionada, deve-se, como vimos,considerar,impreterivelmente, o
conceito de representação, aqui compreendido sob a perspectiva da abordagem socioconstrutivista dos Estudos Culturais, segundo a qual os indivíduos constroem sentidos a partir de seus sistemas representacionais, como parte da construção do significado nas práticas de uso da língua. Nesse sentido, as representações compõem o processo de produção de sentidos a partir da linguagem, culturalmente determinadas no processo de significação, que é de cunho social, impregnado de subjetividades, pois “as coisas não significam: nós construímos o sentido usando sistemas representacionais (HALL, 1997, p. 25).
A concepção de que a produção dos significados é feita por meio do uso de sistemas de representação pautados na relação com o Outro e com a diferença é consonante com a abordagem socioconstrutivista das representações, anteriormente mencionada, segundo a qual são os atores sociais que usam seus sistemas de representação para construir significados pelo discurso, considerando assim a representação como uma prática que depende particularmente do domínio simbólico no processo de construção do significado. Destarte, essa abordagem reconhece tanto a função social da linguagem quanto a produção simbólica de sentidos dentro do discurso, reforçando a subjetividade do processo de significação. Segundo Braz (2010, p. 12), “representar é um processo elaborado na e pela linguagem, impregnado, portanto, não de objetividades, mas sim, de subjetividades. Representar alguma coisa implica em atribuir a esta uma carga semântica; falar sobre algo é também construí-lo”.
Vale ressaltar que além da perspectiva socioconstrutivista das representações, Hall (1997, p. 25) distingue duas outras concepções teóricas que definem o conceito de representação: a representação reflexiva e a representação intencional. Na representação reflexiva, como o próprio nome já indica, a linguagem reflete o significado existente no mundo. Na visão intencional, o significado é atribuído pelo individuo, pois “as palavras significam o que o autor quer que elas signifiquem” (HALL, 1997, p. 25). Ambas as concepções estão pautadas na visão de que o processo de representar é a percepção “real” do significado pela mente, uma reprodução unilateral do mundo, que desconsidera diversos fatores, dentre eles os aspectos dinâmicos da significação e a agência65 no processo comunicativo.
Obviamente, tais perspectivas tornaram-se anacrônicas frente à compreensão sobre espaço, tempo e identidade na era da globalização (HALL, 2005, p. 69-76).
Outro ponto importante a ser notado é que os significados são construídos e contestados de forma situada e sob influência das contingências históricas, políticas e sociais, que interagem com o tempo e o espaço, e proporcionam uma miríade de olhares para as identidades. E ao mesmo tempo em que essas identidades sociais são negociadas na interação, estas também estão sendo reconstruídas de alguma forma. Em suma, as oposições que fundamentam o debate sobre identidades – sempre referenciadas em multiplicidade – estão, portanto, nas alternativas de “olhares” sobre ela: como algo relacional e que se torna saliente a partir das interações sociais. É construída no coletivo, repleta de textualidades e subjetividades construídas na interação e, portanto, sujeitas a mutações e à transitoriedade dos usos da língua.
Para concluir a discussão a respeito da construção identitária e das representações produzidas no discurso, é importante abordar a noção de cultura, já que a relação entre cultura e significado está na base dos sistemas de representação, que devem ser entendidos como um processo cultural. Nesse sentido, entende-se cultura como práticas de significação, que acomodam “a identidade ao dar sentido à experiência e ao tornar possível optar, entre as várias identidades possíveis, por um mundo específico de subjetividade” (WOODWARD, 2000, p. 17-18). Essa produção de significado é dinâmica e histórica – e, como consequência, contingente.
Ao se propor um deslocamento de perspectivas em meio à crise da modernidade, percebe-se que a noção de cultura embasada na epistemologia monocultural é limitadora e rejeita a diferença (BRAZ, 2010, p. 14). Encontra suas raízes na dimensão dos jogos de poder para o estabelecimento dos significados construídos através das representações feitas a partir de um esquema de significações homogêneo, de forma a exercitar uma dominação simbólica legitimada sobre os indivíduos. Em sua introdução ao livro de Bourdieu A economia das trocas
simbólicas, Miceli (2011, p. xvi) comenta:
Para Bourdieu, a organização do mundo e a fixação de um consenso a seu respeito constitui uma função lógica necessária que permite à cultura dominante numa dada formação social cumprir uma função político-ideológica de legitimar e sancionar um determinado regime de dominação. O consenso tornou-se a ilusão primeira a que condiz
qualquer sistema de regras capazes de ordenar os materiais significantes de um sistema simbólico.
Com o deslocamento para uma perspectiva fundamentada na epistemologia multicultural, a idealização intelectual dá abertura, então, para uma ênfase maior na dimensão política das atribuições de significado construídas socialmente de maneira porosa, fluída, transitória e descontinuada – mais coerente com as interações estabelecidas no momento histórico em que nos encontramos, e situa a cultura como um resultado da construção coletiva da realidade.