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A ANÁLISE DOS DADOS

II. Sofia (28 aos): Então meu pai era o pai de todos

A família de Sofia seguiu o padrão de imigração de falantes de árabe para o Brasil dos anos 1950 aos anos 1970: um deslocamento inicialmente realizado pelo patriarca da família e/ou de seu primogênito, e cuja presença de rede de contato familiar e afetiva facilitou o estabelecimento no país e a posterior vinda de outros membros da família. Com o relato da trajetória percorrida pelo seu pai, Sofia nos presenteia com outra faceta de motivações da migração árabe para o Brasil: a busca por melhores condições financeiras de vida para si e para os parentes, não necessariamente atreladas a um momento de guerra e deslocamento forçado. E ao relatar a história do pai, Sofia emocionou-se pelo sentimento de tristeza que caminha lado a lado com as memórias das dificuldades iniciais de reterritorialização. A seguir, apresento o trecho da gravação em que Sofia narra a trajetória de seus genitores: EXCERTO 2: 1 2 3 4

Sofia: Os dois ((avôs)) vieram a trabalhar... atrás de trabalho, o meu por parte de

mãe, ele começou a trabalhar em São Paulo né?, ele abriu uma fábrica de, de roupas e se deu SUper bem, daí veio ele e a minha avó, eles eram muito novos, tiveram oito filhos 5 P: Nossa! Oito! 6 7 8 9 10

Sofia: É... Bastante e por aí continuou a história, né? O meu avô por parte de pai

veio, mas não foi bem-sucedido profissional/ profissionalmente, né? Comercialmente e ele ficava entre o Líbano e o Brasil, né? E meu pai veio com 17 anos pra trabalhar, né? E ele veio sozinho, ele é o filho mais velho veio sozinho, começou tudo sozinho porque o meu avô não podia ajudá-lo, né?

11 P: Claro 12

13 14 15

Sofia: Então ele veio pra trabalhar, ele/ e a história do meu pai é um pouco triste,

como acho que a de muitos, né? Porque ele veio, primeiro ele ficou em ((nomeia uma cidade no Centro-Oeste)), ele tinha uma, abriu uma lojinha com meias, disse que tinha meia dúzia de shorts jeans, meia dúzia de calças jeans e algumas coisinhas e...

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e ficou um tempo lá e disse que ele foi uma vez/ ele disse que ia viajar de carro, ele e mais três, quatros amigos, sofreram um acidente, todos morreram, só meu pai que não, ele quase perdeu a perna, daí ele foi pra São Paulo ficar na casa do tio dele que é o meu avô por parte de mãe, que meus pais são primos

20 P: Ah, são primos 21 22 23 24 25 26 27

Sofia: É...ele foi se recuperando e tudo mais, começou a trabalhar um tempo com

meu vô, né? E ele se apaixonou pela minha mãe e tudo mais, ele trabalhou mais um tempo em São Paulo, mas também não deu certo meu pai em São Paulo... daí ele veio aqui pra Foz do Iguaçu pra trabalhar no Paraguai né? Ele veio éh... o meu irmão tinha... bom, eu tinha eu tinha um mês de vida, então eu vim há vinte e oito anos atrás. Ele veio pra Foz, daí que ele começou a vida dele aqui, éh... reconstruir, construir, né?

28 P:É

29 Sofia:Veio a trabalho, tudo mais, e ele era o ir/ sempre foi, né? O irmão mais velho 30 P: Ele puxou os outros, como é que foi?

31 32 33

Sofia: É, sim, daí vieram meus dois, são três homens e duas mulheres, os outros

dois homens ele trouxe, e as duas mulheres infelizmente não são muito bem- sucedidas no casamento, uma é viúva e a outra é separada

34 P: Uh-hum

35 Sofia: E a situação também era di/então meu pai era o PAI de todos 36 P: Pai delas

37 38

Sofia: Né? Era o PAI de TODOS, né?... Então... E assim foi, casou com a minha

mãe, tiveram quatro filhos e estamos aqui...

Enquanto Sofia representa a história familiar de migração de sua mãe como algo positivo, ela representa o momento inicial da migração da família de seu pai como algo penoso, difícil. Ela contrapõe ambas as histórias medindo o sucesso ou o fracasso do processo migratório a partir do bom encaminhamento dos negócios no Brasil. Afinal, se o motivo principal da emigração do Líbano era a busca por melhores condições financeiras, as referências de migração de Sofia são calibradas por aquilo que ela (e possivelmente seus familiares) consideram ser bem ou malsucedido no deslocamento para outro país. Dessa forma, Sofia posiciona e representa seus avôs e pai como bem ou malsucedidos no processo migratório de acordo com o sucesso ou o fracasso nos negócios, e constrói a imagem do homem árabe comerciante imigrante no Brasil, caracterizando-o no processo migratório familiar, dessa maneira. Suas escolhas lexicais – bem-sucedido e malsucedido – são índices de referência e predicação – deixam claro seu posicionamento e a construção dessa imagem a partir desses termos. Observe-se:

Sofia: Os dois vieram a trabalhar... atrás de trabalho, o meu por parte de mãe,

ele começou a trabalhar em São Paulo né? Ele abriu uma fábrica de, de roupas e se deu SUper bem.(...) O meu avô por parte de pai veio, mas não foi bem- sucedido profissional/ profissionalmente, né?

Sofia segue a narrativa revelando mais detalhes sobre a história de vida de seu pai. Como primeiro sucessor desse grupo familiar, o pai de Sofia assumiu a responsabilidade de auxiliar a família sozinho, já que os outros membros do núcleo familiar seguiram no Líbano. Desse modo, Sofia representa a trajetória de migração de seu pai como um processo solitário, num contexto em que a união familiar é pilar estruturante da vida:

Sofia: E meu pai veio com 17 anos pra trabalhar, né? E ele veio sozinho, ele é o

filho mais velho veio sozinho, começou tudo sozinho porque o meu avô não podia ajudá-lo, né?

Num primeiro momento, a história de vida do pai de Sofia é representada não somente como solitária – índice de referência e predicação sozinho (linhas 9 e 10) –, mas também triste (linha 12), em virtude dos reveses da vida no momento inicial de estabelecimento no Brasil. Com isso, Sofia posiciona seu pai no processo migratório – um misto de sacrifício com sofrimento, de tristeza com solidão. Mas com a habilidade de resistir e reagir de forma positiva diante de situações adversas – representada pela resiliência individual do pai dela – este conseguiu se reerguer com o auxílio de um tio – que posteriormente se tornou sogro –, reforçando a importância das redes familiares como suporte para aqueles que tentavam se estabelecer no Brasil.

Sabendo-se que a família e tudo que se relaciona a ela têm valor inestimável para esse grupo, muitos homens imigrantes falantes de árabe solteiros, depois de melhor estabelecidos no país, buscavam no casamento uma maneira de reforçar os laços familiares e criar uma estrutura familiar de base para seu estabelecimento no novo país. Numa tentativa de manter o vínculo com a cultura de origem, como sempre percebi, muitos optavam por: (1) casar com familiares ou membros da comunidade de falantes de árabe no Brasil; (2) mandar buscar noivas em seu país de origem para casar no Brasil; (3) ir ao país de origem para casar com moças de lá. Isso é visível principalmente entre aqueles que professam a fé islâmica (independentemente da vertente do islamismo), que pensavam encontrar na

companheira escolhida o cumprimento das responsabilidades perante o grupo, ao mesmo tempo em que poderia preservar as estruturas e tradições de origem no país acolhedor.

O pai de Sofia, então, casou-se com sua prima em São Paulo, e, um tempo depois, na metade da década de 1980, o casal, então com dois filhos, mudou- se para Foz do Iguaçu, para aproveitar o fim do segundo ciclo econômico e o grande

boom do terceiro ciclo econômico na cidade135. Sofia representa a mudança para Foz como um momento de reconstrução familiar, que culminaria com o sucesso da migração de seu pai para o Brasil ao trazer os outros irmãos.

Sofia: A trabalho, tudo mais, e ele era o ir/ sempre foi, né? o irmão mais velho P: Ele puxou os outros, como é que foi?

Sofia: É, sim, daí vieram meus dois/ são três homens e duas mulheres, os

outros dois homens ele trouxe, e as duas mulheres infelizmente não são muito bem-sucedidas no casamento, uma é viúva e a outra é separada

Em meio à descrição desse momento, Sofia posiciona seu pai, o primogênito, como o novo patriarca da família. Em suas próprias palavras, metaforicamente falando, seu pai seria “o pai de todos” da família, índice indexicador avaliativo, que revela e reforça o simbolismo da forte tradição patriarcal do país de origem e do homem forte, salvador da pátria/família, frente às adversidades vividas em seu processo de reterritorialização. Essas escolhas lexicais de Sofia marcam, portanto, a importância de seu pai na família, assim o identificando como aquele que é o responsável pelo bem-estar dos outros, o cabeça da família. Observe-se que aquele que era posicionado como o solitário sofredor passou a ser posicionado como o comandante do empreendimento migratório familiar, posicionando, assim, os outros como seus dependentes, reproduzindo a estrutura familiar de origem e as funções de cada um nessa rede.

Sofia: era o PAI de TODOS né?...Então, e assim foi, casou com a minha mãe,

tiveram quatro filhos e estamos aqui...

Retomando o trecho em que Sofia posiciona seu pai como „pai de todos‟ e relacionando-o ao primeiro apontamento sobre as representações a respeito do processo migratório de membros da família de Sofia como bem ou malsucedido,

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percebe-se a necessidade de contrapor as diferentes avaliações sobre o sucesso ou fracasso no processo migratório também para as mulheres que para cá vieram e se estabeleceram. Observe-se o que Sofia afirma a seguir:

Sofia: É, sim, daí vieram meus dois/ são três homens e duas mulheres, os

outros dois homens ele trouxe, e as duas mulheres infelizmente não são muito bem-sucedidas no casamento, uma é viúva e a outra é separada

É possível notar que a referencialidade de sucesso para homens e mulheres na imigração para o Brasil é representado por essa participante da pesquisa como tendo naturezas distintas. Enquanto para o homem ser “bem- sucedido” relaciona-se ao seu desempenho como comerciante, para as mulheres o sucesso da sua migração decorreria do encaminhamento de seus matrimônios, o que indexa um discurso de superioridade masculina pela importância do estabelecimento na sociedade brasileira a partir do sustento da família. Recria-se, desse modo, a tendência de se manter os padrões de existência do país de origem, indicada por Sofia e por mim percebidos pelas minhas vivências – uma sociedade patriarcal, em que a mulher deve estar numa posição secundarizada, vinculada a um homem e à instituição casamento para ser bem-sucedida. Esse cenário representa o discurso de sobreposição do universo masculino ao feminino, que determina que a mais valia de uma mulher está condicionada à construção e à manutenção de sua família, subjugando-se aos homens ao seu redor nesse sentido. Por conseguinte, as tias de Sofia são posicionadas como pessoas malsucedidas no empreendimento migratório: uma é viúva e a outra é separada.

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