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3.5 CONTEXTO COMUNICATIVO DA PESQUISA

3.5.3 Identificação da morfologia das informações no modelo

Baseado no modelo de comunicação da pesquisa, é possível identificar onde são necessárias informações e qual a morfologia destas em cada uma das etapas do processo. Para identificar estas falhas, usaremos o termo “gap” do inglês, que quer dizer “fenda”, “hiato”, utilizado por Zeithaml, Parasuraman e Berry (GIANESI; CORREA, 1984), referindo-se as falhas do processo de comunicação na avaliação

da qualidade de serviços, identificaremos os pontos críticos, os gaps no processo estudado.

Figura 7: Pontos de comunicação no modelo da pesquisa Fonte: o autor (2008)

Antes de iniciar o processo comunicacional, a fonte (cliente) necessitará de informações relacionadas ao produto desejado (padrões, estilos), ao profissional que elaborará o planejamento e talvez sobre a empresa que executará.

A primeira comunicação do modelo ocorre entre a fonte e o emissor (cliente e arquiteto). Após reunir estas informações gerais o cliente/fonte estabelecerá o contato com o arquiteto/emissor e, por meio de verbalizações, fotos, imagens e esquemas simples, transmite a mensagem sobre as características do objeto (mobiliário) necessário e/ou desejado.

Esta primeira comunicação do processo é muito suscetível a ocorrência de gaps em virtude do intenso uso da linguagem oral possibilitando a diversidade interpretativa. O fenômeno da ambigüidade é uma característica das linguagens e podem acarretar diversos problemas.

Diaz Bordenave (1986, p. 76) afirma que [...] “a maior parte das confusões e incomunicações que ocorrem entre as pessoas, entre os

grupos e entre as nações tem origem na linguagem”, completando que [...] “a maior parte da comunicação se realiza por meio da linguagem, falada ou escrita”.

Para que a segunda comunicação ocorra, os pré-requisitos informacionais necessários para o arquiteto/emissor são relacionados a codificação da mensagem. Faz-se necessário o domínio das formas de elaboração das representações gráficas de desenho e escrita, informações sobre os materiais utilizados na produção, estilos, padrões, etc. Enfim, o arquiteto/emissor deve estar interado dos códigos utilizados para a elaboração destas mensagens.

Segundo Blikstein (1992, p. 36), “o processo de transformação de uma idéia em mensagem (signos) não passa de um processo de codificação”.

A segunda comunicação ocorre entre o arquiteto/emissor e o marceneiro/receptor. O emissor elabora a mensagem por meio de representações gráficas de desenho e escrita do mobiliário que está sendo proposto para encaminhar aos receptores.

Segundo Back (1983, p. 368), “o desenho é usado para transmitir uma informação a uma pessoa ou a uma máquina sobre a forma, natureza ou aparência de um objeto ou valor. Assim, por exemplo, um desenho de fabricação deverá conter todas as informações que permitam a sua total reprodução”.

Nesta etapa, é fundamental que todas as informações necessária estejam registradas para possibilitar o entendimento, minimizando assim, complementações verbais posteriores. A mensagem nesta comunicação ocorre principalmente por meio de desenhos elaborados utilizando códigos específicos.

Segundo D’Azevedo (1970, p. 15), “o código é o elo de união entre a fonte da mensagem e seu destino; ele representa e transmite a mensagem através do canal ou do meio”. Posição reforçada por Jakobson (1969, p. 23), que afirma que “é a partir do código que o receptor compreende a mensagem”.

A possibilidade de ocorrência de gaps nesta comunicação está associada a inconsistência destas mensagens, o que comprometerá a sua interpretação e o seu entendimento, induzindo ao receptor a buscar as informações ausentes ou ambíguas. As diferenças existentes entre os repertórios e nas formações dos profissionais é um fator potencializador do problema. As deficiências ou inconsistências na mensagem, segundo Mayr (2000, p. 21), “[...] podem ter como conseqüência a perda de produtividade, e o comprometimento do desempenho [...]”.

Para a comunicação três ocorrer eficientemente é imprescindível que o marceneiro/ receptor detenha informações sobre: os códigos utilizados pelos arquitetos/emissores, sobre os materiais e sistemas utilizados para a fabricação, ferramentas, etc.

A terceira comunicação ocorre entre o marceneiro/receptor e o móvel/destinatário. De posse da mensagem elaborada pelo emissor, inicia-se a decodificação das informações que deverão orientar o processo produtivo.

Esta comunicação é a menos suscetível a ocorrência de gaps em virtude das constantes correções feitas nas comunicações anteriores, ficando esta última etapa com o mínimo de dúvidas e incertezas.

Fica evidente a importância ressaltada anteriormente sobre a eficiência destas comunicações. Falhas nas etapas anteriores inevitavelmente suscitarão dúvidas e/ou prejudicarão a fabricação e o produto final.

O feedback da mensagem obtém-se por meio do confrontamento entre a mensagem do emissor com o destinatário e entre a idéia inicial da fonte com o destinatário.

Com relação as funções da comunicação supracitadas por Littlejohn (1982) e Diaz Bordenave (1979), no âmbito da pesquisa, identificou-se a função instrumental na comunicação um e a função informacional na comunicação dois.

Os níveis da comunicação relacionados por Diaz Bordenave (1979) possibilitam identificar variáveis na composição dos agentes envolvidos. Podem ocorrer comunicações entre duas pessoas (arquiteto e marceneiro), entre um indivíduo e um grupo (arquiteto e marceneiros ou arquitetos e marceneiro) e entre grupos (arquitetos e marceneiros). Em todos os casos, o meio de comunicação permanecerá inalterado independente do número de participantes no processo.

O fluxo comunicacional de uma forma geral é unilateral, pois o emissor controla a produção e a difusão da mensagem. O fluxo multifucional pode ocorrer em situações em que o emissor participa interativamente, objetivando a troca de idéias entre os agentes envolvidos (clientes, arquitetos e marceneiros).

Os modelos de comunicação estudados possibilitaram a identificação dos elementos suas respectivas características e o grau de participação no processo comunicativo. Ficou evidenciado que o emissor, de uma forma geral, determina a escolha do código, da mensagem e do canal utilizados, desconsiderando o receptor e acarretando a incomunicação.

A impossibilidade de que ocorra efetivamente a comunicação em um contexto como o representado na pesquisa, exigirá do receptor, caso necessário, que complete as lacunas informacionais com as informações de seu repertório.

Segundo Pignatari (1996), existem duas possibilidades de não comunicação ou incomunicação: se é possível prever tudo o que o emissor enviará na mensagem, a mesma se torna redundante e se é impossível prever o que o emissor vai dizer.

Para Berlo (1991, p.23), “os colapsos de comunicação podem ser atribuídos a uma ou a ambas das duas causas: ineficiência ou percepção errônea”.

Considerando o escopo principal desta pesquisa, a comunicação entre arquitetos e marceneiros, caracterizada no modelo como a comunicação dois, fica evidenciada a importância das representações gráficas de desenho e de escrita, com seus respectivos códigos, utilizadas na elaboração das mensagens. O alvo da investigação serão as causas que originam os gaps e comprometem o fluxo normal das informações.

No contexto da pesquisa, os termos “desenho” e “projeto” são simultaneamente utilizados por arquitetos e marceneiros passando a idéia de que são sinônimos. O capítulo seguinte traz abordagens sobre os dois termos, concluindo com a determinação do termo a ser aplicado neste contexto.

4 DESENHO OU PROJETO?

São usualmente utilizados no contexto da pesquisa os termos “desenho” e “projeto” referindo-se ao documento ou conjunto de documentos usados na comunicação entre arquitetos e marceneiros. Desenho pelas características intrínsecas do documento e projeto por ser um termo amplamente utilizado no campo da Arquitetura.

No decorrer da história, para que os conhecimentos da sociedade não fossem perdidos e permitissem o compartilhamento, foram registrados em suportes materiais: livros, imagens, disco etc., passando, segundo Cintra et al. (2002), a se constituir documento.

Segundo Fonseca (2005), documento é tudo aquilo que represente ou expresse por meio de sinais gráficos (escrita, diagramas, mapas, algarismos, símbolos) um objeto, uma idéia ou uma impressão.

No dicionário de comunicação (RABAÇA; SODRÉ, 1978, p.239),

documento é a base física de conhecimentos; algo material em que está fixada uma noção, uma idéia, ou uma mensagem, por meio de signos gráficos, sonoros etc. São documentos os livros, periódicos, manuscritos, fotografias, selos, moedas, filmes, discos, fitas magnéticas, monumentos, coleções de história natural, etc.

No contexto da pesquisa, o documento utilizado para transmitir as informações que deverão orientar o processo produtivo constitui-se de representações gráficas compostas de desenhos e descrições em linguagem corrente e técnica. Estas serão chamadas respectivamente no decorrer deste trabalho de representações gráficas de desenho e representações gráficas de escrita.

Para Naveiro e Oliveira (2001, p. 138), “o universo das representações visuais inclui as representações gráficas, que podem constituir linguagem, ou seja, conjunto sistemático de códigos”. A linguagem visual é a base para a representação, mediada pelo desenho como representação gráfica.

Segundo Giesecke (2002, p. 24):

a representação gráfica tem se desenvolvido ao longo de duas linhas distintas: a artística e a

técnica. Desde o início dos tempos, os artistas se utilizaram dos desenhos para expressar idéias estéticas, filosóficas ou outras idéias abstratas. A adoção de representações gráficas (escrita e desenho) na comunicação de mensagens transpôs a barreira do tempo coexistindo com a oralidade e hoje com as novas tecnologias de comunicação – computadores (LEVY, 1993).

Apesar da distância conceitual que separa os dois termos, é comum e usual sua aplicação simultânea referindo-se ao mesmo documento. Para definir qual a terminologia adequada a ser aplicada no decorrer deste trabalho, nos próximos itens serão discorridos conceitos e aplicações dos termos “desenho” e “projeto”.