CONSTRUINDO O CONHECIMENTO
3.3.1. Identificação de Problemas e de Necessidades
Para a identificação de problemas e necessidades, privilegiaram-se, numa fase inicial, as conversas intencionais com todas as jovens e com alguns profissionais da instituição. Posteriormente, considerando a necessidade de definir âmbitos de intervenção, foi necessário devolver os problemas identificados aos profissionais que estavam disponíveis em diferentes momentos do quotidiano e às jovens, com o intuito de se refletir sobre os vários problemas que emergiram, no sentido de explorarmos as necessidades, bem como as causas associadas a cada problema. As profissionais da ET realizaram a avaliação do contexto através de conversas intencionais realizadas individualmente e em grupo, como as reuniões, e, devido à dificuldade em compatibilizar os horários de trabalho dos profissionais da EE, a avaliação do contexto foi realizada através de conversas intencionais nos diferentes turnos (Apêndice D, pp.238-247). Para a avaliação do contexto realizada por todas as jovens que à data se encontravam na instituição, desenvolveram-se conversas intencionais individuais e em pequeno grupo (Apêndice D, pp.248-261). Não sendo exequível, ao longo deste documento, uma apresentação detalhada da Avaliação do Contexto realizada pelos atores sociais na CAR, cingir-nos-emos
41
aos aspetos que orientaram o Projeto apresentado neste Relatório, remetendo-se a restante informação para Apêndice (Apêndice C, pp.231-237).
Um dos problemas identificados foi a falta de higiene e de cuidado da imagem pessoal por das jovens. Este problema era identificado por todas as pessoas no contexto. Foi constatado, quer pelos profissionais da ET e EE nos discursos acerca da falta de higiene de algumas jovens, quer pelas jovens que exprimiam a sua perceção sobre o desmazelo de algumas colegas relativamente à imagem pessoal – “…não têm registos de banho o dia todo…”; “…muitas não sabem vestir-se adequadamente para os diferentes contextos…”; “elas não tomam banho…mas já alguém as ensinou como tomar banho?”. Assim, pareceu-nos ser necessária a sensibilização para a importância dos hábitos de higiene, contribuindo também para a mudança de hábitos e comportamentos relacionados com o cuidado pessoal. Os profissionais estavam conscientes que a ausência, ou diminuição, do cuidado pessoal estava também relacionada com a desmotivação das jovens. Assim, de modo a que fosse possível colmatar tal problema, deveria investir-se ao nível da higiene e da autoestima. Para além disso, refletiu-se que havia um trabalho muito importante a ser desenvolvido, com as jovens e com os profissionais, que se prendia com as questões da educação para a saúde. Devido aos seus percursos de vida, as jovens manifestavam algumas vezes “…eu sou mais nova que vocês, mas já vivi mais que vocês”; “já experimentei tudo e mais alguma coisa” (referindo-se a substâncias psicoativas). Algumas jovens, pronunciando-se acerca da sua entrada na CAR, referiam que tinham engordado imenso e outras diziam que tinham emagrecido demasiado, atribuindo a “culpa” à ansiedade ou à alimentação que lhes era dada na instituição. Em geral, as jovens demonstravam comportamentos internalizantes, como sintomas físicos de mau estar e maior preocupação com o corpo e com a sua imagem/aparência. Devido aos seus percursos de vida, apesar de muito novas, algumas jovens apresentavam características de pessoas mais velhas, como: dentes estragados, alimentação menos cuidada, problemas de obesidade e a falta de exercício físico. As jovens partilharam que gostavam de ter contacto com pessoas da área da saúde, com quem pudessem conversar, de ter a oportunidade de irem mais vezes a cabeleireiros, para pintar o cabelo ou maquilhar-se, e algumas referiam ainda que gostavam de ter a oportunidade de poder caminhar, de fazer exercício físico no exterior da casa. Apesar de as jovens manifestarem preocupações com a
42
saúde, exteriorizando apenas a preocupação com a aparência física, subjacente a isso estava também a preocupação com a saúde no sentido mais lato.
Percebemos que a dificuldade de autorregulação das jovens ocasionava comportamentos desadequados por parte das mesmas, problema este identificado pela ET e pela EE. Explorando o problema, também as jovens o perceberam e reconheceram. Tal dificuldade revestia-se da frequente utilização da mentira e da manipulação por parte de algumas jovens e os profissionais tinham a perceção de que a mentira funcionava como um mecanismo de proteção para evitarem a dor ou para obterem algo – “elas são altamente manipuladoras porque é uma questão de sobrevivência e muitas vezes mentem…”; “ela vive numa realidade dela e tende a mentir para sustentar essa realidade que idealiza”; “muitas vezes elas não gerem da melhor maneira porque nem sequer sabem que tipo de sentimento estão a ter…”. Os profissionais referiam que as jovens tinham dificuldade em exprimir o que sentiam, apontando como necessidade a autorregulação de pensamentos, de emoções e de comportamentos das jovens e o reforço da capacidade de gestão de conflitos.
A falta de respeito de algumas jovens para com alguns profissionais e entre elas estava também, de acordo com os discursos, incluídas no problema relacionado com os comportamentos desadequados das jovens - “há outras formas para que as jovens se possam autorregular, sem ser à base de insultos e agressões”. Essa falta de respeito para com os profissionais era também reconhecida pelas jovens – “…quero pedir, aqui na assembleia, desculpa ao educador X pelo meu comportamento de ontem…”; “por vezes, há faltas de respeito muito graves para com os profissionais”; “bater portas, gritar, constituiu uma falta de educação que acabou por atingir todas as pessoas que estavam presentes na casa…”; “por vezes, as regras básicas é que não são exigidas: como o respeito pelo outro…”.
Era notório que a falta de respeito acabava por gerar violência e conflitos em muitas situações do quotidiano. O comportamento desadequado por parte das jovens era referido no discurso dos profissionais da EE, focando-se nos comportamentos de oposição e desafio. Os comportamentos agressivos eram também indicadores trazidos pelos profissionais e pelas jovens – “fazem birras, batem, mordem, dão pontapés, danificam materiais…”; “mentem, fogem, desrespeitam regras…”; “fiz asneira…bati na X”; “fiz frente à doutora”; “estou farta daquela miúda”. A psicóloga Rita referiu que “muitas vezes o que fazem é lutar pelo espaço delas, mas não o fazem de maneira adequada”. Na exploração
43
deste problema, foram apresentadas pelas jovens quatro causas para esse problema ser tão recorrente: serem impulsivas, a dificuldade de autocontrolo, não concordarem com a opinião dos outros e o facto de não gostarem ou não se identificarem com as pessoas. As profissionais da ET, além de concordarem com o que as jovens apontavam, acrescentaram outras causas que consideravam estar na base dessas situações, nomeadamente: serem jovens com sentimentos baixos de valorização pessoal e vítimas de maus tratos. Já os profissionais da EE referiram que também a educação e disciplina inadequadas, bem como a vivência em ambientes conflituosos, violentos ou situações de rutura poderiam constituir-se como causas possíveis desse problema. Os profissionais, sendo uma referência para as jovens, sentiam-se intrinsecamente envolvidos no seu desenvolvimento e socialização, sentindo-se na obrigação de conduzirem determinadas formas de interação social em detrimento de outras que se vivenciavam, como a violência verbal e física, por exemplo. Parecia ser necessário fortalecer estilos mais positivos de relação interpessoal, através de valores, como a cooperação, a tolerância, a solidariedade e a partilha porque a resolução de situações de conflito tornar-se-ia mais eficaz, fazendo com que se atenuassem os comportamentos menos positivos, como era o exemplo das agressões verbais e físicas. De acordo com os profissionais, era importante que as interações entre as jovens, que partilhavam o mesmo espaço durante um largo período de tempo, fossem interações sociais construtivas e cooperativas, pois, referindo as palavras da diretora técnica, “…só assim poderia haver o potencial de promover aprendizagens, assim como o desenvolvimento de empatia e respeito mútuo, fundamentais para elas se relacionarem seja com quem for”. Os profissionais acreditavam que este era um problema a ser trabalhado continuamente e, para a maior parte das jovens, a existência de conflitos entre elas era um dos aspetos apontados como menos positivo.
A falta de reconhecimento das jovens por parte dos profissionais da EE foi outro problema apontado pelas jovens. As jovens referiam que os profissionais, algumas vezes, não eram capazes de reconhecê-las e os seus bons comportamentos, expressando, “eles só veem o que fazemos mal”; “gostava de ser valorizada pelo que faço bem e não apenas ser recriminada pelo que faço mal”. As jovens acabavam por manifestar que sentiam que não valia a pena
“fazer o bem” e apresentavam perceções menos positivas sobre si mesmas, não se valorizando. Ao explorar este problema com as jovens, referiam que isso se
44
devia, sobretudo, ao facto de os profissionais não fazerem um esforço para verem “as nossas coisas boas”, referindo-se a características e bons comportamentos. Já os profissionais da EE reconheciam que, efetivamente, em alguns momentos do quotidiano isso acontecia, mas que, “quando nos damos conta parece que já é tarde para valorizar”; “às vezes só me lembro que a X ou Y esteve bem naquele momento quando estou a fazer a viagem para casa, ou seja, no final do turno, quando já não estou aqui na instituição”; “depois no dia a seguir estamos cá de novo é verdade, mas depois alguns colegas acham que já não vale a pena valorizar, pois já passou”. Assim, apresentavam-se como necessidades: a valorização e o reconhecimento das jovens por parte das mesmas e dos profissionais e o reforço de comportamentos adequados.
O baixo nível de desenvolvimento moral por parte das jovens foi outro problema identificado primeiramente por todas as profissionais da ET, em momentos individuais e em reuniões de equipa, e, posteriormente, também por alguns profissionais da EE. Um dos indicadores desse problema trazido pela psicóloga Rita foi o facto de as jovens terem preenchido uma escala (Moral Judgment Test [MJT] de Georg Lind, 1998 – versão portuguesa adaptada por Patrícia Bataglia, 1998) que demonstrava os seus níveis de desenvolvimento moral, constatando-se níveis muito baixos. Para além deste indicador, outros discursos foram aparecendo na voz dos profissionais, como: “é importante fazê-las pensar sobre as mais variadas questões”; “só obedecem para evitar castigos ou para satisfazerem desejos”; “bloqueiam e não pensam de outra maneira”.
Posteriormente, na reflexão sobre este problema, as jovens também o identificaram e mostraram-se conscientes da sua existência, embora de outra forma, trazendo no seu discurso ideias, como: “…ela não tem consciência disso…”; “…estas miúdas não sabem pensar nos outros”; “…só pensam nelas…”.
As causas deste problema estavam, de acordo com os profissionais, relacionadas com aspetos de carácter cognitivo e com as experiências sociais que as jovens tinham tido no seu percurso. O desconhecimento de valores fundamentais, o pensamento e a postura muito autocentrados e pouco flexíveis foram também apontados como causas do mesmo. Após exploração deste problema com as jovens, aliámos o facto de as jovens sentirem que, apesar de existirem assembleias onde se discutiam assuntos relativos à casa, não existia um espaço onde elas pudessem discutir diversas situações ou casos – “que nos fazem pensar mais além…”; “…casos das nossas vidas, casos da casa…”; “era
45
importante discutirmos casos que nos fizessem pensar, que nos fizessem tomar posições e pensar sobre elas”. A causa subjacente a este problema, na perspetiva das jovens, estava, por um lado, intimamente relacionada com a “falta de noção”
e, por outro, com a falta de tempo e espaço para a reflexão sobre situações.
Consequentemente, para estes dois problemas, que poderiam ser incluídos no mesmo e trabalhados em conjunto, os profissionais reconheceram ser necessária a promoção da educação moral das jovens de acordo com valores humanos, a estimulação das jovens para serem cidadãs mais autónomas com espírito crítico e com responsabilidade e para refletirem que a moralidade se constrói na relação com os outros e com o meio. As jovens indicaram ser importante a discussão de casos, a compreensão da ideia de justiça, sentirem-se mais preparadas para dar a sua opinião livremente e a construção de tempos e espaços onde pudessem sentir-se à vontade para refletirem.
Finda a reflexão sobre os problemas identificados (Apêndice C, pp.231-237), foi imperativo realizar a sua priorização, tendo em consideração a importância e a urgência da sua resolução e a vontade e as expectativas dos atores sociais envolvidos. Com os profissionais, este momento decorreu no fim de uma formação, visto que se constituiu como um momento privilegiado, tendo-se conseguido estar com quase todos em simultâneo, pedindo-se que reanalisassem os problemas e os priorizassem. Ressaltou, assim, a falta de higiene e cuidado da imagem pessoal, devendo este aspeto ser trabalhado num sentido mais amplo. Consideravam igualmente urgente investir no problema relacionado com o comportamento desadequado por parte das jovens e com as relações menos positivas, na falta de reconhecimento das jovens por parte dos profissionais da EE e no baixo nível de desenvolvimento moral das jovens. Com as jovens, a priorização realizou-se em diferentes momentos do quotidiano, dados os seus diferentes horários e inúmeros compromissos. Depois desses momentos, conclui-se que um dos problemas priorizados foi a inexistência de um espaço para discussão de diferentes situações, tendo este sido aliado ao do baixo nível de desenvolvimento moral das jovens. Priorizaram também a falta de higiene e cuidado da imagem pessoal, os seus comportamentos desadequados e as relações entre elas e, ainda, a falta do seu reconhecimento por parte dos profissionais da EE (Apêndice D, pp.238-261).
Posteriormente, em conversas intencionais com os profissionais, fomos percebendo que, na sua perspetiva, todas as jovens poderiam beneficiar com a
46
participação no Projeto. Contudo, devido ao funcionamento da casa, às regras e rotinas da mesma e à disponibilidade das jovens e dos profissionais, não foi possível desenvolver o projeto com todas as pessoas que até a esse momento tinham participado no Projeto. Assim, tentou compreender-se com as jovens quais estariam motivadas e interessadas em participarem no Projeto, sendo que, para isso, desenvolvemos a sessão “Participar com responsabilidade: a minha decisão”, em que foram abordadas questões relativas aos problemas priorizados (Apêndice E, pp.262-269). Explicámos que o Projeto seria desenvolvido com algumas jovens, pelo que gostaríamos de saber quem estava mais motivado e interessado em participar. As jovens que mostraram, de imediato, maior entusiamo para a participação foram: a Luana, a Pipoca Mendes, a Núria, a Ariana, a Yasmine e a Fred. Em conversa intencional com os profissionais, eles consideraram importante que outras jovens integrassem o grupo, como a Lili, a Gaiata, a Bandeirinha Júnior e a Sacaninha. Conversámos com as jovens individualmente e, num primeiro momento, elas mostraram-se resistentes e desinteressadas, reconhecendo que a desmotivação para participarem prendia-se, maioritariamente, com o facto de não se sentirem muito à vontade para expressarem opiniões, pensamentos e sentimentos, referindo: “tenho vergonha de falar”; “eu até posso entrar, mas estarei calada”. Contudo, após as conversas individuais, consideraram que a sua integração poderia ser útil e significativa, tanto para elas como para as colegas, pois, na sua opinião, a sua participação poderia ajudá-las a “pensar sobre assuntos da casa e da sociedade” e a (con)viver
“melhor umas com as outras”. Transmitimos-lhes também que, ao longo do tempo, poderiam participar na medida em que quisessem, para não se alimentar a falta de confiança das jovens. Nesta fase, decidiu-se então quais as jovens que participariam no Projeto, acerca das quais se apresenta uma caracterização aprofundada em Apêndice (Apêndice F, pp.270-289).