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PARTE II – AUTORREGULAÇÃO, AUTORREGULAÇÃO DA APRENDIZAGEM E

1.2 IDENTIFICANDO O CONCEITO DE SELF HISTÓRICA E

Apesar da sua óbvia importância como categoria fundamental para

compreender o comportamento humano, o self demorou bastante tempo para ser

reconhecido pelos cientistas sociais e do comportamento como uma proeminente

categoria. De acordo com Leary e Tangney (2005, p. 4), o início das discussões

intelectuais a respeito do self foi traçado já na antiguidade por Platão

(aproximadamente 428-347 aC.). Mas, conforme os autores, é possível encontramos

em escritos de tradição oriental, tais como: os Upanishads

32

(Índia, em torno de 600

aC.), o Tao te Ching

33

(500 aC.), e a filosofia de Sidarta Gautama, o Buda

34

(aproximadamente 563-483 aC.), muitas referências ao self, à consciência reflexiva

e à identidade.

A principal ênfase das doutrinas orientais

35

é o crescimento transpessoal,

traduzido pela tendência de cada pessoa a “relacionar-se mais intimamente com

algo maior do que o self individual” (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 283).

32

Os Upanishads são a última parte dos Vedas. Estes eram originalmente uma literatura de tradição

oral, transmitida de professor para discípulo durante muito tempo. Os primeiros Vedas remontam a

2.500 A.C. Os Vedas são formados de quatro partes: a primeira, são hinos que vão desde o culto

à natureza politeísta até a filosofia mais sofisticada; a segunda, aborda rituais e sacrifícios que,

acreditava-se, poderiam assegurar boas colheitas, prosperidade etc.; a terceira parte eram

tratados da florestas, escritos por ascetas que habitavam as florestas e cuidavam das verdades

interiores e da contemplação; e a quarta e última parte eram os Upanishads, ou Vedanta

(literalmente “o final dos Vedas”), que trata do propósito de conhecer o self, “a essência imortal e

imutável de todas as pessoas.” (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 318).

33

O Tao te Ching é de autoria de Lao-Tsé, um filosofo chinês, do qual pouco se sabe oficialmente.

Estima-se que Tao te Ching tenha sido escrito por volta do século VI aC., na China; é composto de

aproximadamente 5.000 palavras, distribuídas em 81 poemas ou capítulos. Tao Te Ching pode ser

traduzido por “Livro que leva à Divindade” ou “O livro que revela Deus” (LAO-TSÉ, 2003, p.11-12 e

20).

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A vida de Gautama, um príncipe de um pequeno reino do norte da Índia, no século VI aC., tem

sido identificada com a história religiosa budista, no entanto existem poucas referências confiáveis

sobre datas e fatos históricos, segundo Fadiman e Frager (1979). Gautama recebeu o título de

“Buda”, que “significa ‘aquele que sabe’ ou aquele que dá exemplo de certo nível de entendimento,

aquele que atingiu a plenitude da condição humana.” (p. 287).

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Aqui houve uma generalização, pois as doutrinas orientais são muitas e bem diversificadas.

Fadiman e Frager (1979) reúnem e apresentam três sistemas orientais que, segundo eles, são

representativos do “pensamento oriental”: o Zen-budismo, o Ioga e a Tradição Indu, e o Sufismo.

Diferentemente das teorias ocidentais

36

, o pensamento oriental preconiza a

existência de uma tendência do ser em expandir as fronteiras do self. Assim, a partir

dessa perspectiva, a pessoa busca compreender sua participação em uma unidade

maior, esforçando-se por tornar-se efetivamente parte dela. A unidade maior,

supra-individual, será configurada de diversas e diferentes formas, conforme a formação

cultural e a crença de cada pessoa.

Então, por exemplo, no pensamento budista

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há uma diferenciação entre o

self menor e o grande self. O primeiro é o ego, a consciência que uma pessoa tem

de sua mente e de seu corpo; ele está fixado nas limitações individuais, na

consciência da separação entre o indivíduo e o mundo. Insatisfações, doenças,

sofrimentos etc. residem nesse self limitado – “a consciência relativa – de cada

indivíduo”. Este patamar de consciência precisa ser transcendido para que se

desenvolva um verdadeiro sentido de unicidade com os outros seres e com a

natureza, com o self maior. Então a pessoa pode vir a identificar-se com o seu

grande self, que inclui o universo inteiro, com todos os seus componentes. Contudo,

a identificação com o grande self não representa a aniquilação do self menor. O

treinamento budista possibilita que se transcenda o self menor, de forma que a

pessoa não seja dominada por ele, e que alcance um senso de relativa satisfação

consigo e com o mundo (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 289 e 307).

No Ocidente, as principais discussões sobre o self apareceram quase dois

milênios depois das doutrinas orientais, em contextos religiosos e teológicos, por

volta da Idade Média e durante o Renascimento. A maior parte dos filósofos

ocidentais desse período abordou o problema do self, de acordo com Leary e

Tangney (2005, p. 4), incluindo: R. Descartes, J. Locke, D. Hume, G. W. Leibniz, G.

Berkeley e I. Kant. Maine de Biran (1766-1824), um filósofo francês, por exemplo,

tinha a preocupação de encontrar a gênese da autoconsciência no desenvolvimento

da criança, e afirmou que o self seria responsável por aquela individualidade que é

capaz de atividade integrada observável (MILHOLLAM; FORISHA, 1978, p.

126-127).

36

Os teóricos ocidentais discutiram o crescimento mais em termos de saúde mental, do

fortalecimento do self, do desenvolvimento da autonomia, da autodeterminação, da

autoatualização, e da libertação de processos neuróticos. Essa perspectiva centraliza-se no

crescimento pessoal e no desenvolvimento integral do self, sendo que self vem sendo entendido

como uma “central de controle do eu”, “um controlador” (FADIMAN; FRAGER, 1979).

37

Orientado, principalmente, pelos ensinamentos de Buda (Sidarta Gautama), como já foi referido

anteriormente, em nota de rodapé.

Entre os filósofos ocidentais, ao abordarem questões relacionadas ao

conceito de self, havia a preocupação com um estado de permanência e certa

resistência à ideia de mudança, sendo decorrente daí a noção de self como

“entidade” ou a existência de um “núcleo essencial”, e a busca por alguma

“substância” permanente, como o ego, o espírito ou a alma (MACEDO; SILVEIRA,

2012).

Em psicologia, a primeira discussão mais detalhada sobre o self foi

introduzida por Willian James (1842-1910), em 1890, quando devotou um capítulo

de seu livro “Princípios da Psicologia”, para A consciência do Self. James não

somente consolidou “uma base conceitual forte para o estudo do self, mas também

apontou a importância do self para a compreensão do comportamento humano e

fixou um forte precedente para considerar o self como um tema legítimo da

investigação científica.”

38

(LEARY; TANGNEY, 2005, p. 4, tradução nossa).

James observou e analisou o fluxo da consciência co-existindo com o senso

de continuidade na corrente do pensamento, a importância do hábito (ou o que pode

ser chamado de “automaticidade”), e a seletividade da consciência, da atenção, e de

todos os trabalhos da mente humana (MISCHEL; MORF, 2005, p. 16). Para James,

a “vida mental consiste em uma unidade, em uma experiência total que se modifica.

A consciência é um fluxo constante e qualquer tentativa de dividi-la em fases

temporariamente distintas pode distorcê-la.” (SCHULTZ; SCHULTZ, 2011, p. 162).

Assim, para esboçar essa ideia, James formulou a expressão “fluxo da consciência”.

De acordo com Fadiman e Frager (1979, p. 164), o self, para James, é

aquele senso de continuidade pessoal que reconhecemos cada vez que

despertamos pela manhã, sendo que se divide em três camadas, de acordo com

este autor: o Self Material, que constitui tudo que acreditamos ser pessoal, com o

que ou com quem nos identificamos (nosso corpo, família, lar ou estilo de vestir). A

outra camada do self é o Self Social, que se refere ao reconhecimento que

extraímos de outras pessoas, sendo que possuímos várias formas (papéis) de nos

apresentarmos a diferentes pessoas, voluntária ou involuntariamente. James (1952)

sugeriu que o ideal seria escolher um dos selves ou papéis e alicerçar sua vida

sobre ele.

38

A strong conceptual foundation for the study of the self but also touted the importance of the self for

understanding human behavior and set a strong precedent for regarding the self as a legitimate

topic of scholarly investigation.

E por fim, o terceiro self é o Espiritual, que constitui o nosso ser interior ou

subjetivo; seria o elemento ativo de toda consciência. James (1952) propõe que o

self espiritual não seja compreendido como puramente espiritual, pois o que

qualificamos como atividade espiritual é na realidade um sentimento das atividades

do corpo, que, segundo o autor, é de natureza ignorada pela maioria das pessoas.

Apesar de enfatizar os processos internos, conforme Macedo e Silveira

(2012), James estabeleceu um afrouxamento das fronteiras de divisão entre o

mundo interno e externo (social). Essa evolução, seguramente, contribuiu para que

se elaborassem posteriormente ideias de uma natureza processual e construída

acerca do self.

No final do século XIX e durante a primeira metade do século XX,

seguindo-se a James, muitos teóricos influentes enfatizaram a importância do self para a

compreensão do comportamento humano e da sociedade em geral. Destacaremos

alguns, em acordo com Leary e Tangney (2005, p. 4): Charles H. Cooley, que trouxe

a atenção dos sociólogos ao self; George Herbert Mead, que refinou as ideias de

Cooley com um “teor” psicológico; Ellsworth Faris e Herbert Blumer, que

promoveram o estudo do self em sociologia, liderando o desenvolvimento do que se

tornou conhecido como “interacionismo simbólico”; e, um pouco mais tarde, o

trabalho de Erving Goffman sobre autoapresentação/autodescrição estimulou outra

via de interesse no self.

Mais ou menos no mesmo período, os neofreudianos, como Alfred Adler,

Karen Horney e Harry S. Sullivan começaram a oferecer perspectivas a respeito do

self que, não apenas diferiam marcadamente das noções de ego de Freud, como

também ligavam o self aos processos interpessoais. Essas ideias envolveram, na

clínica psicológica, perspectivas conhecidas como psicologia do ego, psicologia do

self, e teoria das relações objetais (LEARY; TANGNEY, 2005). Nestas psicologias, o

conceito de self pode significar o de ego como uma estrutura mental, mas também

pode apontar o self como experiência subjetiva individual de si mesmo; sendo

observável nas definições uma preocupação com características universais e

estáveis no tempo (MACEDO; SILVEIRA, 2012).

Guanaes e Japur (2003) afirmam que essas delimitações do self são

essencialmente dualistas em relação à subjetividade e ao psiquismo humano, pois

partem da assunção de uma oposição entre mundo interno e mundo externo.

Esclarecem que tal dualidade se faz notar mesmo quando se defende a relevância

das relações sociais para a constituição do self, uma vez que supõem o self

relacionando-se com algo que lhe é externo, sendo esses relacionamentos uma

ponte entre dois pólos que se distinguem: mundo interno (self) e mundo externo.

Apesar de emergir como um legítimo e promissor conceito, conforme

Mischel e Morf (2005, p. 17) o self foi banido do que se definiam como fronteiras

científicas em função de intenso e longo período de domínio do behaviorismo

americano, de 1930 até 1960, que persuadiu muitos pesquisadores “a evitar fazer

menção a entidades internas invisíveis, como o self.”

39

(LEARY; TANGNEY, 2005, p.

4, tradução nossa).

Nos anos 50, dentro da psicologia clínica, o interesse no self ressurgiu como

um movimento de protesto dos humanistas contra os desígnios do behaviorismo

americano, bem como contra a teoria psicanalítica vinda da Europa. Essa

insurreição tem em Abraham Maslow (1908-1970) e Carl Rogers (1902-1987) seus

principais protagonistas.

Para Maslow, de acordo com Fadiman e Frager (1979, p. 276), o self é a

própria essência interna da pessoa, e compreender a sua natureza íntima e agir em

conformidade a ela é primordial para atualizar o self. Ele abordou a compreensão do

self mediante a pesquisa de pessoas que estão em harmonia com a sua própria

natureza, sendo legítimos exemplos de autoexpressão ou autoatualização: “As

pessoas que lograram sua individuação, aquelas que atingiram um alto nível de

maturação, saúde e realização pessoal, têm tanto a ensinar-nos que, por vezes,

parecem quase ser uma estirpe ou raça diferente de seres humanos.” (MASLOW,

1906-, p. 100).

Já para Rogers, o self não é algo estável, que não se modifica, mas se

observado em determinado momento, “parece ser estável. Isto se dá porque

congelamos uma secção da experiência a fim de observá-la. [...] O self é uma gestalt

organizada e consistente num processo constante de formar-se e reformar-se à

medida que as situações mudam.” (FADIMAN; FRAGER, 1979, p. 226).

O pressuposto básico de Rogers (1951) é que as pessoas se aproveitam de

suas experiências para se (re)definir. As experiências circunscrevem um campo

único para cada indivíduo, é o “campo fenomenal” (ou fenomênico), que integra tudo

o que se passa com o organismo em qualquer momento e está potencialmente à

disposição de sua consciência; embora muitas situações, percepções, não sejam

focalizadas pela sua atenção, e apenas se tornam conscientes quando a experiência

é simbolizada.

Esse conceito de self, segundo Macedo e Silveira (2003), focaliza aspectos

de natureza única e específica, em consonância com a busca de padrões de

estabilidade no tempo; mas também salienta a “qualidade do self enquanto produto

social, que se desenvolve nas relações interpessoais. Assim, são consideradas duas

vias para o desenvolvimento do self: o sentido interior-exterior e o sentido

exterior-interior” (p. 284).

Leary e Tangney (2005, p. 5) afirmam que apesar de prover com muitas

novas ideias, ao longo da primeira metade do séc. XX, os esforços dos

neo-freudianos, dos interacionistas simbólicos e dos humanistas trouxeram pouca

pesquisa empírica sistemática acerca do self.

Foi a partir da segunda metade do século XX que o self ganhou uma nova e

extraordinária notoriedade. Os autores supracitados esclarecem que três

desenvolvimentos convergiram no sentido de aumentar a atenção dada ao self pelos

psicólogos científicos e sociólogos nesse período: 1) no contexto dos estudos sobre

autoestima, de 1950 a 1960; 2) com a publicação dos atributos disposicionais, de

1960 a 1970; e 3) a partir da revoluçãocognitiva, por volta de 1970 e 1980.

O primeiro desenvolvimento refere-se ao interesse empírico acerca do self

que cresceu no contexto do estudo da autoestima, de 1950 a 1960. Os

pesquisadores, além de demonstrarem a importância da autoestima como um

constructo psicológico, criaram medidas de autoinformação que estimularam

desafios à pesquisa (LEARY; TANGNEY, 2005, p. 5).

O segundo desenvolvimento que intensificou a atenção dada ao self pelos

psicólogos e sociólogos a partir de meados do séc. XX foi a publicação de medidas

de atributos disposicionais relacionados ao self, de 1960 a 1970, que também

proporcionou importante interesse em tópicos tais como: medidas de

automonitoramento, autoconceito e autoconsciência.

E o terceiro desenvolvimento, derivado da revolução cognitiva em psicologia,

ocorrida por volta de 1970, legitimou o estudo de pensamentos e de processos de

controle interno. Mischel e Morf (2005, p. 18) explicam que nesse período os

psicólogos sociais, procurando evitar o problema do homunculus

40

, e influenciados

pela revolução cognitiva, voltaram-se à análise do self como uma estrutura cognitiva

“fria” e de conhecimento imotivado – uma máquina de processamento de

informação, baseada no computador análogo aos existentes em 1970.

No entanto, as pesquisas expandiram-se dramaticamente quando os

pesquisadores do self começaram a olhá-lo de forma a considerar suas funções

enquanto “fazedor”, o que introduziu no self qualidades de agente. Em 1980, o

construto self continuou a crescer e adquiriu status de agência pessoal e de formas

dinâmicas de processamento básico, como: autoavaliação, autoaperfeiçoamento,

autodefesa, autorregulação e autocontrole. Isso enriqueceu a área, mas trouxe o

antigo problema do self como um agente causal, pois esses processos do self não

envolvem apenas representações mentais “frias” ou estruturas de conhecimento

sobre o self, mas implicam também motivação (MISCHEL; MORF, 2005, p. 18).

Portanto, principalmente a partir dos anos 80, o self emergiu como um

vibrante e central tema de investigação, e por volta dos anos 90 o interesse no self

dominou várias áreas da psicologia e da sociologia. Muitas temáticas têm surgido

debaixo da “cobertura” do self e têm se mostrado bem difusas – autoconsciência,

autoestima, autocontrole, identidade, autoexame, autoafirmação, emoções

autoconscientes, etc. – ao ponto de Baumeister (1998) concluir que o self não é um

simples tema como um todo, mas um agregado de subtópicos vagamente

correlacionados.

Atualmente, uma das tarefas mais dispendiosas é definir com clareza e

consistência o que é self, pois além de não encontrarmos uma aceitável definição

universal de self, muitas definições se referem a diferentes fenômenos, e alguns

usos do termo são difíceis de entender. Leary e Tangney (2005, p. 6) propõem cinco

distintas maneiras de os cientistas comumente usarem a palavra “self” e seus

componentes: self como pessoa total; self como personalidade; self como

experiência subjetiva; self como crenças sobre si mesmo (ou crenças de

autorreferência); e self como agente executivo.

40

Segundo Ferreira (1986), o conceito de homúnculo teria sido usado pela primeira vez pelos

alquimistas, por volta do século XVI, para designar uma criatura com aproximadamente trinta

centrimetros de altura, que eles pretendiam fabricar, dotada de poderes sobrenaturais. Em

psicologia, de acordo com Mischel e Morf (2005), homunculus refere-se à ideia da existência de

um “pequeno homem” que residiria dentro da pessoa e faria o papel de agente causal e motivador

do comportamento.

Determinadas noções, como a de automutilação (a pessoa mutila sua

própria pessoa/corpo) ou de automonitoramento (a pessoa monitora a si mesma)

parecem trazer implícitas a compreensão de self como pessoa. Leary e Tangney

(2005, p. 6) opinam que usar o termo “self” como sinônimo de “pessoa” não é

necessário e é potencialmente confuso, e acrescentam que, no atual ponto da

psicologia, não se deve pensar que a pessoa é o self, mas que cada pessoa tem um

self.

O segundo uso do termo self toma-o como sinônimo de personalidade

41

,

como sendo uma totalidade de aspectos da pessoa que a fazem psicologicamente

única. Mas, conforme Leary e Tangney (2005), essa postura também pode produzir

confusão, uma vez que o termo “personalidade” parece ser mais adequado ao se

considerar um conjunto de aspectos que resultam em uma totalidade única e

distinta.

James (1952) introduziu uma importante distinção, adotada por gerações de

teóricos e pesquisadores: o self como sujeito e o self como objeto. O self como

sujeito ou eu é o processo psicológico responsável pela autoconsciência ou

autoconhecimento, o “self-como-conhecedor”, distinguindo-se do “self

-como-conhecido”, como objeto de conhecimento. Assim, muitos autores usam o termo self

para se referir a uma entidade psicológica interna que é o centro ou o sujeito da

experiência da pessoa, a terceira forma de utilização do termo self.

Nessa perspectiva, distinguem-se dois componentes do self, o mim e o eu,

sendo que um faz referência ao nível do indivíduo e o outro ao nível social. O mim é

constituído por todos aqueles aspectos sobre si mesmo que a pessoa aprendeu com

os outros; e o eu corresponde ao “foro íntimo”, ao diálogo que se estabelece

intimamente, permanentemente presente dentro do indivíduo (MACEDO; SILVEIRA,

2012).

O quarto significado para self também surge das distinções de James, ao

contrastar o “self-como-conhecedor” (o Eu-self) e o “self-como-conhecido” (o Mim

-self), sugerindo que vários significados para self referem-se a percepções,

41

Mischel e Morf (2005, p. 21) alertam que a associação do conceito de self com o de personalidade

tem de ser considerada levando-se em conta a existência de duas tradições em psicologia da

personalidade: uma que a considera como “traços”, ou seja, como traços básicos que determinam

as diferenças individuais; e outra na qual a personalidade é concebida como um sistema de

processamentodinâmico. A personalidade é pensada como um sistema de estruturas e processos

mediadores, conscientes e inconscientes. Nesta tradição o foco está em compreender como esses

processos de mediação podem explicar o como e o porquê de as pessoas pensarem e sentirem

da forma que o fazem, e nas interações com o mundo social através do seu ciclo vital.

pensamentos e sentimentos sobre si mesmo. Leary e Tangney (2005, p. 7) afirmam

que é importante fazer a distinção entre o self da pessoa em si e o conhecimento ou

crenças da pessoa a respeito dela própria – as crenças autorreferenciadas (LOOS;

CASSEMIRO, 2010).

O quinto uso do termo self o coloca como um “tomador de decisões” ou um

“fazedor”, como um agente do tipo “fantasma na máquina” que regula o

comportamento das pessoas. Ao falarmos de processos envolvendo “autocontrole” e

“autorregulação” estamos nos referindo a esta característica executiva, de agente

(agência), do self (LEARY; TANGNEY, 2005, p. 7).

De acordo com Macedo e Silveira (2012), mais contemporaneamente ainda

existe o uso do termo self no construcionismo social

42

, no construtivismo e nos

desenvolvimentos que se desdobraram dessas duas posições. No construcionismo,

o self não é mais uma estrutura cognitiva privada e pessoal do indivíduo. Para

Gergen (1935-...), um dos fundadores do construcionismo social, o self é relacional,

é um discurso construído com base nas linguagens disponíveis no âmbito público;

identifica-se o foco no que é compartilhado e não no que é específico (único do self).

Ao desenvolvermos uma “self-narrativa”, realizamos conexões coerentes entre os

fatos da vida, e o conceito de identidade é compreendido como o resultado natural

dessa história de vida. Essa proposta do self como discurso tem sido alvo de muitas

críticas, por sugerir a ideia de um self esvaziado, sem conteúdo, sem espaço para a

experiência individual (GUANAES; JAPUR, 2003).

Macedo e Silveira (2012) salientam que, atualmente, convivemos com

diversas definições de self, que foram emergindo em momentos históricos diferentes

e que coexistem. Destacam a necessidade de analisamos as diferentes teorias que

abordam o self de modo a identificar como resolvem questões relacionadas à

psicologia do desenvolvimento: à continuidade ou à mudança; à

unicidade/especificidade ou à generalidade/ universalidade, e sobre a direção para a