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PARTE III – O SISTEMA TEÓRICO DA AFETIVIDADE AMPLIADA E A

1.1 O QUE NOS FAZ HUMANOS, NOSSO DESENVOLVIMENTO E

APRENDIZAGEM, SEGUNDO O STAA

De acordo com Devlin (2010), o que nos faz humanos é a capacidade e

habilidade de desenvolvermos o processo psíquico da abstração, que é uma função

psíquica por excelência, intimamente relacionada com o pensamento e com a

linguagem. A abstração significa a possibilidade de realizarmos um tipo de

pensamento superior, mais avançado, haja vista que os animais também possuem

processos elementares de pensamento (VYGOTSKI, 2000, 2001). E o

desenvolvimento dessa forma de pensamento mais avançada, no homem, apenas

se tornou possível a partir do desenvolvimento da linguagem, o que torna

pensamento e linguagem funções psíquicas inter-relacionadas, interdependentes e

inseparáveis, segundo os pressupostos vygotskyanos, também compartilhados por

Devlin. Este defende que a espécie humana, em seu processo de evolução, atingiu

uma qualidade de abstração superior, tornando-lhe capaz de acessar os níveis da

linguagem simbólica e do pensamento matemático (para ele, níveis 3 e 4,

respectivamente), formas superiores de abstração.

A Afetividade Ampliada (SANT’ANA-LOOS, LOOS-SANT’ANA, 2013d)

afirma ser possível avançar no entendimento desse atributo – a abstração – que

promove a identidade humana. Nesse sentido, propõe que destaquemos as

diferenças entre a “boa” e a “má” gestão na utilização da abstração (do pensamento

e da linguagem). Se dirigida de maneira “atrapalhada”, a abstração pode fazer “ver”

a realidade de modo demasiadamente desconectado, divergente e corrompido

(como por exemplo, o caso de pessoas altamente intelectualizadas que acabam

“rompendo” com a realidade, desconectando-se, “enlouquecendo”). Se, por outro

lado, devidamente conduzida rumo à integralização dos fenômenos, a abstração

pode descortinar ou (re)inventar uma realidade melhor conectada, o que seria ótimo

para o viver humano (LOOS-SANT’ANA; LOOS, 2014;

SANT’ANA-LOOS, LOOS-SANT’ANA, 2013d). Assim, a Afetividade Ampliada distingue um nível

adicional de abstração (nível 5), além dos quatro que se assentam, respectivamente,

sobre as bases das relações estímulo-resposta (nível 1), das relações causa-efeito

(nível 2), da linguagem simbólica (nível 3) e do pensamento matemático (nível 4),

propostos por Devlin (2010): a meta-abstração. Para o STAA, os níveis de abstração

devem convergir em uma realidade dinamicamente integralizada e totalizante

(monista); o que só se consegue, efetivamente, por meio da meta-abstração.

Dessa forma, a Afetividade Ampliada (LOOS-SANT’ANA; SANT’ANA-LOOS,

2014; SANT’ANA-LOOS, LOOS-SANT’ANA, 2013d) propõe uma categorização da

abstração em cinco níveis: 1. Estímulo-Resposta; 2. Causa-Efeito; 3. Linguagem

(simbólica – alicerce do pensamento); 4. Pensamento ‘Distanciado’; e 5.

Meta-Abstração. Cada nível corresponde, por assim dizer, a cada uma das dimensões

apresentadas anteriormente, respectivamente: 1. Alteridade; 2. Identidade; 3.

Translação Comunicativa (equilíbrio entrópico – homeostase); 4. Self; e 5.

Resiliência Ampliada.

Tal proposição tem a finalidade de deixar claro o desenvolvimento da

abstração e suas possibilidades de ação, principalmente em face da grande

mobilidade entre os seus diversos estados, níveis ou dimensões. Essa mobilidade

entre os níveis é incentivada pela entropia, pois esta energia engendra

possibilidades de transição dentro dos níveis de abstração (trânsito entre níveis,

“interníveis”), permitindo-nos olhar a realidade de forma mais dinâmica. A entropia,

na verdade, tem o papel de ser a fomentadora das forças (interações) que interferem

no universo. Isso porque tais interações (forças), por sua vez, buscam certo

equilíbrio, na medida em que requerem princípios de organização. Dessa maneira,

ao mesmo tempo em que a entropia faz aumentar o caos e a desorganização

nos/entre os sistemas, ela também é a fonte de organização dos mesmos – uma vez

que os força a se ordenarem. Esse é o mesmo raciocínio pelo qual o STAA defende

o entendimento da alteridade como caminho para a resolução de conflitos, conforme

explicitado anteriormente.

Portanto, no sentido epistemológico, a Afetividade Ampliada concebe o

desenvolvimento como o “processo de transformação dos processos biológicos e

psicológicos ao longo do ciclo vital” (LUNA; LOOS-SANT’ANA; SANT’ANA-LOOS;

SILVA, 2013, s/p) – pontuando-se, marcadamente, o que se pode conceber como

sendo o desenvolvimento integral do ser humano. A partir da premissa de que o que

nos diferencia enquanto humanos é, essencialmente, a abstração, gerenciada pelo

pensamento e dinamicamente relacionada com a linguagem, é possível deliberar

que o ser humano é, funcionalmente, um “ser de linguagem”. Desse modo, todo o

seu desenvolvimento deve ser baseado em fazê-lo evoluir até que alcance o que

seria desejável de tal atributo: a Linguagem Plena.

Entre o pensamento, que estabelece relações e conclui ideias, e a

linguagem, que as organiza e as expressa/as comunica, está a palavra e a fala. A

linguagem, para a Afetividade Ampliada (SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA,

2013c) é a estrutura geral que possibilita, justamente porque implica dualidade (e

não dualismo) a síntese de ideias, o conhecimento:

[...] a linguagem é uma estrutura dinâmica realizável dualmente, isto é, por

duas perspectivas, inicialmente separadas, mas que almejam algum tipo de

acordo ou convenção. “Só isso”, apenas parte de um processo maior, que é

a prática existencial de nossa espécie. Neste sentido, a linguagem, quando

praticada, decompõe-se em conversa, em diálogo e, por excelência, na

dialética. (SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA, 2013c, s/p).

Por outro lado, a palavra e, consequentemente, a fala, precisam assumir um

“termo”, uma “acepção”, um “viés”, pois demandam uma fonte de expressão quando

são utilizadas. Portanto, configuram “um estado de consciência contextual ou

contingente, logo particular, que localiza uma versão, uma leitura, da verdade”

(SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA, 2013c, s/p). As palavras são, assim,

cristalizações, normatizações, expressões de um “enviesamento” característico do

contexto da pessoa que as articulou.

No pensamento, as ideias seriam uma espécie de película ou de membrana

(que representam um “recorte” de realidade, uma gestalt, uma configuração), a qual

permanece às margens de algo maior, insustentável no seu todo pelas palavras.

Isso porque as ideias só funcionam em meio a relações abstratas, no nível do

pensamento, decorrentes das interações (que buscam se equilibrar,

homeostaticamente) com outras ideias. Em consequência, necessitamos encontrar

uma ligação, uma ponte, entre essas dimensões que constituem as coisas: as ideias

que as concebem e as palavras que lhes servem de referência. Essa ponte pode ser

um sistema que se revele um sintetizador, um integrador, que faça emergir acordos

e “confiança mútua, a verdadeira linguagem: que ora se preocupa com a teoria

(sintaxe) ora com a prática (semântica); que ora dá voz a um interlocutor (tese) ora a

outro (antítese).” (SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA, 2013c, s/p).

A verdadeira linguagem, a linguagem plena, habilita o ser humano a

propiciar uma “medida” aceitável de “interação em ordem” (SANT’ANA-LOOS, 2013)

e, consequentemente, maior nível de controle da entropia.

Em outras palavras, isso significa que a função existencial (o Verdadeiro

Eu) perante o tecido humano (social) de cada um de nós é a de estar atento

à realidade e procurar reter as melhores informações para controlar o caos

[...], de maneira a equilibrar a entropia positiva que produzimos dentro do

sistema humano de vida: nas células psíquicas (individuais) e nos tecidos

(sociais). (LOOS-SANT’ANA; SANT’ANA-LOOS, 2014, p. 200).

Assim, os indivíduos buscam confirmar suas teorias, acreditando, cada qual,

que detém o resultado da investigação que faz da realidade como uma forma de

encontrar a direção certa para existir; passando a funcionar como um atrator. Então,

a linguagem torna-se um “jogo” interacional dual entre atratores que se “estranham”

e que procuram, por meio da alteridade, sintetizar o que se pode chamar de “atrator

estranho ideal”: a síntese do jogo dialético. Tal dialética, na Afetividade Ampliada, é

denominada “dialética do afetar e ser afetado” ou “dialética da afetividade ampliada

(SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA, 2013d).

Com essa exposição compreende-se que o parâmetro de desenvolvimento

integral do ser humano não deve se pautar apenas nos conhecimentos de mundo ou

“conteúdos” escolares, científicos por excelência. Deve se basear também na

aquisição da habilidade de dialogar nesta perspectiva dialética (“jogo” dual das

interações): da linguagem plena.

A partir de um esforço de integralização, o STAA propõe um esquema

unificado – porém dinâmico – de conceitos, os quais descrevem e realizam

distinções entre aspectos que, de modo inter-relacionado, fazem ajustes e

modelam/modulam/regulam o desenvolvimento humano ao longo da vida. Dessa

maneira, deve-se compreender que todas as dimensões se interconectam e se

integralizam, também em um entrecruzamento de “afetamentos” mútuos,

constituindo “correias-díades”, quando se busca olhar de modo funcional. Algumas

dessas relações já foram abordadas (self-identidade, self-resiliência,

resiliência-homeostase), à medida em que descrevemos o funcionamento da célula psíquica.

Como resultado do funcionamento das correias-díades, temos o Circuito Psíquico

(SANT’ANA-LOOS; LOOS-SANT’ANA, no prelo), um modo de funcionamento

interativo e integrado das diversas dimensões da célula psíquica, em que várias

correias-díades operam simultaneamente: self-alteridade, self-homeostase;

identidade-alteridade; identidade-resiliência; identidade-homeostase;

resiliência-alteridade; alteridade-homeostase, e assim por diante, nas várias combinações que

são demandadas pela análise da situação em questão. Esses entrecruzamentos

entre as dimensões dirigem o processo de desenvolvimento de cada indivíduo, de

cada célula psíquica, em interação com as outras que compõem o tecido social.

Como resultado, são criadas histórias únicas, que não se repetem; mas que, ao

mesmo tempo, são compartilhadas entre as unidades que vão gradativamente

compondo o sistema social e constituindo uma história maior, um desenvolvimento

coletivo com identidade própria, uma identidade humana e universal.

O desenvolvimento é propulsionado pelas mais variadas aprendizagens

realizadas mediante movimentos, ações e interações que o indivíduo vai

“acertando”, “acomodando”, junto ao outro, ao mundo, em rumo à superação dos

estados entrópicos, caóticos, adversos da realidade, em busca da homeostase. A

aprendizagem está, assim, identificada com o “processo de apropriação de

conhecimentos e habilidades” (LUNA; LOOS-SANT’ANA; SANT’ANA-LOOS; SILVA,

2013, s/p) e, nesse sentido, poderíamos identificar a aprendizagem com a resiliência

ampliada, isto é, com capacidade/habilidade de

[...] sair dos conceitos e teorias (ou situações) cristalizados para ir às suas

origens, motivações e devires e encontrar “soluções” que os atualizem (ou

os autoatualizem) ou mesmo que os façam renascer em outra forma,

sintáxica, o que significará passar para um novo rol de conceitos e teorias

ou uma nova realidade, literalmente (SANT’ANA-LOOS, LOOS-SANT’ANA,

2013c, s/p).

Trata-se de uma aprendizagem “resilientemente” ampliada, que busca novos

estados, melhor configurados do que os anteriores, mais ricos e sofisticados, mais

abertos e ampliados, que contribuam efetivamente para novas configurações do self

e desenhos melhor definidos de identidade, por meio de interações alteras, rumo à

homeostase. Portanto, a Afetividade Ampliada defende uma Educação que deveria

[...] ser um condutor aos fatores de apoio, proteção e instrumentalização

que proporcionariam a manifestação da resiliência em um nível comum a

todos os que dela participam. Neste caso, em si mesma, a educação

deveria ser um fator de proteção. Enfim, um complemento às nossas

incapacidades inatas que faria emergir uma capacidade “superior” de

resiliência autoatualizante, equilibradora do conhecimento sincrônico à

realidade, ou seja, de autoinstrumentalização para a homeostase

(interacional); que, por sua vez, tornar-se-ia um renovado fator de proteção,

e assim por diante. (SANT’ANA-LOOS, LOOS-SANT’ANA, 2013c, s/p).

Concluindo, provisoriamente, é possível observamos como o STAA,

afirmando-se como uma meta-teoria, é extremamente rico no sentido de nos

subsidiar na elaboração de uma visão mais ampliada, dialógica, fluida, dinâmica da

realidade, dos fenômenos psíquicos – incluindo o desenvolvimento e a

aprendizagem humanos. A seguir, a título de síntese, apesar de já termos

desenhado alguns esboços ao longo da exposição que fizemos, destacaremos das

“imagens” meta-teóricas do STAA o que se pode compreender especificamente

como autorregulação.