Até este ponto, viu-se o que os discursos jurídicos podem conter em seus conteúdos ideológicos, assim como podem revelar a interferência de interesses. Viu-se também que na operação do direito a influência de subjetividades pode determinar os resultados dos
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processos judiciais, mesmo considerando as amarras advindas dos processos formais. Além de expor a medida em que é possível identificar conteúdos ideológicos nos discursos produzidos no âmbito do Poder Judiciário, também interessa a esta pesquisa aprofundar os conteúdos vinculados ao conceito de cidadania, principalmente no tocante aos temas dos direitos sociais e à igualdade.
Na literatura sobre o conceito de cidadania, é comum diferenciar as suas dimensões política, civil e social não apenas em termos de conteúdo, mas ainda em termos de “gerações”, dando a entender que o reconhecimento dessas dimensões se deu de modo gradativo. Em que pese essa forma de diferenciação dos direitos de cidadania fazer sentido para determinados contextos, não é válido considerar esta sequência independentemente do contexto. Conforme afirmam Dimoulis e Martins
o termo geração não é cronologicamente exato. Sem se aprofundar nos aspectos históricos, pode-se indicar que já havia direitos sociais (prestações do Estado) garantidos nas primeiras Constituições e Declarações do século XVIII e de inícios do século XIX (Dimoulis & Martins, 2007: 35).
Entretanto, não há dúvidas de que a motivação para a dinâmica de ampliação dos direitos de cidadania, no sentido de maior consideração dos direitos sociais, relaciona-se com o fato de que “a história dos últimos cem anos tem demonstrado (...) que o gozo dos direitos individuais é ilusório (...) dentro de sociedades altamente estratificadas” (Stavenhagen, 2006: 221). Sob esta perspectiva, somente a partir do momento em que contextos sociais concretos de desigualdade grupal passaram a ser considerados, abriu-se a discussão a respeito dos direitos coletivos como fundamentais para assegurar o gozo pleno dos direitos de caráter individual.
O processo de ampliação do conceito de cidadania, devido aos desafios impostos pela realidade ao modelo liberal clássico, fez surgir o Welfare State na Europa Ocidental e na América do Norte. Ao possibilitar maior acesso da população às prestações do Estado, “os direitos civis e políticos teriam ganhado em realidade com a conquista dos direitos sociais” (Neves, 2007: 120).
Tal realismo político surge principalmente do conflito das ideias de liberdade e participação política com a ideia de um sistema de estratificação fundado em classes sociais. Assim, as dimensões civil e política da ideia de cidadania passaram a se chocar “com o sistema de desigualdade inerente ao capitalismo e às suas classes sociais” (Neves,
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2007: 121), gerando uma tensão permanente entre estes dois princípios de organização da vida social.
Nessa perspectiva, a redução de desigualdades sociais vem para o cerne da noção de ampliação da cidadania, mormente pelo fortalecimento do valor moral da igualdade e da solidariedade, que passaram a figurar juntamente com o princípio da liberdade, já concretizado no contexto europeu há mais tempo83
. Segundo sintetiza Domingues:
em comparação com a definição precisa e concisa dos direitos civis e políticos, a dos direitos sociais é patentemente fluida e dispersa, mobilizando elementos cuja articulação não é clara de imediato. Ainda mais importante é o grau em que eles possuem caráter universal e devem ser além do mais atribuídos a coletividades ou a indivíduos (Domingues, 2002: 105).
Atribuindo uma dimensão de disputa por hegemonia política das faces liberal e social do conceito de cidadania, a partir da teoria desenvolvida por Marshall, passa a ser possível asseverar que o reconhecimento jurídico dos direitos coletivos “representou um duro golpe para o conceito individualista de direitos civis e para a ideia de que somente os indivíduos seriam filosófica e legalmente capazes de firmar contratos” (Domingues, 2002: 104-105). O surgimento da ideia de solidariedade adveio da necessidade de correção para “os inconvenientes da pluralidade dos credores (solidariedade ativa) ou de devedores (solidariedade passiva) de uma mesma obrigação” (Supiot, 2007: 261).
A função deste princípio serviu para desvincular devedores e credores de consentimentos diretos a familiares ou membros de comunidades, entendidas em sentido restrito. Isso ocorreu porque se tratava de ideia que “permitia pensar uma relação de obrigação coletiva” (Supiot, 2007: 261), e que designa “a instituição de fundo comum no qual cada um deve depositar segundo suas capacidades e pode retirar conforme as suas necessidades” (Supiot, 2007: 262).
Também calcado em. H. Marshall, Domingues constroi outra nomenclatura para a distinção dos termos do conceito de cidadania (cidadania como a garantia dos direitos civis e políticos, e como garantia dos direitos sociais). Ao referir-se às dimensões “quantitativa”
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Há quem discuta o caráter evolutivo atribuído aos três direitos que conformam o conceito de cidadania, sendo a ordem estabelecida por Marshall: direitos civis, políticos e sociais. Conforme Domingues, a despeito dessas críticas “autores que são críticos dessa forma de entender os desenvolvimentos históricos apenas parcialmente contradigam a lógica do texto de Marshall quando focalizam sociedades nas quais a sucessão dos direitos de cidadania foi diferente da que ocorreu na Grã-Bretanha ou na Europa de modo geral” (Domingues, 2002: 105).
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e “qualitativa” daquele conceito, Domingues enfatiza, no primeiro caso, a liberdade e o provimento dos direitos universais e daqueles de caráter eminentemente individual. A segunda dimensão atribui ênfase à igualdade, aos direitos coletivos, e atrela as prestações do Estado a testes acerca dos meios disponíveis para os indivíduos alcançarem determinados fins. Ao ponderar tais meios, supre desigualmente necessidades que ao longo da história foram injustamente supridas pelo Estado ou pela sociedade, e que, por isso, reproduziam padrões de desigualdade.
É oportuno lembrar que a função destas distinções é meramente tipológica. Além disso, não há que se falar em maior ou menor adequação política ou moral dessas dimensões. Isso porque tanto a dimensão quantitativa quanto a qualitativa podem gerar prejuízos aos direitos de cidadania, se “postas no centro das políticas de bem-estar social” (Domingues, 2002: 106). A centralidade atribuída, por exemplo, à dimensão qualitativa da cidadania poderá gerar prejuízos, já que é possível, em casos extremos, que ela se torne “um meio de preservar desigualdades amplas (...) como acontece nos casos dos regimes liberais” (Domingues, 2002: 106).
O ponto crucial deste modelo parece residir no caráter utópico do equilíbrio entre as perspectivas qualitativas e quantitativas da cidadania, já que todo o conteúdo do conceito de cidadania, não obstante as “tensões e admoestações” (Domingues, 2002: 108) em prol da concretização da sua vertente qualitativa, foi erigido sob uma visão de mundo individualista. Na visão de Domingues, não há equilíbrio possível que sustente a prevalência ora da igualdade, ora da liberdade, e que oriente esses valores sem prejuízos ora para indivíduos, ora para coletividades. Tanto é verdade, que é na falta de concretude deste “equilíbrio” que reside a principal fonte de críticas às teorias da cidadania elaboradas por Marshall.
Ainda que sujeita a críticas, da teoria de Marshall é possível absorver que os direitos coletivos podem ser entendidos “no sentido de garantirem resultados generalizados por meios desigualmente distribuídos” (Domingues, 2002: 109), o que é, também, o princípio utilizado para pautar os direitos às ações afirmativas. Além disso, a vinculação dos direitos de igualdade como uma dimensão fundamental do que se entende por cidadania contribuiu para que este conceito progressivamente gozasse de maior prestígio político.
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