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2. PRINCIPIO DA IGUALDADE

2.1 IGUALDADE FORMAL

As revoluções liberais do século XVIII, inspiradas pelos ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade defendidos por filósofos a exemplo de John Locke, Montesquieu e Rousseau, contaram ainda com o forte apoio da burguesia que paralelamente expandia sua importância econômica, pondo fim ao modelo absolutista marcado pela concentração de riquezas, privilégios, arbítrios e abuso de poder por parte da nobreza, alto clero e realeza.

O constitucionalismo advindo das revoluções liberais, que resguardava o princípio da legalidade como importante veículo para garantia de segurança jurídica e estabilidade para

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o mercado94, exigia leis gerais, abstratas e neutras, contendo a atuação estatal, não mais ilimitado e, na mesma medida, evitando desequiparações e indevidas concessões de privilégios aos membros da sociedade.

Seguindo as balizas estruturadas pelas declarações de Virgínia de 1776 e a Francesa de 1789, no bojo das quais se postulava que todos os homens são pela sua natureza iguais e possuem direitos inatos, nascem livres e iguais em direitos, caberia a cada um deles alcançar seus objetivos com base nos seus esforços e méritos pessoais.

Estruturado sob esses moldes, o princípio da isonomia pretendia romper com as práticas do antigo regime segundo as quais os indivíduos eram tratados com base no estamento que ocupavam na sociedade, o que ensejava inúmeros privilégios sob as vestes de riquezas, terras e domínios a realeza, nobreza e clero.

Logo, a igualdade estimulada pelas revoluções liberais e resguardada pelas constituições oitocentistas restringiu-se a uma igualdade perante a lei, necessária e suficiente para que a burguesia expandisse os seus projetos econômicos, não mais estando aquém da nobreza, alto clero e realeza.

Ciente de que o Estado não deveria intervir nas relações privadas em atenção aos postulados da liberdade e da igualdade, vedando àquele a concessão de privilégios ou discriminações, o doutrinador português Jorge Miranda95 ressalta que o sentido primário concebido ao princípio da isonomia no século XVIII pelas revoluções burguesas foi negativo.

Entretanto, adotar apenas a igualdade formal aliada às práticas econômicas liberais proporcionou à sociedade consequências conflitantes daquelas esperadas pelo laissez- faire.

94Segundo José Joaquim Gomes Canotilho: “A economia capitalista necessita de segurança jurídica e a

segurança jurídica não estava garantida no Estado Absoluto, dadas as frequentes intervenções do príncipe na esfera jurídico patrimonial dos súbditos e o direito discricionário do mesmo príncipe quanto à alteração e revogação das leis. Ora, toda a construção constitucional liberal tem em vista a certeza do direito”. CANOTILHO, José Gomes - Direito constitucional. 6.ª ed. Coimbra: Almedina, 1993. p. 254. Igual é o entendimento de Cláudia Maria da Costa Gonçalves: “ Tenha-se em conta, todavia, que no ambiente liberal burguês, o Estado, já realinhado de acordo com as aspirações laissez-faireanas, exerceu papel fundamental no que tange à segurança das relações econômicas, isto porque, positivando os direitos naturais, vincou, por via reflexa, os espaços e os próprios limites de sua atuação”. GONÇALVES, Claudia Maria da Costa – Direitos fundamentais e sociais: releitura de uma constituição dirigente. 4ª ed. Curitiba: Juruá, 2015. p. 51.

95“O sentido primário do princípio é negativo: consiste na vedação de privilégios e de discriminações. Ninguem

pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever”, LINHARES, Emanuel Andrade – Democracia e direitos fundamentais: uma homenagem aos 90 anos do professor Paulo Bonavides. 1.ª ed. São Paulo: Atlas, 2016. p. 430.

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Ao privilegiarem os valores do individualismo, absenteísmo estatal e valorização da propriedade privada, as práticas liberais não proporcionaram prosperidade, mas sim uma elevada concentração de renda em favor da burguesia e pobreza, marginalização e exclusão social ao proletariado, classe representativa de expressiva parcela da sociedade96.

A doutrinadora Claudia Maria da Costa Gonçalves97 expõe que as tensões entre capital e trabalho, por meio das quais foi reservado aos trabalhadores um tratamento indigno – ausência de limitação de jornadas, entre tantos outros temas correlatos – ao passo que a burguesia concentrava as benesses desta relação – capital, prestígio e maiores condições para exercer os direitos – fragilizaram a noção de liberdade privada pregada pelo liberalismo. A despeito de prevista normativamente e incentivada pelo discurso liberal, a liberdade, na realidade fática, não era exercida por todos.

Aliado à descrença e ao ideal de liberdade defendido pelas revoluções burguesas, expôs-se a discrepância entre a igualdade defendida até então, e as efetivas oportunidades e condições de vida que eram disponibilizadas às inúmeras parcelas vulneráveis e marginalizadas da sociedade, a exemplo dos trabalhadores desempregados, mulheres, crianças, idosos, deficientes físicos98, entre tantos outros.

96Fabio Konder Comparato ao tratar da evolução dos direitos humanos bem expõe as consequências do

liberalismo aos trabalhadores: “A sociedade liberal ofereceu-lhe, em troca, a segurança da legalidade, com a garantia da igualdade de todos perante a lei. Mas essa isonomia cedo revelou-se uma pomposa inutilidade para a legião crescente de trabalhadores, compelidos a se empregarem nas empresas capitalistas. Patrões e operários eram considerados, pela majestade da lei, como contratantes perfeitamente iguais em direitos, com inteira liberdade para estipular o salário e as demais condições de trabalho. Fora da relação de emprego assalariado, a lei assegurava imparcialmente a todos ricos e pobres, jovens e anciãos, homens e mulheres, a possibilidade jurídica de prover livremente à sua subsistência e enfrentar as adversidades da vida, mediante um comportamento disciplinado e o hábito da poupança. O resultado dessa atomização social, como não poderia deixar de ser, foi a brutal pauperização das massas proletárias, já na primeira metade do século XIX. ” COMPARATO, Fábio Konder - A afirmação histórica dos direitos humanos. p. 34. 3.ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003.

97“Jornadas de trabalho estressantes, inexistência de proteção a trabalhos penosos, insalubres e perigosos,

ausência de segurança jurídica no trabalho etc. terminam por tornar evidente que a trilogia da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – ia, cada vez mais, elitizando-se, gerando uma sensação de despertencimento para os trabalhadores e, em especial, para os que estavam à margem do ciclo produtivo do capitalismo”. GONÇALVES, Claudia Maria da Costa – Direitos fundamentais e sociais: releitura de uma constituição dirigente. 4ª ed. Curitiba: Juruá, 2015. p. 55.

98Segundo as lições de Claudia Maria da Costa Gonçalves o Estado, ainda influenciado pelas medidas de cunho

liberal, limitava-se a fornecer à população, apenas, medidas paliativas de assistência, que mais se assemelhavam a caridades. Ainda não dispunha o Estado do efetivo dever de tutelar as parcelas vulneráveis. Nas palavras da doutrinadora: “A extrema impossibilidade de inclusão social pela via do mercado logo ficou evidenciada, e a concepção de fraternidade como produto do movimento natural e livre do mercado foi sendo substituída pela mesma ideia medieval de caridade. Desse modo, frisava-se o binômio: direitos para quem pode; caridade para quem precisa”. GONÇALVES, Claudia Maria da Costa – Direitos fundamentais e sociais: releitura de uma constituição dirigente. 4ª ed. Curitiba: Juruá, 2015. p. 59. Da mesma forma traz-se à colação o entendimento

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Desta forma, chegou-se à conclusão de que a aplicação da igualdade, apenas, sob uma ótica formal, que analisa os indivíduos de forma abstrata e desconsidera a realidade histórica e social marcada por uma forte exclusão social já não era suficiente, uma vez que a igualdade jurídica não poderia ser concebida como um fim em si mesma99. Toda essa tensão social conferiu ao princípio da isonomia uma nova camada voltada para a correção das distorções fáticas.