5.3 CONFRONTANDO INDICADORES DA LITERATURA E DO CAMPO
5.3.11 II de Throughput
Os Indicadores de Throughput permitem avaliar o que ocorre entre o início e o fim da atividade inovadora, mensurando processos intermediários da inovação que as métricas de inputs e outputs não conseguem aferir (GUTEMBERG, 2016; JANGER et al., 2017; TAQUES et al., 2020).
Esses indicadores se caracterizam pela subjetividade e intangibilidade na mensuração de aspectos como criatividade, motivação para a inovação, clima e cultura organizacional, entre outros atributos intangíveis (EMRICH, 2012; DE PAULA et al., 2015).
Nesta classe, foram codificados ao total 346 indicadores entre as fontes de pesquisa, em que 31% correspondem a II procedentes da literatura e 69% do campo.
Após realizar o agrupamento desses indicadores em acordo com sua proximidade, obteve-se 27 indicadores genéricos de throughput, conforme aponta a FIGURA 30.
FIGURA 30 - FREQUÊNCIA DE II DE THROUGHPUT
Fonte: Elaborado pelo Autor (2021)
Nesse grupo, observou-se a incidência de mais que o dobro de indicadores de inovação de throughput nos editais e entrevistas comparado aos da literatura, indicando que os processos de seleção de Startups utilizam amplamente esse tipo de métrica.
Ressalta-se também que o número de II genéricos originados nesta categoria representam a segunda maior quantidade de indicadores genéricos desse estudo, demonstrando uma amplitude de aspectos subjetivos que são analisados nas seleções. O QUADRO 31 detalha os 27 indicadores genéricos.
QUADRO 31 - INDICADORES GENÉRICOS DE THROUGHPUT
# INDICADOR II DA
LITERATURA IdeaçãoII DO CAMPO Validação Escala TOTAL
1 Ações/clareza da gerência para inovação 11 ✔ ✔ ✔ 11
2 Gestão de processos internos 8 ✔ ✔ ✔ 8
3 Atividade de inovação 7 ✔ ✔ ✔ 7
4 Clima e cultura organizacional 5 ✔ ✔ ✔ 5
5 Tempo entre gerações da inovação 5 ✔ ✔ ✔ 5
6 Custo/benefício da solução 1 ❌ ✔ ✔ 1
7 Significância tecnológica 1 ✔ ✔ ✔ 1
8 Restrições de comunicação, interação com ambiente, distância entre equipe (inverso de
confiança) 4 ✔ ✔ ✔ 4
9 Encorajamento para inovação, aspectos de motivação/ 11 1 14 17 43 10 Nível de experiência da equipe, produtividade,
experiência, maturidade do time, trajetória,
histórico, essência 7 3 10 12 32
11 Capacidades, habilidades, aptidões, competências da equipe 12 3 9 3 27 12 Qualidade do negócio, da solução, da equipe, dos processos 14 0 4 5 23 13 Benefício Socioambiental, impacto da empresa/solução 2 6 9 3 20
14
Funcionários cientes, compartilhando as políticas e valores de inovação, responsabilidade,
feedbacks, expectativa, adequação, sinergia do time, da solução 20 Complementariedade, diversidade da equipe,
senso de colaboração, trabalho em equipe,
networking - 2 7 5 14
o indicador mais frequente (9) representa sozinho, 12% de todos os critérios identificados desta classe. Tal II afere uma série de traços motivacionais intangíveis do empreendedor, entre eles: confiança, compromisso, empolgação, garra, ambição, engajamento, incentivo, paixão, se acredita no negócio e dedicação.
Nesse indicador específico também foram atribuídas particularidades de cunho subjetivo como “fazer a diferença”, “empreendedor excepcional”, “ter sangue nos olhos”, “sair da zona de conforto”, “correr atrás” e “vontade de fazer acontecer”.
Esses critérios mais abstratos foram identificados sobretudo nas entrevistas, em que é possível compreender com maior profundidade a intenção de indicadores abrangentes presentes nos editais, como por exemplo “perfil do empreendedor”
(indicador 17) que representa um dos critérios mais frequente nos editais.
Durante as entrevistas, evidenciou-se que para a mensuração desses tipos de indicadores, a percepção do avaliador (indicador 24) é intrinsicamente parte do julgamento, conforme ressaltam os excertos a seguir:
“Você falou em feeling, isso realmente existe, tem que brilhar o olho do avaliador. A gente fala com 15 empresas por semana aqui, dá uma média de 60 empresas por mês. Talvez dessas 15, tenha uma ou duas que vão cumprir os requisitos, mas não brilhou o olho, tem um mercado grande, tem um diferencial, mas apesar de tudo estar certinho não brilhou o olho de ninguém.
Então tem um pouco de feeling sim”. (VC02)
“Hoje em dia, de uma forma geral que a gente observa, é o feeling baseado na experiência [dos avaliadores]. Por exemplo, o nosso fundo existem vários tipos de sócios [...] então dada a experiência e a nossa análise de mercado, a gente acaba tomando essa decisão. Mas não existe uma ferramenta formal, é mais na base da pesquisa e do feeling.” (VC03)
“[...] a gente faz uma avaliação conjunta para cada um defender os seus pontos de vista, mas não tem um padrão efetivamente em cima disso, vamos seguir esse padrão aqui de escalabilidade por exemplo, a gente conta com o conhecimento dos avaliadores”. (CO01)
“O que a gente está querendo mesmo é ver se tem brilho nos olhos, se o pessoal está empolgado [...]” (IN01)
“[...] a família que está perto dele, que olha ele, que vê o brilho nos olhos dele, acreditou? Aí eu também passo a ter respeito e acreditar.” (VC01)
“Aí na entrevista a gente tenta entender os pontos de atenção que o conselho colocou e aí é mais subjetivo, o nosso time, normalmente o time inteiro participa.” (VC06)
Esses aspectos também são frisados por Lasso, Mainardes e Motoki (2019) ao enumerarem fatores motivacionais decisivos para empreendedores, como autorrealização, intenção de sucesso financeiro, independência, orientação à inovação, aversão a regras e formalidades e reconhecimento de suas capacidades.
Ao se observar apenas os indicadores que figuram exclusivamente nos documentos científicos, há um enfoque em características da solução oferecida (5, 6, 7) e pormenores de gestão da empresa (1, 2, 3, 4, 8). Destaca-se que todos os indicadores provenientes da literatura podem ser aplicados em avaliações de Startups em quase todas as fases, devido seus aspectos subjetivos.
Entre os indicadores comuns na literatura e no campo, se enfatiza a mensuração de aspectos relacionados aos empreendedores e ao time da empresa, em que são observados critérios como capacidade de aprendizagem, de gerar, compartilhar ou adquirir conhecimento, comunicação interpessoal, adaptação, eficácia de execução do projeto, entre outros elementos.
Quanto aos indicadores presentes unicamente no campo, também é ressaltada a predominância de critérios relativos ao time e à solução, como resiliência, autonomia, abertura a críticas e sugestões, disposição para aprender, proatividade, capacidade analítica, comunicação, organização e persuasão, entre outros.
No geral, percebe-se que parte significativa dos indicadores desta categoria afere três pontos relacionados à Startups: empreendedor, solução proposta e mercado. Não por acaso estas categorias também figuram entre as de maior
incidência nos indicadores no campo, sugerindo que tais categorias são essenciais nos processos de seleção de Startups em ecossistemas de inovação.
Ainda, o acentuado grau de subjetividade presente nos II desse conjunto, corrobora as inferências de teóricos sobre a difícil mensuração e comparação desses critérios (DE PAULA et al., 2015; GRUPP; SCHUBERT, 2010; JANGER et al., 2017;
TAQUES et al., 2020).
Entretanto, o volume de indicadores observados nesta categoria, principalmente os advindos dos editais e entrevistas, contrapõe o pensamento de Gutemberg (2016) ao defender que II de throughputs são menos comuns devido sua difícil mensuração (criatividade, motivação para a inovação, clima e cultura organizacional). Ainda que o referido autor não tenha concentrado seus esforços em analisar Startups, nestas empresas pode-se atestar que tais indicadores são comuns nos processos de seleção.