Neste último capítulo mostrar-se-ão as ideias de Bouwsma sobre poesia e sobre religião. Estas áreas, estando fora da filosofia, mostram os limites da filosofia.
Para isso usa-se como pedra de toque a crença: de um lado a religião, que pode prescindir de argumentos e viver só de fé; de outro lado a poesia, sem crença nem argumentos, só linguagem isolada – sem uso. Mais próximos da poesia estão os filósofos que tentam ter uma racionalização total que dispensa qualquer tipo de crença; próximos da religião estão os filósofos que assumem uma necessidade de crença naquilo que dizem, mas que não deixam de argumentar, de fazer um ponto.
Analisar-se-á em primeiro o lugar a ideia de Bouwsma sobre poesia partindo do ensaio “Are Poems Statements.”83 E de seguida, a partir da colecção de ensaios
“Without Proof for Evidence,” teremos uma ideia do lugar que a religião ocupa no seu pensamento.
Poesia
A ideia de Bouwsma sobre poesia é algo extravagante: um poema não diz nada. Um poema é feito de palavras que são usadas no dia-a-dia – onde têm significados – porém, num poema não querem dizer nada. Não quer isto dizer que um poema seja apenas uma produção musical e que valha só pelo som e pelo ritmo das palavras tal como estas estão organizadas.84 O poema só é o poema que é, por
83 “Are Poems Statements”, Toward a New Sensibility.
84 Ainda assim esta é uma das características importantes. Bouwsma compara algumas vezes um poema a uma partitura. Diz ainda que para se poder ler bem um poema ter-se-á, como com uma partitura, que o aprender a ler (ou a tocar); não é possível fazê-lo bem à primeira vista. Mais, isto não
ter palavras que têm significados quando são usadas; ainda assim, no poema não estão a uso: “[Não] se pode ler um poema em Esperanto. São precisas palavras que estejam embebidas no sumo do uso.”85
Mas, poderia alguém ripostar que mesmo que um poema não seja como uma frase usada para pedir um café – onde a linguagem está a uso e se diz alguma coisa – os poemas têm frases com sentido. O que isto quer dizer é que podemos parafrasear os versos de um poema, podemos reescrever um poema em prosa. E ganhamos uma nova dificuldade: porque é que, então, os poemas são escritos em verso e não em prosa? Há algo de especial, e de necessário, no verso e na organização das palavras. Se um poema é prosa disfarçada “o prémio deve ir para a pessoa que conseguir a peça original de prosa.”86
A determinada altura, para tornar claro que não se trata de uma confusão sobre a palavra asserção (statement), Bouwsma faz a distinção entre dois tipos de asserções para dizer que a poesia não é nenhuma destas duas coisas, mas sim uma terceira: um conjunto de palavras que não estão a uso. Diz então que a diferença é entre asserções (statements) como declarações, e asserções (statements), num sentido mais lato, como proposições. Ora não são declarações porque, de facto, ninguém declara coisa alguma num poema, e mesmo que isso acontecesse seria momentâneo – o poema ler-se-ia depois desse momento, mas não por aquilo que declara. E dado que o que caracteriza uma proposição é ter um uso: para se saber
se refere necessariamente à leitura performática, em voz alta, do poema; ler bem é também compreender, e exige estudo.
85 APS, 262. “Neither can you read a poem in Esperanto. You need words that are soaked in the juice of use.”
86 APS, 255.
alguma coisa (fazendo uma pergunta), para declarar uma posição, para dar uma ordem, etc; então, neste sentido, as palavras num poema não estão a ser utilizadas para nada. E quando se é confrontado com um conjunto de palavras seguido de um ponto de interrogação num poema, não se toma isso como uma pergunta: pode seguir-se uma resposta, uma pergunta, ou nada, sem que isso seja problemático;
noutro contexto não faria sentido. À frase no poema falta o contexto que teria (no mundo) para fazer sentido. O poema pode ter eventualmente, parece-nos, um contexto dentro de si mesmo.
Um bom contra-exemplo é usar um verso conhecido para dizer algo em concreto na vida corrente: fazer um pedido, uma pergunta, uma afirmação com o verso de um poema; de facto, aqui, o verso faz referência ao poema, mas deixa de ser poesia.87 Mais ainda, por muito forte que seja a influência, o pastiche, ou o plágio, nenhum poeta escreve poemas já existentes; e no dia-a-dia repetimos frases.88 No poema estão as mesmas palavras, mas sem uso: “um poema é a Cinderela no baile.”89 As palavras, que estão sempre a trabalhar, estão a “divertir-se” nos versos (pelo menos, não estão a trabalhar).
Posto isto, seria um erro tirar deste ensaio conclusões muito marcadas sobre a natureza da linguagem. É uma perspectiva nova que Bouwsma dá para impedir
87 Outro caso difícil é quando um poeta diz que a sua obra quer dizer tal, ou que o poema tem um certo significado; é uma prova difícil dizer-lhe que não, que está só a dizer coisas a partir da obra.
88 Uma ideia claramente presente no artigo de Brett Bourbon: “Objects Made of Words”. “Os poemas seriam radicalmente e essencialmente definidos pelas suas palavras. Frases correntes, do dia-a-dia, por outro lado, não são definidas pelas palavras desta forma, mas pelas ideias que expressam.”
Bourbon, Brett, “Objects Made of Words”, Forma de Vida nº 21, Maio de 2021, [https://formadevida.org/bbourbonfdv21].
89 APS, 253.
que uma analogia errónea (de que as palavras do poema estão como as de quem as usa) se imponha e deturpe o acesso à poesia.90 Quererá isto dizer que Bouwsma pensasse nisso enquanto lia poemas? É pouco provável. Esta ideia surge e é necessária, mais uma vez, apenas como antídoto contra ideias erróneas – ideias essas que na maior parte das vezes nos desviam.
Tirar conclusões sobre a linguagem a partir de “Are Poems Statements” seria mais um caso de produção de problemas inexistentes. A partir de uma ideia que deve iluminar a poesia, estabelecer-se-ia uma regra a partir de um caso específico.
A vontade de generalização estragaria o trabalho que estava a ser feito; trabalho esse que pretenderia salvar a poesia, deixar a poesia em paz. O que Bouwsma diz sobre poesia não tem relação com o que diz sobre filosofia, i.e., aquilo que diz que acontece e não acontece num poema não tem de ter implicações para a filosofia.
Bouwsma refere o famoso excerto de Wittgenstein “os problemas filosóficos surgem quando a linguagem tem um momento de festa”91 para dizer que a “linguagem da poesia é a linguagem numa festa [diferente da da filosofia].”92
Finalmente, há certas implicações que esta visão tem sobre a conversa à volta da poesia. As implicações esperadas são sobre a crítica e a teoria da literatura (a que Bouwsma chama estética.) A esta luz, a crítica passa a ser uma conversa sobre
90 Não obstante, se pensarmos neste ensaio como uma visão perspícua da poesia, é importante perceber que Bouwsma não está disposto a abdicar da ideia. É uma ideia que aparece por oposição a outra e que permite ver melhor algumas coisas, mas não é temporária: Bouwsma não vai mudar de ideias. Talvez isto aconteça porque esta ideia é extravagante o suficiente para não se cristalizar numa definição e ter de ser constantemente reapresentada.
91 Wittgenstein, Ludwig, Investigações Filosóficas, M. S. Lourenço (trad. e intr.), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, §38
92 APS, 268. “The language of poetry is language on a holiday.”
coisas inexistentes (os significados), e a teoria da literatura uma conversa sobre uma conversa sobre coisas inexistentes. Por outro lado, poderíamos esperar que certas situações fossem problemáticas sob esta ideia de poesia, mas não é isso que acontece. Por exemplo, que alguém se lembre de um poema numa determinada situação, ou que um poema ajude uma pessoa a passar uma determinada situação.
Essa pessoa lembrar-se-á de palavras que têm ou não a ver com a situação que vive, palavras que fazem sentido naquele momento; daí não se segue que a pessoa se lembre de opiniões, de teorias, ou de declarações – lembra-se de palavras.93 E podem até ser melhores para descrever a sua situação do que aquelas que ela poderia criar: os poemas são, quando assim usados, um arquivo de arranjos de palavras; e prontos a ser requisitados.94 O que não quer dizer que esta seja a função da poesia; de um poema não ter significado não se segue simplesmente que não possa acontecer alguma coisa a partir dele.
Ao mesmo tempo, os poemas são o resultado de actos de atenção à linguagem. A relação é algo próxima daquela descrita por Baker em “Wittgenstein on Metaphysical/Everyday Use.”95 Se para Baker, a metafísica nos mostra por contraste a linguagem corrente – a metafísica é extravagante e permite ver a normalidade da linguagem corrente; então a poesia isola, por vezes de modo estranho, a língua do
93 Assume-se aqui que as palavras incluem todo o leque de pensamentos, ideias, imagens (de facto ou metafóricas), etc. Bouwsma cita de Wittgenstein: “Deixamos os nossos pensamentos subir e descer na vizinhança conhecida das palavras” “We let our thoughts roam up and down in the familiar surroundings of the words.”
94 Os ditados são o exemplo mais usado disso: conjuntos de palavras prontas a usar em ocasiões diferentes. Ainda assim, não chegam a ter o estatuto de poesia (mesmo que por vezes rimem): ou por falta de qualidade, ou por demasiado uso (e uso demasiado determinado).
95 [WME] “Wittgenstein on Metaphysical/Everyday Use”, 92-107.
dia-a-dia. Nesta linha de pensamento, o poeta reparou na forma como falamos:
isolou a língua sem uso nem pretensão de uso, mas em referência ao uso.
*
Dada a possibilidade de não se perceber a relação entre as palavras de um poema e o mundo (as palavras que estão a uso), a “ajuda à leitura”96 existe para facilitar a percepção dessa relação. E é tudo o que é possível fazer quanto à poesia:
a crítica é um erro. No entanto, é difícil perceber qual é a diferença entre a ajudar a ler e fazer crítica.97 A ajuda consiste em mostrar quais são as coisas no mundo em que as palavras do poema se apoiam; e ainda quais as relações (tendo em consideração o que se passa no mundo) entre as partes do poema; e por fim, as relações entre diferentes poemas.98 Para ilustrar este ponto, Bouwsma usa uma série de imagens: “a palavra no poema tem vida apenas quando é parasita da palavra na azáfama da vida.”99 E mesmo a criação de um novo sentido num poema baseia-se no mundo; até quando a referência anterior é um poema, partiu inicialmente do mundo.
Este ponto não é trivial. A ideia que Bouwsma tem de poesia é indissociável da ideia que tem de crítica. Por vezes, parece até que a sua ideia de poesia nasce
96 APS, 253.
97 O termo “crítica” peca por se referir a demasiadas coisas. Todas elas sobre textos, mas muito diferentes. A “ajuda a ler” inclui textos que são vistos como crítica num sentido lato. Bouwsma optou por não dar esse nome a bem da clareza.
98 Sobre isto, Bouwsma reparou bem que “Não devemos supor que todos os poemas são poemas nonsense. Os poemas nonsense são uma categoria especial.” “We are not then to suppose that all poems are nonsense poems. Nonsense poems are a special class.” APS, 263-4.
99 “The word in the poem has life only as it is parasitic upon the host word in the stress and strain of life.” APS, 267.
da aversão à crítica literária.100 Bouwsma associa a crítica literária (que quer atacar) aos comentários sobre aquilo que o poema diz, ou sobre o significado de um poema.
A crítica é para si um duplo erro: dá significado ao poema (contra a ideia que tem de poesia), e pretende ser uma teoria final (contra a ideia que tem de filosofia). Se pretender ser uma ideia final e total sobre o poema, a crítica é análoga à teoria filosófica final (à prova de bala). E terá, mais ainda, o surgimento dos problemas das teorias sobre a crítica, que terão uma ideia final sobre o que é a crítica: com argumentos, contra-argumentos, etc.
Posto isto, uma frase que comece com “O que este poema diz” não é obrigatoriamente má, aquilo que se segue pode mostrar uma boa ligação entre as palavras do mundo e as do poema; mesmo que a pessoa que mostra essa relação ache que está a fazer outra coisa. A partir daquilo que diz, se se excluir a ideia indesejada de significado, consegue-se ver uma interpretação – a palavra que Bouwsma usa para a “ajuda à leitura” e que se opõe à palavra “crítica”. E a interpretação é necessária para poder ler um poema (assim como para tocar uma música):
Poder-se-á descobrir que um poema tem significado? Pode-se descobrir que Jabberwocky faz sentido – é-nos dada uma interpretação. Deveremos dizer que sem esse tipo de interpretação não se pode ler um poema?”101
100 Mais ainda se tivermos em conta o seu outro ensaio “Poetry Becomes Truth” (Toward a New Sensibility), onde chega a propor que se sancione todo aquele que falar sobre poemas.
101 “Could one discover that a poem has meaning? You can discover that Jabberwocky makes sense – you are given an interpretation. Shall we say that if you need that sort of interpretation, then you cannot read that as a poem?” APS, 262.
A resposta à pergunta já tinha sido apresentada: “[Não] se pode ler um poema em Esperanto. São precisas palavras que estejam embebidas no sumo do uso.” A interpretação existe sempre, como existe sempre a relação entre o mundo e as palavras do poema. Parece-me, pois, que os poemas nonsense fazem sentido por contraste com aqueles que não são nonsense – aqueles cuja interpretação é mais óbvia, cuja ligação ao mundo é mais óbvia ou já foi feita. O poema nonsense só é possível depois do poema que não é nonsense.
Quanto às leituras de um poema, não pode haver uma leitura definitiva; para que isso acontecesse era preciso uma teoria que a justificasse, e uma teoria que justificasse essa, e assim ad infinitum. No entanto, foi dado um critério: serão certas as leituras que mostram as ligações do poema à nossa linguagem, e que não serão certamente únicas. A interpretação poderá ter em conta muitos outros aspectos: a intenção do poeta, o tempo em que o poema foi escrito, a pessoa que escreveu, etc.
Mas a pergunta necessária de Bouwsma é: a que casos particulares em jogos de linguagem é que as palavras dos poemas se referem? Se tentássemos fazer uma teoria da interpretação a partir das suas ideias, então uma leitura anacrónica seria uma leitura possível. Por exemplo, no verso “Com que voz chorarei meu triste fado”
a palavra ‘fado’ é muitas vezes interpretada como referindo-se à canção lisboeta do mesmo nome; e na verdade o verso foi escrito por Camões que nunca conheceu tal género musical. Ora, alguém que assim interprete este verso estará a fazer uma boa interpretação: a relacionar uma palavra do poema com uma palavra do mundo.
*
Falta apenas falar das ideias e das histórias que podemos encontrar num poema e que será difícil dizer que não existem num poema. Mas, em última análise estar à procura disso não é o que interessa no poema (menos ainda se é isso que o poeta pensa ou não). Bouwsma descreveu esta ideia muito claramente:
“Em todo o caso, não foi dito: ‘Um poema não deve significar, e consequentemente deve ser insignificante (meaningless).’ Não quer isto dizer que a um poema falte alguma coisa que poderia ser fornecida. É simples:
aquele que lê um poema não deve perguntar: O que significa? como se a resposta servisse de substituto para o poema. Perguntar tal coisa é mostrar que não se percebeu o que é um poema. Um reparo gramatical.”102
Acontece muitas vezes falar-se de histórias em verso, ou de histórias que são tiradas de poemas; mas ao falar-se destas histórias está-se a usar o poema para ilustrar um ponto. A leitura do poema exige a interpretação das suas palavras e dispensa a ideia de uma história que o poema contém. A história que o poema conta pode ajudar à interpretação, mas não é o poema.
Além do mais, não é raro arranjar-se uma citação de um poema para fazer um ponto. Mas uma citação de um poema é usada para fazer alguma coisa a partir do poema. A ideia chega a ser demasiado simples, mas se o poema fosse as ideias do poema então não seria o poema. Bouwsma diz bem: não se dá o caso de faltar
102 “In any case it was not said: ‘A poem should not mean, and consequently should be meaningless.’
It is not to say that a poem should lack something, something that could be supplied. It is simple: one who reads a poem should not ask: What does the poem mean? as though the answer could serve as a substitute for the poem. To ask that question is to show that one does not understand what it is to be a poem. A grammatical remark.” APS, 262.
alguma coisa ao poema; a leitura de um poema não requer uma visão do seu todo, não requer adesão aos pontos (como rezar uma oração requer), nem tão pouco requer crença naquilo que se lê.103
Um poema-oração será um poema ou uma oração dependendo da intenção com que for lido; ‘intenção’ é a palavra errada: “A poesia está na mente do observador (beholder). ‘Observador’ é a palavra errada.”104 Por exemplo, um membro de um coro pode cantar “Dai-nos a Paz” de duas formas diferentes: como um pedido (numa relação e em que há expectativa) ou simplesmente cantá-lo (pela beleza das palavras, por hipótese). Mais uma vez, um poema não existe para ser cantado, ou para dar prazer – não tem uma função; um conjunto de palavras pode ser usado, e usado de diferentes formas que não se confundem.
Quanto às histórias presentes no poema, não sendo elas o poema, podem ser tiradas de poemas; e as histórias podem inspirar crença. Em “Objects Made of Words”105, Brett Bourbon faz uma distinção importante entre “frases, histórias, poemas e ficções.” A partir daí o texto foca-se em poemas, mas é interessante a distinção entre poemas e histórias, e entre histórias e ficções. Bouwsma concorda com esta distinção e parte dela para falar de religião.106
103 Na poesia vêem-se as relações entre palavras, nas quais não há espaço para a fé, nem necessidade de fé. Próxima desta, está a filosofia que se arroga de ausência de fé: que se arroga de pura razão, mas que não consegue prescindir de que se acredite, no mínimo, num pressuposto.
104 APS, 268.
105 Bourbon, Brett, “Objects Made of Words”, Forma de Vida nº 21, Maio de 2021, [https://formadevida.org/bbourbonfdv21].
106 NB: as ideias sobre poesia e religião (a relação com a Escritura) não se seguem uma da outra, nem estão hierarquizadas de forma alguma; são diferentes atitudes perante textos que podem às vezes ser o mesmo.
Religião
O argumento de Bouwsma quanto à fé é de que não há teoria nem prova que a justifique; a fé alimenta-se de histórias. Without Proof or Evidence, onde se trata também este tema, é o volume de ensaios póstumo que contém os escritos mais tardios de Bouwsma. Interessantemente, a maior parte dos ensaios têm defesas positivas de teorias, ou de propostas de filósofos (o que é raro nos outros volumes).
Quanto ao tema, os ensaios focam-se quase exclusivamente no facto da fé. Destarte, a relação entre as três características – fé, defesas positivas, e pensamento maduro – não é casual. As teorias e os filósofos que são tratados requerem que se acredite no que eles propõem. Não se trata de um defesa lógica, que pode ser desmontada, mas sim de um relato (um testemunho) no qual se acredita. A ideia de filosofia correctiva, e de cura, de que se falou nos capítulos anteriores está claramente presente em toda a obra de Bouwsma, mas neste volume encontramos um tom mais benévolo e compreensivo. Certamente pelo tema, pelos autores, e muito provavelmente pela sua idade quando escreveu os ensaios.
Chegados a este momento, é necessário fazer uma contextualização biográfica. O. K. Bouwsma cresceu numa família de origem holandesa, e com uma rigorosa educação cristã. O cristianismo, e em especial a relação intensa que tinha com a Igreja Reformada, estiveram presentes ao longo de toda a sua vida. Inclusive, numa homenagem póstuma a Bouwsma, um seu aluno recordava a ideia que passava da filosofia: se se conseguisse fazer filosofia isso era bom mas não era o
mais importante; “ensinou muitas coisas, mas procurou sempre uma: temam a Deus e sigam os seus mandamentos.”107
Tendo em consideração este dado, não é por acaso que Bouwsma seguiu um certo tipo de filosofia. Na verdade, dada a natureza do trabalho sobre si-mesmo, tem que se seguir uma forma de fazer filosofia em que a “atenção constante é o preço.”
A atenção constante impede que se seja tomado por analogias erróneas; uma ideia muito parecida com o conselho que é dado em relação ao pecado (vigiai!) E que é, ainda, uma relação prima facie, pois o que mais interessa em relação à atenção na religião é que não é só negativa, não se foca somente na tentação: também se deve estar atento à salvação, ou à voz de Deus – e também isto é constante e exigente.108 A fé não se resume a acreditar numa história, numa proposta; há um lado activo do crente que se segue, que procura adequar e actualizar a sua fé. E se nos primeiros capítulos deste trabalho se viu o lado que dá atenção ao desvio (ao engano), aqui vemos o lado que procura o caminho a fazer.
O caminho é o lado positivo de Bouwsma, e está intimamente ligado ao negativo. O lado positivo ver-se-á pela eliminação do negativo, do empecilho. Ainda assim isto nem sempre é claro, ou melhor, nem sempre é igual. Na maior parte das
107 R. A. W. and A. D. J. (antigos alunos), Memorial Minutes, in Proceedings and Addresses of the American Philosophical Association, Vol. 52, No. 1 (Sep., 1978), p. 15
108 “Os meus afectos pareciam ser vívidos e facilmente movíveis, e parecia-me estar no meu melhor quando estava implicado em deveres religiosos. E creio que são muitos os que são enganados em tais afectos, e num tal tipo de prazer que tinha então na religião, e que confundi com graça.” Jonathan Edwards, “A Personal Narrative”, 1740. [https://www.apuritansmind.com/puritan-favorites/jonathan-edwards/biographical-writings/edwards-personal-narrative/].
Edwards é um bom exemplo do calvinismo americano, que influenciou a vivência de Bouwsma. Os sentimentos podem iludir os sinais de graça e por isso a atenção é necessária e constante até para a Graça, não só para o pecado.