2.4 A imagem como recurso fundamental
2.4.3 A imagem como construção social
As imagens exibidas pelo telejornalismo devem ser pensadas não só como um instrumento da notícia, um apoio audiovisual para a informação, mas como parte da construção da narrativa audiovisual. É preciso compreender as imagens por meio de uma leitura cultural. A realidade apresentada pela imagem televisiva resulta sempre de um processo de construção social. O conteúdo visual que chega às casas dos telespectadores – ainda que possa estar munido de intenções objetivas – tende sempre a revelar olhares de sujeitos inseridos em um determinado contexto dramático. Não apenas por questões intencionais, mas porque indivíduos produzem conteúdos subjetivos de acordo com sua bagagem e também com base nos efeitos de sentido a que o espectador está acostumado. Assim, o plano fechado em close com o depoimento da mãe que acaba de perder o filho em um desabamento ou acidente de trânsito reforça a dramaticidade da cena. O plano aberto das torcidas comemorando a vitória de seu time acentua a euforia coletiva, assim como a expressividade do abraço ao campus da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) no Maracanã por parte da comunidade acadêmica traduz a força da manifestação. Compreender o processo de construção da realidade a partir da imagem veiculada pelo jornalismo televisivo se revela, assim, uma tarefa extremamente complexa.
Para Bruno Souza Leal (2006), o papel das imagens no telejornalismo encontra uma formulação bastante comum nos manuais de telejornalismo, o de serem “representações do real”. A expressão – frequentemente uma afirmativa – parece não comportar questionamentos, seja sobre sua natureza, os processos dessa representação ou a veracidade das imagens. O pesquisador – assim com esta pesquisa – vai de encontro a essa definição e compreende a questão da verdade, no telejornal, como um efeito de sentido. O papel das imagens está muito além de um documento mecânico do real. A imagem no telejornalismo apenas reduz a realidade ao visível, de acordo com o espaço e a estrutura disponíveis, além, é claro, de um fator de extrema importância: o indivíduo que está por trás da câmera.
A narrativa televisual seria resultado de uma experiência de mediação e ao mesmo tempo produziria uma experiência na sua relação com o espectador. [...] A “experiência” da televisão compreende, além daqueles elementos implicados diretamente na produção de significados, os ritmos e a composição das imagens, cores, formas, enquadramentos, sons e outros recursos que mobilizam sensível e emocionalmente o espectador e seu corpo. (LEAL, 2006, p. 5).
Segundo Cadorin (2014), a apreensão do conteúdo visual é condicionada pela práxis, pela vivência em determinado contexto imaginário. Se toda imagem depende da produção de um sujeito – ou vários –, é lógico pensar que o conteúdo visual transmitido pela televisão não retrata a realidade, mas uma realidade possível, a partir de quem a produziu.
Comprovar tal proposição é possível, quando se pensa, por exemplo, numa cobertura jornalística televisiva. Suponha-se que um fato ocorre numa determinada hora e lugar. As imagens desse acontecimento são captadas pelo repórter cinematográfico. Em última instância, por manipular a câmera, é ele quem acaba determinando que recortes, no tempo e espaço, serão capturados daquela situação. É preciso considerar, ainda, condições físicas do ambiente, tais como luminosidade e a possibilidade ou não de aproximação, o tempo de que se dispõe para a tarefa, e parâmetros legais aos quais está sujeita a veiculação de imagens pela televisão, etc. [...] A imagem no telejornalismo não pode ser considerada mais do que a expressão de uma realidade possível, tanto porque a imagem está sujeita a percepções diversas, como pelo fato de que a realidade parece estar desprovida de uma condição objetiva e mais próxima de uma construção social. (CADORIN, 2014, p. 3-5).
Leal e Valle (2009) são categóricos ao considerar como efeito de sentido o real produzido por meio da imagem no telejornalismo. Para eles, a prática jornalística determina o que pode ser mostrado e o que deve ser visto, na medida em que promove uma imagem do acontecimento no mesmo movimento em que oculta sob esta todas as demais faces possíveis.
O jornalismo, convertido num dispositivo produtor de realidades discursivas, cujo propósito é a apresentação dos acontecimentos do mundo, não traz certamente a realidade bruta, mas, antes, imagens cujo real é da ordem do
efeito, isto é, dependem da validação, por parte do leitor, do reenvio que fazem aos seus referentes. (LEAL; VALLE, 2009, p. 131).
Para os pesquisadores, o enquadramento emoldura uma cena, um campo de probabilidades, de sentidos possíveis e isola, ao mesmo tempo, um fragmento, composto como uma unidade de tempo e de espaço.
A moldura telejornalística, nesse sentido, cumpre uma dupla função: de fechamento, por meio do recorte e da focalização que realiza, e de abertura, por meio da constituição do telespectador como centro de referência responsável por garantir a unidade de sentido da cena que institui. [...] Sendo assim, a tela da televisão se constitui como moldura que tanto informa os fragmentos do real, como representa uma passagem entre dois espaços, o telejornalístico e o cotidiano. Espaços semelhantes, uma vez que o telejornalismo propõe ao seu telespectador informações que se apresentam como o prolongamento de sua vida cotidiana. (Ibid., p. 136).
Pela forma como o processo comunicacional é visto pela sociedade e graças à maneira como vem sendo construído ao longo dos anos, há uma crença da imagem como fragmento ou condensação do mundo. Para Leal e Vale, é como se, no telejornalismo, a visibilidade fosse fundamentalmente decorrência das imagens técnicas. Contudo, ao se observar atentamente um telejornal é possível perceber o quão relativa é a força das imagens técnicas e todo o peso da palavra e da visão dos jornalistas embutida na conformação da notícia. É nessa perspectiva que um telejornal se revela composto por textos e mecanismos audiovisuais complexos, resultados da combinação de diferentes linguagens e procedimentos, e dotados de produções de sentidos socialmente construídas.
O professor Alfredo Vizeu (2003) afirma que a produção e a edição de imagens, além de seu papel na construção social, ganham ainda mais importância no chamado telejornalismo local ou comunitário. As imagens são uma das particularidades mais destacadas deste tipo de noticiário por serem produzidas, na maioria das vezes, pelo veículo especialmente para aquela cobertura. Diferentemente do noticiário internacional ou, até mesmo, político, os materiais que vão ao ar não se resolvem facilmente com imagens de agências de notícias ou com arquivos da emissora. As imagens que chegam às casas dos telespectadores por meio do noticiário local são pensadas, demandadas e produzidas para aquela notícia. Além de exigirem mais recursos, mão de obra e tempo, as imagens adquirem uma notoriedade maior do que teriam caso não se relacionassem diretamente à notícia apresentada. Elas ganham, assim, um destaque que exige ainda mais atenção.