2.4 A imagem como recurso fundamental
2.4.1 Os enquadramentos e seus efeitos
A noção de enquadramento – no que diz respeito a questões relativas ao discurso audiovisual – é considerada uma das mais importantes das linguagens cinematográfica e televisiva. Antes mesmo da edição, enquadrar é decidir o que vai ser mostrado, é determinar o recorte da cena a ser oferecido ao espectador, que deverá guiar sua percepção do real narrado naquela plataforma audiovisual.
De acordo com o pesquisador Fábio Bitencourt Cadorin (2014), se recortes de uma suposta realidade são efetuados no momento da obtenção das imagens, a seleção delas estreita ainda mais a visão do acontecimento.
O fato de imagens conterem intertextualidadade, enunciadores e dialogismo, depreende-se que, no caso da televisão, o que se apresentará como realidade é tão-somente um pequeno recorte do que ela pode ser. [...] A imagem televisiva não apenas se reveste de intenção enunciativa como, em via de mão dupla, reproduz o que de alguma forma é esperado pelo telespectador. [...] A imagem no telejornalismo não pode ser considerada mais do que a
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Além da grande representatividade adquirida por estas imagens, é importante destacar que a decisão de colocá- las no ar, ao vivo, pode ter evitado que atiradores que estavam no helicóptero da Polícia Militar fizessem ainda mais vítimas. Segundo policiais ouvidos à época, os agentes não atiraram porque estavam ao vivo na TV. 40
Close é o enquadramento em que a câmera fica próxima ao objeto. O conceito será explicado a seguir.
41 Contra-plongée é o enquadramento em que a câmera enquadra a imagem de baixo para cima. O conceito também será explicado a seguir.
expressão de uma realidade possível, tanto porque a imagem está sujeita a percepções diversas, como pelo fato de que a realidade parece estar desprovida de uma condição objetiva e mais próxima de uma construção social. (CADORIN, 2014, p. 4-5).
O enquadramento – tanto no cinema, quanto em outras mídias – depende de três elementos: o plano, a altura do ângulo e o lado do ângulo. Em uma explicação simplista, o plano é determinado pela distância entre a câmera e o objeto em foco. No começo do cinema, os norte-americanos criaram três tipos básicos de planos, que ainda hoje são comumente utilizados, além de terem possibilitado o surgimento de novas adaptações42: o plano aberto, na qual a câmera fica distante do objeto, que ocupa uma parte pequena do cenário, criando uma atmosfera de ambientação; o plano médio, em que a câmera se posiciona a uma distância mediana do objeto, de modo que ele ocupa um espaço considerável do ambiente, mas permite espaço a sua volta, criando uma impressão de posicionamento e movimentação; e o plano fechado (também conhecido como close ou primeiro plano), que compreende a câmera próxima ao objeto, que ocupa quase todo o cenário, para criar um ambiente de intimidade e expressão.
Figura 1: plano aberto. Fonte: reprodução da internet43.
42 É importante destacar que as nomenclaturas que definem os planos podem variar de acordo com o autor ou o local onde são utilizadas.
43 Todas as imagens a seguir são de autoria de um site e estão disponíveis em: <http://www.primeirofilme.com.br/site/o-livro/enquadramentos-planos-e-angulos/>. Acesso em 15 fev. 2017.
Figura 2: plano médio. Fonte: reprodução da internet.
Figura 3: plano fechado. Fonte: reprodução da internet.
A partir destes três planos básicos, podem ser feitos ajustes finos com variantes – como “um pouco mais aberto” ou “um pouco mais fechado” – ou, ainda, há a possibilidade de se estabelecer novos planos, com maior nível de detalhamento e complexidade. Apesar de as nomenclaturas poderem sofrer alterações, é importante destacar aqui outros três planos importantes para esta análise: o plano americano, em que a figura é enquadrada do joelho para cima; o primeiríssimo plano (também conhecido como “big-close”), que enquadrada dos ombros para cima; e o plano detalhe, que apresenta apenas uma parte do rosto ou do corpo do indivíduo (um olho, uma mão ou um pé) ou do objeto (uma bala caída no chão ou uma caneta em cima da mesa, por exemplo).
Figura 4: plano americano. Fonte: reprodução da internet.
Figura 5: primeiríssimo plano. Fonte: reprodução da internet.
Figura 6: plano detalhe. Fonte: reprodução da internet.
Os outros dois componentes do enquadramento dependem do ângulo de posicionamento da câmera em relação ao objeto retratado. Quanto à altura do ângulo, três posições são fundamentais. O ângulo normal é quando a câmera está no nível dos olhos da pessoa ou objeto que está sendo mostrado no vídeo. Plongée (palavra francesa que significa
“mergulho”) ou câmera alta representam uma imagem feita com a câmera acima do nível dos olhos, voltada para baixo. O plano plongée é muito utilizado para transmitir a sensação de inferioridade ao personagem ou objeto, já que produz o efeito de diminuí-lo, situando-o em um plano onde existe algo maior do que ele, que o olha de cima e dá conta de toda sua dimensão. Ao contrário, contra-plongée ou câmera baixa têm o efeito inverso, com a câmera abaixo do nível dos olhos, voltada para cima. O espectador fica abaixo do personagem ou objeto, que acaba engrandecido em cena. O contra-plongée gera uma sensação de grandiosidade e superioridade do que está sendo filmado em relação ao observador.
Figura 7: ângulo normal. Fonte: reprodução da internet.
Figura 9: contra-plongée. Fonte: reprodução da internet.
Já em relação ao lado do ângulo, são quatro as posições fundamentais: frontal, quando a câmera fica posicionada em linha reta com o rosto da pessoa ou objeto retratado; ¾ é chamada a posição em que a câmera forma um ângulo de aproximadamente 45 graus com o rosto da pessoa ou o objeto; perfil, que compreende a câmera em um ângulo de aproximadamente 90 graus com o rosto da pessoa, podendo ser feito à esquerda ou à direita; e, por último, de nuca, quando a câmera está posicionada atrás da pessoa filmada, em linha reta com sua nuca.
Figura 11: ¾. Fonte: reprodução da internet.
Figura 12: perfil. Fonte: reprodução da internet.
Figura 13: de nuca. Fonte: reprodução da internet.
Outra noção importante – principalmente em uma análise de telejornalismo – diz respeito ao “extra-quadro”, aquilo que não está sendo mostrado pela câmera, mas que pode ser imaginado pelo espectador ou registrado pelo som. É comum dizer que alguém ou alguma coisa está “fora de quadro” ou “em off” quando não está visível naquele enquadramento, mas
faz parte da história. No telejornalismo, é habitual a utilização da expressão “em off” para se referir ao repórter, apresentador ou entrevistado que está apenas sendo ouvido pelo público, mas não visto.
2.4.1.1 O enquadramento no telejornalismo
No telejornal, o contato entre os sujeitos comunicativos (apresentadores e/ou repórteres e o público) e o consequente status de confiança são forjados por um jogo de sentidos controlado pelo corpo da figura que está sendo mostrada na tela, que convoca a audiência para o interior do discurso. Para Gutmann, apesar de o público não estar presente fisicamente no estúdio, ele atua discursivamente, como endereçado da conversa, sendo posicionado de modo mais próximo ou afastado do mediador.
No âmbito verbal, o público é instado a participar por meio do uso de vocativos – o pronome “você” – e de verbos no imperativo, como em “boa noite para você”, “você vai ver”, “veja como fica o tempo” e “saiba o que fazer”. É utilizada a função fática da linguagem, aquela, segundo Roman Jackbson, em que o texto se dirige diretamente ao espectador para buscar aproximação44. Mas, se por um lado, as convocações no verbal são explícitas, os dispositivos visuais ficam mais ocultos.
A moldura visual pela qual se vê o corpo dos sujeitos é importante estratégia de construção de posições e, consequentemente, de sentidos para os atos de fala. Por essa razão, os enquadramentos de câmera são explorados como dispositivos expressivos para a interação proposta, produzindo, pelo menos, quatro tipos de efeitos que remetem a uma situação de conversa: 1. Distanciamento; 2. Aproximação entre os sujeitos do discurso (enunciador e enunciatários); 3. Ênfase argumentativa; e 4. Inclusão do interlocutor (enunciatário) na cena comunicativa. Nesse caso, os planos e movimentos de câmera, articulados ao texto verbal, funcionam como profícuas estratégias discursivas para os atos conversacionais. (GUTMANN, 2012, p. 68).
De acordo com os pesquisadores Bruno Souza Leal e Flávio Pinto Vale (2009), o telejornalismo desenvolveu sua credibilidade em torno do eixo frontal estabelecido na altura do olhar: a câmera deve capturar os acontecimentos a partir de uma posição externa a eles,
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As funções da linguagem foram classificadas por Roman Jackobson e estão no livro Usos da Linguagem, de Francis Vanoye.
assumindo o papel de observadora. Esse posto de observação determina condições de significação por meio da distância sugerida pela escala de planos.
Historicamente, os enquadramentos conhecidos como “plano americano” (PA) e “primeiro plano” (PP) são os mais utilizados para posicionar apresentadores e repórteres diante da câmera. O PA afasta o mediador da tela e o enquadra na altura da cintura ou do busto, de modo a acentuar seu lugar distanciado, hierarquicamente localizado como a autoridade do discurso. Já o PP é usado em situações mais explícitas de interpelação, na medida em que sugere maior proximidade em relação à audiência ao enquadrar o apresentador na altura do ombro. O chamado close reforça a intimidade com o interlocutor ao apresentar o sujeito do discurso na altura do pescoço.
Mais recentemente, os jornais locais adotaram um novo formato de apresentação, que pressupõe maior liberdade do âncora, com o plano geral (PG). A bancada do apresentador fica mais afastada, e o cenário inclui uma parte maior do estúdio, como se o telespectador finalmente conhecesse aquele espaço, como se o lugar onde o apresentador aparece todos os dias lhe fosse, de certa forma, familiar. O âncora é, muitas vezes, mostrado de corpo inteiro e caminha pelo estúdio, de forma a eliminar – ou diminuir – o ar de formalidade e imprimir um estilo mais semelhante à “vida real”, menos rígido. O plano mais aberto, que insere, no espaço físico delimitado pela tela, o ambiente físico do jornal – o cenário da enunciação – permite simulações de contato entre o sujeito de fala e o público, reforçando um contexto de interação. Outra característica que pode ser observada e, até mesmo considerada uma tendência contemporânea, é a de incluir mais de um sujeito de fala no mesmo quadro, acionando assim uma situação de bate-papo. Esta estratégia se dá, por exemplo, entre o apresentador e um comentarista, o apresentador da previsão do tempo ou aquele que fornece as informações sobre o trânsito. Ao inserir duas ou mais pessoas na tela, o sentido que se pretende instaurar é o de troca cotidiana entre um sujeito que fala e os que ouvem, operação que simula o enunciatário e o enunciador aparentemente em uma mesma instância discursiva e que os aproxima do telespectador, que se sente participante do bate-papo ou, pelo menos, semelhante àqueles que conversam na TV.
A estratégia deixa claro que a forma do dito, a moldura interpretativa criada para um determinado acontecimento a partir dessa representação de conversa cotidiana, pode sobrepor-se ao fato em si. Ou seja, nem sempre é pelo conteúdo que se convoca interesse, mas pela situação em que o público é inserido. Nessas situações, os usos dos enquadramentos de câmera se apresentam como um profícuo modalizador de sentido. (GUTMANN, 2012, p. 73).
Para Gutmann, as movimentações de câmera também são importantes modalizadores de situações de conversa entre apresentação e recepção por promoverem deslocamentos de olhar para os diversos lugares da cena comunicativa, produzindo aproximações e distanciamentos no discurso. Segundo a pesquisadora, os movimentos de câmera, principalmente o travelling45, a panorâmica46 e o zoom, atuam junto aos planos como recursos de aproximação, inclusão, distanciamento e ênfase argumentativa. “Esses movimentos de câmera posicionam o interlocutor em distintos momentos de uma corriqueira situação de conversa: chegada e apresentação, pequenas pausas e despedida”. (Ibid., p. 70). Um determinado enquadramento temático pode ser realçado pelo enquadramento de câmera, que conduz o telespectador a perceber não apenas sobre o que se fala, mas sobre o modo como algo é apresentado.
A moldura visual promovida pelos enquadramentos de câmera por meio da qual o público se relaciona com os profissionais que falam na TV é explorada pelos meios de comunicação no sentido de estabelecer posições e a interação com o público dentro do processo dialogal proposto. Os planos e movimentos de câmera, em articulação ao texto verbal, são importantes estratégias visuais para a concretização dos atos conversacionais e seus efeitos. Segundo Gutmann, os enquadramentos são apropriações culturais, formas materiais e simbólicas de lidar com a notícia na TV, que podem funcionar como dispositivos expressivos configuradores de conversa no tempo presente e suposta participação da audiência. Os enquadramentos constituem uma estratégia de comunicabilidade e constituem uma marca formal de produção e reconhecimento da notícia televisiva.