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2.4 A imagem como recurso fundamental

2.4.2 O poder da edição

Até aqui, foi possível compreender que esta análise defende a produção da imagem não como um processo objetivo, mas como construção carregada de significações que ultrapassam o que está visível a um primeiro olhar. Além do momento da captura pelo repórter cinematográfico, a imagem é também trabalhada nas chamadas ilhas de edição antes de ir ao ar. Na maioria das vezes, em um ambiente profissional de telejornalismo, as imagens

45 Travelling, na terminologia de cinema e audiovisual, é todo movimento de câmara em que esta realmente se desloca no espaço. Na maioria das situações, o travelling é obtido movimentando-se a câmara com o auxílio de um carrinho sobre trilhos, o que permite um deslocamento mais suave em qualquer tipo de terreno.

46 Na imagem panorâmica, a câmera fica parada em um mesmo eixo e faz um movimento na horizontal de forma a mostrar um ângulo maior de imagens.

– enquadradas e pensadas por um indivíduo – passam por uma edição – realizada por um segundo profissional – e são atreladas a um texto – desenvolvido por uma terceira pessoa. Desta forma, é preciso considerar que o conteúdo capturado pela câmera não reproduz a realidade, mas uma representação. A edição é de extrema importância para o resultado a ser apresentado ao espectador.

A edição de um telejornal no padrão adotado pelas televisões abertas no Brasil compõe-se de escalada47, blocos, intervalos, chamadas, notas, entradas ao vivo e matérias. Já as reportagens são estruturadas, em sua maioria, a partir de cabeça48, off49, sonoras50, passagem51 e, às vezes, nota pé52. Nas reportagens ou nas outras partes que compõem o telejornal – a não ser quando o apresentador está em primeiro plano –, as imagens têm papel fundamental, seja para guiar o conteúdo verbal ou para ilustrar o que está sendo noticiado. Neste processo, a escolha do conteúdo visual não pode ser, de forma alguma, aleatória. Pelo contrário, ocupa papel testemunhal, na medida em que texto e imagem devem estar em sintonia, isto é, a imagem deve acompanhar a narrativa textual ou – em casos em que a parte imagética por si só diz mais do que o texto, como acontece com cenas impactantes de fenômenos naturais, por exemplo – a narrativa textual deve acompanhar a imagem.

O ritmo dos planos acompanha o ritmo da narração; o tempo de exposição de cada

frame53 depende do impacto e da importância atribuídos a ele; os movimentos de câmera são explorados de modo a ficarem, não apenas confortáveis esteticamente, mas enfatizando o que se deseja enfatizar; a ordem das imagens reflete as preferências dos editores; a redundância dos planos é consoante à dispersão, uma vez que permite que se retome visualmente a linearidade do relato oral após lapsos ou desvios de olhar. Todas as escolhas são, de alguma maneira, justificadas.

O fato de a maioria do conteúdo visual transmitido pelo telejornalismo ser acompanhada de texto verbal – no caso da plataforma, por meio da linguagem falada –

47 A escalada é o início do telejornal, o momento em que o(s) apresentador(es) mostra(m) de forma rápida e breve os assuntos que serão apresentados durante o noticiário.

48

Cabeça é o texto lido pelo apresentador para dar início à matéria. Como se diz no jargão jornalístico, para “chamar” a reportagem.

49 Off é o texto escrito e lido pelo repórter. É a parte verbal da reportagem na qual o apresentador não aparece, apenas as imagens.

50

Sonoras são as entrevistas apresentadas durante a reportagem. 51 Passagem é a parte textual na qual o repórter está em quadro.

52 Nota pé é um encerramento da matéria lido pelo apresentador. Esta ferramenta é utilizada em maior escala em reportagens que precisam de uma resposta de pessoas que foram citadas.

53 Frame (em português, quadro ou moldura) é cada um dos quadros ou imagens fixas de um produto audiovisual.

também merece destaque. As imagens precisam estar de acordo com o conteúdo audiovisual. Essa necessidade de relacionar o verbal e as imagens contribui para a construção da realidade a ser mostrada, podendo reduzir ou ampliar a amplitude do acontecimento em questão.

Se em determinada notícia, se deseja fazer crer que uma manifestação reuniu muita gente, planos fechados em grupos de pessoas são mais trabalhados do que planos abertos, que mostrariam espaços vazios e permitiriam o questionamento por parte dos telespectadores da real adesão ao movimento. Se a ideia for mostrar uma invasão violenta ou a forma truculenta com que um grupo enfrentou a polícia em uma manifestação, posiciona-se a câmera ao lado dos agentes de segurança e mostra-se o suposto ataque de frente, priorizando a forma com que os civis foram em direção aos policiais e não como estes agiram em relação aos manifestantes.

O episódio que ficou mundialmente conhecido como massacre de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, em 17 de abril de 1996, foi registrado pela TV Liberal de Marabá54. Como a equipe de reportagem chegou ao local antes da Polícia Militar – não com o intuito de cobrir uma situação de violência, mas para mostrar o acampamento dos trabalhadores rurais sem terra e o conflito agrário, comum na região –, no momento da invasão da PM, a câmera estava localizada ao lado dos manifestantes, e não dos agentes de segurança. Desta forma, foi possível mostrar a polícia avançando sobre os trabalhadores e criar o entendimento de que os 29 mortos e os mais de 70 feridos foram, de fato, vítimas dos policiais55.

Na política brasileira, o momento mais representativo para ilustrar o poder da edição foi o debate entre os ex-presidentes Lula e Fernando Collor, então candidatos, na eleição de 1989. Neste ano, os brasileiros foram às urnas para eleger o novo presidente da República, na primeira eleição presidencial pelo voto direto após 29 anos. Entre o primeiro e o segundo turnos, as pesquisas eleitorais mostravam um empate técnico, com Lula em curva ascendente, e Collor, ao contrário, em queda. Foram realizados dois debates entre os candidatos. No dia seguinte ao segundo, a TV Globo apresentou duas matérias com edições do evento: uma no

Jornal Hoje e outra no Jornal Nacional. Ambas foram questionadas, mas foi a edição do JN

que provocou polêmica e levantou a hipótese de manipulação. A emissora foi acusada de favorecer Collor na seleção dos momentos exibidos e no tempo destinado aos dois candidatos, já que Collor teve um minuto e meio a mais do que Lula e os trechos destacados teriam sido

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A TV Liberal é a afiliada da TV Globo no Pará.

55 Imagens disponíveis em: < http://g1.globo.com/pa/para/jornal-liberal-1edicao/videos/v/ato-marca-os-20-anos- do-massacre-de-eldorado-dos-carajas/4965050/>. Acesso em: 6 fev. 2018.

francamente favoráveis ao ex-governador de Alagoas. A Rede Globo sempre negou que tenha havido qualquer intenção por trás das reportagens. Somente 16 anos depois, em 2015, a direção do grupo admitiu que não foi uma edição equilibrada. É claro que não se pode atribuir o resultado da eleição apenas a este acontecimento, mas o fato é que Collor de Mello saiu vitorioso.

De acordo com o pesquisador Bruno Souza Leal (2006), a credibilidade, que deveria ser proporcionada pela “força das imagens”, parece se apresentar menos como um resultado inequívoco delas do que de um esforço de enunciação para o qual contribuem outros elementos, como as características do dispositivo, o gênero discursivo e o texto verbal. “Não são as imagens que se impõem por si só como fatos: elas são produzidas e organizadas de forma a se integrarem às necessidades, ao modo de dizer do telejornal”. (LEAL, 2006, p. 11). Nessa perspectiva, percebe-se a importância das imagens para os noticiários televisivos, porém mais do que isso, a absoluta interferência que a forma como ela é pensada e produzida tem no produto final que chega ao telespectador.