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2 MARCO TEÓRICO

2.4 IMAGEM CORPORAL E TRANSTORNOS ALIMENTARES

Ao abordar os transtornos alimentares, mais especificamente a anorexia e a bulimia nervosas, importa discorrer sobre aspectos do desenvolvimento da imagem corporal do sujeito, pois o corpo concretiza a existência e é por meio dele que o sujeito se percebe, é percebido e interage com o meio que o cerca.

A aparência física possui grande relevância social no mundo ocidental, uma vez que o ideal de beleza, principalmente feminina está centrado na magreza e isto no meio social significa ter sucesso, autocontrole e ser atraente sexualmente. Neste contexto é possível considerar que a veiculação da mídia em fortes dimensões no que se referem a este ideal de beleza, as mudanças na função social da mulher e as rápidas transformações sociais, que podem fazer da recusa alimentar um emblema importante do autocontrole, são aspectos socioculturais importantes para a compreensão da incidência de transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia nervosa.

Para Castilho (2001), a importância da aparência física no meio social pode ser analisada sob duas perspectivas. A primeira se relaciona ao modo como o sujeito é visto pelo outro ou a imagem social de sua aparência física; a segunda enfoca a experiência subjetiva individual de percepção de seus atributos físicos. Portanto, a maneira como o sujeito é

reconhecido sob a perspectiva do outro está diretamente relacionada aos valores de beleza impostos socialmente. A partir do momento que o sujeito considera o olhar do outro sobre ele mesmo, aliado à própria percepção de seus atributos físicos, em função de experiência subjetiva, remata uma imagem do que deveria ou não deveria parecer.

Assim sendo, Castilho (2001) afirma que o desejo do sujeito de uma aparência física que se adéqüe ao modelo que lhe é transmitido, é capaz de levá-lo a uma imagem negativa de seu corpo e esta, por sua vez, pode estar associada ao desenvolvimento de transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia nervosa, uma vez que os padrões sociais de aparência física estão associados a magreza. Ainda a mesma autora, confirma esta idéia mencionando que os seres humanos possuem concepções e atitudes sobre estética e beleza que influenciam o modo de caracterizar e de se relacionar com o outro. Assim, a imagem corporal pode vir a ter um papel mediador em todas as facetas da vida cotidiana. Neste sentido, a percepção de uma imagem corporal atingida pelas imposições sociais de beleza e pela construção a partir de experiências subjetivas vivenciadas pelo sujeito, pode de alguma forma levá-lo a buscar uma aparência física que lhe é vista como ideal, porém muitas vezes difícil de ser alcançada podendo levar este sujeito a um determinado sofrimento.

A imagem corporal nem sempre foi compreendida a partir das interações do sujeito com o contexto social e com suas experiências subjetivas. A compreensão do conceito de imagem corporal resulta de uma história de estudos desenvolvidos inicialmente em bases neurológicas há mais de um século. Paul Schilder, nos anos de 1930 a 1950, segundo Nunes et al., (2006), dominou quase que solitariamente o campo de estudo da imagem corporal, desenvolvendo sua experiência na neurologia, na psiquiatria e na psicologia. Buscava, pois, explorar a estrutura libidinal da imagem corporal, acenando para os fenômenos inconscientes que poderiam levar à mudança da percepção do corpo, tanto na sua forma como no seu funcionamento, considerando a imagem corporal um fenômeno multifacetado, que abrange aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais.

Cabe salientar que, segundo Fisher (1990), a imagem corporal para Paul Schilder não é apenas uma construção cognitiva, mas também uma reflexão dos desejos, atitudes emocionais e interação com os outros. Logo, é necessário salientar a existência de dois termos relacionados ao assunto em questão: ‘esquema corporal’, predominante na neurologia, e ‘imagem corporal’, nos meios da psicologia. Neste sentido, faz-se importante discorrer sobre ambos os termos, uma vez que alguns autores concebem que há realmente uma distinção entre ambos. Rodrigues (1987, p. 18) distingue-os sob alegação de que “esquema corporal é conotado como uma estrutura neuromotora que permite ao indivíduo estar consciente do seu

próprio corpo anatômico, ajustando-o às solicitações de situações novas e desenvolvendo ações de forma adequada”.

Oliver (1995) também concorda com esta distinção e afirma que a imagem do corpo constrói-se sobre um esquema corporal. Já para Le Boulch (1992, apud BARROS, 2005, p. 18), “a ambigüidade introduzida por esta dupla terminologia cria a impressão de que existiria, por um lado, um corpo neurológico, e, por outro lado, um corpo espiritual, o que exigiria esforço para unir dois corpos”. Para este autor, o esquema corporal interpõe-se na imagem corporal formando um único conceito, parecendo paradoxal que haja uma distinção entre ambos.

A psicanalista Françoise Dolto em sua obra “L’image inconsciente du corps” datada de 1984, defende a idéia de que não se deve confundir a imagem do corpo com o esquema corporal.

Para Dolto (2007, p. 14):

[...] o esquema corporal é, em princípio, o mesmo para todos os indivíduos (aproximadamente de mesma idade, sob um mesmo clima) da espécie humana, a imagem do corpo, em contrapartida, é peculiar a cada um: está ligada ao sujeito e à sua história. Ela é específica de uma libido em situação, de um tipo de relação libidinal. Daí resulta que o esquema corporal é, em parte, inconsciente, mas também pré-consciente e consciente, enquanto que a imagem do corpo é eminentemente inconsciente [...] A imagem do corpo é a síntese viva de nossas experiências emocionais [...].

Ainda para a mesma autora, a imagem do corpo só se constitui e continua a existir na relação com alguém. A imagem que um sujeito tem do seu corpo é sustentada pelo seu esquema corporal e é por esta imagem corporal que o mesmo pode se comunicar com o outro, assim, todo o contato com o outro é subtendido pela imagem do corpo. Deste modo, a autora contrapõe-se à idéia de Le Boulch que acaba por considerar um único conceito para ambos os termos, sendo que Dolto (2007) os distingue afirmando que os conceitos de esquema corporal e imagem corporal não devem ser considerados semelhantes. Isso porque o primeiro estrutura- se através da aprendizagem e da experiência do indivíduo e o segundo conceito acaba por se estruturar na relação de comunicação com o outro. Portanto, o esquema corporal ampara e se cruza com a imagem corporal possibilitando a comunicação do sujeito com o outro.

Pensar em imagem corporal no âmbito dos transtornos alimentares, especificamente na anorexia e na bulimia nervosa, é considerar em qual dimensão está a imagem corporal do sujeito adoecido. Para Thompson (2004 apud NUNES et al., 2006), é necessário delimitar de forma clara a dimensão da imagem corporal do sujeito que sofre de transtorno alimentar. Para esse autor, a autopercepção da aparência física baseia-se em

questões perceptivas e/ou subjetivas, atingindo o campo das emoções e das representações intrapsíquicas; já o investimento que um sujeito faz na sua aparência, remete-se ao campo das atitudes e comportamentos. Portanto, o sujeito que se preocupa com sua aparência física, que se exibe vaidoso e apresenta comportamentos voltados para a preocupação com o aspecto do corpo, não pode ser considerado como alguém que sofre de transtornos alimentares, uma vez que para o diagnóstico destas patologias, outros critérios devem ser observados, dentre eles a preocupação excessiva com a forma e o peso do corpo, estados de desnutrição e desidratação, compulsões alimentares, utilização de métodos purgativos, edemas, entre outros.

No que se refere às dimensões da imagem corporal, nos transtornos alimentares, Zukerfeld (1992 apud NUNES et al., 2006) diferencia as distorções da imagem corporal em três tipos: o tipo perceptual, o tipo cognitivo-emocional e o tipo social. O primeiro tipo se refere à auto-percepção consciente das dimensões do corpo e se caracteriza por superestimar, no caso da anorexia, ou subestimar, no caso da obesidade, a superfície do corpo e suas dimensões. Na distorção do tipo cognitivo-emocional existe um mal-estar ou um desconforto com o próprio corpo, independente da distorção auto-perceptiva, referindo-se a questões mais subjetivas e de conteúdo. A terceira distorção da imagem corporal, intitulada do tipo social, segundo o mesmo autor, refere-se a uma internalização de modelos de subjetivação e ideais de corpo prescritos pela cultura. Neste sentido, nos transtornos alimentares, a distorção da imagem corporal como sintoma pode estar atrelada a questões cognitivo-emocionais, de auto- percepção e sociais. Portanto, as distorções do tipo perceptual, cognitivo-emocional e social da imagem corporal podem ser apresentadas nos quadros de transtornos alimentares e mostram a importância da utilização de uma abordagem adequada que considere os aspectos subjetivos que envolvem cada tipo de distorção, com vistas a um tratamento mais adequado para os transtornos alimentares.

Cabe salientar que, segundo Nunes et al., (2006), na anorexia nervosa a distorção do tipo perceptiva, ou seja, a auto-percepção consciente sobre o peso e a forma do corpo é mais grave que na bulimia nervosa, pois o paciente anoréxico pode não perceber nenhum tipo de problema com a forma de seu corpo, dificultando ainda mais o tratamento. No entanto, o paciente anoréxico também pode julgar-se ou perceber-se mais gordo do que de fato está, ao contrário do paciente bulímico que apresenta maior insatisfação com a forma e o peso corporal, haja vista que, em geral, este tipo de paciente está mais distante do peso ideal fantasiosamente estabelecido por ele e a distância entre imagem idealizada de corpo e aquilo que percebem consciente ou subjetivamente, dificulta sua recuperação.

È importante ressaltarr que, de acordo com Phillips et al. (1995, apud BUSSE et al.,2004), numerosos trabalhos, enfatizam a acentuada presença de sintomas obsessivos- compulsivos na anorexia nervosa e ainda outros estudos marcam a freqüência de atitudes alimentares anormais em indivíduos com transtorno obsessivo compulsivo, o que pode significar níveis de anorexia e bulimia nervosa nestes casos. Palmer e Jones (1939, apud BUSSE et al., 2004, p. 146) afirmam que [...] ‘anorexia nervosa’ é o termo aplicado a uma neurose compulsiva com o padrão anorexia, vômitos e conseqüente emaciação”. Alguns autores como DuBois (1949, apud BUSSE et al., 2004, p. 146) narram a freqüência de sintomas psicóticos em pacientes anoréxicas e ainda Phillips et al. (1995, apud BUSSE et al., 2004) dizem que em quadros psicóticos, a partir da observação de muitos pacientes, atitudes alimentares atípicas são encontradas ou ainda, idéias delirantes em relação à comida. No entanto, para Busse et al. (2004) os estudos sobre pacientes psicóticos envolvendo sintomas de transtornos alimentares são bastante escassos. Portanto, o aprofundamento de estudos sistemáticos dessa natureza são importantes para uma maior compreensão da relação da sintomatologia psicótica com os transtornos alimentares.

Retornando ao contexto relativo à imagem corporal, Nunes et al., (2006) afirmam que a experiência subjetiva com relação ao corpo é um aspecto relevante no tratamento dos transtornos alimentares. Ainda os mesmos autores afirmam que as avaliações da imagem corporal feitas pelos profissionais que intervêm nestes tipos de transtorno devem ser realizadas constantemente, pois revelam, em geral, a dinâmica da doença, uma vez que, a dimensão da imagem corporal varia drasticamente durante o tratamento, conforme a evolução do caso. Neste sentido, Bucaretchi et al. (2003, p. 81) adverte que “o ser humano sofre mudanças no decorrer da vida, assim a imagem corporal está em constante mutação e o corpo é percebido de maneiras diferentes dependendo de fatores como idade, doenças, cultura, psiquismo (...).” Assim, a avaliação constante da imagem corporal de um sujeito que está em tratamento em função de um transtorno alimentar, parece ser fundamental para a percepção da diligência do transtorno e então, desta forma, realizar a intervenção mais adequada àquele momento.

Distorções da imagem corporal parecem estar diretamente envolvidas com o desenvolvimento de transtornos alimentares, mais especificamente, de anorexia e bulimia nervosa. A forma como o sujeito interage com seu corpo é constituída por aspectos sociais, cognitivos, emocionais e de auto-percepção, e, portanto à atenção na dinâmica da imagem corporal de cada sujeito com transtorno alimentar em tratamento, é fundamental para uma

maior compreensão do quadro e conseqüentemente o cumprimento de intervenções mais específicas e apropriadas no tratamento.

Sendo assim, se percebe que a construção da imagem corporal de cada sujeito está diretamente relacionada a forma com que este idealiza e experimenta seu corpo, de maneira consciente, ou não, incluindo seu contato com o ambiente, suas emoções e fantasias, a influência dos significados afetivos e cognitivos adquiridos no decorrer da sua história, bem como o modo como ele aprende a organizar e integrar suas experiências corporais.

2.5 O PAPEL DA FAMÍLIA NA ORIGEM E NA MANUTENÇÃO DA ANOREXIA E DA