S 4 49 anos Feminino Psicóloga 9 anos
4 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
4.4 O PROCESSO DIAGNÓSTICO DA ANOREXIA E DA BULIMIA NERVOSA
A Tabela 5 se refere ao processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa e explora aspectos relacionados à procura de tratamento e a inclusão da família neste processo.
Tabela 5 - O processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa de acordo com a concepção de psicólogos e psiquiatras
(continua) SUJEITOS
Categoria Sub Categorias
Psicólogos Psiquiatras Total
Família participa do processo diagnóstico
“Sempre que agente julga necessário, a
gente inclui, na verdade
a família é incluída desde o início(...)” (S4)
“ Nós procuramos envolver a família em todo o processo.” “(...) a proposta já é entrevistar a família em conjunto com o paciente ou em entrevistas isoladas e então trazer a família para o diagnóstico (...)” (S2)
“(...) os pacientes anoréxicos, realmente a inclusão da família no processo diagnóstico é muito intensa.” “(...) o relato do quadro é feito pela família (...) a primeira sessão via de regra é com o familiar junto (...) ” (S3)
Ocor 01 02 03
Paciente é trazido pela família
“(...) a anoréxica não tem demanda, ela não vem por ela, ela é trazida(...)” (S1)
“(...) às vezes (...) vem primeiro a família e a paciente vem depois (...)” (S4)
“As adolescentes, os pacientes
mais jovens vem
acompanhados com familiar.” (S2)
“(...) a anoréxica só vem a tratamento quando alguém traz (...) a própria família impõe uma consulta (...)” (S3)
Ocor 02 02 04
Paciente procura tratamento sozinho
“Ele pode vir por ele mesmo, pode ter assistido algum programa, hoje em dia é tão divulgado na mídia todos estes transtornos, que pode vir por ele mesmo” (S1)
“(...) a bulímica (...) vem procurar tratamento por sofrimento mesmo (...) às vezes algumas até nem querem contar para a família (...)” (S3)
Processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa Ocor 01 01 02
Encaminhamento do paciente por outro profissional e realização de triagem
“(...) o pessoal que está sob a orientação da professora A. que é o atendimento individual, faz o trabalho de triagem (...) (S1) “(...) esse tipo de paciente (...) já vem com diagnóstico (...) a avaliação clínica é feita pelo médico, a avaliação inicial (...)” (S4)
Ocor 02 00 02
Fonte: elaboração da autora, 2008.
A Tabela 5 apresenta como categoria o processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa, sendo subdividida em subcategorias, dentre elas destaca-se a participação da família no diagnóstico. De acordo com um psicólogo (S4) e dois psiquiatras (S2 e S3), há a inclusão da família no processo diagnóstico destes transtornos alimentares. Para o sujeito 3 da pesquisa, “ [...] a inclusão da família no processo diagnóstico é muito intensa.” “[...] o relato do quadro é feito pela família [...] a primeira sessão via de regra é com o familiar junto [...]”. (sic). È importante ressaltar que as pacientes anoréxicas, por não se reconhecerem doentes, não procuram ajuda espontaneamente (NUNES et al., 2006). Para Claudino et al. (2005, p. 42) “as pacientes anoréxicas quase sempre chegam ao tratamento conduzidas pelos pais, contra sua vontade: para elas, sua doença é solução e não problema, é uma prova de sucesso em meio a tantas incertezas sobre suas capacidades”. Neste sentido, a família se torna parte integrante do processo diagnóstico, pois é a partir do relato familiar que se inicia a construção da história clínica da paciente.
Dois psicólogos (S1 e S4) e dois psiquiatras (S2 e S3), ou seja, todos os sujeitos da pesquisa afirmam que a paciente é trazida pela família para o tratamento, justamente pela mesma não reconhecer que está doente e conseqüentemente precisando de assistência. O Sujeito 1 da pesquisa ilustra esta questão quando diz que: “[...] a anoréxica não tem demanda, ela não vem por ela, ela é trazida [...]”. (sic)
Outra subcategoria apresentada em relação ao processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa é a procura voluntária das pacientes para o tratamento. Um psicólogo (S1) e um psiquiatra (S3) corroboram com a idéia de que pacientes, geralmente as bulímicas, procuram sozinhas tratamento. Cabe dizer que para alguns autores, as pacientes bulímicas, por desenvolverem sentimentos de vergonha e culpa pelos episódios de ingestão exagerada de
alimento e posteriormente de purgação, têm a tendência a procurar ajuda com maior freqüência do que pacientes anoréxicas, porém conseguem encobrir por longo período os seus sintomas (CLAUDINO et al., 2005). Para o sujeito 3 da pesquisa: “[...] a bulímica [...] vem procurar tratamento por sofrimento mesmo [...] às vezes algumas até nem querem contar para a família [...]” (sic). Claudino et al. (2005) afirma que os pacientes com bulimia nervosa conseguem ocultar por muito tempo seus sintomas, pois diferentemente da anorexia nervosa, eles geralmente mantém seu peso corpóreo estável e não apresentam conseqüências físicas visíveis ao olhar dos familiares. Assim se pode afirmar que por conseguirem esconder seus sintomas e não aparentarem estar doentes aos olhos dos outros, o paciente bulímico acaba por procurar ajuda sozinho, já que o seu sofrimento se torna insuportável ou até mesmo, por identificar através dos meios de comunicação os seus sintomas e perceberem que algo pode estar errado.
A subcategoria “Encaminhamento do paciente por outro profissional e realização de triagem” no processo diagnóstico em serviços especializados em transtornos alimentares foi apresentada pelos psicólogos (S1 e S4). Freqüentemente, pacientes chegam aos programas de tratamento para estes tipos de transtorno indicados por outros profissionais da saúde que acabam identificando alguns sintomas característicos destas patologias e sugerem que o paciente seja atendido em serviços especializados, por geralmente apresentarem uma equipe multiprofissional no atendimento, a triagem destes pacientes é realizada e necessária para a confirmação do diagnóstico. (NUNES et al., 2006). Para Claudino et al. (2005) a equipe multiprofissional encontrada em alguns programas de tratamento para transtornos alimentares como o Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP – AMBULIM, além de possibilitar diagnóstico mais preciso, abrange as áreas etiopatogênicas e sintomatológicas, personalizando o tratamento e satisfazendo as necessidades do paciente por via do manejo adequado e efetivo. Assim, o paciente acometido por um transtorno alimentar, muitas vezes anteriormente ao diagnóstico, ele e/ou sua família procuram profissionais de áreas isoladas como endocrinologistas e clínicos gerais com a intenção de saber o que pode estar acontecendo, motivados pelos sintomas presentes. Portanto, quando os mesmos são encaminhados para serviços especializados no tratamento de transtornos alimentares, podem receber atendimento adequado, haja vista que estes transtornos apresentam múltiplos sintomas, dentre eles os físicos e psicológicos e então, estes pacientes devem receber tratamento de diversas áreas da saúde, logo, existe a necessidade de acompanhamento por uma equipe multiprofissional geralmente encontrada nestes programas especializados.
Neste sentido, o processo diagnóstico da anorexia e da bulimia nervosa abrangem várias aspectos conforme relatado pelos psiquiatras e psicólogos entrevistados. Estes aspectos compreendem: a maneira com que se procura por um tratamento, em função da presença de sintomas que estão causando sofrimento, seja pela chegada de um paciente por conta própria, sendo esta condição afirmada por um psicólogo (S1) e por um psiquiatra (S3), ou levado pela família a um serviço especializado em transtornos alimentares e isto foi citado por todos os sujeitos da pesquisa, seja pelo encaminhamento de outro profissional a estes serviços especializados e nestes locais são realizadas triagens para confirmação de diagnóstico como relatado pelos psicólogos S1 e S4, ou ainda a inclusão da família no processo diagnóstico, que foi apresentada por um psicólogo (S4) e dois psiquiatras o S2 e S3. Assim, se verificam vários aspectos apontados pelos entrevistados com relação ao processo diagnóstico dos transtornos alimentares.
O subcapítulo a seguir faz menção às intervenções realizadas no tratamento de pacientes diagnosticados com anorexia e bulimia nervosa pelos profissionais entrevistados para esta pesquisa.