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14| Imagens de treinamentos pelo programa PBQP-H

No documento Trabalho e tecnologia no programa MCMV (páginas 160-162)

Fonte: MCidades

A inclusão da qualificação como parte dos requerimentos do PBQP-H torna o treinamento uma atividade do contratante do serviço empreitado que será auditada para obtenção de certificação de qualidade. Esta imposição, no entanto, não resolve um impasse frequente: a força de trabalho treinada está vinculada à empresa subempreiteira e pode ser empregada por concorrentes [150]. Com

exceção das subempreiteiras especializadas em instalações prediais, o interesse do treinamento por parte do subempreiteiro é baixo, pois é voltado para a política de qualidade de uma empresa com quem tem uma relação contratual temporária. A conexão entre treinamento e certificação igualmente estimula o cumprimento de uma programação formal, suficiente apenas para satisfazer as auditorias de terceira parte com ementas arquivadas e listas de presença assinadas [151].

A suspeita de formalismo não existe para a segunda ressalva do PBQP-H para serviços subempreitados, que é a exigência de “procedimento documentado” do “controle de inspeção”. Entre as construtoras certificadas, este procedimento se tornou conhecido como Ficha de Verificação de Serviço - FVS. Como documento de inspeção, a FVS cumpre na ponta final dos serviços de execução de obra a organização de registros e documentos que é primeira exigência de todo sistema de qualidade. Sobre esta exigência formal, ela acumula outra função, esta bem material, de servir como guia de aceitação e aprovação de serviço subempreitado. Assim, para a subempreiteira é impossível separar o atendimento do controle de qualidade da remuneração de seu contrato.

Do ponto de vista da empresa contratante de serviços subempreitados, uma FVS pode ser adaptada a qualquer variação produtiva. Num serviço complexo como

150 É o que Frederick Taylor lamenta no prefácio de “The principles of scientific management”: “what we are all looking for, however, is the ready-made, competent man; the man whom some one else has trained”. 151 “Nos casos em que as construtoras ofereçam treinamento, por exigência dos seus sistemas de gestão da qualidade,

a verdadeira preocupação deve residir em transmitir conhecimentos à mão-de-obra. As subempreiteiras reclamam que muitas vezes têm a impressão de que o foco está no registro do treinamento e não na real capacitação da mão- de-obra. Pior do que isso, denunciam, é aquela situação em que o treinamento é registrado sem ser ministrado” (Pereira; Cardoso, 2004: 14).

o de argamassa de revestimento, é possível prever inspeções de condições de início e fim de trabalho, isto é, da cura do chapisco e posição de andaimes até a limpeza do contrapiso e máquinas. Sobre o serviço realizado, é possível combinar critérios objetivos e mensuráveis, ligados ao projeto de produção da argamassa de revestimento (como espessura e planicidade), com critérios subjetivos mas explícitos, que tratam de manchas e acabamentos [152].

A abrangência e precisão da FVS, no entanto, não deve servir apenas à inspeção, mas sim ao conjunto do sistema de gestão de qualidade. Seu preenchimento, geralmente por estagiários de engenharia civil, segue uma cadeia de responsabilidades que estabelece rotinas e tolerâncias, identifica medidas de correção de não conformidades e retroalimenta os procedimentos de prevenção. Neste sentido, a FVS é tanto o último como o primeiro documento dos ciclos de planejamento, execução, checagem e ajuste de qualidade, o que separa este controle sistemático de uma inspeção tradicional da qualidade. Flávio Picchi faz esta comparação, que aparece com adaptações na tabela T-25:

T-25|Comparação entre controles de qualidade

Aspecto comparado Inspeção tradicional Sistema de gestão de qualidade

Forma de realização Acompanhamento

informal dos serviços

Controle sistematizado, realizado segundo fichas de verificação, procedimentos e planos de controle de qualidade

Pessoas envolvidas na avaliação

Mestre de obras e encarregados

Definidos nos procedimentos, segundo combinações de inspetores, mestres, encarregados ou autocontrole dos oficiais

Procedimentos de

avaliação Critérios pessoais

Padronizados e descritos em procedimento de controle de qualidade

Padrões para avaliação

e critérios de aceitação Subjetivos e pessoais

Objetivos, avaliam características prioritárias e conforme padrões estabelecidos em normas, com critérios de aceitação e rejeição claros, indicando tolerâncias admitidas

Momento de realização e serviços abrangidos

Assistemático, muda de intensidade conforme disponibilidade

Sistemático e com rotina pré-estabelecida, realizado em momentos e sobre serviços definidos no plano de controle de qualidade

Papel da gerência

Dependência total da competência profissional e do grau de exigência da equipe administrativa

Adota controles que garantem a homogeneidade e previsibilidade de resultados, reduzindo riscos e desperdícios dentro de metas e parâmetros da empresa.

Reação inicial de engenheiros e mestres

A eitação: construção é assim mesmo

Rejeição: o heço eu t a alho e ão p e iso de u o a ia ou papelada [153]

Fonte: adaptado de Picchi, 1993: 387

152 Observação de uma pesquisa sobre argamassa de revestimento externo: “o controle do serviço foi feito com o auxílio de Fichas de Verificação de Serviço (FVS), sendo verificado o serviço executado diariamente pelo inspetor de qualidade. Nessas fichas foram anotadas eventuais falhas existentes no serviço, com falta de planicidade, falta de prumo etc. Note que as FVSs são importantes ferramentas para controle da qualidade e aceitação de serviço executado por um subempreiteiro” (Shimizu; Barros; Cardoso, 2002: 8).

153 “A engenharia considera que um controle formalizado por uma documentação adequada gera ‘burocracia e mais papéis na obra’ e, por isso, descartam-no. O problema maior de se ter o controle informal é que as pessoas que os

Como documento que ao mesmo tempo sustenta uma política de qualidade e remunera o serviço treinado e especializado de subempreitada, a FVS dá uma eficácia à gestão de qualidade que, num canteiro de obras, tende a ser travada pela variabilidade intrínseca do empreendimento de construção. Seu preenchimento diário e constante tem, portanto, esta capacidade de reforçar referenciais normativos tanto nas equipes de engenharia quanto na força de trabalho que elas controlam. Como percebe Sérgio Pereira, o sistema de gestão de qualidade só se torna efetivo para a média e grande empresa de construção quando é efetivo para a micro e pequena empresa subempreiteira.

Uma das exigências dos sistemas de gestão da qualidade com vistas à certificação é a elaboração de procedimentos padronizados dos mais variados processos (produtivos, administrativos, operacionais etc.) desenvolvidos dentro das empresas. A propósito, este inegavelmente é um dos segredos para o alcance de sucesso na implantação dos programas de qualidade nas construtoras - além de registrar a tecnologia e torná-la parte do patrimônio da empresa, esta prática permite que se transmita aos subempreiteiros, de modo claro, as exigências a serem atendidas (Pereira, 2003: 97).

No documento Trabalho e tecnologia no programa MCMV (páginas 160-162)