Tema XVI Significado, expressão, comunicação e implementação no corpo/embodiment
3.3 Movimento-Imagem Procedimentos
3.3.1 Imagens grupais
Inicia-se essa etapa com o objetivo de formar imagens grupais. Essa é a porta de entrada escolhida para o Movimento-Imagem, pois é uma maneira bem concreta de colocar o corpo dos atores em função de uma imagem específica. Aos poucos, com a percepção das possibilidades de imagens, pode-se enveredar para imagens mais abstratas e pessoais.
O primeiro exercício começa com o grupo andando pelo espaço e respondendo a comandos básicos como: uma palma – andar para frente e duas palmas – andar para trás; o
orientador dizer o número “1” significa que o grupo deve se organizar em duplas; o número “2” é o comando para formar trios; “3” é o comando para formar quartetos; “4” leva os participantes a formar quintetos; “5” é o comando para formar quintetos e sentar. Cada uma dessas instruções é dada depois de experimentar por um tempo a regra anterior. O propositor desse exercício testa a atenção do grupo. Essa prática serve também de aquecimento e de introdução ao universo do Movimento-Imagem.
Na prática seguinte, ao comando do orientador do processo, o grupo deve formar no espaço uma linha, um monte ou uma roda.
Seguindo a mesma linha da proposta anterior, o grupo deve formar linha, monte ou roda, mas sem o comando de ninguém, apenas com a percepção do grupo. Aqui, o grupo passa a ter mais autonomia sobre o exercício feito anteriormente. Ele começa a escolher e determinar suas imagens. A forma dessas três organizações grupais é determinada pelo grupo. Por exemplo, a distância entre as pessoas em uma linha ou se o monte é sentado, deitado ou de pé.
Na proposta seguinte, quem comanda o treinamento diz uma letra do alfabeto e o grupo tem que se organizar em 10 segundos para formar a letra no espaço. Depois de dizer algumas letras e o grupo adquirir certa prática, pode-se começar a diminuir o tempo para a formação das letras. Agora, as imagens tornam-se mais complexas e o grupo deve estar atento. Como esse exercício propõe que se formem figuras sobre as quais todos têm uma ideia mais ou menos igual sobre ela, não entra em jogo tanto a criatividade, mas a organização do grupo.
O passo seguinte é fazer o mesmo que foi feito em relação ao monte, linha e roda sem ninguém comandando, mas, agora, com as letras. A variação de distâncias, de níveis e de formas corporais não só torna as letras mais interessantes, mas, também, aproxima de imagens mais complexas que letras.
O mesmo exercício pode ser repetido quando o grupo estiver mais avançado, mas com um comando novo, não é dito qual é a letra. O grupo precisa achar a letra junto sem falar e sem comando externo, apenas percebendo as relações espaciais. Esse é um exercício difícil e precisa de muito treino grupal para dar certo.
A tensão proposta pelo Movimento-Imagem nesse momento se situa entre o rigor das formas e a flexibilidade para a criação em grupo. Essa tensão ocorre, pois existe uma tendência para o enrijecimento do rigor das formas, reduzindo a abertura para a criação coletiva ou a flexibilidade para aceitar a proposta do outro tirando a precisão das formas.
Para relacionar as formas do espaço com a cena propôs-se que, em dez segundos, o grupo forme imagens sugeridas pelo condutor do processo. As imagens agora são fotos, ao mesmo tempo em que são mais complexas, possibilitam maior liberdade na criação. Exemplo: “Casamento na igreja”, “roubo na praça”, “perdendo uma guerra”, “chegada na corrida”. Uma variação desse procedimento é a cena continuando a partir da imagem. Esses exercícios fazem a passagem de imagens geométricas simples para imagens tridimensionais e mais criativas. Mas o pouco tempo faz, no início com que apareçam figuras repetidas dentro de uma mesma imagem. Isso demonstra que o rigor das imagens ou a flexibilidade para a criação conjunta ainda não está ocorrendo. É importante ressaltar que não é necessário ser apenas pessoas nas imagens, é possível ser o mar, uma mesa, enfim, qualquer objeto ou entidade que os participantes achem pertinentes à imagem.
Uma evolução dessa proposta é uma prática que intitulo história em quadrinhos. Consiste em um grupo de seis pessoas entrarem um a um e parar no espaço seguindo um pulso para cada entrada. Quando todos estão em cena deve-se ter uma foto. Um a um, seguindo o pulso de quem coordena a prática, os integrantes vão saindo de suas posições e em outra parte do palco encontram outra forma corporal. Quando todos se juntam de novo, tem-se o segundo quadro da história (o momento posterior à imagem anterior). Ao todo, formam-se seis imagens. Elas devem contar uma história com começo, meio e fim.
Com esse último procedimento, cria-se uma evolução para o exercício de fotos, partindo do tema sugerido pelo condutor da prática. Aqui, os participantes voltam a ter as rédeas sobre as criações e concatenam as imagens em prol de uma história. Outro aspecto importante é que existe sempre um estado de prontidão instituído pela atenção sobre os outros praticantes. A necessidade de elaborar história leva os atores a prestar atenção na evolução que as figuras dos outros cria.
A fricção de duas imagens, segundo Quito, cria uma ação. Colocar imagens uma ao lado da outra gera essa fricção. Agora, as imagens friccionadas propõem história e podem se transformar em cena. Só falta entrar em movimento para isso ocorrer. Mas antes de entrar em movimento é preciso solidificar o conceito do Movimento-Imagem no grupo, para isso é interessante voltar o processo para o trabalho individual.