Tema XVI Significado, expressão, comunicação e implementação no corpo/embodiment
3.3 Movimento-Imagem Procedimentos
3.3.2 Imagens individuais
Nesse próximo exercício, um por vez deve fazer uma forma no espaço e pausar. O seguinte participante deve ocupar os espaços vazios do anterior. Quando o segundo pausa o primeiro sai e entra a terceira pessoa no jogo. Isso ocorre até todos participarem. Ocorre um recuo estratégico no processo do Movimento-Imagem para facilitar a compreensão dos atores. Na coreologia, esses espaços vazios são conhecidos como tensão espacial e, no trabalho de Anne Bogart, conhecidos como espaço negativo, mas ambos têm o mesmo intuito, perceber o espaço que se forma quando propõe-se uma forma no espaço. Aqui, a ideia é trabalhar também formas que forem reação (ou resposta) de algo feito por outro, afinal tudo que ocorre em cena deve estar conectado de alguma forma.
Esse trabalho de aproximação para a compreensão do Movimento-Imagem, quando trabalhado individualmente, pode levar a uma criação desvinculada do meio, que não responde ao outro e ao ambiente. Quito resolve essa tendência utilizando práticas de contato improvisação. Aqui, tenta-se dar conta dessa dificuldade conectando os participantes pelo preenchimento dos espaços.
Diminuem-se os grupos definindo duplas para as próximas práticas. Um integrante da dupla deve pausar em uma forma corporal. Seu companheiro deve fazer uma forma que interfira na forma do colega dando a ideia de ser uma imagem. O primeiro sai, olha a forma que seu companheiro está e cria outra forma corporal que em relação à posição de seu colega, criando outra imagem. Esse exercício tem o intuito de deixar mais claro o que Quito diz em suas aulas que “um movimento levar a outro movimento que leva a uma imagem que leva a uma ideia” e ainda “as imagens já estão contidas no movimento”.
Na sequência, as duplas fazem a mesma dinâmica, mas a imagem aqui formada, antes de ser desfeita, sugere uma continuação da cena por um momento executada pelos participantes. Pela primeira vez aparece a imagem se transformando em ação.
Até aqui, trabalhou-se a forma revelando possíveis imagens “contidas” nele. Como já foi feita a passagem da imagem para a ação, começa-se, aos poucos, retroceder para o momento de transformação da forma sem sentido para a imagem.
Propõe-se um exercício também criado nessa pesquisa em que um integrante da dupla faz uma forma corporal. Seu colega diz o que parece essa forma. O primeiro age conforme a imagem sugerida. Por exemplo, uma pessoa levanta o braço, a outra diz que parece uma despedida. A pessoa com o braço levantado aproveita a mão levantada para acenar para alguém que está partindo. Depois invertem os papeis no jogo. O movimento transforma-se em imagem pelo olhar de quem está de fora, que, por estar de fora, é privilegiado. Com isso, quem faz o movimento aprende as possibilidades do movimento e a lógica do Movimento-Imagem pelo que seu companheiro fala.
A continuação desse exercício é com o companheiro não dizendo o que parece, mas se relacionando com uma ação que sugira o que o outro está fazendo. Por exemplo, se a posição do aluno é com o braço levantado e isso dá a ideia de uma despedida, o segundo jogador faz o papel da pessoa que está partindo, que vai servir de sugestão para o primeiro. É o mesmo princípio dos exercícios de personagem de Spolin, em que outros definem quem é a personagem de um jogador. Mas, aqui, o outro define a imagem. Novamente, a conexão
das imagens elaboradas com um parceiro é enfatizada para evitar imagens que não comuniquem nada à plateia. Esse exercício já não precisa da fala que enuncia a imagem, mas tudo é comunicado com o corpo.
Uma variante para esse mesmo exercício é a que um integrante monta, com o corpo do outro, uma estátua, quem é colocado na posição acha a ação que poderia se transformar naquela forma. Agora, o movimento é criado por quem está fora, e quem está sendo “moldado” tem o papel de se examinar como se estivesse examinando o corpo de seu colega. Ele está na imagem, pois é seu corpo que é moldado, mas está fora da imagem se observando. O seu colega montar a imagem no seu corpo serve para que ele crie um distanciamento com essa forma criada.
Volta-se novamente para o grupo todo. Nessa prática, forma-se uma roda. Um participante vai para o centro da roda e define um movimento repetitivo. Um a um, cada integrante na roda entra com uma ação complementar dando sentido para o movimento de quem está no meio e desenvolve-se uma cena curta. A pessoa que está no centro volta para o movimento original e o outro sai para entrada do próximo integrante da roda que escolhe outra maneira de se relacionar com aquele movimento dando um novo sentido.
É interessante fazer esses exercícios de tempos em tempos para exercitar a passagem do movimento para imagem. Esse procedimento possibilita a percepção de que um mesmo movimento pode ser muitas coisas, que na verdade ele é só um estímulo para a criação. Esse exercício é para exercitar essa percepção.
Uma variante é que um grupo de pessoas se alinha de frente para a plateia. Escolhe- se um movimento comum a todos da fila. Um por vez deve começar fazendo o movimento e transformar em uma ação. Nesse momento, volta a executar o movimento original e encontra outra ação. Essa atividade é repetida por essa pessoa para formar o máximo de ações possíveis com a mesma imagem sem tempo para pensar, deixando o movimento a levar a uma imagem em movimento. Quando a pessoa não consegue transformar em nova ação, passa-se a vez para a outra pessoa que está ao seu lado. Quem está fora conta quantas
imagens uma mesma pessoa consegue fazer partindo de um mesmo movimento como uma espécie de competição entre os participantes. É possível fazer uma variação desse exercício, com cada um tendo um movimento diferente também.
Esse exercício deixa claro o quanto o performer compreendeu a ideia do Movimento- Imagem e quão exercitado está. Com a prática desse exercício em vários encontros o grupo melhora muito e passa a fazer a passagem do movimento para a imagem mais facilmente.
Voltando um pouco com o trabalho de transformação de movimento em imagem para abordar os mesmos conceitos por uma outra perspectiva, volta-se ao trabalho em dupla. O jogo agora é imaginar que um dos integrantes da dupla tem uma gota de chocolate passeando dentro do corpo. O jogador vai se mexer para conduzir a gota pelas dobras, entradas, partes escondidas antes de lançar a gota para seu parceiro. Devem imaginar como se o corpo fosse um labirinto a ser explorado pela gota. Esse exercício leva os atores a relacionarem seus movimentos a uma espécie de diálogo, mas sem fixar um sentido ainda.
Essa prática sofre algumas alterações e evolui com a gota imaginária saindo do corpo, tornando-se uma bexiga imaginária que é jogada entre os dois colegas. Com o tempo, a bexiga pode ir mudando de tamanho e peso e, num período seguinte, também a forma pode ser alterada transformando a bexiga em qualquer objeto imaginário antes de ser lançado para o colega. É uma prática que lembra alguns jogos de Spolin com objetos imaginários, mas aqui a relação entre os parceiros é mais enfatizada.
A evolução final desse exercício se dá com a sublimação do objeto imaginário e ficando apenas a relação. Pode-se fazer movimentos ou ações que o colega tem que responder, transformar e repropor.
A seguinte improvisação que chamo aqui de improvisação sobre os três tempos é uma interessante continuação. Consiste num jogo que começa com todos deitados no chão. Periodicamente, o propositor fala a palavra “tempo”. As pessoas podem levantar no primeiro, no segundo, ou no terceiro tempo. Não podem passar mais de três deitados no chão. Cada
um escolhe em qual das três sinalizações quer levantar. Quando se levanta, a pessoa deve imediatamente se relacionar com alguém. Caso levante sozinho, deve pelo movimento achar uma ação para seu “solo”. Da mesma maneira que os integrantes têm um limite de três tempos para levantar, eles têm um limite de três tempos para voltar a deitar e abandonar o jogo.
Esse exercício obriga ao praticante configurar o movimento em imagem sem ter tempo de programar seu movimento. O participante cria a imagem no contato com o colega e evita imagens que não tenham função comunicativa.
Refazendo o caminho para compreensão do Movimento-Imagem pelos praticantes, utiliza-se o caminho feito com práticas de Paoli-Quito.
Um dos exercícios é o exercício das pausas. O grupo faz uma improvisação de Dança Livre/Movimento Improvisado com o foco em uma exploração específica de movimento e em determinado momento o coordenador da prática diz “Pausa”. Então, pede-se que metade da turma saia da pausa e observe a outra parte da turma que está pausada. Cada um está numa posição e sugerem imagens a quem observa.
Segundo Paoli-Quito, quando se está numa de terminada posição em pausa e se muda de posição, modifica-se a imagem, a pessoa está diferente daquilo que estava antes, já não é mais a mesma imagem. E para chegar da pausa até esta nova imagem, a pessoa fez uma série de pequenos movimentos para que resultasse na segunda posição. A cada instante, transforma-se a movimentação. O objetivo é que o intérprete esteja consciente que cada instante de movimento existe e que essa alteração, a cada instante de movimento, muda a imagem. Um movimento leva a outro movimento, para se chegar num gesto, para se chegar numa intenção, para se chegar numa sensação.
Em cada instante, existe, numa improvisação, sensações de movimento, tanto de movimentos no espaço quanto de movimentos internos. Cada uma dessas imagens constituem ideias. Quito dá o exemplo do que seria imagem “quando olho uma pessoa que
está numa determinada posição, pode-se dizer que ela pode estar esperando, conversando, ela pode estar mais aberta, mais fechada”.
No procedimento seguinte, três pessoas devem entrar em cena (o número de pessoas pode variar). Uma pessoa entra em cena primeiramente e se movimenta (num fluxo contínuo), só poderá entrar em cena um outro jogador, quando essa primeira pessoa que entrou, pausar. A segunda que entrou em cena, se movimenta e ela poderá pausar na hora que desejar. Mas, do momento que a segunda pessoa entrou, a primeira poderá se movimentar quando desejar. Se caso as duas pessoas pausarem juntas, elas só poderão sair da pausa quando as duas se movimentarem em uníssono. Quando o terceiro jogador entra em cena, essa estrutura vai se tornando mais difícil e as composições no espaço vão aumentando. Os jogadores, em algum momento, deverão pausar. Mas somente poderá sair da pausa se duas ou mais pessoas voltarem a se movimentar ao mesmo tempo.
Através das pausas, os atores percebem quais as imagens estão criando no espaço e a relação dessas imagens com os corpos dos colegas. Esse exercício traz, portanto, a escuta entre os participantes e a percepção da composição espacial.
O exercício subsequente é o que Quito chama de “Entradas e Saídas”. A regra é que a pessoa, explorando movimentos com um foco específico (por exemplo, movimentos partidos da coluna) deve entrar em cena com um objetivo – entrar para sair. Isso significa que a única certeza que a pessoa tem é que terá de sair. Porém, para entrar, 1) é necessário estar atento para “o que te mobilizou para entrar?”, em termos teatrais, “qual foi a deixa?”; 2) ter claro um foco de pesquisa em seu próprio corpo, para começar e desenvolver; 3) se tiver alguém em cena, perceber qual o melhor momento para entrar, ou seja, esse critério demanda perceber o fluxo de construção, ápice e destituição de uma cena; 4) perceber os movimentos-imagens criados; 5) perceber seu tempo de permanência em cena; 6) saber o momento de sair de cena; e 7) saber como sair sem destruir o que foi ou está construído. A importância desse exercício está justamente no fato de que ele é a conjunção de todos os recursos desenvolvidos no treinamento para a realização de um jogo de improvisação. Tal
como uma repetição de cena no ensaio de teatro com texto dramático, o jogo de entradas e saídas e suas regras constitui uma espécie de “repetição” da improvisação.
Um exercício interessante que amplia a compreensão das possibilidades do Movimento-Imagem é o “motor”. O Movimento-Imagem é o motor que impulsiona a cena. Existem os seguintes motores:
Ação Lugar
Personagem Texto (fala)
Sensação (fome, frio, dor, desejo, sede...) Estado de animo (euforia, medo, alegria...)
Significa que o Movimento-Imagem pode sugerir não apenas uma ação, mas, por exemplo, uma sensação. Uma sensação pode gerar não apenas outra sensação, como pode sugerir um texto ou um estado, ou um personagem... É essa sensação (assim como os outros “motores”) que tem o poder de catapultar o ator para a cena. O exercício chama-se Porta.
Começa com todos em círculo. Uma pessoa vai à frente da outra e abre uma porta imaginária. A pessoa do outro lado da porta imaginária faz uma ação (1º. Motor) – entra fazendo alguma coisa. Quando se estabelece o que está acontecendo, podem entrar algumas outras pessoas (nem que seja apenas para fazer uma sonoplastia). Depois de um tempo, refaz a mesma prática com a segunda pessoa mostrando o lugar (2º. Motor). Vai-se refazendo o jogo com cada um dos motores.
O fato de criar trilhas diferentes de procedimentos rumo ao entendimento do que é o Movimento-Imagem traz ao praticante uma maior dimensão desse trabalho.