2 IMPACTO, POLUIÇÃO E DANO AMBIENTAL SOB A ÓTICA DOS PRINCÍPIOS DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, DA
2.2 Conceito de impacto, poluição e dano ambiental
2.2.1 Impacto ambiental
Dessa forma, não há que se sentir injustiçado o consumidor, pelo desembolso desse maior valor. Não fosse sua demanda por bens e serviços, as atividades degradadoras (ou pelo menos a maior parte delas) sequer existiriam.
Temos uma definição legal de impacto ambiental. A Resolução CONAMA 01/1986, que disciplina o licenciamento ambiental e o EPIA/RIMA, dispõe:
“Considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam: a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e a qualidade dos recursos naturais.” (art. 1º)108
Resta claro, portanto, que o impacto ambiental implica uma alteração das propriedades do ambiente. Mas não é só – pelo menos do ponto de vista legal.
Ou seja, não basta que ocorra uma alteração do entorno, é preciso que referida alteração afete (ou possa afetar) a saúde, segurança, bem-estar e todos os demais bens da vida citados pelo suso transcrito art. 1º. Contrario sensu, qualquer modificação que não repercuta sobre estes valores, não consistirá, aos olhos da lei, em impacto ambiental. E, não consistindo em impacto ambiental, será juridicamente irrelevante.
108 Sobre os bens lesados pelo impacto ambiental, discorre Paulo de Bessa Antunes: “As alterações desfavoráveis à saúde são óbvias por si próprias. Todo projeto que implique repercussão sobre a saúde coletiva de uma determinada comunidade deve ser tido como impactante. A segurança deve ser entendida como segurança social contra riscos decorrentes da inadequada localização de materiais tóxicos, alteração significativa nas condições de fixação do solo, possibilidade de enchentes, desabamentos etc. Não se pode deixar de mencionar os riscos de ampliação de índices de criminalidade e outros que afetam desfavoravelmente a segurança. Quanto ao bem-estar, este deve ser compreendido como um conjunto de condições que definem um determinado padrão de qualidade de vida que deve ser aferido levando-se em conta as condições peculiares de cada comunidade especificamente considerada.
As atividades sociais e econômicas dizem respeito ao emprego, ao modo de produção da riqueza e dos bens, guardando-se como referencial as populações que vivem em uma determinada região. Os projetos de intervenção no meio ambiente serão socialmente nocivos se, em sua execução, implantação e funcionamento, implicarem desagregação social.
Efeitos desfavoráveis sobre a biota são aqueles que dizem respeito, diretamente, às condições de vida animal e vegetal na região considerada.
Alteração das condições estéticas e sanitárias são as transformações que impliquem alterações de natureza paisagística ou visual ou mesmo olfativa, que possam acarretar doenças na coletividade.
Quanto à qualidade dos recursos ambientais, o projeto a ser implantado não poderá trazer alterações qualitativas aos recursos, tais como enfraquecimento genético de espécies, diminuição de padrões de concentração de determinados elementos etc.” (Ob.cit., p.258).
Quanto à carga de negatividade e positividade do impacto ambiental, temos que este pode ser negativo ou positivo, caracterizando-se o primeiro “quando a ação resulta em um dano à qualidade de um fator ou parâmetro ambiental” 109 e o segundo “quando a ação resulta na melhoria da qualidade de um fator ou parâmetro ambiental.”110
Todavia, a falta de objetividade do art. 1º da Resolução CONAMA 01/1986, ao definir o impacto ambiental, tem permitido a divisão do entendimento doutrinário em duas correntes, uma que vislumbra o impacto apenas sob a ótica dos prejuízos (impacto negativo), outras que o vislumbra pela ótica dos prejuízos e dos ganhos (impacto negativo e positivo).
Da primeira corrente que fazem parte doutrinadores do calibre de Edis Milaré, Helita Barreira Custódio, Álvaro Luiz Valery Mirra, dentre outros.
Edis Milaré professa que impacto ambiental tem o sentido de choque ou colisão de “substâncias (sólidas, líquidas ou gasosas), de radiações ou de formas diversas de energia, decorrentes da realização de obras ou atividades, com danosa alteração do ambiente natural, artificial, cultural ou social”111, arrematando que “é o que se impinge à natureza, forçando ou contrariando suas leis.”112 (g.n)
Já Helita Barreira Custódio, buscando uma definição técnica de impacto ambiental, revela-o como “o conjunto das repercussões e das conseqüências que uma nova atividade ou uma nova obra, quer pública ou privada, possa ocasionar ao ambiente”113 e associa-o, ainda, a uma forma danosa de alteração do ambiente natural, cultural, social ou econômico, com sérios prejuízos à qualidade ambiental.
109 Dicionário Ecológico Ambiental da Ecol News. Disponível em
<http://www.ecolnews.com.br/dicionarioambiental/> Acesso em 24 jan.2007.
110 Ibidem.
111 Direito do Ambiente, p. 492.
112 Ibidem, mesma página.
113 Legislação brasileira do estudo de impacto ambiental, p.39.
Álvaro Luiz Valery Mirra encerra que o impacto ambiental consiste em
“alteração drástica e de natureza negativa da qualidade ambiental.”114 (g.n)
Na corrente que sustenta visão mais abrangente do impacto ambiental estão Paulo de Bessa Antunes, Luís Filipe Colaço Antunes, Ricardo Kohn de Macedo, Talden Farias, Antonio Inagê de Assis Oliveira, entre outros tantos.
Quando se põe a definir impacto ambiental, Paulo de Bessa Antunes115 nota que ele é sempre tratado como um acontecimento negativo. No entanto, em seu entender, o impacto ambiental é o resultado da uma intervenção humana sobre o meio ambiente, que pode ser negativo ou positivo, dependendo da qualidade da intervenção desenvolvida. Nessa colocação, é acompanhado por Luís Filipe Colaço Antunes, que, definindo o impacto ambiental como “a alteração global das condições ambientais originárias e a nova situação referida directa ou indirectamente à intervenção humana considerada”116, assevera que essa noção de impacto ambiental “engloba qualquer alteração da realidade existente, primária ou secundária, positiva ou negativa, causada directa ou indirectamente por um evento.”117 (g.n)
A mesma observação é feita por Ricardo Kohn de Macedo, para quem o impacto ambiental constitui-se em qualquer modificação dos ciclos ecológicos em um dado ecossistema, sendo que “a ruptura de relações ambientais normalmente produz impactos negativos, a não ser que essas relações já refletissem o resultado de processos adversos.”118 (g.n). Por outro lado, “o fortalecimento de relações ambientais estáveis constitui-se em um impacto positivo.”119 (g.n). Além disso, certas intervenções introduzem novas relações ambientais em um ecossistema.
“Neles há que se efetuada a análise de todos os seus efeitos, de modo a
enquadrá-114 Impacto ambiental, p. 28.
115 Direito Ambiental, p. 256.
116 O procedimento administrativo de avaliação de impacto ambiental, p. 316.
117 Ob. cit., p. 316, nota de rodapé.
118 A importância da avaliação ambiental, p. 24.
119 Ibidem, mesma página.
los, um a um, como benefícios ou adversidades. Em suma, os impactos ambientais afetam a estabilidade preexistente dos ciclos ecológicos, fragilizando-a ou fortalecendo-a”120 (g.n).
ambiente, independentemente de ser um impacto positivo ou negativo.”121 (g.n)
, que é neutro, podendo indicar uma afetação positiva ou negativa. E complementa:
a ente os mesmos, ou, até os repetindo também restritivamente.” 122
Somos obrigados a nos render à segunda corrente.
itos positivos da intervenção humana no ambiente, esse é o seu comando implícito.
.
Sem destoar, Talden Farias teoriza que “impacto ambiental é qualquer impacto que o ser humano causa sobre o meio
Ainda nessa linha mais abrangente, Antonio Inagê de Assis Oliveira é o doutrinador que vai mais fundo na argumentação em defesa da contemplação do impacto ambiental negativo e positivo na definição legal dada pelo CONAMA. Para ele, o art. 1º da Resolução CONAMA 01/1986 se vale do termo “afetem”
“Um empreendimento pode, por exemplo, beneficiar as condições sanitárias do meio ambiente, aumentando o bem estar da população ou afetar, ainda que indiretamente, de forma negativa, essas mesmas condições, prejudicando-o.
Nota-se também que a Resolução considera impacto qualquer
‘alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente’ e não apenas aquelas que levem à degradação ou poluição. Se tencionasse dar-lhe sentido apenas negativo em relação à higidez ambiental, teria sido mais simples remeter-se às definições contidas no art. 3º da Lei 6.938/1981, ou, seguindo seu texto, mencionar apenas ‘alteração adversa’ (degradação) ou poluição, sem precisar repetir os parâmetros afetados da definição legal desta figura, que são rigoros m
Para nós, ainda que a definição de impacto ambiental esposada pela Resolução CONAMA 01/1986 não abarque explicitamente os eventuais efe
120 Idem, ibidem, mesma página.
121 Licenciamento ambiental: aspectos teóricos e práticos, p. 56.
122 O licenciamento ambiental, p.149-50.
Como observa Antonio Inagê de Assis Oliveira, no trecho supra destacado, a Lei 6.938/1981, ao definir poluição e degradação ambiental, deixou bastante clara a natureza negativa de ambos os fenômenos, pois os associou a uma alteração ADVERSA do meio ambiente e, quanto a poluição, chamou-a de PREJUDICIAL à saúde, à segurança e ao bem-estar da população. Já a Resolução Conama 01/1986 preferiu chamar o impacto ambiental de alteração das propriedades ambientais que afete determinados bens e valores, sem dizer se esse afetar deve ser para o bem ou para o mal.
fetar em seu segundo sentido, encontrará na norma o impacto negativo e positivo.
ém, ser mais neutra, deixando de lado termos como ADVERSIDADE e PREJUÍZO.
De fato, o uso do termo afete, desacompanhado de outro termo que o qualifique, não é feliz. Afetar, no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa pode significar tanto “atingir, produzindo lesão” como “dizer respeito a, interessar, concernir, atingir.”123 Quem entender que a Resolução CONAMA 01/1986 emprega o termo afetar em seu primeiro sentido, enxergará na norma apenas o impacto negativo. Quem, pelo contrário, tomar o termo a
Se a Resolução CONAMA 01/1986 quisesse dotar o impacto ambiental apenas de caráter negativo, poderia ter usado o conceito já existente na Lei 6.938/1981, que define degradação e poluição ambiental como fenômenos negativos, i.e, prejudiciais do meio ambiente. Preferiu, por
Demais disso, se a Resolução CONAMA 01/1986 “olvidou-se” de incluir expressamente os efeitos positivos do impacto ambiental no art. 1º, lembrou-se de citá-los textualmente em outra oportunidade, mais precisamente no art. 6º, que estabelece o conteúdo mínimo do Estudo de Impacto Ambiental (EIA). No inc. II deste artigo, exige sejam analisados os impactos ambientais do projeto e de suas
123 Disponível em http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=afetar&stype=k Acesso em 28 nov.
2006.
alternativas, “através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes, discriminando: os impactos positivos e negativos (benéficos e adversos), diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários e permanentes; seu grau de reversibilidade; suas propriedades cumulativas e sinérgicas; a distribuição dos ônus e benefícios sociais.”
(g.n).
actos ambientais negativos não mitigáveis, ou seja, em caso de danos ambientais.