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Braxton, Milem e Sullivan (2000) destacam que dentre as diversas teorias que tentam compreender o fenômeno da evasão, a teoria de Tinto está próxima ao status de paradigma. Isto se deve ao número de trabalhos, mais de 400 citações e 170 dissertações, que usam tal modelo teórico para a compreensão da permanência no ensino superior.

O modelo teórico que explica os motivos que levam o estudante a deixar a universidade antes de graduar-se, elaborado por Tinto, teve como princípios norteadores a produção de Spady sobre o tema, além de fundamentar-se na idéias de Durkheim sobre suicídio e na de Van Ganneps, como já relatado, sobre rito de passagem. A primeira versão da teoria foi elaborada em 1975. Desde então, o modelo vem passando por diversos ajustes, decorrentes das críticas e estudos realizados com base no mesmo, mas ainda conserva os elementos principais do modelo originário. Em 1997, Tinto apresenta uma nova alteração do modelo, que sugere uma ligação entre a sala de aula, aprendizagem e a persistência, versão que se mostra mais adequada para subsidiar este trabalho.

A seguir, encontra-se uma figura com uma representação da teoria, a fim de ilustrar a explicação que se segue.

Erro!

Figura 2: Modelo sobre a relação entre sala de aula, aprendizagem e permanência elaborado por Tinto.

Fonte: Tinto (1997, p. 615). Características de pré-ingresso Compromisso com objetivos (T1) Integração pessoal e normativa Esforço do estudantes Resultados educacionais Back ground da família Escolari- dade anterior Capacidades e habilidades Intenções Compro- misso com os objetivos institu- cionais Compromissos externos Compromisso com os objetivos (T2) Sistema social Sistema Acadêmico Integração acadêmica Integração social Qualidade do esforço estudantil Aprendizagem Intenções Perma- nência Compromissos externos Compro- misso com os objetivos institu- cionais classes labora- tórios estúdio Tempo (T) Características de pré-ingresso Compromisso com objetivos (T1) Integração pessoal e normativa Esforço do estudantes Back ground da família Escolari- dade anterior Capacidades e habilidades Compromissos externos Sistema social classes labora- tórios estúdio Tempo (T)

De acordo com Tinto, a permanência na universidade é o produto de um complexo cenário de interações longitudinais entre fatores pessoais e institucionais. Assim, o estudante ingressa na universidade com um conjunto de atributos que incluem: o background familiar, suas próprias habilidades e sua escolaridade anterior. Estes elementos, além de outros compromissos externos do estudante, exercem uma força direta sobre suas metas e compromissos iniciais com o graduar-se e com a instituição, além da intenção de concluir o curso superior. Tais metas e compromissos influenciam a maneira como o estudante irá interagir e se envolver com as experiências institucionais tanto relacionadas ao sistema acadêmico como social. São nesses sistemas, que incluem as aulas, laboratórios, bibliotecas, organizações atléticas, entre outros, que o estudante tem a oportunidade de interagir com seus pares e professores. As experiências com as quais o estudante se envolve ao longo da graduação têm um impacto direto sobre a integração acadêmica e social na instituição, levando o mesmo a reconstruir suas metas e compromissos iniciais, de forma a influenciar na sua permanência ou não no ensino superior.

Ainda com relação à participação do estudante nos cenários acadêmicos e sociais, Tinto pressupõe que ambas formas de participação podem afetar a formação do estudante, contribuindo para a ampliação da qualidade do esforço do mesmo nas atividades acadêmicas, que seria responsável pela ampliação no aprendizado do estudante e conseqüente decisão de permanecer ou evadir.

A partir dessas colocações, um ponto a ser levantado diz respeito à origem das influências. Seriam as interações que levariam os estudantes a uma alteração no desempenho acadêmico ou os estudantes, dependendo do seu rendimento, que desenvolveriam interações distintas com os agentes de socialização? No que se refere às relações entre os estudantes, não foram localizados estudos sobre esse tema na literatura. Bean e Kuh (1984) realizaram um estudo buscando avaliar o grau de reciprocidade entre o contato com professores e o desempenho acadêmico. Para nenhum dos grupos de estudantes analisados foi estatisticamente significante o efeito do contato com professores sobre o rendimento acadêmico e vice-versa. Contudo, para as alunas do sexo feminino, tanto matriculados no primeiro como no segundo ano da universidade, ainda que os dados não tenham sido estatisticamente significantes, apontam, com um pouco mais de força, a influência das interações com os professores sobre o rendimento acadêmico dos estudantes. Ainda que não tenham sido analisadas as interações dos estudantes com seus pares, o estudo de Bean e Kuh (1984) mantém a hipótese apresentada por este estudo, a qual sugere que as interações

influenciam o rendimento acadêmico do estudante, mas que o mesmo não se verifica no sentido inverso.

Além disso, Tinto (1997) ressalta a existência de uma ligação importante entre a permanência e aprendizagem, sendo esta última influenciada pela qualidade do esforço do estudante. Além disso, Tinto, Goodsell e Russo (1993, apud Tinto, 1997, p.625) fazem uma ressalva interessante no que diz respeito ao envolvimento do estudante:

Quanto mais o estudante estiver envolvido, acadêmica ou socialmente, em experiências de aprendizagem compartilhadas que façam a ligação dos aprendizes com os seus pares, mais prováveis são de tornarem-se envolvidos na própria aprendizagem e investir o tempo e a energia necessários para tal.

Tinto destaca, portanto, que algumas experiências poderiam facilitar o envolvimento do universitário nas atividades acadêmicas e, dentre essas, há um conjunto de atividades que envolvem as interações com os pares e os conteúdos acadêmicos, especificamente descrito pelo autor como aprendizagem colaborativa. Isso já havia sido anunciado pelo autor na revisão de sua obra em 1993, destacando que o envolvimento com um par ou com professores,

tanto dentro como fora da sala é, em si, positivamente relacionado com a qualidade do esforço do estudante e, por sua vez, com ambas: aprendizagem e permanência (TINTO,

1993, p.71).

O autor apresenta, ainda, que é tênue o limite entre o envolvimento acadêmico e social, principalmente naquelas atividades que envolvem interações. Contudo, ressalta que as duas formas de envolvimento, tanto acadêmico como social, levam o estudante a aumentar a qualidade do esforço. O aumento no esforço leva à ampliação na aprendizagem no sentido de ampliar também a persistência (ENDO E HARPEL, 1982). As colocações acima são importantes para o presente trabalho visto que é provável que todas as interações de natureza acadêmica, que os estudantes estabeleçam com seus pares, envolvam componentes sociais. Contudo, não há certeza se as interações com cunho exclusivo social, por não envolverem o componente acadêmico, influenciariam o envolvimento acadêmico do estudante. Ao contrário, a literatura, conforme já apontado nos estudos de Astin (1993), destaca que, nessas situações, a influência seria negativa.

Tinto (1997) constata que as atividades colaborativas, por envolverem conteúdos acadêmicos e exigirem interações entre os estudantes, conseguem realizar a ligação entre os cenários acadêmicos e sociais. O autor sugere que os universitários têm preferências por atividades que possibilitem fazer amigos e aprenderem ao mesmo tempo. Isto se torna mais

presente para os estudantes que trabalham ou viajam diariamente e que têm condições temporais limitadas para a interação com os pares. Contudo, a aprendizagem colaborativa é uma das formas de interação que o estudante pode estabelecer com seus pares e a eficácia da dimensão interativa na aprendizagem incita questionamentos sobre o papel que outras relações que o estudante estabelece com universitários, não exploradas no modelo, possam ter sobre a aprendizagem e o esforço na realização das tarefas.

Assim, um ponto que merece destaque no modelo de Tinto, comparando às contribuições de Pascarella (1985), é que o autor amplia as análises das interações estabelecidas pelos estudantes, quando as insere dentro dos sistemas acadêmicos e sociais da instituição, abrindo caminhos para qualificar as interações sociais e acadêmicas. Tinto (1997) ainda levanta a questão sobre a influência do conteúdo das interações com os pares, seja acadêmico ou social, no envolvimento acadêmico e a aprendizagem dos estudantes. O pequeno número de publicações sobre o tema na realidade nacional faz com que a questão pontuada por Tinto seja central para o problema de pesquisa apresentado neste estudo.

Ressalta-se que o presente trabalho não busca um aprofundamento sobre o processo de permanência do estudante no ensino superior mas sim, focar na participação do estudante nos sistemas acadêmicos e sociais da universidade e a influência disso no esforço despendido na realização das atividades acadêmicas. Retomando as colocações de Tinto (1993), quando o autor se refere aos sistemas acadêmicos e sociais, deve-se ter cautela para que não sejam compreendidos como campos distintos, pois estes dois sistemas estão relacionados formando a vivência universitária. Didaticamente, opta-se por tais categorizações, mas não se pretende desmerecer a simultaneidade desses sistemas, sendo que postulamos que o ambiente acadêmico incorpora elementos do sistema social e vice-versa.

Além disso, e como anteriormente apresentado, a literatura tem destacado que a importância dos pares ocorre principalmente, pelo elemento motivacional que desencadeia, deixando o estudante mais ativamente interessado no próprio processo de aprendizagem e, portanto, mais envolvido nas tarefas acadêmicas. Além disso, os pares também influenciam a percepção de suporte social fornecido aos estudantes. Sabe-se que o suporte social oferecido pelos pares, familiares entre outros, é fundamental para o enfrentamento das diversas transições, inclusive para aquelas que o ambiente acadêmico disponibiliza ao estudante (SARASON, SARASON e PIERCE, 1990).

Tinto (2006), ao discutir propostas para ampliar a aprendizagem do estudante, destaca que o suporte, tanto acadêmico, social como financeiro, é condição fundamental para que ocorra a aprendizagem do estudante. Isso se deve ao fato de que o suporte fornecido pelos

diversos agentes de socialização cria condições para os estudantes enfrentarem os desafios inerentes à vida acadêmica e se envolverem nas experiências disponibilizadas pelas instituições.

No que se refere aos referenciais apresentados, os modelos de Tinto (1997) e Pascarella (1985) apresentam convergências no que se refere ao papel das interações com os agentes de socialização sobre o envolvimento do estudante. Essa relação foi teoricamente elaborada, sendo que a proposta do presente estudo, considerando a escassez de estudos nacionais sobre o tema, é testar empiricamente o ajuste dos dados empíricos a uma parte desses dois modelos, especificamente na influência sobre o envolvimento acadêmico das interações que os estudantes estabelecem com os pares.

Com a finalidade de construir as bases teóricas para a compreensão de tais relações, na seqüência são apresentados os principais conceitos relacionados ao princípio do envolvimento.