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A Figura 4-2 apresenta uma panorâmica estilizada das principais implicações possíveis através dos quais um choque petrolífero influência os preços. Os aumentos dos preços do petróleo afetam diretamente os preços ao consumidor, dado que os seus

derivados fazem parte da cesta de consumo das famílias. Além disso, podem ter um efeito indireto sobre os preços no consumidor através do aumento dos preços ao produtor. Além do mais, podem existir outras repercussões nos preços no consumidor se os aumentos dos preços devidos a preços do petróleo mais elevado se refletirem em salários mais elevados ou, de um modo mais geral, nas expectativas de inflação.

Figura 4-2–Principais implicações de um choque petrolífero aos preços (Elaboração própria).

Relativamente aos efeitos diretos, a Figura 4-3 abaixo ilustra a estreita ligação entre os movimentos dos preços do petróleo e as rubricas relacionadas com o petróleo – petróleo para aquecimento e combustíveis para transportes – incluídas na componente energética do IHPC (índice de preços ao consumidor da Comunidade Européia). Os preços destas duas rubricas reagem quase de imediato aos aumentos dos preços do

petróleo, ou seja, durante o mês do choque ou no mês seguinte, o que poderá estar em parte relacionado com o período de repasse de preços.

Figura 4-3–Preços do petróleo e rubricas selecionadas dos produtos energéticos no IHPC

(BCE, 2004).

Os preços dos outros produtos energéticos substitutos do petróleo, como o gás, também seguem a evolução dos preços do petróleo, mas geralmente são afetados com algum atraso. Analisando a componente de energia total do IHPC, uma regra prática muitas vezes usada sugere que um aumento de 10% nos preços do petróleo, leva a um aumento de 1,5 pontos percentuais da taxa de variação homóloga dos preços no consumidor dos produtos de energia dentro de cerca de meio ano. Como os produtos de energia têm um peso de aproximadamente 8-9% do IHPC global, tal traduz-se num aumento direto de 0.1-0.2 pontos percentuais na inflação total dos preços ao consumidor (EIA, 2004b).

Como indicado acima, os preços ao consumidor também podem ser indiretamente afetados, uma vez que as empresas, ao enfrentarem preços dos fatores de produção do petróleo mais elevados, tentarão passar estes aumentos dos custos aos respectivos preços de venda (ou seja, preços ao produtor), de forma a manter ou restabelecer as respectivas margens de lucro. Posteriormente, estes aumentos dos preços mais gerais podem ainda transmitir-se aos preços de outros produtos (não relacionados à energia) e serviços incluídos no índice de preços no consumidor. O grau em que estes aumentos dos custos são transmitidos às fases de preços subseqüentes é afetado por fatores como as pressões de mercado e a situação do ciclo econômico. Dado que a transmissão de um aumento dos custos aos preços ao longo da cadeia de oferta não é imediata, o impacto indireto de um choque petrolífero sobre os preços no consumidor é mais defasado e leva mais tempo do que o efeito direto. Mesmo que os efeitos diretos e os indiretos de um aumento permanente dos preços do petróleo tenham um impacto duradouro sobre o nível do índice de preços no consumidor, a taxa de inflação, no inicio, é apenas temporariamente afetada. Contudo, embora o impacto sobre a taxa de inflação resultante do efeito direto seja de duração relativamente curta, o impacto do efeito indireto é mais prolongado devido à sua transmissão mais lenta e gradual.

Além dos efeitos diretos e indiretos, normalmente caracterizados como efeitos de primeira ordem, existe o risco dos chamados efeitos de segunda ordem, que podem exercer novas pressões ascendentes sobre os preços ao consumidor. Os efeitos de segunda ordem referem-se tipicamente à situação em que os aumentos dos preços de primeira ordem são tidos em conta no processo de negociação salarial subseqüente, por forma a compensar a queda do rendimento real o que, por sua vez, aumentará as expectativas inflacionárias exercendo novas influências sobre o comportamento da

fixação de preços. Se os trabalhadores obtiverem aumentos salariais mais substanciais em resultado do choque petrolífero, poderá desencadear-se uma espiral salários/preços. As empresas que enfrentarem reivindicações salariais mais fortes poderão ser forçadas a aumentar de novo os respectivos preços, o que, por sua vez, alimentará as expectativas inflacionárias, repercutindo-se na próxima ronda de negociações salariais. Assim, na presença de efeitos de segunda ordem, um choque petrolífero não só afeta permanentemente o nível dos preços como poderá desencadear efeitos mais persistentes sobre a inflação.

A probabilidade dos efeitos de segunda ordem varia de acordo com a situação macroeconômica global e depende da credibilidade e reação dos bancos centrais. Numa situação de abrandamento econômico, os efeitos indiretos e de segunda ordem terão menos probabilidade de ocorrer do que em condições de expansão, em que o mercado de trabalho é restrito e as pressões sobre os preços são elevadas. Do mesmo modo, enquanto o impacto direto “mecânico” de preços do petróleo mais elevados sobre a componente produtos de energia dos índices de preços no consumidor é inevitável, as eventuais pressões sobre os preços, relacionadas, nomeadamente, com efeitos de segunda ordem, dependem fortemente da ação do Banco Central e ainda da reação efetiva da política monetária. Com uma política monetária orientada para a manutenção da estabilidade de preços a médio prazo, haverá uma maior probabilidade de os trabalhadores aceitarem a redução no rendimento real e de as expectativas inflacionárias não serem afetadas pelo aumento temporário da inflação provocado pela subida dos preços do petróleo. No entanto, se as expectativas inflacionárias aumentarem, a política monetária ortodoxa fará subir as taxas de juro, de forma a conter as pressões inflacionárias resultantes dos efeitos indiretos e de segunda ordem em médio prazo.

Obviamente, uma reação salarial adequada, ou seja, a aceitação dos efeitos de um aumento dos preços do petróleo sobre o rendimento real, permite evitar eficazmente uma espiral inflacionária e perdas de produto.

O estudo da Agência Internacional de Energia de maio de 2004 mostra a correlação positiva entre a taxa de inflação e o preço do barril de petróleo em valores constantes tendo como base o ano 2000.

Figura 4-4–Taxa de inflação dos países da OECD e preço médio do petróleo importado (IEA,

2004b)

No caso da economia brasileira, a elevação dos preços internacionais do petróleo, a partir de fins de 1973, tem sido usualmente identificada como uma das causas básicas do processo de aceleração inflacionária. O repasse interno do aumento dos preços internacionais do petróleo exerceu forte impacto sobre a taxa de inflação, em função da estrutura do setor industrial e do sistema de transportes brasileiros, que apresentavam alto grau de dependência com relação ao petróleo importado.

Examinando-se os dados do período 1973-83, constata-se que a variação média do nível geral de preços foi da ordem de 17.000%, enquanto os preços médios de gasolina, óleo diesel e óleos combustíveis cresceram em torno de 40.000%, 32.000% e 71.000%, respectivamente (MARQUES, 1987). Ou seja, os preços médios dos derivados de petróleo variaram efetivamente acima da taxa de inflação, o que representou, sem dúvida, intensa pressão inflacionária ao longo desse período.