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1. A QUESTÃO ECOLÓGICA TRANSNACIONAL: POLÍTICA E DIREITO

1.1 CRISE SOCIOAMBIENTAL

1.1.2 Impasses do Direito e da Política Internacional do Meio Ambiente

Avançando, a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de

Joanesburgo88, África do Sul, realizada nos dias 02 a 04 de setembro de 2002,

ostentava um pano de fundo humanitário nobre – continente africano, berço da humanidade, espaço das origens e da afirmação de um futuro; homenageou a sustentabilidade, tema recorrente nos fóruns internacionais (e também objeto de modismos), trouxe a baila a progressão das contribuições dos eventos que lhe

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NAÇÕES UNIDAS. Declaração do Milênio. Cimeira do Milênio. Nova Iorque, 6-8 de setembro de 2000. Disponível em: http://www.unric.org/html/portuguese/uninfo/DecdoMil.pdf. Acessado em 15 de junho de 2012.

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A Declaração das Nações Unidas para o milênio, aprovada da Cimeira do Milênio, realizada de 06 a 08 de setembro de 2000, em Nova Iorque (EUA), coordenada pelo então Secretario Geral das Nações Unidas Kofi A. Annan, com base nas preocupações de 147 chefes de Estado e de governo, assumiu a tarefa de expor alvos concretos para realização das necessidades reais das pessoas por todo o mundo. O documento contempla a importância da cooperação internacional e valores fundamentais para essas relações no século XXI – liberdade, igualdade, solidariedade, tolerância, respeito à natureza e responsabilidade comum. Transportando esses anseios para o campo das ações, reafirmou os compromissos com os enunciados da Agenda 21, cumprimento das metas do Protocolo de Quioto, Convenção da Biodiversidade, Convenção da Desertificação, insistiu no término de uso e exploração insustentáveis dos recursos naturais.

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NAÇÕES UNIDAS. Declaração de Joanesburgo sobre Desenvolvimento Suustentável. Disponível em: www.mma.gov.br/estruturas/ai/_arquivos/decpol.doc. Acessado em 15 de junho de 2012.

antecederam 89 e o imperativo de instituições multilaterais, democráticas e responsáveis com a causa, destacou os efeitos imanentes da globalização na concentração de riquezas e na distribuição dos índices de desenvolvimento, inventariou esse problema crônico com timidez na sistematização de ações pró-ambiente. Tomando de empréstimo a notoriedade da Eco-92, a conferência retrocitada permitiu-se a autorreferência de Rio+10, justamente para avultar o alpinismo da política internacional do meio ambiente. Na ocasião, entre alguns objetivos, um promissor, era comprometer-se com o Plano de Implementação da

Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável90 e com a aceleração do

cumprimento das metas socioeconômicas e ambientais, com prazo certo, nele

contidas91. No entanto, a maior parte dos objetivos contidos no documento não

consignava lapsos temporais a serem cumpridos, as disposições expostas, eram, de

fato, programáticas92.

Os níveis de exigência e de intolerância a instrumentos nada ambiciosos aumentaram exponencialmente nos últimos anos, o retorno de uma conferência em prol do meio ambiente e dos direitos humanos e fundamentais na cidade do Rio de Janeiro capturou um elevado espírito de otimismo, logrando êxito na reunião expressiva de pessoas e formação de uma massa crítica e engajada na resolução dos problemas socioambientais a partir de reformas estruturais na economia global. Ansiosamente se aguardava a sinergia e o diálogo entre os líderes mundiais e a sociedade civil organizada, grupos sociais, minorias etc, na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que teve início em 13 de junho de 2012 e término no dia 22. O cronograma desse evento previu sucessivas fases, a primeira, entre os dias 13 e 15, para seleção da pauta de negociações a cargo do

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Ibidem. Principio 5. Trinta anos atrás, em Estocolmo, concordamos na necessidade urgente de reagir ao problema da deterioração ambiental. Dez anos atrás, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, concordamos que a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento social e econômico são fundamentais para o desenvolvimento sustentável, com base nos Princípios do Rio. Para alcançar tal desenvolvimento, adotamos o programa global denominado Agenda 21 e a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, aos quais reafirmamos nosso compromisso.

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NAÇÕES UNIDAS. Plano de implementação da cúpula mundial sobre desenvolvimento sustentável. Disponível em: www.mma.gov.br/estruturas/ai/_arquivos/pijoan.doc. Acessado em 15 de junho de 2012.

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Ibidem. Princípio 36.

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Exceções podem ser observadas quanto as medidas necessárias a erradicação da pobreza (princípio 7, alínea a), fornecimento de água potável (princípio 8), melhoria das condições de vida nas favelas (princípio 11), implementação de um sistema de controle de produtos químicos e resíduos perigosos (princípio 23), elaboração de gestão integrada de recursos hídricos e de aproveitamento eficiente da água (princípio 26).

Comitê Preparatório; a segunda, dias 16 a 19 de junho, inaugurou os diálogos de desenvolvimento sustentável com os mais destacados atores do cenário internacional em matéria de meio ambiente e sustentabilidade; a terceira e última etapa, dias 20 a 22, encerrou mediante os debates e o acordo de chefes de estado e de governo dos países-membros das Nações Unidas, que integraram o Segmento de Alto Nível da Conferência.

É de conhecimento que os documentos que abriram as negociações do fórum abordavam uma série de questões pertinentes, temas polêmicos, ações incisivas, reformas necessárias, porém o que se observou foi a retirada desses assuntos, a comunidade internacional observou dia após dia, documento após documento, o esvaziamento dos embates políticos. Desta forma, as discussões gravitaram em torno de dois grandes temas e aspectos correlatos – Economia Verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza, e a estrutura das instituições do sistema ONU para a sustentabilidade. Ainda assim, não estavam comprometidos os horizontes filosóficos e hermenêuticos da questão ambiental, mas

o documento final, conhecido como Rascunho Zero93 , dirigiu uma proposta

pretensiosamente modernizante e conservadora, contrária às expectativas dos movimentos populares que lá se encontravam. A Cúpula dos Povos cooptou ambientalistas e ativistas para resistirem aos ranços e aos retrocessos políticos e proclamarem o interesse comum por justiça social e ambiental, contra a

mercantilização da vida, opressão e submissão94. Mais próxima das temáticas do

evento ambiental, a Cúpula dos prefeitos (C40) das maiores cidades do mundo comprometeu-se com um plano de diminuição dos gases de efeito estufa, a meta dos gestores públicos municipais é adotar ações e medidas concretas no desenvolvimento urbano de maneira a reduzir em 12% as emissões até 2016, para tanto, estreitou as relações com o Banco Mundial, que disponibilizará financiamento e assistência técnica a projetos sustentáveis e eficientes no controle das mudanças

climáticas95.

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NAÇÕES UNIDAS. Rio+20. O futuro que queremos. Disponível em: http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N12/381/67/PDF/N1238167.pdf?OpenElement. Acessado em 15 de junho de 2012.

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CÚPULA DOS POVOS. Declaração final. Disponível: http://cupuladospovos.org.br/wp-content/uploads/2012/06/Carta-final_Cupula-dos-Povos.pdf. Acessado em 15 de junho de 2012.

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A rede de cooperação intermunicipal agrega 58 megacidades do mundo, dessas apenas 03 são do Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, defende a ideia de cidades como centros de negociação e concretização dos compromissos ambientais, por esse motivo destaca o papel das lideranças e o agir localmente em sistema de cooperação. Os relatórios do C40 a seguir referenciados confirmam a

No bojo de consecutivas palavras de estímulo à sustentabilidade, tais como: reafirmamos, reconhecemos, ressaltamos, encorajamos, fortalecemos, e em prejuízo de compromissos bem delimitados, ciência e tecnologia assumiram um papel de destaque na reorganização da economia, do modo de produção e de consumo

mundial96. O caráter seletivo da difusão do progresso cientifico e tecnológico foi

devidamente abordado como obstáculo ao desenvolvimento, e por esse motivo os mecanismos de desenvolvimento limpo, produção de baixo carbono, fontes renováveis de energia e pagamentos por serviços ambientais foram apontados como ações necessárias. Ainda que as propostas tenham feito ressalvas quanto às características sociais, econômicas e políticas, aos distintos coeficientes de desenvolvimento dos países, enaltecendo o papel das coletividades, da inclusão social, no percurso até a sustentabilidade, as críticas procedem atacando a ausência de reconhecimento da autonomia dos grupos sociais, dos projetos de desenvolvimento endógeno e das tecnologias sociais. O teor da proposta da economia (ou do capitalismo) verde demonstra incentivar a abertura de novos nichos de mercado, o pagamento por serviços ambientais, onde os “bens” teriam um valor de troca e as tecnologias seriam responsáveis pela valoração e circulação desses

recursos97, prejudicando um legítimo dever de respeito à natureza e aos processos

ecológicos de valor inestimável.

Sobre a segunda linha temática da Rio+20 - capacitação das instituições das Nações Unidas, os dissensos travados pelos líderes mundiais impuseram prejuízos

preponderância das cidades na vida social e as responsabilidades no equilíbrio climático: Clima Action in Megacities: C40 Cities Baseline and opportunities, junho/2011; Measurement for management: CDP Cities 2012 global report, including especial rerpot on C40 cities, 2012; Quantifying the emissions benefit of climate action in C40 cities, junho/2012. Disponíveis em: http://www.c40cities.org/. Acessado em 25 de junho de 2012.

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Nações Unidas. Rio+20... Op cit. Princípio 73. Ponemos de relieve la importancia de la transferencia de tecnología a lós países en desarrollo y recordamos las disposiciones en materia de transferencia de tecnología, financiación, acceso a la información y derechos de propiedad intelectual acordadas en el Plan de Aplicación de las Decisiones de Johannesburgo, en particular el llamamiento a promover, facilitar y financiar, según proceda, el acceso a las tecnologías ambientalmente racionales y los conocimientos especializados correspondientes, así como su desarrollo, transferencia y difusión, em particular a los países en desarrollo y a los países con economías en transición, em condiciones favorables, inclusive en condiciones de favor y preferenciales, según arreglos mutuamente convenidos. Observamos también la ulterior evolución de lãs deliberaciones y los acuerdos sobre estas cuestiones desde la adopción del Plan de Aplicación de las Decisiones de Johannesburgo.

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A exemplo do que ocorreu no Brasil, nas décadas de 60 e 70, com a Revolução Verde, importação do pacote tecnológico para modernização da agricultura, feita mediante crédito e incentivos estatais ao setor produtivo, a aceitação indiscriminada de tecnologias pode gerar consequências prejudiciais a economia (endividamento estatal e desvalorização dos recursos públicos), êxodo rural e exclusão social nas periferias urbanas.

ainda mais pontuais. O documento exalta a conjugação das escalas de poder, a governança local, subnacional, regional, nacional e mundial, que se demonstra

eficaz quando representa as opiniões e interesses de todos98, desse modo,

considera imprescindível um sistema multilateral inclusivo, transparente e fortalecido com o dever de aproximar-se dos desafios mundiais urgentes que obstaculizam o desenvolvimento em bases sustentáveis, sendo reconhecido o papel central das

Nações Unidas nesse processo99 a ser desenvolvido a partir dos valores da

coerência e coordenação entre todas as agências e com devida prestação de

contas, informações, e intercâmbios com os Estados-membros100. Neste cenário, o

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente funciona como principal autoridade ambiental com a competência de definir atividades mundiais a favor do

meio do meio ambiente e da sustentabilidade101. Tamanha é a responsabilidade do

PNUMA, sendo-lhe assegurados recursos financeiros e o aumento da sua influência e capacidade, mas indeferido o reconhecimento do órgão como agência especializada, dificultando, por sua vez, a promoção e o gerenciamento de um fundo mundial bilionário para a sustentabilidade em países pobres, também em razão de uma aguda crise econômica internacional que imobilizou os chefes de estado dos Estados Unidos e de Alemanha e lhes restringiu o poder de negociação financeira.