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1. A QUESTÃO ECOLÓGICA TRANSNACIONAL: POLÍTICA E DIREITO

1.2 PARADIGMAS ÉTICOS E JURÍDICOS E DIREITOS

1.2.1 Tratados de direitos humanos e de meio ambiente

Até o século XX, os constitucionalismos reinavam nos territórios nacionais e o Estado liberal era o garantidor da ordem jurídica interna e o único responsável pela efetividade das liberdades e garantias individuais, e notadamente o principal violador

desses direitos105. A mudança de rota ocorrera em virtude da adoção de

103

Cf. CICCO, Claudio de. História do pensamento jurídico e da filosofia do direito. 3 ed. São Paulo. Saraiva, 2006.

104

LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos. São Paulo. Companhia das Letras, 2006.

105

As liberdades políticas e civis conquistadas na Inglaterra, França e Estados Unidos (Bill of Rights, Declaração da Independência dos EUA e Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão) foram importantes para a independência e soberania das colônias, mas insuficientes na inserção efetiva do ser humano no direito internacional. Para Celso de Mello (1997), as origens do sistema internacional dos direitos humanos remontam à filosofia política libera e às teorias contratualistas, ao pensamento protestante anglo-saxão (defensor da liberdade religiosa e da separação da Igreja e do Estado), e dos direitos históricos das colônias inglesas. Cf. MELLO, Celso D. Albuquerque. Direitos humanos e conflitos armados. Rio de Janeiro. Renovar, 1997.

documentos internacionais, para Casella, Accioly e Nascimento e Silva (2010)106 a tendência de internacionalização dos direitos humanos teve início com o Pacto da Sociedade das Nações e com a Carta da Organização Internacional do Trabalho, esses a favor dos direitos do homem, da mulher, da criança e das minorias. Os autores complementam no sentido de que uma vez adotado o regime internacional

dos direitos humanos, o mesmo está fase de ampliação e consolidação107, tendo em

vista a perspectiva de universalização, a mobilização dos organismos internacionais e dos Estados e o aumento crescente do número de tratados e convenções internacionais voltados para a problemática.

Após a Segunda Guerra Mundial, para se evitar a repetição dos odiosos atos de intolerância, discriminação e violência, a sociedade internacional acreditou, por meio da positivação de normas humanitárias, na internacionalização dos direitos humanos como caminho para paz e prosperidade das nações e povos. Organismos internacionais, com destaque para a Organização das Nações Unidas (ONU), criada

em 1945108, contribuíram para elaboração e difusão de instrumentos internacionais

importantes para a defesa das minorias, mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência, e para o enfrentamento de todas as formas de marginalização social e opressão. Esses documentos carregam consigo a ética dos direitos humanos, que tem como fundamento a dignidade da pessoa humana, segundo Flávia Piovesan

(2012)109, distanciando-se dos demais instrumentos de direito internacional público

ordinários ou comuns110.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, com forte conteúdo político e ético, significou o ponto alto do humanismo internacionalista, no entanto, esse instrumento, sem força vinculante, foi assimilado pelos Estados como

norma de direito consuetodinário111. O desenvolvimento do capitalismo no mundo e

as suas contradições na vida social levaram a Organização das Nações Unidas a

106

CASELLA, Paulo Borba. ACCIOLY, Hildebrando. NASCIMENTO E SILVA. G. E. Manual de direito internacional público. 18 ed. São Paulo. Editora Saraiva, 2010.

107

Ibidem.

108

ONU. Carta das Nações Unidas de 1945.

109

PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 13 ed. rev. atual. São Paulo. Saraiva, 2012.

110

Via de regra, esses tratados vinculam-se a concepção geral do direito internacional público e a sua finalidade – regular as relações entre os sujeitos de direito internacional público de modo a garantir a consecução de objetivos comuns; já os tratados de direitos humanos são assentam direitos públicos subjetivos, cujos titulares são os indivíduos, que podem exercer contra o próprio Estado, outro ou qualquer

111

ser mais sensível diante da problemática dos direitos humanos, não sendo de outra forma, sucederam-se tratados multilaterais ampliando o nível de proteção jurídica,

sendo eles: o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos112, Pacto Internacional

de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais113, ambos de 1966, além de protocolos

facultativos adicionais. Como se vê a descentralização e a multiplicação de fontes normativas, além das relações cada vez mais estreitas entre direito interno e direito internacional, são características do direito internacional constitucional dos direitos humanos, que entrou numa importante fase – de formação de sistemas regionais de proteção dos direitos humanos.

Valério de Oliveira Mazzuoli (2011)114 explora bem a questão da proteção dos

direitos humanos no plano internacional, de modo especial, a existência harmônica do sistema global (das Nações Unidas) e dos sistemas regionais (interamericano, europeu e africano). Explica o pesquisador que o primeiro sistema tem como base normativa a Carta Internacional dos Direitos Humanos, nada mais que o conjunto de todos os instrumentos internacionais já citados. Enquanto isso, o segundo sistema – de âmbito regional – tem seus próprios instrumentos jurídicos e institucionalidades judiciárias e políticas. Interessa a esse estudo o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos, pois Brasil e Bolívia a eles pertencem, que está calcado na

Carta de Organização dos Estados Americanos (OEA)115, Declaração Americana

dos Direitos e Deveres do Homem116, ambos assinados em Bogotá, em 1948,

Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica,

1969)117 e Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em

matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador,

1988)118.

Brasil e Bolívia subordinam-se aos sistemas (global e regional) de proteção internacional dos direitos humanos, haja vista terem ratificado os instrumentos internacionais e incorporado a norma convencional ao direito interno; desta forma,

112

ONU. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966.

113

ONU. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966.

114

MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Os sistemas regionais de proteção dos direitos humanos: uma análise comparativa dos sistemas interamericano, europeu e africano. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais, 2011.

115

OEA. Carta de Organização dos Estados Americanos de 1948. Alterada por protocolos ulteriores.

116

OEA. Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948.

117

OEA. Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Pacto de San José da Costa Rica de 1969.

118

OEA. Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Protocolo de San Salvador de 1988.

reconhecem a competência de instâncias judiciárias superiores, a exemplo da Corte

Internacional de Justiça119 e da Corte Interamericana de Direitos Humanos120.

Porém, embora sejam correntes as críticas quanto à eficácia interna das decisões das cortes e tribunais internais no direito interno dos países (discussão profícua, mas incabível no momento), é ainda mais grave e preocupante convicção jurídica conservadora no sentido de desconhecer a interdependência dos direitos humanos e ambientais e a aplicabilidade plena e imediata dessas normas. Sem embargo, qualquer tentativa de estabelecer dicotomias entre direitos humanos e direitos ambientais é inidônea, sem motivações históricas ou políticas plausíveis.

É mister um esforço cientifico para resgatar a integridade dos compromissos internacionais em relação a tutela do ser humano e do meio ambiente, destarte, os tratados de direitos humanos não são meros veículos de obrigações entre Estados nem expedientes para imposição de direitos, deveres e finalidades comuns entre partes contratantes, eles expressam a liberdade e a autonomia do ser humano na ordem jurídica internacional e os direitos subjetivos individuais e coletivos contra sujeitos infratores. Assim sendo, os direitos humanos formam categoria moderna de análise da ciência jurídica em razão de suas especificidades – objeto, fins, efeitos e consequências da vigência da norma convencional – e da sua transcendentalidade.