4 POLÍTICAS REGIONAIS NO BRASIL: CONTRIBUIÇÕES PARA O
4.4 IMPASSES E LIMITES DO DESENVOLVIMENTO RECENTE DO NORDESTE:
A RECRIAÇÃO DA SUDENE
Sabe-se que a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) foi uma política de Desenvolvimento Centrado no propósito de minimizar as desigualdades regionais, principalmente em se tratando da região Nordeste,
estimular os investimentos para fortalecer a estrutura econômica, acreditando-se que a via para o crescimento do Nordeste seria o desenvolvimento industrial.
Orientada pelo Grupo de Trabalho e Desenvolvimento do Nordeste, a SUDENE apresentou a presidência da República quatro Planos Diretores, os quais priorizavam investimentos para diferentes setores econômicos da região.
Os Planos I e II priorizavam principalmente os investimentos de incentivos fiscais e de infraestrutura, instaurados com vistas no desenvolvimento da região Nordeste, pois esta, como diz Araújo (2000, p. 144) “era vista como a única saída para combater o atraso do Nordeste”.
O III Plano Diretor da SUDENE diferenciou-se um pouco dos objetivos previstos de seus antecessores por dar maior ênfase aos investimentos para os recursos humanos, agricultura, saúde e educação. Com propósitos diferentes as elaborações dos Planos devido às mudanças dos mecanismos institucionais ficavam mais complicadas, como discute Alves Filho (2009, p. 25):9
Na elaboração do III Plano os mecanismos institucionais começaram a ficar mais complicados porque a SUDENE estava vinculada ao Ministério Extraordinário para a Coordenação dos Organismos Regionais que tinha como titular o General Oswaldo Cordeiro de Farias, que permaneceu no cargo entre 1964 e 1966. As dificuldades referem-se aos aspectos institucionais, tendo em vista que o relacionamento da direção e das equipes técnicas da SUDENE com o Ministro do Planejamento teria de ocorrer necessariamente, através do Ministro da Coordenação dos Organismos Regionais, ao qual a SUDENE estava vinculada.
Um dos primeiros impasses do Planejamento da SUDENE para o Nordeste começou na elaboração do III Plano Diretor, para o qual a equipe técnica da Superintendência teria que manter estreitas relações com o Ministério Extraordinário para a Coordenação dos Organismos Regionais, para planejar as ações e isso não acontecia favoravelmente, promovendo limites nas ações da SUDENE, a qual não tinha autonomia própria precisava pareceres dos Organismos Regionais e do Ministro do Planejamento.
A falta de autonomia da SUDENE construía grandes impasses para a realização de suas ações. Essa falta de autonomia se construiu à medida que a
9FILHO, Leonides Alves da Silva. SUDENE: 50 anos. Uma abordagem política, institucional e administrativa.Recife, 2009.
Superintendência deixou de tratar acordos e planos diretamente com a presidência da república a qual passou a SUDENE a uma subordinação de hierarquias políticas do Estado Brasileiro, as quais precisavam aprovar os planos da Superintendência.
Essa hierarquização criava vários impasses e limites para a elaboração, aprovação e realização dos Planos Diretores da SUDENE, aumentando a tramitação do planejamento e prolongando a tardia das ações que o Nordeste tanto precisava.
Esses limites e impasses começaram a ter consequências nos resultados das ações programadas pela SUDENE, como discute Baer (2002, p.358) que as empresas que se instalaram nas cidades de Salvador e Recife pouco contribuíram para gerar empregos e dessa forma, o processo de industrialização do Nordeste pouco fez para resolver os problemas do subemprego da região.
Sobre os limites e impasses das ações da SUDENE para o desenvolvimento do Nordeste, Araújo (2000, p. 152) discute:
Apesar do dinamismo industrial dos últimos vinte anos, o espaço de industrialização do Nordeste foi insuficiente. Tanto que, quando vista no conjunto do país, a região perde posição como produtora industrial respondendo atualmente por menos de 6% do valor de transformação industrial do Brasil [...] A despeito da expansão industrial do Nordeste, a questão das disparidades inter-regionais continua presente hoje como nos anos 50. Os níveis de vida no Nordeste persistem sendo os mais baixos do país. Sua renda per capita média, por exemplo, continua como em 1960 a ser menos da metade da renda média do Brasil, além de ser a região de mais alto grau de concentração de renda.
No que tange a essa compreensão, percebe-se que a política do dinamismo industrial para o Nordeste teve seus limites e percalços, pois não foram suficientes para regredir as disparidades inter-regionais que até hoje perduram no espaço nordestino, causando fortes concentrações de renda nas mãos de poucos e riquezas acumuladas, enquanto as maiorias ainda sofrem o desemprego, a falta de políticas públicas para Saúde, Educação e Segurança de qualidade, o que demonstra limitações às políticas de desenvolvimento para o Nordeste, como diz Tavares (2011, p. 22) quando discute o desenvolvimento e o poder regional na visão de Celso Furtado:
As avaliações da política de desenvolvimento para o Nordeste, segundo o modelo SUDENE, quase sem exceção pecam por não levar em conta as
duas mudanças ocorridas durante a ditadura militar: a primeira, que restringe tal política a praticamente coordenar a industrialização através dos incentivos fiscais e financeiros; a segunda, reduzindo fortemente os recursos dos incentivos fiscais destinando parte importante deles para outras atividades.
Essa tendência da Política da SUDENE ocorrida durante o período de ditadura militar, a qual restringia os incentivos principalmente para industrialização, ainda percebe-se com forte presença nas políticas mais atuais causando desequilíbrios dentro de uma própria região, a exemplo de estados nordestinos que tem potencial produtivo e industrial, enquanto outros sem essa potência ainda são castigados pela pobreza exacerbada, causada principalmente pela falta de políticas de emprego, deixando altos índices de pessoas sem ocupação e sem renda.
A homogeneidade de tratamento dado às políticas regionais causam estes desajustes socioeconômicos dentro de uma mesma região, pois o planejamento só costuma ver os resultados econômicos e não considera a qualidade e expectativa de vida da população nordestina, construindo um forte impasse para o crescimento econômico da região, considerando que a persistência dos altos índices de pobreza é um limite não da região, mas das políticas regionais brasileiras.
Os impasses e os limites postos aos Planos Diretores da SUDENE efetivaram nos anos 80 numa crise de instabilidade provocada pelo endividamento externo do Brasil, o qual reduziu a capacidade de financiamento do Estado, que segundo Almeida (2004, p. 174), “reduziu a capacidade de financiar os propósitos da SUDENE. O que seguiu foi um período de tentativas frustradas de planos de estabilização e um completo desmantelamento do aparelho estatal e com ele, o de vários órgãos de planejamento regional como a SUDENE e SUDAM”.
Com estes impasses já notáveis na década de 80, o aparelho estatal estava sem capacidade de financiar o processo de industrialização instalado no Nordeste, frustrando órgãos de planejamento regional como a SUDENE e a SUDAM que sem investimentos do Estado viram seus planejamentos regionais entrarem em declínio dos anos 80 até os anos 90, quando o atual Presidente da República Fernando Henrique Cardoso extinguiu os dois órgãos em 2001.
O governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva tentou construir uma política regional de âmbito nacional, mas segundo o que considera Tavares (2011, p.
23) os resultados “foram bastante tímidos do mesmo modo que a visibilidade junto ao público”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional um Projeto de Lei propondo a recriação da SUDENE, em julho de 2003, quando aconteciam movimentos sociais de insatisfação da extinção.
No dia 03 de janeiro de 2007, o presidente da República publicou a Lei Complementar (LCP) nº 125, recriando a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. Segundo Almeida (2008, p. 01) a proposta enviada ao Congresso Nacional sofreu inúmeros vetos, que limitaram a participação da SUDENE no processo de desenvolvimento regional.
A recriação da SUDENE nos anos atuais tem mostrado papel limitado pelos impasses e tramite legal, o que compromete os seus propósitos do desenvolvimento do Nordeste, sobre os vetos da lei diz Alves Filho (2009, p. 48):
O projeto de Lei da SUDENE, aprovado pelo Congresso Nacional para sanção do Presidente da República, não foi aprovado integralmente pelo Presidente, que decidiu vetar 9 itens, deixando a SUDENE recriada frágil, não somente em termos institucionais, mas no que se refere a recursos financiados. Por outro lado, vale ressaltar que embora o Presidente tenha sancionado o Projeto com vetos, em 3 de janeiro de 2007, somente em 12 de fevereiro de 2008, ou seja, após um ano foi nomeado o Superintendente da SUDENE.
Percebe-se que o cenário da recriação da SUDENE não foi muito promissor em seus projetos, pois vários obstáculos de hierarquias do Estado Brasileiro impediram sua autonomia decisória vetando alguns itens do projeto e assim limitando os recursos financeiros e os incentivos fiscais para reaver o Planejamento do Desenvolvimento Regional e da intensificação do processo industrial nordestino.
Revisando-se o cenário de recriação da SUDENE pode-se perceber os vários limites e impasses que são postos pelo Estado Brasileiro na política regional, sendo necessário que estas políticas de planejamento considerem a realidade do Nordeste para além de uma representação econômica a nível Nacional, mas que as políticas articulem desenvolvimento econômico versus qualidade de vida no Nordeste.
As disparidades regionais ainda continuam, produzindo na região Nordeste um cenário de miséria como causa do desemprego enraizado ao longo de várias
décadas e que até nos períodos de crescimento econômico o Nordeste não conseguiu erradicar a pobreza exacerbada de sua história de região brasileira.
5. CONCLUSÃO
Ao longo das discussões postas neste trabalho percebe-se que o desenvolvimento da economia brasileira passou por vários limites e impasses, principalmente no que tange a especificidade da questão regional, que ao longo da história do Brasil foi vista como planos emergenciais e assistencialistas, sendo necessário rever as regiões como espaços dentro de um conjunto nacional.
Nos anos 1950, a região Nordeste foi palco de uma crise arrastada pelo declínio do ciclo açucareiro. Crise esta que fez surgir uma série de movimentos sociais na região, os quais incentivaram o Estado Brasileiro a intervir mediante a criação de uma política de incentivo à industrialização e desenvolvimento para o Nordeste. A industrialização passou a ser vista como o único meio para combater às disparidades regionais que assolavam o Nordeste.
Em 1959, o governo Juscelino Kubitschek criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a SUDENE, a qual tinha um planejamento regional voltado a incentivar recursos para intensificar o processo de industrialização, sendo necessário rever a infraestrutura econômica e o potencial de energia e transporte da região. Questões vistas como necessárias para que o Nordeste desenvolvesse seu potencial industrial e elevasse sua economia.
A SUDENE nos primeiros anos começou a ampliar a infraestrutura, a criação de estradas e a integração da economia do Nordeste passaram a reagir a níveis nacionais no Produto Interno Bruto a partir da década de 70, atingindo seu ápice nos anos1990.
Diante das abordagens teóricas, expostas neste trabalho, considera-se que a criação da SUDENE foi a política de Desenvolvimento Regional que realmente tinha em seu planejamento as medidas políticas que percebiam as necessidades da região Nordeste de forma global, não apenas do ponto de vista industrial, econômico ou assistencialista.
A Superintendência via o Nordeste como um espaço de grandes oportunidades de crescimento econômico, mas também percebia que as desigualdades regionais eram reflexos da falta de políticas voltadas à questão Nordeste, que vise à região a partir de seu potencial produtivo e industrial, para tanto Celso Furtado no diagnóstico do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do
Nordeste (GTDN) percebeu como principal premissa para o crescimento econômico do Nordeste o investimento do Estado Brasileiro para montar as indústrias nordestinas.
Celso Furtado como economista defendia uma política regional em escala nacional, inovando a atuação dos investimentos públicos direcionados ao Nordeste e que o discurso da “seca” deveria sair das discussões regionais, pois as causas da seca eram provenientes de políticas descentralizadoras, as quais enviavam o maior valor de recursos para o Centro-Sul.
Para Furtado, o Nordeste precisava melhorar sua estrutura econômica e para isso era necessário ampliar o processo produtivo, creditando recursos para o potencial energético e de transportes, ou seja, os produtos e as indústrias nordestinas precisam entrar no circuito globalizado do mercado capitalista que se implantou no Brasil.
Essa e outras ideias projetadas pelo Grupo de Trabalho e Desenvolvimento do Nordeste e pela criação da SUDENE transformaram a realidade econômica da região Nordeste, elevando o índice do PIB nordestino à média de Brasil, foram construídos sistemas hidrelétricos ao longo do São Francisco, a ampliação da malha rodoviária nordestina, a produção de energia elétrica, além da instalação de vários complexos industriais na região, como o de Camaçari, na Bahia, além de indústrias químicas e de mineração em Alagoas e no Maranhão, dentre outros empreendimentos que modificaram a estrutura produtiva e elevaram as taxas de crescimento do produto regional.
O Presidente Fernando Henrique Cardoso destituiu a SUDENE em 2001, retirando do Nordeste o direito de ter uma política regional centrada nos interesses regionais.
Em janeiro de 2007, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recriou a SUDENE e a SUDAM, estudos e pesquisas da economia do Brasil que registram este fato argumentam que nesta recriação da SUDENE o planejamento regional não tinha a mesma força que formulou os anos 50, 60, 70, pois a Superintendência ficou submetida às decisões do Ministério do Planejamento, retirando autonomia decisória, a regressão dos incentivos fiscais para industrialização e o veto de 9 (nove) itens do projeto de Lei da SUDENE, foram alguns dos vários desafios que a Superintendência passou a enfrentar para reaver o progresso ora iniciado no Nordeste.
Ao realizar as intervenções na economia nordestina, a SUDENE contribuiu para a aceleração do processo de desenvolvimento industrial na região, e com uma participação na composição da riqueza nacional, mas não conseguiu devido ser um órgão dependente da intervenção política a qual influenciou mudanças nos propósitos iniciais da Superintendência.
Mediante as discussões postas e reflexões realizadas acerca da economia brasileira, da questão das políticas regionais e da intervenção do Estado Brasileiro, considera-se que os limites e impasses postos a questão regional e especificamente ao Nordeste, muitas mudanças ocorreram desde os anos 1950 até dias recentes, mas o Nordeste atual ainda clama por uma política regional que minimize as disparidades econômicas e sociais que os nordestinos sofrem com o desemprego exacerbado e a falta de incentivos públicos para gerar vínculos empregatícios para a região.
Portanto faz-se necessário considerar que estas discussões teóricas foram de forte relevância para compreendermos a dinâmica do desenvolvimento econômico e regional e no que tange a questão do Nordeste, conhecermos as políticas regionais que deram pano de fundo para discutirmos a economia do Nordeste nos dias recentes.
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