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4 BATATUBA

4.3 Implantação de Batatuba: Projeto e execução

Esta pesquisa demonstrou que, no plano de Batatuba, aplicou-se a experiência urbanística adquirida pela empresa nas duas décadas anteriores, período dedicado à construção de complexos industriais pautados por um circuito econômico fechado. No entanto, esses conjuntos foram conectados por uma rede que se estendia por países de continentes como Europa, África, Ásia e América do Norte e do Sul (SANZ, 2011).

Baseado nos documentos encontrados durante a pesquisa e em análise realizada por Costa (2011; 2012), o plano de implantação de Batatuba resultou da tipologia urbanística para uma Cidade Ideal industrial Bata estabelecida em 1937, elaborado pelo centro de pesquisa de Zlìn, como visto no capítulo anterior.

A estrutura da vila de Batatuba assemelhava-se a outros empreendimentos dessa natureza implantados no Brasil, muitos influenciados pelas ideias urbanísticas europeias. No entanto, Batatuba apresentou-se como exceção quando comparada à descrição de Bonduki et al. sobre as vilas industriais brasileiras que

procuravam moldar o trabalhador, em geral imigrante recém-chegado ao país, segundo a ideologia dominante (BONDUKI, p.20, v.1, 2013). Mesmo que ambas as ideias tenham se

estabelecido sob a ótica produtiva por meio do

(...) controle patronal. A vida cotidiana obedecia ao ritimo imposto pela sirene da fábrica e a vila funcionava como um verdadeiro laboratório de uma sociedade diciplinada, combinando um saber higienista com um poder que ao mesmo tempo proíbe, pune, reprime e educa. (BONDUKI, N.; KOURY, A. P.; ARAVECCHIA, N., p. 21, v. 1, 2013)

Diante da atenção do Estado brasileiro, que se voltava aos investimentos em infraestrutura para fomento da industrialização no país, a produção habitacional ficou sob responsabilidade dos IAPs, que, regulamentados pelo Estado, implantaram as poucas obras realizadas. Além da baixa quantidade de moradia produzida, havia também o atendimento seletivo, que não abrangia a demanda real para habitação, linhas de financiamento que alcançavam a população acima do nível médio econômico, composta por técnicos.

O IAPI foi o órgão mais atuante na construção de habitação para seus associados e também atendia prioritariamente os profissionais de nível médio. Ressaltando que a aquisição do imóvel era fruto de um financiamento realizado com recursos dos fundos de pensões, tornando-se uma forma de investimento para muitos institutos e dificultando o acesso da maioria da população composta pelos funcionários de baixo salário (BONDUKI, N.; KOURY, A. P.; ARAVECCHIA, N., 2013).

Um bom exemplo de conjunto habitacional produzido na época pelo IAPI é o Conjunto Residencial de Passo da Areia, em Porto Alegre, RS. A opção pelo exemplo é devida ao período da construção, em 1941, assim como a semelhança do programa estabelecido com o planejado para cidade de Batatuba e a influência da cidade-jardim na sua concepção. O conjunto foi conectado à cidade por vias largas e estava inserido no plano de expansão industrial no Plano Diretor Municipal. A indústria e o comércio estavam fora do conjunto, conforme projeto analisado (BONDUKI, N.; KOURY, A. P.; ARAVECCHIA, N., p. 30, v.2, 2013).

Os complexos industriais auxiliaram o Brasil das primeiras décadas do século XX a associar a habitação a um sentido mais amplo que não apenas o conjunto de casas, e sim, à ideia de transformação da sociedade, incorporando ao local das moradias equipamentos coletivos e serviços sociais (BONDUKI,p.21,v.1, 2013).

A organização por setores dispostos linearmente ao longo do eixo de transporte, conforme diretrizes teóricas de Garnier ou a organicidade esquemática proposta por Howard e a caracterização do ambiente pela baixa densidade de ocupação do conjunto de Batatuba estavam demonstrados no projeto de implantação (ver imagem 97), assim como as adequações urbanísticas necessárias segundo as características físicas do local.

No projeto de Batatuba, um eixo viário mantinha a função de separar a área industrial do conjunto de moradias e de edifícios coletivos. Outro eixo, perpendicular ao anterior, cruzava pelo centro o local das moradias por cerca de setecentos metros25. Por uma média de duzentos e cinquenta metros de largura, formava um imenso parque linear. Esse tinha início na Praça do Trabalhador, localizada no vértice dos referidos eixos, local rodeado por prédios de escritórios, conectando-se a outra extremidade, onde estava previsto o hospital. Próximo a esse ponto mais elevado do parque, estava projetada a igreja, e, ao longo do parque, distribuíram-se o maior número de equipamentos coletivos. Esse segundo eixo, inserido na zona residencial, mantinha função similar à grande alameda da cidade-jardim. Tratava-se de um ambiente que agregava valor à paisagem pitoresca e que auxiliava na promoção de bem-estar da população.

O plano de Batatuba era definido por linhas sinuosas formadas a partir do arruamento, o que acompanhava o perfil do terreno e ligava-se ao extenso maciço verde composto pelo parque, que se expandia numa forma orgânica no centro da zona residencial, como braços que invadiam essa zona, ao que Costa (2012) chamou de asas

da mariposa.

25 Por meio de programas de computador de edição de imagens e de desenho técnico, foi possível estimar

Imagem 96: Plano de Batatuba. 1947

Fonte: TVCZ, 2015. Legenda, Costa, 2012 01 Centro Industrial 02 Edifício Administrativo 03 Instituto Social 04 Estação ferroviária 05 Estacionamento 06 Artesãos 07 Kalverstraat 08 Parque 09 Escritórios 10 Praça do Trabalho 11 Quadras Esportivas 12 Loja de Detapartamentos 13 Centro Social 14 Garagem Central 15 Igreja 16 Hospital 17 Escolas 18 Hotéis para Moças/Rapazes 19 Pensionato para Moças/Rapazes 20 Internatos ou Escolas Técnicas 21 Boxes comerciais 22 Habitações Unifamiliares 23 Garagens das Habitações 24 Horta Experimental 25 Resid. Bata 26 Lago artificial- esportes aquáticos 27 Resid. Klátil e Smid

28 Habitações 29 Mercado/Refeitório/ Açougue 30 Fábricas 31 Clube/Cinema 32 Escola Mista 33 Escola Estadual Siqueira Campos 34 Pensionato para Rapazes 35 Habilitações

Os espaços verdes que permeavam o projeto da cidade de Batatuba, em relação às outras cidades Bata, refletiu a baixa densidade de ocupação, evidenciando a aproximação do campo com o espaço urbano, que caracterizavam as cidades-jardim. Nesse sentido, a área residencial era destacada pelo grande parque transversal, arruamento arborizado e os quintais comuns ajardinados das unidades de moradias, inseridos numa quadra sem divisão dos lotes com cercas. Mesmo que essa última característica tenha se assemelhado ao modelo proposto por Garnier, como já mencionado, a Companhia Bata insistiu na atribuição do termo cidade-jardim, em referência a Batatuba.

Imagem97 Vista aérea de Batatuba, 2009

Fonte: Google Earth, 2009

O zoneamento proposto para Batatuba seguiu a estrutura que Topolcanska (2005b) descreveu como a disposição espacial baseada na divisão de funções individuais e relativamente autônomas, determinadas pelos pontos cardeais e pela incidência dos ventos. Com análise do projeto, o norte estava situado perpendicular ao rio, e a distribuição das casas deu-se ao longo do arruamento semicircular que acompanhava o perfil do terreno. Essa forma atribuiu salubridade ao conjunto, além da ruptura com a monotonia de implantação das moradias seriadas. As casas estavam voltadas em sua maioria para o norte, com pequenas variações, em virtude da implantação em curva, alternando um pouco as áreas de insolação e de ventilação de cada unidade, sem prejuízo às questões higienistas.

Inseridas nas quadras delimitadas pelo arruamento de uso local, as casas intercalavam-se em duas fileiras, todas voltadas para o mesmo sentido, e estendiam-se ao longo das ruas sinuosas. A ausência de muros entre as casas e os cut-sac formados no interior das quadras, exclusivos para pedestres, permitiam a circulação em qualquer sentido pelas quadras habitacionais, diminuindo as distâncias, além de contribuir com o controle patronal; ainda segundo Choay (2015), a ausência de muros eliminava o custo excessivo com movimentações e contenções de terra.

Os serviços no terreno limitaram-se aos essenciais de drenagem e de nivelamento apenas no local das edificações da vila, evitando a monotonia visual com a implantação dos edifícios em terreno natural. Também o projeto de implantação de Batatuba assemelhou-se ao modelo de cidade industrial linear de Garnier na localização das casas operárias nas colinas, o que proporcionaria movimento ao conjunto homogêneo, minimizando os efeitos negativos da monotonia (CHOAY, 2015). Esse percentual edificado manteve o princípio básico do habitar com garantia do bem-estar social propagado pela Indústria.

Contrapondo a organicidade da área habitacional, a zona industrial caracterizou-se pela racionalidade da forma e dos edifícios cartesianamente dispostos inseridos ao longo do sistema viário. Esse setor estava situado entre a rodovia; de um lado, havia o elemento divisório com as residências, e, do outro lado da faixa formada pelos galpões da indústria, estavam a ferrovia e o rio Cachoeira. Um amplo complexo esportivo foi previsto entre os galpões industriais e os conjuntos de moradias, facilitando o acesso e estimulando os moradores à prática esportiva.

As moradias operárias foram organizadas em dois blocos, separados pelo eixo verde central, caracterizadas por unidades habitacionais isoladas no lote e intercaladas entre si, o que favorecia tanto as questões higienistas, com ampla insolação e ventilação, quanto a preservação da individualidade dos moradores. A teoria de Jan Antonin Bata, de trabalhar coletivamente e viver individualmente, anteriormente mencionado, era um mote muito similar ao conceito urbanístico moderno de que "a cidade deve assegurar. a liberdade individual e o benefício da ação coletiva" (CARTA DE ATENAS, 1933).

Inaugurada em 25 de janeiro de 1942 (BATA, 1943)26, Batatuba iniciou como uma

pequena vila operária que representou apenas um pequeno percentual construído do que fora previsto em projeto urbanístico. Os edifícios que estão demarcados em negrito no plano de Batatuba e que foram efetivamente construídos (ver imagem 96) mantinham autonomia mínima no desempenho da vida urbana, na vila. Segundo Costa (2012), o projeto urbanístico de Batatuba encontrado possui data posterior à construção da vila, fato que remete à possibilidade de que a construção tenha sido realizada anteriormente ao plano.

Imagem 98: Vista da vila de Batatuba. De baixo para cima, o Rio Cachoeira, a fábrica e as casas dos operários ao fundo. s.d.

Fonte: Batatuba e seus lugares de Memória. Disponível em: www.facebook.com.

Imagem 99: Vista da vila de Batatuba. 2009

Essa identificação no plano urbanístico de Batatuba apresentado também remeteu à dúvida se as edificações demarcadas referiam-se aos prédios já executados e posteriormente planejada sua ampliação, como a representada, ou se a referida data do projeto retratou apenas o ano em que foi reproduzido o desenho do plano elaborado anteriormente.

As obras para a edificação de vila de Batatuba foram iniciadas pela área industrial em 1940, conforme padrão da Companhia (COSTA, 2012), seguidas pela construção de quase uma centena de moradias operárias e do alojamento para solteiros. Esses fatos comprovaram-se com a análise de documentos e de registros fotográficos existentes na antiga fábrica em Batatuba.

Numa colina a leste das casas operárias, numa vasta área, foram construídas as casas da família Bata (ver imagem 99). A de Jan Antonin Bata era um sobrado imponente e sóbrio, aparência composta por seus traços modernos, construída no ponto mais alto em relação às demais casas da família, e também em relação às casas dos diretores da companhia, todos antigos funcionários da Bata vindos da Europa com a família (ARCHANJO, 1951).

Os equipamentos de uso coletivo ou de infraestrutura, como escola profissionalizante, escola primária, quadra poliesportiva, campo de futebol, boliche, quadra de tênis, cinema clube recreativo, as praças e uma pista de pouso para pequenas aeronaves foram construídos logo em seguida.

Os estabelecimentos comerciais instalaram-se em edificações existentes na antiga propriedade rural, conforme fotos e referências nas plantas do terreno anterior à execução da vila industrial. A terra ao redor da vila foi destinada à agricultura, para suprir a demanda local, com uma pequena cultura de produtos para subsistência27 local e disponibilização de terras para plantio de eucalipto.

27 Segundo moradores, as terras ao redor da vila foram arrendadas às famílias da vila para a produção

agrícola de subsistência. A produção era constituída basicamente por feijão, milho, café e batata. Nessas áreas também era mantido o gado produtor de leite; os produtos eram destinados ao consumo da população local. Toda essa logística era administrada pela Sra. Marie Bata, esposa do industrial Jan Antonin Bata.

Imagem 100: Reportagem sobre a construção da vila operária de Batatuba. 1941

Fonte: Jornal O Dia, 11/04/1941

Diante da ausência de produção pública para a construção de habitação para a população operária no período, o modelo aplicado em Batatuba foi reconhecido pelo Governo Federal como uma boa prática de construção de moradias para seus funcionários. Valorizando o investimento do capital privado que, conforme relatado na matéria sobre a visita do diretor da Caixa Econômica Federal à vila, serviria de inspiração para o Governo Federal (Jornal O Dia, 11/04/1941; ver Imagem 100).

O artigo "Uma luz nas trevas", de Augusto Nadalutti, publicado no Diário

do Povo, de Campinas, em 22 de janeiro de 1942, enalteceu a iniciativa e o discurso

nacionalista de Jan Antonin Bata na inauguração de Batatuba. Todo este aparato urbanístico, com aparência das cidades-jardim, foi voltado à construção de uma sociedade industrial e buscava garantir o crescimento cultural e técnico do trabalhador, por meio de equipamentos e de estrutura promovidas pelas ideais socialistas que foram adaptadas aos planos capitalistas ou cidade-jardim .

Esse modelo de implantação deixou nítida a hierarquização na disposição das moradias, principalmente distanciando a área operária das casas dos diretores e da

família Bata; a localização desta última, aliás, possibilitava a visualização de todo o conjunto urbanístico.

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